Goddess of the soccer
Capítulo 8: Eu só quero amar você
- Hm...
Maya despertou lentamente naquela manhã.
Quando acordou continuou deitada na cama olhando para o teto desta por alguns minutos.
Depois se sentou na cama abraçada às pernas.
Hoje deveria ser o dia mais especial da minha vida. Mas por que não me sinto assim, especial?, pensou
Colocou o pé direito nu no carpete rosa-claro felpudo e colocou o robe por cima do pijama. Procurou as pantufas embaixo da cama e quando as achou caminhou em direção à sala de estar.
Apertou o botão da secretária-eletrônica e jogou-se no sofá.
"Maya, querrrrrida, é a mamãe. Gostarrrria de desejarrrrr muita sorrrrte hoje. Brrrrrilhe, meu lindo solzinho."
- Bah, mamãe, eu diria que hoje estou mais para uma lua distante do Sol, sem brilho algum.
"Boa sorte, princesinha da Alemanha!", o coro das vozes de suas amigas fez-se ouvir alegre na sala seguido de alguns gritinhos eufóricos delas.
- "Princesinha da Alemanha"? Putz, de onde elas tiraram essa?
"Maya, precisamos conversar. Bem, é só isso. Tchau."
A voz de Karl a fez olhar para o objeto inanimado sobre a mesa de jantar.
Será que... ele sabe?, perguntou a si mesma.
A lembrança do beijo de Genzo invadiu sua mente. O toque carinhoso, forte, cálido dele fez com que seus lábios tremessem.
Não... não havia mais ninguém naquele parque... Ele não pode saber. Não pode!
"Não sei o que você tem na cabeça, mas dessa vez você realmente pisou na bola, maninha. Achei que estivesse feliz com o Karl. Mas, ora bolas, por que foi beijar o japonês? Só falam sobre isso, em todos os canais da tv. Espero que ainda vá ter o casamento, os garotos estão ansiosos para conhecer a tia deles. De qualquer jeito, vamos pegar o próximo vôo para a Alemanha."
Procurou desesperada o controle remoto e, não o encontrando, correu até a estante e apertou o botão da tv.
"Ontem de manhã, a cantora Maya Lopez, também conhecida como a deusa do futebol, fez com que todos os jornalistas de fofocas estivessem certos. A princesinha brasileira dizia não ter nenhum envolvimento com o goleiro japonês Genzo Wakabaiashi, mas se contradisse ao beijá-lo, num parque perto de sua casa. Vale ressaltar que Maya está noiva de Karl Heinz Schneider e que o casamento deles será hoje no final da tarde, isso se a bela ruiva de olhos verdes-esmeraldas tiver uma boa explicação sobre seu comportamento. O autor da foto é John Trent, famoso por tirar fotos que os outros paparazzis considerariam impossíveis. Com certeza esse será o estopim de sua carreira. Ou da ruína desta. Torçamos para que a cólera da Deusa do futebol não se volte contra ele, afinal, ele só estava trabalhando para sobreviver, o que a senhorita Lopez faz apenas para 'reunir a família'. E agora a repórter Heleonora com a previsão do tempo."
Correu até o telefone e discou alguns números.
- Papai... Sim, eu já ouvi as notícias e não tenho nenhuma explicação suficientemente boa para dar aos repórteres por enquanto, mas... Poderia ligar para os donos de jornais que conhece, e eu sei que são muitos, e dizer que não contratem John Trent?... Isso mesmo, John Trent. Oh, obrigada, papai, não sabe o quanto me deixou feliz!... Ah, ainda não liguei para Karl, mas pretendia me encontrar com ele. Não acho que seja certo falar com ele por telefone.
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- Ah, olha, a deusa beijoqueira! – algumas mulheres riram alto quando Maya passou por elas e entrou no prédio em que Karl morava
Não vale a pena brigar com elas, Maya, não vale a pena..., repetiu para si mesma enquanto subia os degraus do edifício tentando ignorar as mulheres.
Elas não a conheciam, não sabiam o que ela estava sentindo naquele momento. Mas...
...nem eu mesma sei...
- Bom dia. – Maya cumprimentou o recepcionista quando chegou ao balcão
- Bom dia, senhorita. Em que posso ajudá-la?
- Poderia informar ao morador da cobertura que Maya Lopez gostaria de conversar com ele e perguntar se posso subir?
- Um momento, por favor.
- Obrigada.
Maya desviou o olhar para o saguão enquanto o recepcionista falava com Karl pelo interfone.
- Ele está à sua espera, senhorita. – ele disse após alguns segundos
- Obrigada. – agradeceu forçando um sorriso e foi em direção ao elevador
Apertou o botão e olhou para as portas enquanto estas se fechavam.
"Quando não houver nada que possa dizer, diga apenas a verdade.", a voz de sua mãe ecoou em sua mente e ela suspirou fundo quando as portas do elevador se abriram e ela saiu
Quem me dera que isso fosse tão fácil quanto a senhora dizia que situações assim seriam mamãe...
Tocou a campainha e ficou olhando nervosa para os pés enquanto Karl não abria a porta.
Será que ele estava bem?
- Ah, oi, Maya. Entre, por favor.
A camisa de mangas de botões que Karl usava estava aberta e, como em poucas situações anteriores, Maya achou-o atraente.
Sentou num dos sofás beges que havia na sala de Karl e pôs as mãos sob as pernas, como a mãe a ensinara que deveria se sentar.
Por que não me ensinou o que fazer numa hora como essas também, mamãe?
Karl sentou-se no sofá em frente ao que ela sentara.
- Karl, eu... Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. Nem eu sei o que aconteceu direito, eu só sei que... Só percebi que o tinha beijado quando...
- Não precisa falar nada.
- Karl, você...? – perguntou temerosa.
Ela o havia machucado... Como pudera fazer algo assim? Logo Karl que substituíra Rivaul quando ela foi para a Alemanha. Logo ele que era como um irmão para ela... Naquele momento achou-se desprezível e desejou voltar no tempo.
Mas se eu voltasse no tempo eu não teria...
- Você ainda quer casar comigo?
- Do que está falando? É claro que quero!
- Maya, eu posso perdoar a traição porque não importa se houve traição ou não... O importante é o quanto você ama a pessoa, e... Eu te amo de verdade, Maya e estou disposto a fingir que nada disso aconteceu. Que se danem os repórteres! – agora ele já havia levantado do sofá e se ajoelhado em frente a ela, com as mãos em cima das dela, em seus joelhos. – Que se danem todos que falarem mal de você! Eu bato em todos que ofenderem você, não suportaria ver você triste! Mas... Para fazer tudo isso eu preciso saber, Maya: você ainda quer se casar comigo?
- Karl, eu... – hesitou por um momento. Qual o problema em dizer sim a ele? Por que essa hesitação? – Eu não quero magoá-lo de novo, você é tão importante na minha vida... – lágrimas escorreram abundantes por seu rosto.
Karl sentou no sofá ao lado dela e a abraçou fazendo com que seu rosto ficasse apoiado no peito dele.
- Você também é muito importante para mim, anjinho... – beijou carinhosamente o topo da cabeça dela e chorou também, mas ela não viu.
- Eu quero... Quero me tornar sua esposa, quero fazê-lo feliz!
- Isso já me deixou muito feliz, você não sabe o quanto, pequena. Eu amo você, Maya.
- Eu... Eu também.
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- Wakabaiashi? – a voz de Kaltz ao telefone fez Genzo acordar de seu transe. – Você ouviu o que eu disse ou estava viajando, ein?
- Ah, desculpe-me, eu... Distraí-me por um momento.
- Um momento? Você tem feito isso desde que atendeu ao telefone! Sua voz está tão distante. Você está com algum problema?
- Do que você estava falando mesmo? – perguntou tentando impedir que Kaltz chegasse à conclusão do porquê de ele estar tão distraído.
Apesar do que eu disse... Ela ainda vai se casar com ele. Ela não me ama, nunca deveria ter me declarado.
Poucos minutos antes de Kaltz ligar ele vira no noticiário das 14h que o casamento de Maya não havia sido adiado ou cancelado.
Isso o fez se sentir horrível.
Naquele momento ele chorou.
Seu primeiro amor o havia abandonado.
Mas ela nunca nem foi minha... Ela sempre pertenceu a ele.
- Estava dizendo que você não deveria ir ao casamento da Maya e do Karl.
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Maya olhou-se no espelho. Estava deslumbrante: o vestido de noiva era longo, acinzentado no corpo e nas mangas era branco-gelo com um decote grandes nos seios, uma renda branca ligada a um cordão – parecido com aquele cordãozinho dos uniformes de empregadas – de renda mais grossa no pescoço ficava no peito, tapando o decote e fazendo a parte de seus seios que ficava de fora ficarem quase imperceptíveis; luvas da mesma renda do cordão brancas; sapatos de salto baixo prateados. Os cabelos ondulados estavam soltos e apoiados no ombro direito, os olhos verde-esmeralda muito bem-maquiados e atraentes, porém sem brilho; os lábios carnudos estavam pintados com um batom vermelho. Estava linda. Linda como um anjo.
Anjo, algo que nunca fora; anjo, algo que ela apenas fingia ser.
A verdade é que ela era como um anjo caído: cheia de sentimentos ruins, como ódio, vingança, luxúria...
Porém naquele momento nenhum desses sentimentos habitava seus olhos.
Nenhum sentimento habitava seus olhos.
Seu coração... Estava sem nenhuma emoção.
Genzo.
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- Maya, querida, posso entrar? – o pai de Maya perguntou antes de entrar num dos quartos de um antigo palácio alemão aonde sua filha e Karl iriam se casar.
O casamento seria no jardim do palácio. A decoração estava magnífica, repleta de rosas brancas, as favoritas de Maya.
A imprensa também estava lá. Ela e Karl achavam melhor não lutar contra a imprensa e dar a eles as informações que queriam, como sempre fizeram.
- Você está linda, querida. – o pai dela disse ao beijá-la no topo da cabeça
Puxou o véu branco rendado enquanto acompanhava o olhar inexpressivo dela sobre ele.
O que houve com o brilho dessas belas esmeraldas?
- Obrigada, papai. – ela respondeu mecanicamente
- Vamos? – perguntou estendendo o braço a ela
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A marcha nupcial fez com que todos os convidados e jornalistas se levantassem e olhassem para a entrada do jardim.
Karl sorriu ao ver Maya tão bela.
Isso é como um sonho, ele pensou.
Maya olhava aflita para as pessoas no local.
Cada passo que ela e seu pai davam em direção a Karl fazia seu coração saltar.
Examinou o rosto de cada pessoa presente.
Descrédito.
Eles não achavam que ela levaria aquilo tudo tão longe.
Nem ela acreditava.
De um dos lados do padre avistou um rosto familiar e reconfortante.
Mamãe.
Os cabelos ruivos curtos, os olhos verde-esmeralda, a pele clara; sem dúvida, elas se pareciam muito.
Karl beijou sua mão quando o pai a entregou a ele e sorriu.
Ela não conseguia sorrir, só conseguia olhá-lo e se assustar.
Por que estou fazendo isso?
Os dois se ajoelharam diante do padre lado a lado.
Eu não o amo. Não como deveria. Ele é um irmão.
- Boa tarde, queridos amigos. Hoje estamos aqui reunidos para...
Casar com o irmão é considerado um ato incestuoso.
- Esses belos jovens que tão cedo pretendem assumir o compromisso matrimonial...
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Ela está se casando com ele... E não há nada que eu possa fazer...
Genzo chorou mais uma vez deitado em sua cama.
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- Se houver alguém aqui reunido que tenha algo a dizer e que possa impedir este casamento, que diga agora ou cale-se para sempre.
Maya olhou para os lados, aflita.
Ninguém ia falar nada.
Ele não ia falar nada.
Foi aí que ela percebeu: ele não estava lá.
- Sendo assim, vamos aos votos matrimoniais.
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Eu perdi... A única mulher que amei na vida... Eu a perdi para sempre...
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- Karl Heinz Schneider, aceita Maya Lopez como sua esposa e promete amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza; na saúde e na doença?
- Aceito. – Karl respondeu sorrindo enquanto colocava a aliança de diamantes no dedo de Maya.
Beijou delicadamente a mão dela.
- Maya Lopez, aceita Karl Heinz Schneider como seu esposo e promete amá-lo e respeita-lo na alegria e na tristeza; na saúde e na doença?
Ela olhou para o rosto de Karl, aflita.
Ele sorriu.
Ele espera que eu diga sim.
Olhou para trás e viu o rosto dos pais. Estavam espantados.
Estão estranhando que eu demore tanto para responder.
Olhou para os convidados.
Não, ele não estava lá.
A única pessoa que ela queria que estivesse... Não estava. Ele não estava lá.
Essa não. Eu amo... Sem perceber eu acabei me apaixonando por...
Ela olhou Karl mais uma vez e chorou.
Os olhos dele estavam surpresos. Ele chorou também.
Não que ele não quisesse casar com ela.
Ele queria isso mais do que tudo no mundo. Mais do que sua própria vida.
Ele chorou porque percebeu que ela não queria casar com ele.
- Eu... – ela gaguejou – Sinto muito, Karl... Não posso fazer isso... Não posso...
Puxou a barra do vestido e correu em direção à saída do jardim.
Os convidados iam se levantando, conforme ela passava por eles.
Sinto muito...
O padre pousou a mão grande sobre o ombro de Karl querendo confortá-lo, porém ninguém era capaz de fazê-lo naquele momento.
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- Wakabaiashi. – Karl disse quando Genzo abriu a porta de sua casa
Ele estava com uma aparência horrível. Parecia ter chorado.
Bem feito, Karl pensou com satisfação.
- Maya está aí? Por favor, não minta, eu tenho o direito de falar com minha noiva.
- Não, ela... Do que está falando? Ela não deveria estar na igreja se casando com você? O que você está fazendo aqui?
Genzo sentiu uma chama se acender em seu coração.
Ela não casou com ele?
- Ela não está aí?
- Não.
- Ok, obrigada.
Karl deu as costas à Genzo.
- Acho que sei onde ela pode estar.
Karl se virou e olhou Genzo com uma pontada de esperança na mente.
- Por favor, diga-me. Ela fugiu, não quis se casar comigo. Por favor, diga-me onde ela está. É óbvio que ela escolheu você, então, por favor, deixe-me pelo menos falar com ela. Ela é toda sua mesmo. No final, você venceu. Mas por favor, deixe-me ir até ela e conversar com ela.
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Maya olhou, desolada, as pessoas no ringue de patinação no gelo.
Como queria estar tão feliz quanto elas.
Como queria estar feliz.
As pessoas às vezes a olhavam, curiosas. O que uma noiva estaria fazendo ali?
Virou seu rosto para a esquerda.
Seu coração disparou.
O que ele estava fazendo ali? Como a achara?
Genzo.
Karl aproximou-se dela devagar e sentou-se ao lado dela na arquibancada.
Genzo. Ele contou. Então ele já sabe que eu não me casei.
- Por que não me disse que você o amava?
- Eu não... – ela não conseguia falar.
Eu não sabia.
- Você o ama, não negue.
Maya abaixou a cabeça, tristonha.
- O que está fazendo aqui? – ele perguntou de modo autoritário
- Karl, o que você...
- Eu perguntei o que está fazendo aqui. Você não o escolheu? Então por que não vai atrás dele?
- Eu... Eu tenho medo.
- Medo do quê?
- Do que as pessoas vão dizer.
- Você nunca se importou com o que as pessoas dizem de você.
- Mas agora é diferente. Eu não me importo com o que as pessoas vão dizer sobre mim, mas...
- Você se importa com o que elas vão dizer sobre ele. Não quer que elas o machuquem. – Karl completou
Ele está falando de mim.
- Não deveria se importar, não deveria ficar triste porque nesse momento... A pessoa que menos quer ver você triste é ele.
- Por que está fazendo isso? Porque veio até aqui e está me encorajando a ficar com ele se isso implica em não amar você?
- Porque eu amo você e quero ver você feliz. Não me importo com quem você vai ser feliz, eu só quero que você seja feliz.
Maya abraçou Karl.
Ele, de fato, era um irmão dela.
- Eu amo você, Karl.
Ele sorriu e a abraçou também.
Você não me ama do jeito que eu amo você. O seu "amar" é ser grata por eu ter substituído o Rivaul quando você precisou; por eu ter sido o seu apoio.
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- O que está fazendo aqui? – Genzo perguntou se controlando para não abraçá-la.
Estava tão linda naquele vestido de noiva. Entretanto, ela não se vestira daquele jeito para ele.
- Er... Eu soube que estão re-filmando o filme "A noiva em fuga". Deram-me o papel da protagonista e ainda estão procurando o protagonista masculino.
- Por que não chamam o Karl para fazer o papel dele? – ele perguntou. Sabia o que aquilo que ela dissera significava, mas precisava ter certeza.
- Ah, o Karl... Ele... Vai ficar fora de set por um bom tempo.
Ele sorriu.
Ela fez o mesmo.
Genzo deu caminho a ela e esperou que ela entrasse no apartamento para que ele fechasse a porta.
Maya examinou o apartamento por alguns segundos.
Não era luxuoso como o de Karl, mas ao invés do de Karl, aquele lugar trazia-lhe paz e conforto.
Sorriu para ele.
Genzo se aproximou devagar e a tomou nos braços.
Tirou uma mecha da franja dela dos olhos.
Ela sorriu e inclinou a cabeça.
Ele sabia o que aquilo significava e não podendo mais conter-se, beijou-a.
Foi mais perfeito do que o beijo anterior.
Foi mágico, foi como se tivesse dado a eles o segredo da felicidade.
Interrompeu o beijo por um segundo e segurou a mão direita dela.
- Tem certeza de que quer fazer isso?
- Eu amo você, Wakabaiashi.
- Eu também amo você.
Puxo delicadamente a luva dela e a jogou no chão.
Tomou-a nos traços com mais força e beijou-a calorosamente.
Ela puxou devagar a manga da camisa dele e a colocou sobre a cadeira.
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- Acho que nunca tinha feito isso.
- O quê? – ele perguntou beijando-a na bochecha
- Dormir depois que o sol nascer e ficar esperando por ele.
Genzo puxou-a para mais perto de si e ela apoiou a cabeça no peitoral nu dele.
E os dois adormeceram ali, na cama de Genzo, desejando que aquele momento nunca chegasse ao fim.
Mas os dois sabiam que para o amor que sentiam, não havia fim. E que cada vez que o fim se aproximava, era na verdade um novo começo.
Um começo para se amarem.
Continua.
