ORDINARY PEOPLE

CAPÍTULO 01 – HOJE NÃO É MEU DIA...

Quinze pras sete da manhã, um rádio relógio toca seu alarme estridente, levando um tapa. Dez minutos depois, o som se repete, a pessoa na cama joga o aparelho no chão e cobre a cabeça, disposta a ignorar o assunto. Mas a porta do quarto se abre e um senhor coloca a cabeça pra dentro.

-Vincent? Vincent! Vamos, vamos, vai chegar atrasado no seu primeiro dia de aula...

-Não quero ir... – veio o resmungo por baixo das cobertas.

-Oh, vamos... Não vai ser tão ruim assim... Veja pelo lado bom, escola nova, amigos novos... Você pode começar do zero...

A coberta foi dobrada, revelando um jovem de 15 anos, de longos cabelos pretos, testa franzida:

-Como começar do zero pode ser bom, pai?

-Se você se levantar e tentar, vai descobrir... – sorriu Hojo Wonder.

Vincent suspirou, tentou deitar de novo, mas seu pai estava segurando as cobertas. Bufando pela derrota, se levantou a contragosto e foi para o banheiro no corredor. Seu irmão Adam já estava descendo a escada, mas ainda virou o rosto para aborrecer o caçula:

-HEH, morcego! Já vou tomar café, vê se não se atrasa muito.

-Vincent já se levantou? – veio a voz da mãe lá embaixo.

-Já, mãe!

-Então pede pra ele por uma roupa de qualquer cor, que não seja preto!

-E ele tem qualquer outra cor no guarda-roupa? – Adam Sephiroth acabou de descer as escadas, rindo.

Dez minutos mais tarde, Vincent descia as escadas, arrastando a mochila, de calça, coturno e jaqueta, tudo preto. Lucrezia Wonder rolou os olhos.

-Veja pelo lado bom, mãe. – Sephiroth estava inspirado, logo de manhã – Pelo menos ele colocou a camisa do uniforme, que é branca. Ta pronto, vampiro? Então vamos!

-Adam, cuidado com essa moto! Lembre-se que você está levando seu irmão atrás! Vincent, vou te pegar na hora da saída pra almoçarmos juntos.

-Tá, mãe...

-Eu também?

-Não, Seph querido. Hoje à tarde vamos conhecer o novo psicólogo do seu irmão.

Adam franziu o nariz. Pra ele, seu irmão não tinha nada, além da insegurança normal de todo adolescente. E daí que o cara era meio depressivo e só se vestia de preto? Cada um com sua tribo. Se deixassem o garoto em paz, uma hora ele ia descobrir outra praia. Ou não... Sacudiu a cabeça e enfiou o capacete no peito do caçula. Cada um com seus problemas.

-Segura firme, morcego.

Em outra casa, a situação poderia ser definida como... CAOS TOTAL! Um rapaz moreno segurava pelos braços um rapaz loiro que queria bater num garoto ruivo que por sua vez era segurado por outro loiro. Até que um senhor alto e moreno entrou no quarto e deu um berro de abalar alicerces:

-QUEREM PARAR COM ISSO, LOGO PELA MANHÃ?

-A culpa é do Reno, pai.

-A culpa é sempre minha... – resmungou o caçula ruivo.

-Claro que é... –o loiro apontou pra ele. – Quem foi que acabou com todo meu gel de cabelo? Você deve ter passado até no Peace, pelo visto...

O outro loiro e o moreno viraram a cara pra rir. O pai, Tseng Turk, sorriu. A referida mãe entrou no quarto, vestida com uma bata longa, cor de areia, os longos cabelos pretos presos com uma tiara dourada e carregava um maltês, cujos pelos da cabeça toda estavam arrumados.

-Ai-ai-ai. Essa energia negativa acumulando logo de manhã. Eu nunca acertei tanto num nome quanto no seu, Samuel Cloud. As nuvens parecem estar sempre carregadas pro seu lado... Precisa relaxar mais, querido...

-Mãe? A senhora passou gel na cabeça do Peace?

-Não ficou lindinho, sem os pelos caindo no olho? Foi seu irmão Reno quem arrumou...

Zachary, o moreno, e Sidney, o outro loiro, se abraçaram pra rir. Tanto pela situação quanto pela cara que Cloud estava fazendo. Reno achou melhor ficar por detrás do pai, por via das dúvidas.

-EU VOU MATAR VOCÊ, FIRE!

-Shh, shh... Quanta violência, logo de manhã, Sammy... Venha com a mamãe, um chá de camomila vai ter fazer bem...

-Mas mãe... Como eu vou pra escola sem gel?

-Um dia sem aquele cabelo espetado não vai matar, Sam. E eu tenho saudades do seu cabelo normal... Vê o cabelo do Cid?

-Vamos, vamos, tomar café, vamos... – Tseng foi arrebanhando seus filhos pra cozinha.

Sua família podia parecer de doidos, mas ele havia escolhido a neo hippie Tifa justamente por saber que os dias ao seu lado nunca seriam monótonos. A começar pela escolha do nome dos seus filhos... Quando os gêmeos nasceram e ela apontou um loiro como Wind e o outro como Cloud, Tseng perguntou:

-Porque Cloud e não Water, já que temos o Earth?

-Porque Sidney será o vento que sempre apoiará, levantará e guiará Samuel, a nuvem...

Tseng achou tão profético e impressionante aquilo, que ficou quieto. E como ela sempre acertava nos nomes, o hiperativo Reno botava fogo em todos os ambientes que entrava.

No estacionamento da escola, Sephiroth prendia os capacetes juntos, enquanto Vincent ajeitava os óculos. Adam fez outra careta, seu irmão nem tinha tanto grau assim, porque não usava lentes? Mania imbecil de dar motivos aos outros pra acharem que ele era um perdedor. Rosnou. Vincent se assustou, mas Adam disfarçou:

-Vamos, morcego, passar pela diretoria e nos apresentarmos. Não deixa ninguém da sua classe pisar em você. E pelo amor de Deus, não fica enfiado na biblioteca o dia inteiro, este ano. Nem que for pra entrar no clube de xadrez ou de informática, socializa!

O garoto só fungou. Adam foi resmungando para o prédio, algo como "caso perdido"... Ao alcançarem a porta da frente, viram uma limusine chegando e dela descendo uma bela garota de feições delicadas e um garoto da idade de Vincent. Quando o garoto viu os dois irmãos nas escadas, deu um grito e correu para alcançá-los:

-HEY! Hey, vocês! Você não é Adam Wonder, o melhor jogador de vôlei, basquete, beisebol e futebol de toda a Liga Juvenil?

"Pronto!" pensou Vinnie com desgosto "Vai começar... e nós nem entramos na escola ainda."

-Sim, sou eu mesmo. – Sephiroth abriu um sorriso – Como dizem por aí, I'm a Wonder! (1) – puxou o garoto que já ia entrando emburrado. – E este é meu irmão, Vincent.

-Legal. – o garoto se virou para o outro, com interesse. – E ele é bom no que?

Antes que Vincent começasse com a auto-depreciação, Adam se adiantou:

-Ele é excelente em desenho. Principalmente a nanquim... ele faz histórias em quadrinhos...

-Putz! Que massa! A gente precisa ser amigos, Vinnie. Eu sou fissurado em HQs. Olha só, eu to aqui, falando, falando e nem me apresentei. Eu sou Rufus Shin-ra. Aquela lerda que vai chegar daqui a cem anos é minha irmã Aeris.

Ao ver todo mundo se virar pra ela, Aeris acenou.

-Shin-ra? Tem uma empresa de materiais esportivos com esse nome...

Rufus abriu um sorriso orgulhoso.

-Sim, é nossa empresa. Meu irmão é um dos nossos garotos propagandas, mas se meu pai souber que você está na cidade, bem capaz de convidá-lo para uma campanha...

Vincent estava enjoado daquilo. Desprendeu-se de Adam e foi abrindo a porta da escola.

-Vamos nos atrasar, Adam...

-Sim... A gente se fala outra hora, Rufus. Foi um prazer. – e entraram.

-A irmã dele é bem bonita... – comentou Sephiroth, enquanto caminhavam pelos corredores. Franziu a testa ao não receber resposta. Odiava quando Vincent fazia aquilo – Hey! Não vai começar, ne? Você já fez um amigo lá fora.

-VOCÊ encontrou um fã, só isso. O cara não vai em casa pra ver meus desenhos, pode crer. Se ele aparecer, vai ser pra tentar te ver. Ou pedir um autógrafo aos nossos pais... Sempre foi e sempre vai ser assim...

Sephiroth suspirou. Pronto, começou. Porque diabos eles não podiam ser apenas uma família como todas as outras? Às vezes, ele queria ser um merda, pra ver se seu irmão continuava com a mesma ladainha... Sephiroth não tinha culpa de ser bem sucedido. Ou mesmo seus pais... Hojo era um médico famoso e Lucrezia uma cientista renomada, ambos com um Nobel cada um no currículo. Vincent era do mesmo estofo que ele. Só precisava ir lá e fazer seu caminho... Não ficar à margem, reclamando...

A vice-diretora lhes deu as boas vindas e explicou as regras da escola. Depois olhando para o garoto pálido que roia as cutículas, perguntou ao irmão:

-Será bom pedir para um garoto da escola andar um pouco com o Vincent durante algumas semanas pra ele se enturmar?

-Não será necessário, obrigado.

Mas Sephiroth tomou a frente.

-Eu agradeceria muitíssimo, senhora.

-Samuel Turk, venha até a sala da diretoria, por favor? – a vice-diretora chamou um garoto pelo alto falante.

-Eu não fiz nada, senhora Marlene. Por que mandou me chamar?

-Ainda não deu tempo, Sam Cloud. Mas desta vez, é por uma boa causa. Estes são Adam Sephiroth Wonder e seu irmão, Vincent Valentine. Eles foram transferidos... e eu gostaria que você andasse uns dias com o Vincent, até ele se acomodar. Sabe, apresentá-lo aos colegas, mostrar as atividades do colégio, apresentá-lo aos lideres dos clubes...

-Sim, senhora. – mas os olhos não demonstravam tanto entusiasmo quanto a voz. – Venha, Vinnie, vou te mostrar sua classe...

O garoto foi pra fora arrastando os pés. No corredor, ele puxou o braço do loiro, fazendo-o encará-lo.

-Ok, vamos deixar as coisas bem claras. Primeiro, não me chame de Vinnie. Detesto apelidos, demonstram intimidade, algo que não pretendo dar a ninguém. Segundo, eu não preciso de babá muito menos dessa merda de "socialização". Não precisa se dar ao trabalho. Eu gosto de ficar sozinho, eu me viro muito bem sozinho, pode voltar para sua classe.

-Sabe achar sua classe sozinho?

-Estive com minha mãe aqui nas férias. Se não mudou, sei sim.

-Ainda é lá. A gente se esbarra por aí, então. "E minha mãe me acha estressado..."

Vincent ajeitou a mochila, respirou fundo, abriu a porta e pediu licença à professora. Ela estava fazendo a chamada, já na letra "T". Ele se identificou, ela pôs presença pra ele, Reno Fire abanou a mão, indicando uma carteira vazia lá no fundo. Vincent jogou a mochila no chão e se afundou na cadeira. E assim ficou durante toda a manhã.

N/A: Sim, vai ser assim o tempo todo... Piadas internas ruleiam! (1) "I'm a Wonder" pode ser traduzido como "Eu sou um Wonder" o sobrenome da família como "Eu sou uma maravilha!" só quem é modesto pode dizer isso... Caiu bem no Sephiroth, né? 20/06/06.