CAPÍTULO TRÊS
Hermione saiu do quarto com os olhos cheios d'água e as pernas trêmulas. Não tinha, pela primeira vez em sua vida, ideia do que fazer. O filho estava em suas mãos, os pequeninos olhos já fechando-se de sono, e as mãos procurando por seus fios cacheados. Um dos dedos enroscou-se no cabelo da mãe, que sorriu mansamente enquanto ajudava-o a se soltar. Tão pequeno, tão frágil... Aquele garoto em alguns anos seria tão bonito quanto o pai? Seria rico, mimado e rude, ou doce, delicado e gentil? Ela não tinha como saber. Não tinha como descobrir se o pai ia ou não interferir na criação daquelas crianças.
Ela havia pensado em tudo, planejado cada pequeno detalhe da noite em que seu filho fosse nascer. Ron, ela sabia, não iria com ela. Rose a ajudaria. Chegaria até um hospital trouxa, teria seu bebê e sairia de lá com a certeza de que todos achariam que eles eram de seu marido. Simples e objetivo. Mas Rose a havia levado para outro lugar. Ela a havia levado para o único lugar no qual ela não queria estar em uma sexta-feira, pois sextas eram o dia dele.
E ali ela estava, com lágrimas correndo pela face. Lágrimas as quais lhe queimavam com uma intensidade abrasadora, fazendo-a sentir a culpa do que havia feito. Mas não era tudo culpa dela, é claro. Draco havia a convidado; Draco havia tocado sua perna; Draco havia olhado-a de uma forma que ela nunca havia visto antes; Draco havia feito sua cabeça e sussurrado em seu ouvido que precisava estar junto a ela. Draco, Draco, Draco, Draco. Sempre ele. Não havia outra coisa em sua cabeça senão os fios de platina e os olhos enormes e cinzentos. Suspirou, a culpa era dela de qualquer forma.
Forçando as pernas a caminhar foi até a sala de espera. A camisola azul na qual estava era muito parecida com um fino vestido, de modo que não a trocou. Cada passo que dava parecia depositar chumbo em seus pés, mas não parou. Ela, Hermione Granger, não pararia por medo. Nunca. A mão tocou a maçaneta, todo o corpo da mulher tremia, mas ela não teria como voltar atrás. Virou-a de uma vez, apertando com firmeza o pequeno filho contra o peito.
Rose estava ali, mas, para a surpresa da mãe, não sozinha. O coração de Hermione congelou quando viu a filha apoiando a cabeça no ombro de ninguém menos que Scorpius Malfoy. O que ele estava fazendo ali em uma noite de natal? Rose não teria sido indelicada ao ponto de chamá-lo, teria? Afinal, o que todos os Malfoys faziam separados? Era uma data especial demais para ser deixada de lado, mas nenhum deles parecia se importar.
A cabeça da garota ruiva levantou-se, e seus olhos brilharam ao ver o pequenino irmão no colo da mãe. Correu ao seu encontro, beijando a face de Hermione e tomando o garoto nos braços. Seus dedos tocavam a pequena cabeça de Brendon, e Scorpius observava tudo ao seu lado, sorrindo mansamente, mas sem encostar-se à criança. Por um único instante Hermione cogitou a ideia de que ele sabia que aquele filho não era de Ron, mas tudo era uma ideia tão absurda que ela a descartou após raciocinar um pouco. Estava ficando paranóica.
- Ele é tão lindo... – disse Rose bem baixinho, para não acordá-lo – Não é mesmo, Scor?
O apelido carinhoso foi como um soco no estômago de Hermione. Estivera o tempo todo pensando em sua família, no que eles diriam. Mas e Scorpius? E Astoria? Seria ela a responsável por destruir o relacionamento de sua filha?
- Sim. Ele é lindo. – Scorpius lançou um lindo sorriso, idêntico ao da mãe, para Hermione – Meus parabéns, senhora Weasley.
Outro soco no estômago. "Weasley". Há quanto tempo alguém não a chamava assim? Era sempre Granger, e ela agora reparava que nunca corrigia as pessoas. Nunca havia a incomodado com o fato de continuar usando o nome de solteira. Ela se importaria se seu nome fosse Malfoy? A certeza de que sim, ela ligaria, a fez recuperar a voz que achou ter perdido em meio aos pensamentos.
- Rose, eu tenho de pegar algumas... Algumas coisas no meu quarto. Vocês me acompanhariam?
Ambos os adolescentes assentiram, e a garota entregou o irmão para a mãe, que pareceu relaxar por tê-lo nos braços novamente. Andaram em um silêncio incômodo, mas nem Rose nem Scorpius tiveram coragem de perguntar a Hermione a razão de seus trôpegos passos em direção a um dos últimos quartos do corredor, ou a razão do suor em sua nuca, que fazia os fios da trança soltarem-se minimamente enquanto grudavam na pele quente da morena. Eles apenas caminharam, e ao pararem a porta, abriram-na, mesmo com a resistência de Hermione.
