CAPÍTULO DOIS
- É isso mesmo, Luce. Só nós dois em um quarto de hospital. Sua mãe foi resolver algumas coisas, e seu irmão foi com ela. Não chore... Ai meu Merlin, não chore!
Draco tentava embalar a menina nos braços, mas, por alguma razão, ela recusava-se a ficar parada. Queria ver tudo, tocar tudo, mesmo ainda meio inchada e pequena como a palma de sua mão. Ele esperava que não fosse como a mãe. Não. Duas Granger dariam a ele trabalho demais. Mas era exatamente isso que parecia estar acontecendo. Um suspiro escapou de seus lábios enquanto ele sucumbia aos desejos da pequena garota e a deixava chupar seu dedo com voracidade.
Ele realmente não esperava por aquilo. Era uma surpresa grande demais que ele lutara para esconder. Draco Malfoy, pai dos filhos de Hermione Granger. Nunca achou que essa frase fosse ser possível fora de sua mente. Pois ele, mas é claro, já havia pensado nisso. Pensado em como Hermione era mais bonita, equilibrada e carinhosa que Astoria. Pensado em como os corpos reagiam um ao outro, e em como ninguém mais conseguia fazê-lo sentir-se leve. Ninguém além do filho, é claro.
Scorpius. O que ele diria? Provavelmente o garoto ia entender. Não era como ele e, graças a Merlin, nem como Astoria ou Lucius. Draco sempre agradecia mentalmente por, quando a mulher o mandava deixar o filho com os avós, entregava-o exclusivamente para Narcisa e pedia para que ela ficasse com ele. A mãe era alguém que, ele nunca soube a razão, era melhor que todos os Malfoys juntos. Era uma pena que não tivesse a puxado. Espantou os pensamentos rapidamente. Estava ficando melancólico demais.
- Luce, você ficará linda, sabia disso? – ele a perguntou com um sorriso de canto. Tinha certeza de que a garota seria tão bela quanto Hermione, mas com seus cabelos e olhos – Não me dê trabalho, mocinha.
"Cúmulo do ridículo" ele pensava com seu lado maldoso de ser. "Você, cuidando aqui dessa criança. Vá embora, seu idiota. Deixe-a aí e a Granger que se vire para cuidar deles. O ruivo irá pensar que foi um simples equívoco, coisas de genética. Ninguém realmente precisa saber disso. Nem mesmo as próprias crianças!" Draco realmente pensou nisso. Em se levantar e deixar a pequena Luce sobre a cama, indo embora sem deixar rastros. Não que fosse fácil. Teria de conviver com aquelas crianças pelo tempo que seu filho estivesse com a pequena Granger, mas só até então. Era um pensamento tão maldoso, tão cruel, que ele abandonou imediatamente, balançando a cabeça para tirá-lo de dentro da mente.
Seus olhos viraram-se para o bebê em seus braços. Tocou em seu nariz arrebitado e em seus finos e frágeis fios platinados. Como era linda. Ainda uma criança que não sabia o que fazer, mas linda aos seus olhos. Era quase como se o mundo inteiro tivesse conspirado contra seus desejos e a tivesse dado de presente de natal. Era natal. Ele havia se esquecido disso. Sorriu para Luce, deixando-a continuar a chupar seu dedo indicador.
- Feliz natal, meu amor.
As palavras o surpreenderam, e ele ficou rígido ao pensar no que havia acabado de dizer. Afeiçoando-se a garota com tanta rapidez, com tanta facilidade... Ela o lembrava de Hermione. Não tanto quanto o menino lembrava. Aquele sim tinha os traços da mãe. E ao lembrar-se de Hermione uma confusão de sentimentos passava por todo o seu corpo. Dias escuros em Hogwarts, onde mãos e bocas se encontravam no meio da bagunça alheia. Quando, na guerra, ela havia gritado de medo, e ele a protegeu dizendo a um comensal que ela estava com ele. E depois, em faculdades caras e bem frequentadas, tanto trouxas quanto bruxas, onde olhares se cruzavam e lábios eram mordidos para ficarem contidos com seus próprios donos. Plataforma 9 ¾, quando os filhos anunciaram o namoro, jantares em ambas as mansões, e jantares em pequenos pubs trouxas onde ninguém os veria. Exatamente em um desses jantares, há nove meses, ele havia, pela primeira vez, a amado por completo. E ali estava o resultado do seu amor por Hermione. Ou metade dele. Cabia em uma única mão.
Ele não a amava de verdade. Ou simplesmente não assumia esse amor porque não podia a amar. Tinha uma esposa, da qual certamente não gostava, e um filho, que era a pessoa mais preciosa em seu mundo, embora não demonstrasse sempre. Mas o que sentia pela Granger, pela sangue-ruim, ultrapassava qualquer que fosse o ínfimo sentimento que nutria por Astoria. Era um amor tão difícil de ser encontrado que ele vivia procurando-o dentro dos olhos castanhos amendoados da mulher. Quantos anos ela tinha? A mesma idade que ele, certo? 38 anos. Eram bem grandinhos e ainda se metiam em confusões como aquelas. Confusões que, assim como eles, apenas aumentavam a cada ano.
A porta abriu-se com um estalo, e a primeira reação de Draco foi segurar Luce com mais firmeza e de modo mais desengonçado nos braços, como se aquela fosse uma tarefa que estivesse sendo obrigado a fazer. Hermione entrou no quarto com os cabelos presos em uma longa trança desarrumada com Brendon em um dos braços, apoiado em seu peito e cochilando levemente. Atrás dela, Vinha Rose. O tanto que a filha e a mãe eram parecidas era certamente desconcertante. Apenas os cabelos ruivos de Rose as impediam de serem irmãs.
Mas o que o fez murmurar pragas não foi a entrada solene de Rose. Foi quem vinha ainda atrás dela. Ele reconheceria em qualquer aquele topete loiro.
