ORDINARY PEOPLE

CAPÍTULO 03 – O QUE EU SEI FAZER...

No dia seguinte, a mesma cena. Hojo foi tirar Vincent da cama, o garoto mais manhoso que no dia anterior. O pai que ia, porque Lucrezia se derretia com um olhar mais pidão do caçula. Mas com os homens da casa Vinnie não podia. E resmungando contra a tirania que o perseguia ele ficou pronto e no horário.

Rufus deixou avisado em casa que não viria almoçar, ia almoçar na casa dos Wonders. Elena olhou pra ele como quem ouvisse uma língua alienígena, Aeris até parou com a xícara a meio caminho da boca:

-Como assim, almoçar com os Wonders? Quem te convidou?

-Ninguém. Eu vou conversar com o Vincent hoje e vou falar pra ele que quero ver os seus desenhos.

-E se ele tiver um compromisso, Rufus?

-Garotos de 15 anos não têm compromissos.

-Heeelooww, e se os pais dele marcaram alguma coisa? Mãe, esse moleque tem que fazer tratamento, ele acha que o mundo inteiro está à disposição dele...

-Tratamento nada. – Rude se sentou, depois de beijar a testa da mãe e o topo da cabeça da irmã. – Nada que uma surra de vara verde não resolva. Deixa o garoto lá em paz. Quando ele quiser, ele te convida.

Rufus baixou os olhos para seu café da manhã, bufando. Oras, ele era Rufus Shin-ra, como Vincent não gostaria de almoçar com ele? Ele iria admirar seus desenhos...

Os Turks também pensavam em Vincent, mas na sinuca de bico que sua mãe os tinha metido. Tinham três dias pra chamá-lo pra jantar...

Sem saber de nada, o garoto andava pelos corredores da escola, observando a arquitetura... Guardava detalhes pra depois colocar no papel. O que ele mais queria era treinar a figura humana, mas as pessoas não gostavam de serem observadas, ainda mais por ele. Suspirou. Hoje ele iria almoçar na escola, pra ir à biblioteca à tarde. Será que Sephiroth ia almoçar lá também? Ele se esqueceu de combinar com o irmão e almoçar sozinho sempre dava encrenca. Sem querer, ele parou em frente ao quadro de avisos para pensar no que fazer e seu olhar caiu nos papeizinhos pendurados.

"Clube de xadrez, clube de informática, time de basquete, time de handebol, time de vôlei, equipe de meia maratona, banda escolar..." Vincent ia lendo sem entusiasmo até que se deparou com "caratê, kung fu, clube de esgrima! Bem, isso é novidade pra mim..."

Balançando a cabeça, foi para a sala de aula, onde se sentou no canto, perto de Reno Fire, que abriu um sorriso:

-BOM DIA! Vamos, zumbi, abra os olhos, não se drogou direito hoje?

Vincent deu um sorriso de canto de boca, aquele ruivo não era de se render fácil.

-Me deixa em paz, Reno Fire.

-Nossa, parem tudo, chamem a imprensa. Ele guardou meu nome, óóó que emoção... Só um dia de convivência e ele já guardou meu nome...

-Palhaço! A culpa é sua, que se apresentou pra minha mãe. Ela falou a tarde inteira no seu nome ontem...

-Ficou com ciúmes, foi? Perdão, mas eu sou assim... irresistível!

-Irresistivelmente chato, isso sim. Agora cala a boca e deixa eu ouvir a aula, pelo menos.

-Sim, senhor... – mas Reno não agüentou muito tempo. – Psst! Vin! Vincent, só mais uma coisa...

-...

-Quer jantar em casa daqui a três dias?

O convite já era estranho, mas a data era mais estranha ainda. Vincent não pode se conter. Olhou para Reno com uma sobrancelha erguida e o garoto Turk também não se agüentou. Era a primeira vez que o vampiro o encarava. E constatou algo que irritava profundamente Vincent:

-Nossa, cara. Que cor são seus olhos?

O professor de Inglês perdeu a paciência:

-RENO FIRE! Que tal sair da aula pra deixar os outros interessados assistirem em paz?

-Puxa, desculpa aí, teacher, foi maus. Deixa eu ficar, vai. Segundo dia de aula, se a monitora do corredor me pega e já me denuncia, meu pai me esfola vivo...

A classe inteira caiu na risada e a aula continuou. Mas quem estava perto ouviu a pergunta e bilhetinhos foram passados a aula inteira, fazendo a mesma pergunta. Vincent se sentiu mais observado do que nunca e evitou levantar o olhar muito tempo, sentindo raiva de Reno por aquilo. No intervalo pra aula de História, a monitora veio dispensar a classe que o professor não havia vindo, Vincent saiu correndo, procurando um lugar pra se esconder. Ele não conhecia a escola direito, não sabia se tinha algum recanto escondido, algum armário desocupado, só sentia que a linha de cochichos, igual a um telefone sem fio, já tinha espalhado pelas classes que ele era diferente, mais uma coisa pra falarem nas suas costas...

Na próxima aula, ele se escondeu na biblioteca, esperando dar o sinal da saída pra voltar pra classe e pegar sua mochila. Aguardou uns 10 minutos, depois voltou se esgueirando pelos corredores. Mas ao sair da sala, um grupo de grandalhões do segundo colegial o estava esperando, para tirarem os seus óculos e confirmarem a história do "menino de olhos de vampiro". Vincent tentou escapar deles, mas não teve como. Uma garota da classe dele viu e foi chamar ajuda. De cada ponta do corredor, apareceram três garotos do terceiro colegial. Zachs Turk, Rude Shin-ra e o próprio irmão da "vítima" que, chegando na moto não achou o companheiro de almoço, voltou para buscá-lo.

-HEY! – gritaram Zachary e Rude. – O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO AÍ COM ESSE GAROTO?

-LARGUEM MEU IRMÃO AGORA MESMO! – gritou Adam Sephiroth.

Os garotos largaram como se fosse algo contaminado e saíram correndo gritando:

-Ele tem mesmo! VAMPIRO! O GAROTO NOVO TEM OLHOS VERMELHOS!

Vincent gemeu e arrumou os óculos. Adam se abaixou, ao mesmo tempo que os outros dois.

-Que história é essa de olhos vermelhos? – Rude olhou para o menino que tremia. – Parece... – puxou o queixo de Vincent pra cima. – Mas não é...

-Não, não é. – Sephiroth falou baixo, mas era óbvio que estava controlando sua raiva.

-Vocês são os Wonders, né? Eu sou Rude Shin-ra, o irmão do Rufus.

-Você vai me desculpar, Rude, mas meu irmão acabou de sofrer um ataque de bullying na escola, como sempre...

-É sempre assim? – Zachs olhou para o caçula, que lhe olhava com raiva. – Que foi?

-Seu irmão... – balbuciou Vinnie. – Se o Reno não tivesse falado nada, ninguém iria ver, pelo menos até o meio do ano...

Os outros dois se viraram para o moreno, que fechou a cara.

-Reno e sua boca grande. Olha, Vinnie, eu sinto muito. Ele não deve ter feito por mal... mas seus olhos são diferentes, mesmo...

-Isso não justifica nada! Não são vermelhos! São castanhos, com raias de castanho avermelhado! (1) Você tem noção quantas pessoas no mundo tem olhos assim? TEM?

-Uma em um bilhão. – Rude colocou a mão no ombro do Wonder mais velho. – Calma, velho. Se nós sairmos batendo em todo mundo, aí sim as más línguas vão cair matando em cima do seu brouzinho... O irmão desse aí é destaramelado, mas alguém ia levantar a lebre mesmo... Vem, eu dou uma carona pra vocês, a gente conversa e tenta achar uma solução...

Cada um foi perdido em seus pensamentos... Zachary Turk pensava que o jantar estava acabado, depois daquela. Vincent pensava que nunca mais ia aparecer naquela escola. Sephiroth queria bater em meia dúzia, a começar pelo caçula dos Turks, e Rude ria, pensando em que sorte ele tinha, ajudando os Wonders assim. Rufus ia ter passe livre pra casa deles com certeza no dia seguinte...

Os irmãos Turks foram pra casa discutindo. Cloud achando que realmente a boca grande de Reno tinha feito seu ótimo trabalho novamente, mas Cid e Zachs achando que ainda havia solução.

-Olhos vermelhos?

-Tinha!

-Não, mãe. São castanhos avermelhados, como se ao invés de ser ruivo nos cabelos, fosse nos olhos. Muito estranho, mas ao mesmo tempo bonito.

Tifa ficou pensativa uns instantes. Depois sorriu.

-Sim, deve ser algo bem inusitado.

-Será que ele volta pra escola amanhã? – Reno mordeu a ponta do dedo.

-Não roa as unhas, querido. A culpa não foi sua...

-Como não? Do jeito que ele é escandaloso, a classe inteira deve ter ouvido e logo o boato se espalhou como rastilho de pólvora.

-O fato de haver na sua escola pessoas preconceituosas, ignorantes e violentas não é culpa do seu irmão, concorda com isso? Que o Reno é impetuoso e não sabe falar baixo, sim, é culpa dele. Mas o resto, não.

-Tudo bem. Mas e agora? Um garoto que nem bem é transferido já leva uma prensa não é nada agradável.

-O que ele vai precisar é se sentir seguro de alguma forma... – Tifa começou a pensar novamente.

Na casa dos Wonders, Sephiroth tinha problemas mais urgentes pra resolver. Como explicar pra sua mãe que seu vaso chinês da entrada tinha sido espatifado pela mochila do seu irmão enraivecido, que subiu a escada correndo, disposto a descontar nos móveis do quarto. Adam correu atrás dele, pulando em cima e segurando-o no chão, enquanto ele esperneava e berrava, histérico. A governanta, acostumada com as crises existenciais de Vincent já subia correndo com um calmante e um copo d'água, mas Sephiroth era mais direto. Terminou com tudo com dois tapas. Quando Anne chegou à porta, Vinnie estava soluçando no peito do irmão.

-Que aconteceu?

-Alguns meninos deram um susto nele, por conta da cor diferente dos olhos...

-Mas são olhos tão lindos...

-Não são não... – a voz dolorida saiu rouca e baixa. – Ninguém sabe como é. Olhar no espelho e ver uma aberração.

-Bobagem, jovem Valentine. Você é tão lindo, com esses cabelos tão negros se destacando nessa pele tão branquinha.

Vinnie suspirou.

-Você não é uma opinião imparcial, Nana.

-Vou me ofender assim. Vamos, vamos, que o almoço vai esfriar. Lave o rosto, as mãos e vamos comer. Há! – ergueu a mão, sabendo que ele iria se negar a descer. – Se não descer agora mesmo, eu ligo pra sua mãe.

Vincent franziu a testa. Era uma guerra civil e ele não tinha aliados. Amanhã ele ia ter que ir à escola, e teria sorte se sua mãe não fosse junto, para ter "uma conversa séria com a diretora". A vida não era justa.

Mas no dia seguinte, tudo foi bem diferente dos pesadelos que Vincent achou. Sephiroth contou para a mãe apenas que o "morcego estabanado" entrou trombando com o vaso em casa, custando ao citado morcego um desconto mensal na mesada para repor o objeto e um pequeno sermão sobre não entrar em casa correndo. Hojo soube da verdade, claro, mas durante a noite apenas apertou um pouco mais o ombro do filho ao lhe dar boa noite e pela manhã uma carona com direito às músicas favoritas do garoto.

Assim que saiu do carro, foi cercado... pelas meninas do terceiro colegial.

-Você é o vampiro de quem todo mundo ta falando? – perguntou uma menina.

-Tira os óculos só um pouquinho? – pediu outra.

-Gente, mas que olhos lindos. Olha só...

-Como será que ficam totalmente encarnados, hein?

-Como se lançassem chamas, com certeza... – e elas riram, cada uma dando um beijinho num Vincent totalmente sem graça e devolvendo os óculos. – Ae, garoto, liga pra esses manes, não. Eles têm inveja de um gatinho feito você.

Valentine não sabia onde enfiar a cara. Quando seu olhar cruzou com o do irmão, que tinha acompanhado tudo de longe, ele sentiu o rubor começar a subir do pescoço e esquentar as orelhas. E por incrível que pareça, sentiu um alívio quando Zachs Turk abraçou-o pelo pescoço e o levou para a rodinha dos irmãos.

-Uau, garoto. Fazendo sucesso com as gatinhas, hein? – Cloud já começou a tirar sarro.

-Foram vocês! Vocês armaram tudo isso!

-Não... Elas são assim mesmo, no terceiro colegial elas só querem sair com os marmanjos da faculdade, mas sempre que podem, tiram umas casquinhas com a garotada... – informou Cid, acendendo um cigarro.

-Não é muito cedo pra fumar, não?

-Pra ele nunca é, Vincent. Olha, é o seguinte... a gente queria se desculpar por tudo. Pelo jeito, você começou com o pé esquerdo com a nossa família. Ele parece assim, cool e tudo, mas o Reno roeu todas as unhas ontem de preocupação se você ia voltar pra escola ou não... – O ruivo abaixou a cabeça, envergonhado. – Nossa mãe quer conhecer você de qualquer jeito e acho que um jantar seria mesmo uma boa maneira de pedir desculpas e começar de novo.

Sephiroth perguntou depois como foi que ele topou aquele jantar e Vincent deu a desculpa que ele ainda estava atordoado com a reação da mulherada. Mas a verdade era que nem ele sabia porque. Como diria Tifa, foi uma conjunção favorável dos astros... ou uma boa vibração...

Lucrezia estava super animada com a inesperada abertura do seu caçula recluso, mas Hojo ameaçou amordaçá-la se ela transferisse essa ansiedade para ele. E trancou-se no quarto com a mulher, cabendo a Sephiroth levar o irmão à casa dos Turks. Tseng os recebeu no portão.

-Tem bastante comida, você tem certeza que não quer ficar?

-Oh, não, obrigado. Já tenho outro compromisso marcado. Fica pra uma outra vez.

-Você quem sabe. E não se preocupe. Depois nós o levamos para casa.

-Obrigado. Bem, Vin, divirta-se! – e foi embora acenando.

Tseng Turk virou toda sua atenção para o garoto que via o carro sumir na distância com um olhar perdido. Quando o adulto começou a falar, ele deu um pulo:

-Seja bem vindo, Vincent Wonder! É um prazer conhecê-lo pessoalmente...

-O prazer é todo meu, senhor Turk.

-Vamos entrar. Minha mulher está ansiosa por conhecê-lo.

"Como se eu fosse uma atração de circo nova, com certeza."

N/A: Mais um! (1) Essa eu tirei da cor dos olhos do meu filho. É verde, mas tem umas faixas castanho claro. Dependendo da roupa que ele usa, fica mais verde, azulado ou puxa pra cor de mel total. Então eu pensei "e se fosse castanho avermelhado"? Já deu pra perceber o que eu vou fazer no decorrer da história com essa idéia, né? Às vezes, dá vontade de bater mais no Vincent, não só os dois tapas que o Sephiroth deu, mas quem tem baixa estima é um saco, algumas vezes. Calma, que as coisas vão se resolver... mais ou menos. Lexas, obrigada pela review... 27/06/06.