Maya estava deitada em sua cama, a barriga virada para baixo, enquanto rabiscava algo em um caderno de desenhos. Palavras como "Genzo" iam sendo escritas entre tentativas de composições de músicas enquanto seus pensamentos também se voltavam para ele.

Ela achava engraçado que ele só tivesse ido embora há três dias, mas ela já sentisse tanto a falta dele. Era uma sensação estranha, como se os dias fossem longos demais e as noites infinitamente chatas. Até aquele momento ela nunca tinha ficado sem ele. Mesmo quando os dois não eram namorados, eles sempre estavam juntos. E, depois de começarem a namorar, quando os dois não podiam se encontrar, eles sempre ligavam um para o outro e ficavam conversando por horas seguidas. Àquele momento nem isso ela podia fazer, já que ele estava todo o tempo ocupado, treinando. Ela também há havia voltado de seu treino fazia umas seis, sete horas. O dia todo fora tão entediante e ela estava tão sonolenta – porque não dormira no dia anterior – que ao chegar à sua casa a primeira coisa que fez foi jogar-se em sua cama e dormir. Dormiu umas seis horas, mas seu corpo se sentia tão cansado como se não o tivesse feito.

Ela ouviu o celular sobre a mesa de cabeceira a seu lado tocar. Ela tentou ignorar pegando uma das várias almofadas em sua cama e colocando-a sobre sua cabeça para abafar o som, mas não obtivera muito sucesso nisso. O som do telefone apenas fazia sua cabeça doer ainda mais, então ela resolveu atendê-lo de uma vez e parar com o causador de sua enxaqueca.

- Ma cherri! – ela ouviu uma voz animada e carinhosa dizer em francês – Como você está, querida ? Não tenho ouvido muitas notícias suas por aqui... Dizem até que você engordou muito e está com vergonha de aparecer na rua, o que eu presumo não ser verdade, você nunca teve tendência a engordar, sempre teve um rosto lindo e um corpo muito bonito também. Está tudo bem com você, querida?

- Sim, mamãe... – ela respondeu mecanicamente enquanto massageava as têmporas, tentando se lembrar de algo que a mãe dissera, mas nada lhe vinha a mente, a não ser a pergunta se estava tudo bem com ela. – Eu só estou um pouco desanimada.

- Por causa daquele rapaz? Eu ainda não o conheci, mas no dia em que o fizer, vou ter uma séria conversa com ele sobre deixá-la tão incomunicável assim! Eu venho tentando fazer contato com você há algum tempo e não tenho obtido muitos resultados favoráveis. Aliás, você devia conversar com as suas empregadas que insistem em dizer que você não está em casa, mesmo que eu ligue às 5 horas da manhã, por dois dias seguidos, e então é impossível você não estar em casa a essa hora... A menos que... Oh, Maya, você estava com ele na casa dele, é isso? Aliás, querida, vocês usam preservativos, não usam?

- Mamãe! – ela exclamou horrorizada com o rumo que a conversa havia tomado.

- Ora, querida, você sabe que uma gravidez aos 19 anos não seria algo muito inteligente da sua parte...

- Nós estamos usando preservativos, mamãe. – ela respondeu constrangida por ter de falar com a mãe sobre a sua vida sexual. Mas, ela pensou, seria melhor dar a ela as informações que ela queria ou não pararia de falar tão cedo.

- Oh, é mesmo? Eu sabia que sim, querida! Você é tão responsável! Não tão responsável quanto Rivaul, claro, mas pelo menos nesse quesito você se saiu melhor do que ele. A mãe dele não deve tê-lo instruído sobre isso porque, do contrário, ele não estaria com dois filhos e casado aos 25 anos.

- Mas você não conheceu a mãe dele, conheceu? – ela disse desejando encerrar a conversa de uma vez

- Não, durante o tempo em que seu pai e eu estivemos casados ele não falava muito sobre o casamento anterior e não parece que as coisas foram muito mais amigáveis do que no nosso casamento. – a mãe disse rapidamente, sem aprofundar muito o assunto. Maya aprendera desde cedo que conversar com os pais sobre um deles não era algo que ela deveria fazer, então não fez mais perguntas. – Mas e o rapaz, ele está aí com você?

- O nome dele é Genzo, mamãe e não, ele não está. Na verdade, ele está aí em Paris, para a Copa de Juniores.

- Desculpe por esquecer o nome dele, querida, prometo que não o farei novamente. Mas ele está aqui em Paris, ein? E por que você não está aqui?

- Papai não deixou. Disse que seria como se eu estivesse quebrando o meu contrato de trabalho.

- Mas isso é tão típico dele!

- Sim, eu sei. – ela disse deixando escapar um sorriso por entre os lábios. Sua mãe era realmente incrível, ela sempre conseguia faze-la sorrir, não importando a situação. – Eu gostaria de ir, mas tenho medo de ser demitida.

- Mas não é como se você precisasse disso para sobreviver, querida... E você já tem shows marcados para a próxima semana, não tem? Então essa pode ser a última chance de você e Genzo se verem pelos próximos dois meses, seu pai não deveria impedir você de estar com quem ama. Não se preocupe com o seu pai e venha já para cá.

- Mas mamãe... Você não acha que...

- Eu cuidarei de seu pai, a sua única preocupação no momento deve ser conseguir comprar a passagem de avião. – ela disse cortando logo o pessimismo de Maya.

- Obrigada, mamãe. Você é incrível. E sabe disso.

- É claro que sei. – a mãe respondeu do outro lado da linha, se controlando para não rir, mas não podendo deixar escapar um sorriso por entre os lábios, enquanto tragava um cigarro.

°--°--°

Maya caminhou pelo corredor de desembarque de movo apreensiva. Queria ver Genzo, disso ela sabia. Mas não sabia como seria a reação dele por ela estar ali. Ele podia ficar feliz, e era isso que ela queria, mas ele também podia ficar chateado por ela não ter cumprindo a promessa que fizera a ele.

Que se dane a promessa, eu só quero ficar ao lado dele. Ela pensou quando cruzou o corredor para a ampla área de desembarque de vôos internacionais do aeroporto de Paris.

Procurou por entre a multidão de pessoas e placas com nomes desconhecidos por uma mulher alta e ruiva, mas frustrou-se ao não encontrar ninguém. Estranho, ela pensou, sua mãe havia prometido que estaria ali para apanhá-la.

Entretanto, ao olhar para o lado oposto ao que estava procurando, ela viu um senhor de aparência idosa e gentil acenando para ela com uma mão e a outra balançando uma plaqueta com o nome dela, e um buquê de flores apoiado debaixo do braço com a plaqueta. Ela sorriu para ele e andou em sua direção.

- Olá, eu sou Maya. – ela disse estendendo a mão para ele

- Olá, senhorita Maya. Meu nome é Jacques e estou aqui junto com sua mãe para recebê-la, que, aliás, foi ao banheiro, mas estará de volta em alguns instantes. E bem vinda a capital do amor, senhorita. – ele disse ao pegar a mala dela e ela sorriu pensando no quão clichê aquilo era

- Obrigada. – ela agradeceu sinceramente quando recebeu as flores. Aproveitou para aspirar o perfume delas e sorriu feliz ao perceber que eram lírios, que ela preferia até mesmo às rosas brancas.

Ela caminhou lado a lado com Jacques enquanto segurava na mão o buquê de flores como se estas fossem um bebê.

- Minha mãe foi ao banheiro há muito tempo? – ela perguntou enquanto brincava com uma das flores

- Não, senhorita, mas já deve estar de volta. Vamos esperá-la aqui mesmo. – ele disse apontando para um dos bancos de metal do aeroporto

Alguns minutos depois, uma mulher alta e muito parecida com Maya, a não ser pelos cabelos curtos na altura da orelha, e por ela aparentar ser mais velha do que ela, mesmo que aparentasse muito pouco, estava de volta do banheiro atravessando graciosamente o salão de desembarque enquanto os vários olhares se voltavam para ela, que mais parecia uma celebridade desfilando pelo tapete vermelho do que uma mãe que havia ido receber a filha que chegara de viagem.

- Maya! – ela exclamou quando avistou Maya sentada na poltrona ao lado de Jacques. – Você está tão linda, querida! E o seu cabelo está curtinho... Você está muito fofa, Maya! – ela continuou a dizer quando abraçou a filha, tocando as pontas do cabelo dela. – Você parece uma princesa.

Louise pegou as mãos e colocou-as de modo a ficar com o rosto da filha entre elas, observando o quão bonita ela ficara e lamentando que não pudera presenciar o crescimento dela de forma integral. Se ao menos ela não tivesse sido tão egoísta e pensado tanto nela mesma...

- E você uma rainha. – Maya disse lembrando-se de uma conversa que tivera com Genzo há um ano.

Maya se levantou e acompanhou a mãe e o mordomo desta até a limusine que os esperava do lado de fora do aeroporto. Os raios de sol bateram em seus olhos e estes arderam por não estarem acostumados àquela claridade. Ela puxou o óculos do topo da cabeça até os olhos e entrou no carro, seguida pela mãe que fez o mesmo.

Olhando pela janela do carro em movimento, ela percebeu que estar em Paris lhe trazia boas lembranças da época em que ela morara lá com a mãe, mesmo que a cidade estivesse diferente e ela não reconhecesse a maior parte das ruas pelas quais passavam. Todas menos a rua onde a casa de sua mãe ficava. Esta ela nunca esquecera.

E nem poderia esquecer das árvores belas e majestosas no quintal da casa, ou até mesmo dos tijolos usados na construção. Ela se lembrava de tudo, desde os mínimos detalhes.

- Meu quarto está o mesmo de antes. – Maya disse quando a mãe o abriu com uma chave e depois entregou-a a ela.

- É claro, querida, achou que eu o transformaria numa sala de ginástica?

Maya riu do comentário da mãe e pegou uma boneca na estante ao lado da porta, querendo se lembrar o nome que dera a ela.

- Marie.

- Sim, é esse o nome desta boneca. E o de todas as outras que você tinha, aliás. Você não era muito criativa quando se tratava de nomes, querida. – a mãe disse antes de fechar a porta do quarto e sair para se arrumar para que ela e Maya pudessem ir ao hotel onde Genzo estava hospedado.

Ela se sentiu sozinha quando sentou na beirada da cama de casal, a boneca ainda em suas mãos. Ao olhar pela janela e ver o balanço antigo e cuja madeira começava a desbotar no quintal ela se sentiu pior do que já estava se sentindo. Ela se sentia tão dependente de Genzo que chegava a se repudiar por ser tão fraca.

E se ele não gostar de me ver aqui? – ela perguntou a si mesma e se levantou para ir até o bar na sala de estar, e pegou uma das várias garrafas de vinho que estavam ali.

Dane-se. – disse a si mesma ao pensar que aquela era a primeira vez que bebia algo alcoólico em anos.

°--°--°

- Maya! – Louise chamou novamente do último degrau das escadas que levavam ao segundo andar de sua casa. Ela vinha chamando Maya para irem visitar Genzo há alguns minutos, mas não obtinha resposta.

- Estou pronta! – Maya disse abrindo os dois braços quando chegou ao primeiro andar, não conseguindo conter um soluço, e riu logo a seguir deixando cair a garra de vinho vazia de sua mão

- Oh, meu deus, Maya, você está bêbada? – Louise disse ao sentir o cheiro insuportável do hálito de Maya

- Claro que não, Clarisse! – ela disse e recomeçou a rir

- Esqueça a visita ao seu namorado, querida, agora tudo o que você irá fazer é tomar um bom banho de água gelada. – ela disse conduzindo Maya para cima, em direção ao banheiro.

°--°--°

Quando a campainha tocou, Louise acenou para o mordomo indicando que ela mesma atenderia quem estivesse chegando, e então quando abriu a porta sorriu gentilmente para o homem parado em frente a ela.

- Olá, Genzo. – ela disse gentilmente não deixando de reparar na expressão assustada no rosto dele – Algum problema?

- Não, desculpe. – ele disse, as bochechas adquirindo um tom rosado – É só que a senhora e a Maya são tão parecidas que é como se eu estivesse olhando para ela própria... Desculpe.

- Cuidado para não se apaixonar por mim então. – ela respondeu piscando para ele, o que o fez rir.

- A senhora disse que a Maya estava aqui quando me ligou.

- É, nós planejávamos fazer uma surpresa e ir visita-lo, mas ela acabou bebendo demais – receio que ela tenha ficado um pouco nervosa – e então eu achei melhor não termos ido ontem. Mas como ela ainda não acordou e eu sei que ela gostaria de ver você, resolvi ligar. – ela disse gentilmente enquanto o conduzia para o interior da casa – Ela está no quarto dela, a segunda porta a direita no corredor do segundo andar.

- Obrigado. – ele agradeceu antes de subir as escadas correndo, preocupado com o estado de Maya. Ele nunca a vira beber e estava preocupado que ela pudesse ter ficado doente ou algo parecido.

Ao entrar no quarto, ele não pôde evitar um sorriso quando viu os pôsteres de vários cantores que eram famosos quando eles ainda eram crianças e várias bonecas nas várias prateleiras de uma estante de marfim.

Então foi aqui que ela cresceu. – ele não pôde deixar de pensar, feliz com o cheiro que emanava daquele lugar. Ela deve ter sido muito feliz enquanto esteve aqui. Mas me dá tanto medo pensar que essa felicidade foi passageira e que ela teve que passar por tanta coisa desde então...

Ele se aproximou devagar da cama onde ela estava deitada e afastou a franja dela da testa, enquanto fazia carinho nela.

- Genzo. – ela disse quando abriu os olhos e viu o rosto dele acima do dela, encarando-a profundamente. – Isso é um sonho?

- Não, Maya, não é um sonho... – ele respondeu gentilmente beijando-a na testa. – Ou talvez seja o mais bonito de todos os sonhos.

Ela sorriu para ele, mas logo se sentiu mal e levantou correndo para o banheiro da suíte ma tendo tempo de levantar a tampa da privada e vomitar ali dentro.

Genzo se aproximou dela e afastou o cabelo dela do rosto, segurando-o acima da cabeça e massageando as costas dela enquanto ela vomitava novamente.

- Obrigado por ter vindo. – ele disse quando ela parou de vomitar apoiando a cabeça nas costas dela, e se permitindo fechar os olhos e descansar por alguns segundos

Ela sorriu e abaixou a tampa da privada, colocando sua mão sobre a de Genzo que estava apoiada no chão.

- Obrigada você. E desculpe por não cumprir a promessa.

- Que se dane a promessa, eu só quero ficar com você. – ele disse sem mexer a cabeça das costas dela.

- Eu também, Genzo, eu também...

Fim do décimo segundo capítulo


Sabem o final do qual eu tanto venho falando há muoto tempo, desde que comecei a escrever esta história e desde então não venho me controlando e contando várias partes dele? Cansei de esperar para escrevê-lo e vocês poderão lê-lo em poucos dias – ou talvez minutos, caso eu não demore tanto a escrever.

A porta do futuro se abre agora, e esse não é um futuro muito agradável.