Goddess of the soccer – segunda parte

Capítulo 13: Rainha

Três anos haviam se passado desde a última vez em que Genzo Wakabaiashi vira Maya. Isso acontecera quando ela partira numa turnê mundial, e desde então ela nunca mais voltou a jogar futebol pelo Grawlbald. O contrato dela ainda existia, ela poderia voltar a jogar quando decidisse parar de cantar, mas ela não fez isso, não tão cedo.

O namoro dos dois ia bem, apesar da distância. Eles conversavam bastante via internet ou telefone, cartas e várias outras maneiras, além de um vôo ocasional para a cidade onde um deles estivesse, e então passavam um ou dois dias juntos. Mas não era nada mais do que isso. Eles se encontravam por alguns dias e depois voltavam às suas rotinas de antes.

Ele não gostava de ter que ficar sem vê-la, mas ela estava feliz, então ele abdicava de momentos que eles poderiam ter juntos pela felicidade dela. Porque ele a amava. Nunca deixara de fazê-lo, apenas o fazia mais e mais.

Ela havia retomado tudo o que abandoara quando começara a jogar futebol profissionalmente. Era como se ela nunca o tivesse feito, porque sua fama e a admiração que seus fãs sentiam por ela ainda eram as mesmas, e ela se sentia feliz por ter tudo aquilo de volta.

A Copa mundial se aproximava mais e mais, e o sonho de tornar o Japão o campeão mundial também, e então Genzo não vinha pensando tanto em Maya quanto pensava no início; ele ocupava sua mente com o treino visando tentar não pensar nela, o que era quase impossível.

Sinto necessidade de interromper minha narração para avisá-los de que a história deles dois a partir deste ponto não é feliz, não é agradável, não faz sorrir. Se o seu desejo for continuar com uma imagem bonita deles dois em sua cabeça, eu recomendo que pare de ler. Porque a partir de agora, nada será como era antes, os dois nunca mais poderão ser felizes como eram antes.

Mas continuemos com a história para aqueles que decidiram lê-la até o fim. Fim, que eu temo estar mais próximo do que esperava.

No dia em que ela anunciara a ele que estava voltando à Berlim, e que desta vez pretendia fazer uma pausa de sua carreira, e que pretendia voltar a jogar futebol, ele se sentiu tão feliz que criou coragem para pôr em prática uma idéia que vinha lhe atormentando há muitos anos.

Ao desligar o telefone, ele foi até seu quarto e procurou por um suéter entre suas peças de roupa, pois o tempo fora de casa estava muito frio, até nevando, e então se dirigiu até o exterior do apartamento onde morava e foi andando até o shopping, próximo dali.

Ficou feliz que as pessoas não o tivessem reconhecido – àquela altura ele já era muito famoso por ser o goleiro titular do Grawlbald, e por liderar o time desde que Karl fora jogar pelo Rotburg – e foi até uma joalheria discreta, mas com peças caras e muito apreciadas pelas mulheres que passavam.

- Posso ajudá-lo, senhor? – uma vendedora vestida elegantemente perguntou a ele quando ele ficou observando algumas jóias na vitrine

- Ah, na verdade, pode sim. Estou procurando por um anel de noivado. – ele disse satisfeito com o quão bem aquilo havia soado.

- Tem algo em mente do que deseja? – ela perguntou desapontada por um rapaz tão bonito como ele já estar querendo se comprometer tão cedo, mas ele estava tão feliz que nem percebera o tom de voz que ele usara.

- Gostaria de algo discreto e delicado, mas que não seja algo simplório, porque a pessoa para quem vou dá-lo é muito especial, e também tem gostos bastante refinados... – ele disse desviando o olhar dela quando pensava nas vezes em que ele e Maya fizeram compras juntos no shopping – Gostaria de algo pequeno, mas que não fosse muito pequeno a ponto de não ser notado. Algo que mostre a rainha que ela é pra mim.

- Acho que sei exatamente o que o senhor quer dizer. – ela disse sorrindo para ele, e tentando não rir do que ele dissera – Sente-se aqui enquanto eu vou buscar o anel de que lhe falei. – ela continuou apontando para uma cadeira com as costas enfeitadas com almofadas cor de vinho aonde ele se sentou

Alguns minutos se passaram até que a vendedora voltou à sala principal da loja com uma caixinha coberta com veludo por fora. Ela a entregou a ele ainda sorrindo, e pôde ver que ele estava contendo a respiração antes de abrir a caixinha.

- É perfeito. – ele disse sorrindo para o anel dentro da caixa. – É exatamente o que eu queria. Vou levá-lo. – ele disse puxando o cartão de crédito da carteira, sem ao menos perguntar quanto o anel lhe custaria. Não importava. Ele faria tudo por Maya. E o dinheiro nem importava, àquela época de sua vida ele vinha ganhando bastante, jogando pelo Grawlbald e também com patrocinadores, além de comerciais de televisão ou de brinquedos.

°--°--°

Quando saiu do avião, Maya sentiu-se extremamente feliz por estar de volta à Berlim, afinal, fora ali que tudo começara.

Três anos – ela pensou com melancolia. Três anos longe de tudo isso... Não sei como pude agüentar tanto tempo. Quero ficar aqui, quero ficar aqui com ele, pelo máximo de tempo que nós dois tivermos.

Ela podia sentir mudança em si, podia sentir que não era mais aquela adolescente irresponsável e festeira que era antes. Ela estava diferente, até fisicamente. Entretanto, ela tinha medo de que Genzo não gostasse das mudanças, que ele não a amasse como amava antes. Porque em três anos muito mais coisas poderiam ter mudado, incluindo os sentimentos de Genzo por ela.

Ela não podia dizer com precisão o quanto os sentimentos dela por ele haviam mudado, mas ela sabia que as coisas não eram mais como eram antes, e esperava que pelo menos as coisas fossem mais brandas, e que pelo menos fossem felizes.

Ela o amava, disso tinha certeza. Isso não mudara, mas a intensidade do amor mudara. Se havia sido para mais ou para menos, ela não sabia. Ela nunca saberia antes de vê-lo, antes de poder tocar no rosto dele e beijá-lo.

E como eu quero beijá-lo... – pensou enquanto atravessava a passarela de desembarque para o salão do aeroporto onde o encontraria.

E então ela o viu. Ela o viu em meio a uma multidão de pessoas; entre uma infinidade de rostos, ela o viu. Sentiu o coração saltar tão alto como se fosse sair de seu peito.

O tempo parecia ter parado, e as pessoas pareciam terem ficado mudas. Ela só via a ele, e agora sabia com certeza: ela o amava mais, amava mais do que acreditara poder amar. Mais do que a ela própria.

Ele estava distraído olhando uma criança ao lado dele, que falava incansavelmente, e ela percebeu um sorriso discreto nos lábios dele.

Ele estava bonito, vestido com uma calça jeans desbotada, tênis pretos e uma camisa de mangas compridas azul. Ela não se lembrava de ele ser tão bonito quanto estava naquele momento.

E então o olhar dele encontrou o dela, e ela sentiu o ar faltar aos pulmões. O olhar dele era tão profundo... E o sorriso tão sincero e bonito.

Ela caminhou até ele devagar, enquanto ele também ia caminhando na direção dela. A distância pareceu maior do que realmente era, e cada passo que dava a fazia ficar com medo.

- Senti sua falta. – ele disse entregando a ela um buquê de flores.

Ela aspirou o perfume das flores e sorriu satisfeita, soltando a mala que vinha puxando, e colocou as flores em cima da mala.

Com a mão direita ela tocou o rosto dele e com o braço esquerdo ela enlaçou o pescoço dele, sem deixar de sorrir ou desviar o olhar dos olhos dele um instante sequer. Genzo abraçou sua cintura com os braços, trazendo-a para mais perto de si.

- Não tanto quanto eu senti. – ela disse quase não se controlando para chorar e então o beijou desejando que aquele momento não passasse nunca e que os dois pudessem vivê-lo eternamente.

Quando os dois pararam de se beijar, ele sorriu novamente para ela e pegou a mala dela com a mão direita, a esquerda estava colada na dela, os dedos entrelaçados enquanto os dois caminhavam lado a lado pelo aeroporto.

Uma pessoa ou outra olhava na direção deles de vez em quanto e apontava para eles cochichando, mas nada mais do que isso, elas não se aproximavam deles, deixavam que eles tivessem aquele momento juntos, só para eles.

- Eu planejei um dia incrível para nós dois hoje. – ele disse quando colocou a mala dela no carro e a puxou para mais um abraço

- Ah, é? Que pena que já está de noite... Eu teria adorado passar o dia com você.

- Não importa. No final do dia você vai ser minha mesmo. – ele disse sorrindo travessamente

- Mal posso esperar. – ela respondeu beijando-o nos lábios, e ele esperou que aquilo fosse verdade mesmo, porque ele estava com medo de fazer o pedido de casamento a ela e ela recusar.

Mas por que recusaria? – ele perguntou a si mesmo tentando afastar as dúvidas

Depois de ele ter ido buscá-la no aeroporto, ele a levou para um restaurante e os dois ficaram lá por horas, conversando sobre o tempo em que ficaram ausentes da vida um do outro e sobre o que acontecera durante esse tempo.

- Você fica muito bonita de cabelo grande, e eu gosto de poder olhar pro seu rosto e não ver a franja caindo nos seus olhos. – Genzo disse tocando de leve na ponta do cabelo dela, que agora estava na altura da cintura

- Você nunca disse que não gostava da minha franja. – ela disse colocando mais uma colher de pudim na boca e sorrindo travessamente

- Mas isso é porque eu gostava.

Maya encostou a cabeça na dele, olhando-o seriamente nos olhos e depois colocou outra colher de pudim na boca.

- Você é um bobo.

- Bobo por você.

- Que clichê!

- Você acha?

- Acho.

- Então você vai achar ainda mais clichê o que eu vou falar agora... – ele disse se controlando para não rir. Estava nervoso.

Ela largou a colher e olhou para ele ansiosa para saber o que ele havia planejado para encerrar o dia com chave de ouro.

- Uma surpresa? – perguntou ansiosa

- Muito mais do que uma surpresa.

- Eba, agora fiquei curiosa!

- Venha, levante-se. – ele disse puxando-a pela mão para fora da mesa e então se ajoelhou perante ela ainda segurando a mão dela, sem nunca desviar o olhar do dela.

Dava pra ver as pessoas ao redor deles olhando e cochichando, ele podia sentir o olhar de todos sobre ele, e também podia ver que ele realmente surpreendera Maya.

- Genzo, levanta. Todos estão olhando. – ela disse com medo do que ele fosse dizer, mesmo que ela já soubesse.

- E desde quando isso importa?

- Não importa... Eu só... Não, Genzo, levanta, vai. – ela pediu com lágrimas escorrendo dos olhos. – Por favor.

- Maya. – ele começou a dizer e ela pôde sentir as lágrimas rolando ainda mais.

Não... Ele vai pedir, ele vai pedir... – ela pensou aflita

- Casa comigo? – ele pediu e ela pôde sentir o coração saltando ainda mais do que saltara quando ela o vira no aeroporto

A sensação estava de volta, a mesma sensação de quando ela abandonou Karl no altar e quando bateu na porta da casa de Genzo, ainda com o vestido de noiva no corpo.

E então ela se lembrou do pai e da mãe, de Rivaul e da ex-esposa, assim como dos sobrinhos, e se lembrou até mesmo de Karl e Ashley, que estavam namorando há muito tempo.

Todos os casamentos em sua vida fracassaram. Todos os relacionamentos que ela tivera com as pessoas também terminaram em lágrimas. Por que haveria de ser diferente com Genzo? O que o fazia diferente dos outros? O que o imunizaria a não sofrer caso ela fizesse algo ruim a ele?

- Eu não posso, Genzo, eu não posso... – ela disse chorando e pôde ver a decepção no olhar dele.

Puxou a mão da dele e a levou ao rosto, chorando ainda mais, com vergonha de si mesma.

- Por quê? – ele perguntou ao se levantar. Não conseguia compreendê-la.

- Você não entende? Não vai dar certo... Não há amor suficiente, Genzo...

Aquilo o atingiu como um soco, em cheio no rosto. Não havia amor? E o que eles dois viveram durante seis anos? Do que aquilo era chamado? E as promessas de amor eterno e de que nada era mais forte ou mais vivo do que eles sentiam? Era mentira?

- Genzo. – ela chamou quando ele fechou a caixinha do anel e a colocou de volta no bolso, dando meia-volta para sair do restaurante.

- Esquece, Maya, me esquece. Acabou, acabou tudo entre nós.

- Não! – ela gritou puxando-o pela mão. – Nós podemos continuar a namorar. Não entendo o que há de errado nisso, Genzo, não entendo... Nós não estávamos nos divertindo? Nós estávamos nos divertindo tanto... Por que não continuar assim?

- Diversão? – ele repetiu encarando-a pela primeira vez desde que ela recusara o pedido. – É isso o que eu signifiquei pra você? Um refúgio da sua vidinha patética de patricinha? – ele perguntou, um tom de raiva em sua voz. E ela sentia que ele estava se controlando.

- Não...

- Então o que eu signifiquei pra você?

- Eu não sei...

- Se você não sabe após seis anos, Maya, então não acho que você saberá daqui a um ou dois anos. O melhor é nós dois não nos vermos mais. Adeus. – ele disse antes de sair do restaurante

Fim do décimo terceiro capítulo