Durante esse tempo todo eu menti para as pessoas a minha volta. Menti para os que eu amava, e menti para os que também me amaram. Eu achava que se mostrasse o meu verdadeiro eu, as pessoas fugiriam porque não iam querer se envolver com os meus problemas. E então eu aprendi a fingir. Aprendi com mamãe e papai, eles são mestres nisso. E agora... Eu me tornei igual a eles. Sou mais uma mestra na arte de fingir para a pessoa que mais amo. E, como eles, eu afastei essa pessoa de mim. Ela nunca mais vai voltar.

The goddess of soccer

Capítulo XIV

A arte de dar as costas

- Genzo, espere! – Maya gritou enquanto caminhava atrás de Genzo. Ele dava passos largos em direção ao gol e Maya tentava acompanhá-lo, mas seus passos eram tão pequenos comparados aos dele. Por fim, conseguiu alcançá-lo e segurou-o pelo braço. Genzo não virou o rosto para olhá-la e se escondeu atrás do boné. – Não fuja de mim, deixe-me conversar com você.

- E sobre o que você quer conversar?

- Eu amo você, e quero ficar com você. Deixe-me ficar com você.

- Acredito que você tenha deixado bem claro ontem à noite que não quer ficar comigo.

- Não... Eu não deixei nada claro. Você me fez mudar, me fez ser eu mesma e me fez pensar que eu também podia ser feliz. Eu fui feliz, fui feliz só com você. Com ninguém mais. Pede de novo. Pede pra eu me casar com você de novo, só mais uma vez. – disse quase que implorando, e nem se importou com as pessoas que pareciam ter se juntado ao redor deles para ver o que estava acontecendo.

Maya esperou em silêncio pela resposta dele, e largou seu braço. Ele não falou, parecia pensativo, como se estivesse considerando a resposta dela, o que lhe acendeu um pouco a esperança.

- Você diz que eu a fiz mudar, e você também me fez mudar, mas as mudanças foram tão poucas... Eu me sinto tão insignificante ao seu lado. E agora sei que não tenho mesmo valor para você. Se você me amasse como diz que ama, teria aceitado se casar comigo ontem mesmo, não teria levado tanto tempo para responder que sim. – Genzo virou-se para olhá-la e sorriu um sorriso apático, meio forçado, e aproveitou para passar a mão pelo rosto dela, que continuava tão lindo quanto conseguia se lembrar. – Não ter aceitado se casar comigo significa que você não pensou uma vez sequer nisso, que você nunca considerou essa possibilidade... Então, Maya, eu não vou fazer o pedido novamente. Eu não quero. Mas obrigada por tudo o que nós passamos junto. – disse e antes de sair deu um beijo em sua bochecha. O último.

Enquanto ele ia se afastando, Maya sentiu que era pra sempre. Acabara. O que eles tinham acabara. E não haveria mais volta, não haveria mais chances de retomar. Daquele momento em diante, seria apenas uma fantasia, alguns poucos momentos de conto de fada. E como todo conto de fada, aquele chegara ao final.

Sentiu-se como uma mestra em dar fim a tudo o que amava, como se fosse culpada por as pessoas estarem sempre a abandonando, e por nada dar realmente certo em sua vida.

Ou fui eu que as abandonei?

Mas não importava mais. Genzo ainda era importante, e não haveria chances de desistir dele tão facilmente.

Entretanto, semanas se passaram sem que suas tentativas de se aproximar dele surtissem efeito positivo. Aos poucos ela foi se acostumando a não tê-lo ao seu lado, e a não vê-lo pela manhã sentado de frente para ela na mesa durante o café da manhã, ou a mesmo ir sozinha para o trabalho. E o mais difícil foi se acostumar a dormir sozinha. Devido a essa dificuldade, adquirira o hábito de dormir abraçada a um travesseiro, que visava reproduzir o corpo de Genzo.

Os dias eram monótonos, e tudo o que fazia era dirigir de casa ao Grawlbald. Às vezes mudava a rotina e ia almoçar fora, mas nos últimos dias as notícias sobre seu rompimento com Genzo haviam se tornado mais fortes, e os repórteres pareciam estar afirmando a todo momento que a culpa era dele, que ele não a havia conseguido domar.

Entendeu que isso estava dificultando ainda mais suas tentativas, frustradas, de tê-lo de volta.

Oito semanas após o rompimento do namoro, Maya recebeu um telefonema de seu pai informando-a sobre um jogo da seleção feminina brasileira, e que ela deveria comparecer.

- Como os homens não poderão jogar, estão pedindo que seja com vocês. Mas não veja isso como uma afronta, querido, pois ambos sabemos que vocês, garotas, são muito melhores que Rivaul e os outros. – seu pai disse tentando consolá-la, mas em nada aquela informação a havia afetado.

- E contra quem será o jogo?

Houve silêncio do outro lado da linha por alguns instantes, e Maya repetiu a pergunta, pensando que talvez tivesse ocorrido ruído na comunicação.

- Japão. – ele disse rapidamente, porém não rápido o suficiente para que sua filha não escutasse.

- Então eu vou jogar contra o Genzo?

- Ele e mais 11 jogadores. Lembre-se disso. – disse querendo lembrá-la de que o objetivo da partida não era um reencontro entre ela e o ex-namorado. Também a alertou de que poderia dar uma desculpa para que ela jogasse, e que poderia torná-la convincente o bastante para que nenhum repórter tentasse deturpá-la.

- Não, eu quero jogar. E prometo que deixarei todos os meus problemas pessoas do lado de fora do estádio.

- Ótimo. Então passarei na sua casa mais tarde com as passagens de avião para o Japão. O jogo será na cidade de Tóquio. Haverá no mesmo dia da sua chegada à cidade um coquetel para todos os jogadores, de ambos os times, e os repórteres. Será um evento oficial, por isso o traje é fino. Não vá com roupas curtas demais.

Seu pai continuou a falar, porém ela não lhe deu atenção. A informação que recebera dele até então era mais do que suficiente. Entretanto, havia dado sua palavra de que se esforçaria para evitar desavenças com Genzo em pleno jogo, porém não havia garantido nada quanto aos intervalos.

Mal podia esperar para ver a ele e aos amigos. Iria humilhá-los numa vitória devastadora.