Capítulo 10 – Separação

– Olhe, eu sinto muito, mas não há nada que se possa fazer.

– Eu entendo, mas é que... vou sentir sua falta.

Remus sorriu e abraçou Proserpina, beijando-a na testa com ternura.

– E eu também vou sentir sua falta, querida. Mas serão apenas uns poucos dias.

– Não sei se vou agüentar, Remus.

Ele beijou-a com carinho.

– Eu voltarei para você.

Num impulso, ela tirou o prendedor de cabelo. As madeixas cascatearam livremente, e ela soltou-as com os dedos. Depois colocou o prendedor nas mãos deles:

– Leve com você.

– Mas é seu prendedor. Como vai prender seu cabelo se me der ele?

– Eu faço outro. Eu lhe disse que estava mesmo para colher outra flor.

– Vermelho combina muito bem com seu cabelo preto. Ficarei curioso para ver que flor vai escolher.

– Então você voltará daqui a alguns dias.

– É só a lua cheia diminuir de intensidade e já poderei voltar.

– Mal posso esperar. Já estou com saudade.

– Mas serão só alguns dias.

– Eu sei, Remus. Mas é que não temos tanto tempo. Odeio perder estes dias que poderia passar com você.

– Entendo. Mas não se engane: o sentimento é mútuo.

– E se eu... pudesse visitá-lo? Ajudar você na sua... condição. Posso?

Ele empalideceu. Ficou todo tenso, e o rosto adquiriu uma carranca.

– Nem pense. Proserpina, eu falo sério. É muito perigoso. Pode ir tirando isso da cabeça. Não quero ouvir você falando nisso novamente. Entendeu?

– Claro. – Ela o abraçou. – Desculpe. Não quis deixar você nervoso.

– Então, que tal ir lá para o lago? Ainda não está muito frio.

Ela concordou e o casalzinho saiu, abraçadinho, rumo ao lago. Eles pareciam bem juntos, e não havia nada que pudesse ameaçá-los.

Ou haveria?

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– Boas notícias, Srta. Prince!

O tom entusiasmado do Prof. Slughorn fez Proserpina animar-se um pouco. Era o primeiro dia da lua cheia e ela sentia falta de Remus mais do que achara possível.

– Boas notícias, professor? Estamos próximos de uma cura?

O homem largo e careca segurou a pança ao rir:

– Próximos de uma cura? Minha querida Srta. Prince, acho que podemos curá-la agora mesmo!

O sorriso dela caiu:

– Agora mesmo? Agora?

– Sim, nesse exato instante. Que tal? Pronta para deixar nosso jovem Severus Snape sair para brincar após todo esse tempo?

Ela empalideceu. Não!... Não podia!...

Remus...

Ela tinha que ser rápida.

– Mas Professor, isso não seria estranho? Digo, se Proserpina sumir de repente, isso vai ser muito estranho com os outros alunos e professores. Sem mencionar que isso seria descortês com Narcissa Black e Lucius Malfoy. Eles foram de tanta ajuda para Proserpina.

– Ora, isso é muita consideração de sua parte. Sim, sem falar que realmente pareceria estranho. Mas estou surpreso. Eu imaginei que gostaria logo de sair dessa sua dificuldade.

Proserpina apressou-se em dizer:

– Por favor, não me interprete mal, Professor. Eu agradeço muito tudo que está fazendo e o que fez por mim. Também tenho muita pressa em voltar ao meu verdadeiro eu, por se dizer. Mas acho que Proserpina merece uma despedida, não acha?

O professor de Poções enrolou os generosos bigodes, como se estivesse ponderando com eles. Então, assentiu:

– Acredito que tenha razão, Srta. Prince. Vou alertar o Prof. Dumbledore de nosso progresso. Por que não dedica o seu dia amanhã a despedir-se dos amigos e a anunciar a volta de seu primo Severus Snape?

– Sim, senhor. Boa idéia.

Naquela noite, Proserpina não dormiu. Seu pior pesadelo tinha se tornado realidade. Não era só a separação de Remus, mas o fato de não poder dizer adeus. Afinal, a lua cheia ainda estava plena.

Não havia tempo.

Ela tinha se tornado naquela criatura cruel e desprezível de que Lucius e Narcissa tinham falado, na taverna Três Vassouras.

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A despeito de tudo, inclusive de si mesma, na manhã seguinte, Proserpina viu suas pernas a guiando até a mesa no extremo oposto do Salão Principal. Ela sabia que haveria murmúrios, mas o som do seu próprio sangue bombeando furiosamente estava predominando em seus ouvidos no momento.

Proserpina não acreditava no que estava fazendo.

– Black?

– O que você quer?

– Gostaria de lhe pedir um favor.

– Um favor – ele repetiu devagar, encarando-a como se ela o repugnasse. – E por que acha que eu faria um favor a você?

– Porque seu amigo iria gostar. E porque eu jamais pediria outra coisa a você.

– Hum, essa segunda parte me interessou.

James Potter a encarou:

– O que você quer?

– Um simples favor. – Ela estava quase rosnando, arrependida de ter tomado aquela atitude. Mas Remus merecia aquele sacrifício. – Olhe, se isso é tão difícil para vocês, não se incomodem.

Ela ia dar meia volta, quando ouviu a voz de Lily Evans:

– Proserpina, espere.

Lily, sempre Lily.

– Que posso fazer por você?

Proserpina mostrou a carta:

– Gostaria que entregasse isso a seu amigo Lupin quando ele voltar.

Sirius quis saber:

– Por que não entrega você mesma?

Ela apertou os lábios, como se temesse as palavras que sairiam deles:

– Não poderei fazer isso. Meu primo está para voltar, e eu tenho que ir embora.

– Mas... vai embora assim? – Sirius parecia indignado. – Não vai nem se dar ao trabalho de se despedir dele? Que espécie de garota é você? É covarde a esse ponto?

– Não me chame de covarde! – Ela rosnou, mas logo se controlou para acrescentar: – Eu não tenho escolha. O Prof. Dumbledore disse que eu tenho que ir embora quando o Primo Severus voltar.

– Snivellus, aquele...

– Cale a boca, Sirius! – gritou Lily. Ela se virou para a moça de cabelos negros. – Proserpina, se preferir, eu entregarei sua carta.

Lily ofereceu o lugar a seu lado a Proserpina, que aceitou, grata. Ela entregou a carta a Lily, pesarosa. A moça de cabelos avermelhados deu um sorriso triste e indagou:

– Algum recado adicional?

– Se não for muito trabalho, eu queria dizer a ele que sinto muito por não poder dizer adeus pessoalmente... E que... tentarei escrever também.

Lily pegou a mão de Proserpina.

– Eu digo a ele. Remus vai ficar arrasado por não ter podido vê-la.

– Eu também estou muito chateada. Mas não houve jeito. Eu tentei. Pode dizer isso a ele também?

– Claro que digo. – Lily sorriu, um olhar caloroso. – Foi bom ter você aqui, Proserpina. Sev está bem agora?

O apelido de seu alter ego arrancou um sorriso de Proserpina:

– Acho que sim. Não sei detalhes. O Prof. Dumbledore vai me falar tudo mais tarde.

Sirius interrompeu no exato momento em que Lily ia abrir a boca:

– Evans, você está dando trela para essazinha? Eu sabia que ela ia dar o cano em Remus.

Lily fechou a cara:

– Vá embora, Sirius, ou vai se atrasar para a aula. Aliás, vamos nos atrasar todos.

Os alunos começavam a deixar o Salão Principal, rumo às primeiras aulas do dia. Proserpina acompanhou a movimentação, sabendo que aquele era seu último dia em Hogwarts. Ao menos a carta seria entregue, e a humilhação que passara tinha valido a pena.

O coração pesado não se aliviou ao lembrar que ela não mais veria Remus.

Ela só esperava que ele não a odiasse.