Capítulo 11 – O retorno

– Não me diga isso, Proserpina querida. Severus de volta? – Narcissa Black parecia arrasada. – Não me leve a mal. É claro que estamos todos felizes que o querido primo Severus agora esteja bem e recuperado, mas vamos sentir sua falta.

– É, também vou sentir falta de Hogwarts. É diferente de tudo que imaginei.

– Lucius ficará devastado com sua partida tão súbita.

– Precisa transmitir meus agradecimentos a ele. Seu noivo foi um grande amigo.

– Ele gosta muito de Severus e faria qualquer coisa pelo amigo. Não considere isso como nenhuma obrigação.

– Oh, mas tenho certeza de que Severus vai querer retribuir o favor. Ele me diz que será eternamente grato a você e a Lucius pela ajuda que deram a mim. – Ela indagou. – Hum, sabe o que vai fazer com minhas coisas?

– Como você sabe, roupas usadas só servem para incinerar. Mas acho que algum Hufflepuff saberá encaminhar para a caridade ou algo tão revoltante quanto alguma organização de ajuda a bruxos carentes.

– Gostaria de estar presente quando Severus... retornar?

– Não particularmente, querida. Mas peça a ele que venha falar comigo assim que chegar a Hogwarts. – Narcissa a abraçou. – Boa sorte, querida. Foi positivamente refrescante ter você por perto.

A exemplo de Severus, Proserpina não tinha muitos amigos, e as despedidas foram muito breves. Na verdade, ela só queria se despedir de uma única pessoa – justamente a pessoa que estava incomunicável para ela.

Naquela noite, ela subiu ao gabinete de Dumbledore, disposta a não se deixar levar pelas emoções. Queria esquecer Remus, queria esquecer tudo. Naquele momento ele gostaria até que o feitiço desse errado.

Provavelmente sua tristeza estava destilando, porque mal ela entrou na sala, o Prof. Dumbledore indagou:

– Está se sentindo bem, Srta. Prince?

– Não muito, professor. Por favor, seria possível adiar esse procedimento? Eu queria... mais alguns dias...

Proserpina sentiu a força dos olhos azuis do diretor a encarando, como se penetrassem em sua alma. Com doçura, ele disse:

– Entendo que você queira dar adeus a seu amigo e é uma infelicidade que Severus tenha que voltar justamente nessa época – Proserpina sentiu o calor nas suas faces –, mas acredito que você não queira deixar essa oportunidade passar. Não é verdade?

Mal contendo as lágrimas, ela abaixou a cabeça e deixou escapar:

– No momento, não me sinto particularmente animada com a volta de Severus. Chego a pensar que ele não precisaria voltar nunca mais.

O diretor de Hogwarts aproximou-se dela e pegou sua mão.

– Não, não diga isso nunca. Severus é muito importante. É bem verdade que ele pode aprender uma coisa ou duas com Proserpina. Mas Severus é uma pessoa importante demais. Ele merece voltar a Hogwarts. Digo até que ele precisa voltar. Mais uma vez, digo que é uma infelicidade que ele tenha voltado nessa época, mas não fique triste pela volta de Severus. Todos estamos alegres que ele tenha voltado.

Uma lágrima escapou dos olhos de Proserpina, e ela tentou engolir um soluço. Para sua surpresa, ela foi envolvida pelos braços amorosos do diretor de Hogwarts.

– Não se preocupe, criança – ele sussurrou, beijando-lhe os cabelos. – Tudo vai dar certo.

Proserpina não conseguiu evitar algumas lágrimas. Tentando se controlar, ela se separou do diretor, limpando as lágrimas e assentindo:

– Estou pronta.

– Muito bem, então – disse Dumbledore. – Prof. Slughorn, por favor?

O volumoso chefe de Slytherin se adiantou e entregou a Proserpina um frasquinho.

– Pode tomar tudo, Srta. Prince.

Proserpina obedeceu, sem se incomodar com o gosto amargo da poção. Pior do que o gosto era o amargor de seu coração. A moça não demorou a sentir uma tontura tão forte que o Prof. Dumbledore a levou até a cadeira em frente à sua mesa. Zonza, Proserpina mal ouvia o encantamento que o Prof. Slughorn repetia incessantemente, no vozeirão marcante. Primeiro ela sentiu um formigamento, depois uma anestesia, e, finalmente, a inconsciência.

Assim terminou a breve vida de Proserpina Prince.

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O retorno de Severus Snape a Hogwarts foi um dos períodos de maior tensão que a escola viveu naquele ano. No primeiro dia em que ele apareceu no Salão Principal, os murmúrios foram muitos, e o Prof. Dumbledore fez o anúncio oficial. Severus também fez questão de publicamente agradecer à colega Narcissa Black pelo auxílio e orientação à prima dele. Como cortesia, estendeu o agradecimento a todos os Slytherins, especialmente as moças e repetiu as palavras elogiosas que Proserpina deixara a todos que a receberam de braços abertos.

No dia seguinte, porém, quem retornou a Hogwarts foi Remus Lupin.

Ninguém percebeu que os dois fatos poderiam estar ligados. Nem quando Severus Snape se dedicou ativamente a não olhar para a mesa de Gryffindor. Na verdade, mais do que isso, ele se levantou do Salão Principal e saiu do local, abraçado aos livros, fazendo as roupas de estudante esvoaçarem.

Ninguém percebeu a saída. Quer dizer, ninguém, além de Remus Lupin.

Velhos hábitos não morrem fácil, então Severus foi estudar à beira do lago. Estava lendo o livro de Poções quando ouviu alguém se aproximando, mas só ergueu a cabeça do livro quando já era tarde demais.

Remus Lupin sorriu:

– Olá, Severus.

– Lupin. O que você quer?

– Dar as boas-vindas. Está melhor?

Severus se ergueu, disposto a sair dali:

– Ficarei quando puder voltar a ficar em paz.

– Severus, espere – pediu Remus. – Teve notícias de sua prima?

– Sim. – Ele estava de dentes cerrados. – Ela chegou bem.

– Pena que nós nos desencontramos. Fiquei muito triste por não poder dizer adeus apropriadamente. Acho que vou escrever uma carta.

Severus deu de ombros, sem responder. Lupin continuou, animado:

– Aliás, ela me deixou uma carta. Lily Evans me entregou quando eu voltei. Foi uma linda carta.

– Ela lhe escreveu, foi?

– Nós ficamos amigos durante a estada dela. Uma jovem fascinante.

Uma raiva começou a borbulhar dentro de Severus.

– É bom saber que minha prima serviu para entretê-lo enquanto esteve aqui. Mas não vá esperar que eu faça a mesma coisa!

Sem esperar resposta, Severus saiu pisando duro, rápido, ignorando os chamados do Gryffindor. O Slytherin não sabia se estava correndo para evitar Remus ou para evitar que ele testemunhasse as grossas lágrimas que começaram a rolar pelas faces do rapaz.

Ele também não sabia dizer se chorava de tristeza, raiva, inveja ou tudo isso junto. Naquele momento, ele sentiu um imenso desejo de antecipar a formatura e deixar Hogwarts o mais depressa possível.