Corpos balançando ao som de música e acompanhando seu ritmo, as luzes coloridas que ofuscavam no local, tudo aquilo o incomodava. Porém, o que mais o incomodava era ver aquela garota balançando seu corpo no ritmo da música de forma sensual.

Os longos cabelos ruivos balançavam conforme ela virava o rosto e seu vestido vermelho, curto, acompanhava o trajeto do corpo e estava começando neste devido ao suor. Repreendeu-se mentalmente ao pegar-se olhando para as pernas bem torneadas dela.

- Eu... Eu... Eu vou pegar alguma coisa para beber! - ele disse gaguejando e foi até o bar da boate. Passou as costas das mãos pelo rosto suado, aliviado por ter saído de lá, e pediu ao barman um copo de água.

Por quê? Por que só ela faz com que eu me sinta assim? Eu só a conheço há um dia, mas..., ele começou a pensar, mas novamente a imagem dela dançando veio à sua mente. Bebeu o copo d'água e pousou-o novamente sobre o balcão. As garotas do Japão não me atraem quanto ela. Essa é a beleza brasileira da qual todos falam? Ou será que...?

- O que houve com você? Se não gostava de dançar, era só falar que nós poderíamos ir a outro lugar. - Maya disse pousando suas mãos no ombro dele enquanto se aproximava sorrindo da forma travessa de sempre.

- Não é isso. - ele disse virando para seu lado para olhá-la, mas logo teve que desviar o olhar porque seus olhos verdes esmeraldados, tão obstinados, poderiam fazê-lo perder a consciência de seu corpo por algum momento e cometer alguma loucura. Bebeu o último gole do copo e a garota sorriu para ele.

- Não precisa mentir para mim. - ela disse e por um momento ele achou que ela tivesse descoberto. Mas, se fosse isso, o que faria? - Você não sabe dançar, não é? - ela perguntou ainda sorrindo, ele não respondeu - Venha comigo, Wakabaiashi, vou ensiná-lo a dançar.

Ela o puxou carinhosamente pela mão, mas de uma forma tão segura e autoritária que ele não desobedeceu. Ainda segurando a mão dele, ela parou de frente para ele e começou a mexer seu corpo no ritmo da música. Ele ficou parado, estático, não sabia o que fazer. Sentiu o rosto ficar vermelho e agradeceu mentalmente por estar escuro no local. Ela aproximou-se dele devagar e encostou as costas no abdômen dele, ainda se movendo conforme a música eletrônica que tocava na boate. Puxou a outra mão dele e colocou os braços fortes dele envolta de sua cintura. Genzo sentiu que havia ficado mais vermelho do que antes e o rosto ficar ainda mais quente.

Ela está brincando comigo?, essa era a única razão na qual ele podia pensar para ela estar agindo daquela forma com ele

Maya se afastou dele por um momento e o olhou nos olhos. Ele pôde ver frustração nos olhos dela.

- Você não quer mesmo dançar, não é? - ela perguntou fazendo beicinho

- Talvez seja melhor eu ficar na mesa com o Karl e o Kaltz. - ele disse olhando na direção em que os dois estavam.

- Como desejar, Wakabaiashi. - ela disse dando um longo suspiro e depois seguiu para o meio da pista, abrindo caminho entre a multidão.

Genzo a olhou uma última vez e depois foi até a mesa onde os outros dois que os acompanharam estavam sentados. Os dois o olharam sorrindo de forma brincalhona.

- O que foi, Wakabaiashi? Não gosta de dançar? - Karl perguntou em tom debochado - Ou a companhia não lhe agrada?

Genzo sentiu-se pequeno diante do comentário de Karl, mas decidiu ignorar o que ele dissera e sentou-se ao lado de Kaltz.

- Quer beber alguma coisa? - Kaltz perguntou gentilmente

- Não, obrigado. - ele respondeu no mesmo tom gentil e depois se dirigiu a Karl, sério: Não é que eu não goste de dançar, nem que eu não goste da companhia, eu apenas não gosto desse tipo de música. É muito ruidoso e rápido e eu prefiro músicas lentas e que eu possa dançar junto de alguma garota que eu goste. Não que eu goste de alguém. - ele completou rapidamente com medo de que algum deles suspeitasse que ele tivesse uma queda por Maya.

- Oh, você é romântico... – disse Kaltz no mesmo tom brincalhão de sempre – Esse tipo de música se chama funk.

- Funk? - ele perguntou achando que não tinha entendido

- É um tipo de música muito popular no Brasil. Em geral, são músicas com letras obscenas. – explicou Karl com desdém – Não sei como a Maya pode gostar de algo assim.

- Não sabe mesmo, Karl? - Kaltz disse debochado - Dou a você 2 razões para ela gostar de funk. Primeira razão: provocar o pai e o irmão; segunda razão: provocar as pessoas em geral.

- Provocar as pessoas? – Genzo perguntou não entendendo o que o outro dissera

- Wakabaiashi, você a acha uma mulher atraente? - Kaltz perguntou parecendo irritado com a velocidade com que Genzo levava para entender as coisas que ele dizia

- Hã... s-sim... – respondeu gaguejando e sentiu as bochechas queimarem. Olhou rapidamente para Karl que riu dele.

- É por isso que ela gosta de funk. Ela sabe o quanto é linda e o quanto é desejada e gosta de brincar com os homens.

Brincar... Então era isso... Ela só estava me testando... ela não me am..., seus pensamentos foram interrompidos por Maya que chegara à mesa onde eles estavam. Ele ficou feliz por ela ter chegado bem naquela hora, antes que Karl ou Kaltz dissessem mais alguma coisa.

- Rapazes... – ela começou a dizer, ofegante, e parou para colocar uma mecha de seu cabelo, que insistia em cair sobre seus olhos, atrás da orelha. – Vocês vão vir dançar ou não? – Kaltz gargalhou ao ouvir a pergunta como se a resposta fosse óbvia e Maya franziu o cenho em sinal de reprovação. Revirou os olhos, cansada, e perguntou mais uma vez: Rapazes, com exceção do Kaltz, vocês pretendem vir dançar, ainda esta noite? – Karl deu um longo suspiro e Genzo a olhou inocente – Karl, por favor... Venha dançar comigo...

Karl deu um longo suspiro e abriu a boca para recusar o convite, mas ela abriu a boca abismada e ele não resistiu ao modo sedutor com que ela pedira e levantou-se para ir dançar com ela. Maya juntou as mãos e deu um pequeno salto, animada.

Ao ver que eles haviam ido embora, Genzo perguntou:

- Kaltz, você disse que a Maya gostava de provocar o pai e o irmão, por quê? – Kaltz olhou para o copo em sua mão e depois para Genzo, seu olhar não expressava nenhuma emoção além de cansaço.

- O pai dela saiu de casa quando ela tinha 6 anos para vir para a Alemanha. Alguns meses depois a mãe dela foi para a França treinar algumas patinadoras de lá.

- Patinação no gelo? – perguntou entusiasmado. No Japão era comum as pessoas visitarem pistas de patinação no gelo. Ele não tinha o costume de fazer isso sempre, mas sempre que podia ia até um ringue de patinação no gelo.

- Isso. A mãe dela foi uma das melhores patinadoras do mundo, mas se aposentou quando ficou grávida do Rivaul e quando Maya completou cinco anos começou a treiná-la. Aos 13 anos, a garota já era profissional e ganhou o campeonato mundial.

- Eu ouvi falar nisso. Ela foi a campeã mundial até os 15 anos, quando desistiu da patinação e se juntou a uma banda. Ela ficou muito famosa no Japão. Lembro que todos os meus amigos compravam CDS e outros objetos que tivesse o nome Maya Lopez. – Kaltz riu mais uma vez e Genzo fez o mesmo

- A Maya viveu alguns meses na França com a mãe dela, mas depois voltou ao Brasil e foi criada pelo mordomo da família. Quando ela completou 14 anos Rivaul foi para a Espanha, jogar pelo Catalunã e ela parou de cantar alguns meses depois porque viu que a única forma de unir a família novamente era através do futebol. – ele desviou sua atenção de Genzo e passou a contemplar Maya com uma expressão triste no rosto. – Ela se sacrificou por todos. Sacrificou todos os seus sonhos por eles, mas ninguém nunca se importou.

- Ela gosta muito de dançar, não é? – perguntou Genzo tentando mudar de assunto. Não se sentia bem ouvindo Kaltz falar sobre as frustrações de Maya.

- Sim, essa é a paixão dela. Mas ela fica muito mais bonita dançando sobre o gelo, parece um anjo. – o alemão suspirou profundamente e tornou a olhar Genzo – Wakabaiashi, o Karl me falou que você é um bom goleiro, é verdade?

- Ele falou isso? – perguntou incrédulo e Kaltz fez que sim com a cabeça – Achei que ele não gostasse de mim. – o outro homem gargalhou mais uma vez

- Ele está...com...ciúmes...da Maya...! – ele respondeu entre gargalhadas

- Por que ele teria ciúmes dela? – Kaltz parou subitamente de rir e o fitou nos olhos, como se perguntasse se ele não sabia mesmo a resposta.

- Porque está na cara que você gosta dela. – tomou mais um gole de sua bebida e olhou mais uma vez para Maya dançando, depois para Genzo que parecia estar surpreso por ouvir aquilo. – Se eu fosse você, a esquecia. Não vale a pena investir em alguém que já é comprometida. – ele tornou a olhar para a pista de dança e Genzo fez o mesmo. O japonês estreitou os olhos ao ver Maya saltar e depois prender as pernas na cintura de Karl, sorrindo de felicidade.

- Agora o melhor que você pode fazer é desistir porque Karl acabou de pedi-la em casamento. – tomou as últimas gotas do que estava bebendo e se levantou, disposto a ir embora. – Te dou uma carona até o hotel onde está hospedado, se você quiser.

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Mais tarde, no hotel onde Genzo estava hospedado, este estava deitado em sua cama observando o teto. As imagens de Maya dançando com Karl e o que Kaltz lhe dissera sobre ele estar gostando dela - embora ele próprio não quisesse admitir isso -, tudo isso era informação demais para sua cabeça.

Estava quase pegando no sono quando o telefone tocou. Olhou o relógio em seu pulso e tentou imaginar quem poderia estar querendo falar com ele às 0h46. Levantou-se da cama num impulso e tirou o telefone do gancho.

- Alô... – ele disse, sua voz ligeiramente cansada, porém esse cansaço sumiu ao descobrir quem estava ligando para ele

- Espero não ter acordado você, Tigrão. – Maya disse não parecendo estar nem um pouco cansada.

- Não, eu... Não consegui dormir. – ele respondeu imaginando se ela saberia que ela era a razão de ele não conseguir dormir. Deixou-se cair na cadeira mais próxima, tamanha sua surpresa.

- Por que você foi embora tão cedo? Antes que você pergunte, consegui seu telefone ligando para o Kaltz. Ele me disse que você tinha dado o número para ele no carro. Mas, não querendo desviar do assunto pelo qual eu liguei, por que exatamente você foi embora sem esperar a mim ou o Karl?

- Eu estava cansado e Kaltz me deu uma carona. – começou a enrolar o fio do telefone com o dedo indicador, nervoso – Não me entenda mal, não aconteceu nada mesmo. Vocês foram muito gentis comigo e eu não gostaria que achassem que eu estou sendo ingrato.

- Ah, claro que não. Ah, e você... Vai assistir ao meu jogo amanhã?

- Claro, onde vai ser?

- No estádio do Grawlbald, às 9 horas da manhã! - ela respondeu parecendo animada com a resposta dele - Você vai?

- Vou, claro. Não me avisaram que teria nenhum treino, então não vejo razões para não ir.

- Legal! – exclamou ela do outro lado da linha, contente – Então nos vemos amanhã, Genzo, au revoir!

Ele mal teve tempo de responder e ela já havia desligado.

Será que ela vai conseguir jogar bem amanhã? Digo, duvido que ela vá conseguir dormir mesmo...

No dia seguinte Genzo teve dificuldade para acordar, porém conseguiu chegar a tempo no estádio aonde o jogo aconteceria. Como não encontrou Maya nem Kaltz ou Karl, comprou um ingresso para o jogo e foi até a arquibancada e sentou-se em seu lugar.

Não demorou muito até as belas jogadoras alemãs entrarem em campo e ele logo avistou Maya à frente de todas elas; a faixa de capitã amarrada em seu braço direito, a blusa verde e branca com o emblema do time do lado esquerdo e um short preto mais colado ao corpo do que o do uniforme masculino. Os longos cabelos ruivos estavam presos num rabo de cavalo e, mesmo longe dele, ele pôde admirar a beleza dela mais uma vez.

Todas as jogadoras se dirigiram ao meio do campo e ficaram em suas posições. Maya e a capitã do outro time foram até a linha que dividia o campo em dois e se cumprimentaram, apertando as mãos. A juíza jogou uma moeda para o alto e depois colocou a mão esquerda em cima da direta quando a moeda caiu na direita. Ela apitou e apontou com o braço para o lado do campo onde estavam posicionadas as jogadoras do Grawlbald. O time de Maya iria começar com a bola.

Um homem que estava sentado ao lado dele se levantou, gritando por Maya. Genzo logo entendeu o que Kaltz quis dizer sobre Maya ser desejada por vários homens, porém achou melhor ignorar o homem ao seu lado e prestar atenção no jogo e o que viu o surpreendeu: quando a juíza apitou dando início ao jogo, Maya levantou a perna direita na altura da cabeça e chutou a bola em direção ao gol. Esta fez uma curva no ar e depois entrou no gol. Maya ergueu o braço direito num gesto vitorioso e Genzo logo se arrependeu de ter duvidado das habilidades da Deusa do Futebol. Nesse dia o Grawlbald venceu por 10 a 2.

Fim do segundo capítulo