Capítulo VI

Verdades reveladas e corações partidos

- Bom dia, senhor. - Genzo cumprimentou educadamente

- Bom dia, Wakabaiashi. Como foi o festival de ontem à noite? - o pai de Maya perguntou

- Ah, foi muito divertido, senhor. Sua filha não lhe contou?

- Não. Eu e ela... Não estamos nos falando.

- Ah. Sinto muito.

- Tudo bem. Mas, diga-me, Wakabaiashi, você gostou do festival?

- Gostei, sim. Hoje haverá uma prolongação. Vim saber se a Maya gostaria de ir.

- Tenho certeza de que ela irá. Aliás, vou falar com os outros jogadores sobre este festival. À que horas começa mesmo?

- Às 18h, senhor.

- Obrigado. Foi bom encontrar você hoje, Wakabaiashi.

- Digo o mesmo, senhor.

-

Tocou a campainha do quarto 307 e bagunçou os cabelos com a mão direita, nervoso, enquanto esperava.

E se o Karl tiver dormido aqui? Eu não gostaria que ele abrisse a porta...

- Ah, olá, Genzo! - Maya disse animada quando abriu a porta

Ele sentiu as bochechas arderem. Ela estava bem... Não havia outra palavra para descrevê-la, ela estava sexy. Os cabelos ruivos estavam desalinhados formando cachos sobre a camisola preta, curta e um pouco transparente.

- Só um minutinho, ok? Vou me trocar e volto para falar com você. - ela disse também vermelha ao perceber o porquê de ele estar rubro.

Pelo menos ele não dormiu aqui, ele pensou aliviado.

- Então, o que você queria falar comigo? - Maya perguntou ao fechar a porta do quarto - Vamos até o restaurante, por favor, eu ainda não tomei café da manhã.

- É sobre o festival. - respondeu quando entraram no elevador. Procurou algo no bolso direito. - Tome. - disse entregando a ela um papel dobrado.

Hoje à noite, na prolongação do Festival da Primavera os jovens talentosos poderão competir num concurso para bandas. O prêmio é um cheque de U$ 100.
Venha, participe! Isto é, se você tem talento o bastante para tocar E fazer com que as pétalas de cerejeira caiam.

Obs.: Não é preciso trazer os instrumentos musicais. A Escola Nacional
de Música disponibilizou todos os instrumentos necessários para os participantes.

- Um concurso de bandas? - perguntou entregando a ele o panfleto do concurso

- Sim, eu estava pensando que nos poderíamos nos apresentar tocando aquela sua música.

- Qual música? - ela perguntou surpresa

Os dois saíram do elevador e foram até o restaurante do hotel para que Maya pudesse tomar café da manhã.

- Ah, não... Nem vem... Você não está pensando em... - ela começou a falar entendendo o que ele estava falando, mas ele a interrompeu.

- Sim. Essa mesmo. - ele disse quando os dois se sentaram numa mesa perto de uma das grandes janelas do local

- Ah, Genzo, por favor... Eu já falei porque não a toco. Minha família tem que representar o papel da família perfeita. Quando mamãe foi morar na França, nós tivemos que dizer que ela só queria algo para se divertir, que estava tudo bem. Mas não estava! Mamãe e papai estavam se divorciando.

- Mas, Maya, chega de pensar nas outras pessoas. É hora de pensar em você. Ou você vai abdicar dos seus sonhos até o final da sua vida?

- Eu não... - ela tentou se justificar, mas ele levantou a mão direita pedindo que ela parasse

- Você já tentou tudo o que podia. Eles não têm conserto. Mas o seu coração partido pode ser consertado. Deixe-me consertá-lo. - ele disse segurando na mão dela que estava apoiada na mesa

- Tudo bem. - ela disse colocando a outra mão sobre a dele. - Vou perguntar à Mia se ela pode tocar bateria na apresentação.

- Por que você não toca? - ele perguntou tirando a mão de cima da dela. Era perigoso demais.

- Porque eu já vou cantar. Experimenta cantar e tocar bateria ao mesmo tempo... - ela disse brincalhona. Genzo sorriu para ela.

- Vou nos inscrever para o festival, então. - ele disse antes de se levantar e dar um beijo na testa dela quando se levantou. Ele ignorou o rosto corado dela e depois disse: Eu falei com o seu pai sobre o festival ainda há pouco e ele disse que vai levar o time para assistir.

- Ótimo. Assim poderei ver o rosto dele quando eu estiver cantando. - ela murmurou para si mesma quando Genzo já havia ido embora

-

- Maya, tem certeza de que quer tocar essa música? Você tem várias músicas boas, por que logo essa? - Mia perguntou ao terminar de ler a letra da música

- Tenho sim, Mia. O Genzo está certo. Chega de fingir ser perfeita, chega de fingir ser a Deusa do futebol.

- Ah, o Genzo de novo... - ela disse impaciente revirando os olhos

- Ele é só meu amigo, ok? - Maya disse jogando uma das almofadas do quarto de Mia nesta

- Sei, sei... Mas ele merece os meus cumprimentos, fez a Deusa do Futebol querer mostrar-se aos seres humanos...

Maya sorriu para ela.

-

- Nós não vamos precisar ensaiar a música? - Genzo perguntou enquanto Maya e Mia terminavam de ajeitar os cabelos em frente à penteadeira do quarto de Maya.

- Não precisa. - Mia disse enquanto prendia a longas madeixas num rabo-de-cavalo alto.

- Eu conheço a cifra, mas você não... - Genzo começou a dizer, mas Mia o interrompeu, impaciente.

- Eu já decorei, ok?

- Decorou? Mas você precisa praticar! - ele disse abismado

- Genzo, relaxa, a Mia é uma excelente baterista.

- Ok, que seja. - ele disse encaminhando-se à porta. - Vou esperar por vocês lá fora.

Mia esperou Genzo sair e depois abraçou Maya.

- Eu não ia me importar se você gostasse dele... Mas, mudando de assunto, tem certeza de que você está bem? - ela perguntou desviando a cabeça do ombro da ruiva para observar o rosto dela enquanto ela se maquilava

- Estou. Só um pouco nervosa.

- Nervosa porque o seu pai vai ouvir a música? – perguntou preocupada - Nós podemos tocar outra música sua caso você queria desistir. Lembre-se de que eu e você já tocamos juntas algumas músicas da sua banda antiga.

- Eu estou nervosa porque não faço um show há quatro anos! Relaxa, Mia, ou vou expulsar você do meu quarto. - exclamou nervosa e se afastou de Mia. - Estou cansada das pessoas se preocuparem comigo o tempo todo e de ficarem me chamando de senhorita. Senhoria Maya, a senhorita está bem? Não tem algo que eu possa fazer pela senhorita? - disse imitando os trabalhadores do hotel que a ficavam tratando como uma criança muito mimada. - Já estou de saco cheio. - completou bufando enquanto passava batom nos lábios.

-

Deu uma espiada no público pela cortina do palco montado. A última banda a tocar antes deles parecia estar demorando muito para encerrar seu número.

- Maya. - Karl chamou atrás dela. - Preparada para deixar todos babando? - perguntou segurando o corpo dela pela cintura para que pudesse virá-la e abraçá-la. - Se o quesito fosse beleza, você já teria vencido. - afastou-se dela por um minuto para observar o que ela vestia. - Ou sensualidade...

Maya vestia calças jeans e uma blusa branca, com uma bolta preta por baixo. Os cabelos estavam presos em dois rabos-de-cavalo frouxos apoiados nos ombros.

- Obrigada por se preocupar comigo. - ela agradeceu sorrindo para ele

- Não há de que... - ele sussurrou antes de inclinar a cabeça para beijá-la. Maya o repeliu com a mão direita.

- Hã-hã, nem pense nisso. Vai tirar o batom. - disse apontando para os lábios

-

O público aplaudiu antes dos três entrarem no palco, mas quando viram Maya aplaudiu com mais emoção ainda.

Maya sentou no banco de madeira do piano e levantou a tampa deste; Genzo colocou a guitarra sobre os ombros e Mia sentou no banco da bateria.

Maya suspirou e, ajeitando o microfone, falou:

- Muitos aqui me conhecem como a deusa do futebol, mas se esquecessem desse título pelo menos esta noite, eu ficaria muito feliz. - algumas pessoas na platéia riram achando graça e Maya sorriu também. - Não gosto de ser a deusa do futebol. - ela disse séria e todos se calaram surpresos. Maya imaginou a expressão no rosto do pai que devia estar ouvindo-a naquele momento. - Não gosto de futebol. Tudo o que eu sempre desejei foi cantar, mas senti que não jogasse futebol minha família permaneceria desunida. E essa música... - falou passando os dedos pelas teclas do piano e começando a tocar a música. - se chama Confessions of a broken heart, Daughter to fathere eu a compus há cinco anos e ela é para você... Papai.

Quando acabaram de tocar, o público permaneceu em silêncio. Maya levantou-se do piano e foi até a frente do palco acompanhada de Genzo e Mia. Fizeram uma reverência e o público aplaudiu.

-

- Papai... – Maya sussurrou ao ver o pai parado na parte de trás do palco após a apresentação dela.

- Oh, Maya, perdoe-me, eu... Eu não queria machucar você, você é a minha filhinha! A minha princesinha! – ele disse chorando quando a abraçou. Maya chorou também.

Mia fez um sinal para Genzo e os dois saíram dali.

- Tudo bem, papai... Promete que tudo vai voltar a ser como antes?

- Sim, querida, eu prometo...

-

Maya, Genzo e Mia venceram o concurso, mas recusaram o prêmio e ele foi dado ao segundo colocado.

Quando subiram ao palco o público pediu que cantassem novamente e eles tocaram uma outra música da banda de Maya que ela havia feito para Karl quando se conheceram.

E, ao final da música, Maya anunciou:

- Depois que Karl e eu nos casarmos – o que será semana que vem - vou falar com os rapazes da banda e, se eles concordarem, sairemos em turnê e lançaremos um cd novo. Não vou abandonar o futebol. Não agora. Mas também não quero continuar a abdicar dos meus sonhos.