ORDINARY PEOPLE
CAPÍTULO 02 – SOCIALIZANDO...
Na hora da saída, Vincent colocou a mochila nas costas e foi saindo, sem olhar pros lados. Os cochichos e as risadinhas o seguiram, ele achava que eram inevitáveis, faziam parte da sua trilha sonora. Ignorou a todos, até sair e se sentar num banco, esperando por sua mãe.
Mas ninguém ignora um Turk, ainda mais se ele for fogo. Reno Fire se empoleirou nas costas do banco.
-Hey! Hey, cara... Você nem disfarçou a aula toda, não copiou nada...
Vincent olhou pra ele de rabo de olho, depois continuou virado pra frente.
-Qual o seu problema, Vinnie? Você foi expulso da outra escola? É mau aluno? Usa drogas?
O outro garoto pensou nos anti depressivos que tomava e não pode evitar uma risadinha.
-Orra, maneiro, cara. Eu nunca conheci um viciado antes... E aí? O barato é louco mesmo? Faz tempo que você usa? Seus pais sabem?
Vincent abriu a boca pra responder com alguma grosseria, mas sua mãe parou o carro bem na hora.
-Demorei, querido? Vamos, senão vamos ter que almoçar correndo. – olhou para o ruivo parado. – Amigo seu? – Nem esperou resposta. – Hey, ruivo! Você mesmo, quer carona?
-Não, senhora, obrigado. Eu tenho que esperar meus irmãos.
-Vamos, mãe!
Lucrezia nem se importou. Abriu a porta do carro e perguntou ao garoto:
-Eles estudam aqui também?
-Sim, senhora. Olha lá, eles vêm vindo ali...
A cientista olhou, Vincent levantou os olhos. Arregalou-os. Não podia ser verdade! Aquele loiro de hoje cedo não podia ser irmão desse chato ai fora. A mãe acompanhou seu raciocínio.
-Nossa, vocês são bem diferentes...
-Na verdade, só o Zachs, o mais velho que é... Ele é moreno, como meu pai. Eu sou loiro, feito aqueles dois. Mas eu tinjo o cabelo de ruivo, pra diferenciar.
Lucrezia riu.
-Verdade. Antigamente diziam que minha mãe tinha tido trigêmeos, mas eu tinha ficado dentro dela, porque era muito preguiçoso... Então, aos 11 anos eu comecei a tingir o cabelo.
-Não é perigoso fazer isso? Quero dizer, toxicidade e tudo mais?
-Ah, eu fiz o teste, não deu alergia, mandei ver... No começo meus pais estrilaram, minha mãe que é natureba muito mais, mas depois ela mesma reconheceu que as pessoas tem direito a identidade própria... Ainda mais porque eu escolhi essa cor, de acordo com meu nome...
-E como você se chama?
-Reno Fire Turk. Muito prazer. – Os outros rapazes chegaram perto, sem estranhar muito. Seu irmão caçula fazia amizade fácil com estranhos.
-Eu sou Lucrezia Wonder. O prazer é meu, Reno Fire. – riu ela.
-Estes são meus irmãos, Zachary Earth, Samuel Cloud e Sidney Wind.
-Earth, Wind and Fire...(2) – Lucrezia se apaixonou pelos Turks. Ela precisava conhecer aquela família. E inserir seu filho estressado dentro dela. – E porque Cloud e não Water?
-Mãe! Vamos nos atrasar!
-Oh, sim, querido... Pois é, pra que lado vocês vão? Eu posso dar uma carona até um trecho...
-Oh, não se preocupe, não, dona. A gente mora bem perto e do lado contrário. Fica para uma próxima, quando a senhora não tiver compromisso, que tal? – Zachs sorriu.
Lucrezia franziu a testa para seu filho no carro, mas retribuiu o sorriso do moreno.
-Combinado, então. E da próxima vez, vocês vão me explicar porque Cloud e não Water. Tchau.
-Tchau! – responderam as quatro vozes.
-Nossa, que carrão...
-E que garoto mala sem alça. – resmungou Sam. – Se fosse menina, eu diria que tava de TPM.
-Tá na minha classe. Acredita que ele passou o dia todo sentado, sem escrever uma palavra?
-Você tem um irmão que faz isso direto... – riu Cid.
-Não, acho que o Cloud disfarça, pelo menos... Esse daí não, nem abriu a mochila. E os professores o ignoraram. Ninguém falou um "A" pra ele.
-Ele pode.
-Como assim, ele pode, Zachs?
-Se vocês lessem jornais pelo menos uma vez por ano ou entrassem na Internet pra outra coisa que não sejam jogos ou pornografia, iam saber quem ele é. Ou quem era essa senhora simpática que queria nos dar carona. Ela é Lucrezia Wonder, Nobel de Química há uns dois anos. O marido dela também já ganhou um Nobel em Medicina. O irmão dele, dizem as fofocas, é um fodão nos esportes porque é um experimento genético dos pais...
-Então nosso container com cara de vampiro é um gênio?
-Ou um bundão. Toda família tem uma ovelha negra. – filosofou Reno.
-Ou ruiva. Depende muito da família. – Cloud matou em cima, fazendo Reno emburrar e os outros racharem o bico.
Vincent ficou calado o tempo todo no psicólogo. Odiava tudo que se referia à medicina. Queria ir pra casa, pro seu quarto, sentar em sua mesa, desenhar. Era a melhor hora do dia... No meio das penas, nanquim, pincéis e tintas ele era ele mesmo, sem cobranças, à sombra de ninguém. No final do dia, antes de dormir, ele faria os exercícios sem graça que os professores tinham passado. O que Reno não sabia era que Vincent realmente podia ficar sem copiar matéria. Sua memória fabulosa guardava tudo que eles tinham dito. E se alguma coisa ficava sem compreensão, ele ia até a biblioteca e lia sobre o assunto. Ele também era auto didata. Se ele tivesse um amigo, esse amigo diria que ele era um gênio.
Rufus mal podia esperar chegar a noite para encontrar seu pai e lhe contar que conhecera Adam Sephiroth. Mas muito mais que isso, queria saber o telefone dos Wonders e ir à casa deles ver os desenhos de Vincent. O cara era um autêntico gótico, meu Deus! Seus desenhos deviam ser demais.
Elena riu da hiperatividade do seu caçula. Aeris lhe explicou o porquê.
-E que tal eles lhe pareceram, esses irmãos Wonder?
-O mais velho pareceu meio metido. O caçula se vestia todo de preto, um horror! Mas quando ele me olhou, foi o olhar mais triste que eu já tinha visto na minha vida. Se Rufus conseguir ser amigo dele, acho que vai ser bom pros dois...
-Pros dois?
-Sim. Rufus é meio egocêntrico, a senhora sabe. E só pensa em dinheiro. Se ele quiser ser amigo do Vincent, vai ter que abrir o moleque. E pra abrir o outro, vai ter que se dar um pouco, também...
Elena olhou para sua filha. Aeris lhe surpreendia pela maturidade. A porta se abriu, Rufus até veio correndo, mas era apenas seu irmão Rude, que jogou a mala no meio do corredor.
-Rude Shin-ra! Agora? Já perdeu o primeiro dia de aula! – ralhou a mãe.
Rude era o irmão do meio, mas os anos de esporte tinham feito com que ele se desenvolvesse demais. Parecia um muro, com 1,90 aos 17 anos, pesando quase 100 quilos, mas muito flexível. O grandalhão sorriu para a mãe e a irmã, tirando os óculos escuros e agarrou o caçula antes que ele desviasse, dando-lhe uma gravata para lhe desmanchar o cabelo.
-Desculpa, mãe. Mas o vôo de volta atrasou... Primeiro dia é sempre uma babaquice, os professores nunca dão nada mesmo... Alguma novidade, parceiro?
Aeris se levantou, rindo.
-Disseram a palavra mágica, ding dong, pling! Agora a maquininha vai girar e começar do zero de novo. Eu já ouvi muito por hoje...
Elena sorriu. E não deu outra, enquanto Rude ia levando a bagagem leve para o quarto, o irmão ia lhe contando sobre Adam Wonder.
Na casa dos Turks, também foi dia de contar as novidades e o papo caiu em Vincent Wonder.
-Ele tem a pele mais branca que eu já vi... – comentou Zachs.
-E não abre a boca pra nada...-resmungou Reno.
-Parece um riquinho super estressado, arrogante e muito dos mimados, isso sim! Ele não vai querer dar trela pra ninguém... Pior que o Rufus. – disse Cloud. – Pois ele mesmo me disse "apelidos significam intimidade, algo que eu não pretendo dar a ninguém."
Tifa ia ouvindo, apenas acenando com a cabeça. Tseng até parou de jantar, só esperando. Logo a voz calma se vez ouvir:
-Cid?
-Hum? Sei lá, mãe, eu nem tomei conhecimento do moleque... só fiquei sabendo desse lance de intimidade porque o Cloud foi chamado na diretoria e eu perguntei o porquê. Se ele não quer amigos, oras, problema dele.
-Ele não disse que não quer amigos, querido. O fato dele não querer intimidade não aponta diretamente para isso, certo, Tseng?
-Realmente, não tem ligação direta. Ele teme, na verdade, uma aproximação invasiva...
-Lá vem papo de psicólogo. Pai, pode me explicar porque você fez Programação e Análise de Sistemas, quando seu lance é Psicologia?
-Pra entender a máquina, você também tem que entender o maluco que a fez... –risos em volta da mesa.
-Tive uma idéia! – Tifa se levantou, indo consultar o calendário. – Por que vocês não convidam esse ser tão exótico para vir jantar com a gente daqui... humm... três dias?
-Porque ele não vai topar? – respondeu Reno.
-Porque ele vai nos mandar à merda? – emendou Cloud.
-Que que tem daqui a três dias? – Cid fez a pergunta certa.
-Mudança de lua! – respondeu a mãe, como se fosse óbvio. Os meninos se entreolharam, olharam para o pai, que balançou a cabeça e voltaram a comer.
N/A: Ok, a Tifa calminha é algo fantástico... (2) Earth, Wind and Fire é o nome de uma banda black music dos anos 70. E vem mais coisa por ai... Será que os Wonders fizeram mesmo um experimento genético com seu filho mais velho? Todo mundo quer trazer Vincent para o seu lado... quem vai conquistar o "ser exótico"? 21/06/06.
