The goddess of soccer

Capítulo XV

Um gole a mais

Quando o avião em que Maya estava pousou na cidade de Tóquio, ela sentiu uma ânsia de vômito ter início, mas não era somente devido ao pouso e também devido à possibilidade de rever Genzo. Até aquele momento, não o via fazia muito tempo.

Pegou uma bala de menta em sua bolsa no bagageiro antes de sair, e recolocou os óculos escuros ao sair para a claridade de uma manhã japonesa. Estava feliz que a sua ida ao Japão não tivesse sido anunciada ao público, e que as pessoas apenas estivessem especulando quanto a ela jogar ou não na partida que aconteceria em dois dias.

No saguão um homem de terno preto a esperava com uma placa com seu nome. Cumprimentou-o o mais friamente possível. Não estava disposta a fingir gentilezas para com ninguém. O homem a conduziu até um carro no estacionamento, e a levou até o hotel onde deveria ficar hospedada.

O dia passou lentamente, e como não tinha nada a fazer e não estava disposta a sair e arriscar-se a ser reconhecida, dormiu durante a maior parte dele, acordando apenas quando o telefone ao lado da cama tocou. Era da recepção do hotel.

- Boa noite, senhorita Maya. Meu nome é Yume, e seu pai deixou um recado para que eu a avisasse quando a hora da festa de recepção aos jogadores chegasse. A festa se realizará em quinze minutos. – a recepcionista disse num inglês mal pronunciado, e com um forte sotaque japonês.

Maya agradeceu à Yume, e recolocou o fone no gancho.

A hora pela qual estava esperando havia chegado. Suspirou lentamente antes de se levantar, e assim que o fez dirigiu-se ao banheiro da suíte e tomou uma ducha quente. Ao sair, procurou no guarda-roupa o vestido que mandara passarem e o colocou mecanicamente. Ao lado do cabide do vestido, num outro cabide, estava uma bolsa pequena listrada em branco e preto, combinando com a outra peça, previamente arrumada com o que precisaria levar aquela noite.

Calçou sapatos pretos, de salto fino e alto, e penteou os cabelos, prendendo-os num rabo-de-cavalo alto, e maquilou o rosto com maquilagem leve.

Discou o número da recepção e pediu que uma limusine fosse chamada para levá-la ao local da cerimônia daquela noite. Depois, desceu de elevador até a portaria e ao chegar ao exterior do hotel, entrou no carro preto que a aguardava. O motorista a ajudou a entrar no carro e depois seguiu viagem.

Não demorou muito e logo havia chegado a um outro hotel, tão luxuoso quanto o no qual ela estava hospedada. Novamente, o motorista veio e a ajudou a sair do carro, e quase que ao mesmo tempo em que o fez, uma chuva de luzes de câmeras choveu em seu rosto.

Como não estava disposta a sorrir para os fotógrafos, Maya pôs a mão na frente do rosto, e foi ajudada pelos seguranças do hotel a entrar enquanto os repórteres faziam as mais absurdas perguntas. Não ouviu todas, porém alguns fragmentos chegaram a seus ouvidos, e a deixaram muito chateada pela indiscrição deles. A maior parte de perguntas era se Genzo era tão ruim na cama que a fizera procurar por outro namorado.

Mal entrara, e uma mulher a veio conduzir até o local da festa, que seria no restaurante do hotel. Enquanto a ia levando até lá, ela ia lhe falando que os repórteres e fotógrafos que haviam sido permitidos entrarem, haviam prometido não fazer perguntas a nenhum dos presentes e somente tirar fotos e escrever suas matérias. Maya agradeceu e sorriu mecanicamente para a moça quando esta a deixou no restaurante, cujas mesas e cadeiras haviam sido retiradas, quando ela se retirou do local.

O local estava repleto de homens japoneses bonitos e jovens, algumas colegas do mesmo time que Maya, e outras tantas pessoas que haviam comprado convite para o evento. Nenhum sinal de Genzo.

Rivaul vinha vindo em sua direção e sorrindo para ela, e Maya não pôde evitar fazer o mesmo, mas o fez tão sinceramente e tão diferente de todos os outros sorrisos que dera nos últimos meses.

- Você está bem? – perguntou quando a beijou na bochecha.

Após responder-lhe que estava bem, Maya deu-lhe o braço para segurar, e os dois puseram-se a caminhar pelo local enquanto eram seguidos dos mais variados olhares vindos de todas as partes. Fotos eram tiradas aos montes, porém sem que o flash das máquinas estivesse ligado.

- Gostaria de apresentar-lhe ao jovem de quem lhe falei durante tanto tempo. Você verá o quão fantástico ele é quando jogar contra ele amanhã.

Como não fizera objeção, Rivaul a conduziu até onde Tsubasa conversava com mais dois rapazes. Estava exatamente igual à vez em que o vira no Grawlbald há alguns anos, e pôde ver pelo seu olhar de surpresa que ele também se lembrava dela.

- Maya, estes são Tsubasa, Tarô Misaki e Kojiro Hyuga. Todos eles estarão no jogo amanhã. Rapazes, esta é minha irmã, Maya Lopez, a capitã da Seleção Feminina.

Maya sorriu e cumprimentou a todos muito educadamente e sorriu voluntariamente para eles. Conhecer os amigos de Genzo a estava deixando melancólica, mas como não podia ser evitado, então que pelo menos fosse o mais gentil possível e os fizesse falar a Genzo sobre ela.

- É um prazer conhecê-la. – Tsubasa disse quando apertou sua mão por último.

Sorriu. Dava pra ver que ele estava nervoso.

- É um prazer conhecê-lo também, Tsubasa. Ouvi muito a seu respeito. – disse dando uma olhada rápida a seu irmão, e percebeu que o rosto do outro jogador ficara rubro. – Não se preocupe, foram ótimas as coisas que ouvi.

- Você deve conhecer um amigo nosso que também joga no Grawlbald. O nome dele é Genzo Wakabaiashi. – Misaki disse, mas não reparou na surpresa de Maya em ver o nome de Genzo ser mencionado tão cedo na conversa.

Rivaul olhou-a preocupado e segurou sua mão com mais força, ao que ela apenas o olhou e sorriu, tentando acalmá-lo.

- Sim, eu o conheço. Conheço mais do que poderia querer.

Diante do olhar curioso dos três jogadores, Rivaul desculpou-se com eles e pediu licença para que ele e a irmã pudessem ir cumprimentar outros jogadores, entre eles Karl, que Maya não sabia que estaria lá aquela noite.

Deixou-se ser conduzida pelo salão durante mais vinte minutos, tempo durante o qual Karl se juntou a eles, até que ficou cansada da proteção exagerada que o irmão a estava dando.

- Posso ficar sozinha. Eu sei me cuidar.

- Não tenho certeza quanto a isso. – Karl disse olhando seriamente para Rivaul enquanto tomava mais um gole de sua bebida.

- Também não tenho.

- Mas eu tenho! – disse irritada, e soltou-se do braço de Rivaul.

Aquela noite prometia. E para agüentá-la, nada melhor do que uma boa dose de qualquer coisa alcoólica que encontrasse no bar. O homem do outro lado do balcão lhe ofereceu whisky, mas como Maya achava a bebida fraca demais, pediu vodca.

Tomou de um só gole o copo cheio que ele lhe dera e pediu para que tornasse a enchê-lo. Não saiu do bar pelos próximos dez minutos e quando o fez estava se sentindo tão zonza que teve que se apoiar na primeira pessoa que viu.

Era uma mulher alta e bonita, corpo esguio e cabelos curtos e loiros. Maya não a reconheceu.

- Maya, você está bem? – a mulher lhe perguntou enquanto a ajudava a se levantar, e ao olhar em seu rosto pela segunda vez, a reconheceu como sendo uma modelo finlandesa que se tornara famosa nos últimos meses.

- Amber! Que saudades de você! – disse abraçando-a e sua voz saiu mais normal do que era previsto para alguém que já havia bebido tantos copos de vodca. O que dissera era tão verdadeiro que não era efeito da bebida. Maya a havia conhecido durante a turnê que fizera antes de tornar a jogar futebol. – Veio acompanhada?

A pergunta pareceu constrangê-la, e Maya entendeu que não estivesse com vontade de falar sobre seu acompanhante. Devia ser muito feio. Despediu-se dela, alegando estar cansada demais para mais uma festa, e já ia saindo quando vislumbrou Genzo rapidamente. Ele não a vira, mas ela também não estava com suas sanidades mentais tão abaladas que fosse lhe dirigir a palavra enquanto estivesse bêbada. Quando Genzo tornasse a vê-la, teria que estar impecavelmente linda e sóbria.

Ao sair do restaurante, uma barricada de repórteres a aguardava, e outra chuva de luzes explodiu em seu rosto, porém dessa vez sorriu para as câmeras e respondeu a algumas perguntas. A bebida a havia deixado mais amigável.

- Maya, o que achou da acompanhante de Genzo esta noite? – uma repórter perguntou num forte sotaque francês

A simples menção ao nome de Genzo e uma acompanhante fez seu sangue subir, e a sobriedade vir à tona. Encarou quem havia feito a pergunta por alguns minutos e lhe perguntou quem era a misteriosa acompanhante.

- Aquela modelo famosa, loira e bonitona, Amber. – respondeu-lhe a moça e Maya não podia mais ouvir as perguntas que lhe eram feitas, pois sua cabeça havia começado a girar de forma tão conturbada e os pensamentos que estavam em sua cabeça eram tão confusos, que ela deu meia-volta e tornou a entrar no restaurante.

Logo que avistou Amber, esta estava sozinha num canto do salão, bebendo algo rosa e pastoso. Maya suspirou profundamente e dirigiu-se a ela, e mal chegou perto, juntou todas as suas forças e deu-lhe um soco forte no rosto.

A modelo caiu e Maya foi atrás dela no chão, socando-lhe inúmeras vezes no rosto e na barriga, enquanto a outra tentava defender-se dos socos. As vozes ao seu redor eram altas, e um círculo de pessoas havia sido feito ao redor das duas. Maya não se importava, só via Amber.

Alguém a segurou por trás, e os braços da pessoa eram fortes, mas Maya começou a chutar o ar tão freneticamente que a pessoa não conseguiu contê-la por muito mais tempo.

Haviam ajudado Amber a se levantar, e esta murmurava algo sobre não saber o que fizera a Maya quando foi atingida novamente, mas dessa vez por um tapa.

- Vadia! – gritou, porém foi afastada novamente. Reconheceu o perfume forte de Karl, e estava se esforçando para soltar-se do abraço que ele lhe estava dando, mas seus braços eram tão fortes, que ficou cansada de lutar contra ele. – Vadia! – gritou novamente tentando ferir o máximo que podia à Amber.

Por um momento Karl relaxara os braços ao redor da ruiva, e esta aproveitou para desferir-lhe um golpe com o cotovelo, que pegou em cheio no rosto dele, e Karl recuou levando as duas mãos ao rosto, enquanto Maya avançou novamente na direção da modelo, e a fez ir ao chão.

Socou-lhe tanto o rosto e ombros dessa vez, que o vestido de alças que vestia começara a parecer mais solto no corpo, e mais tarde naquela noite descobriu que o rasgara em várias partes enquanto tentava escapar daqueles que a estava impedindo de lutar.

Novamente alguém a segurou, mas Maya não pôde tentar escapar quando ouviu a voz de Genzo sussurrar em seu ouvido.

- Pare com isso, por favor.

Instantaneamente, ela parou e ficou a olhar para as pessoas que ajudavam Amber a se levantar. Seu rosto, antes tão branco, estava vermelho e vários arranhões eram visíveis em seus braços. Mas Maya não se arrependia do que havia feito.

Genzo não a soltou do abraço, e quando o fez, fez apenas para puxá-la pelo braço até longe daquele aglomerado de pessoas. Maya não protestou, e deixou-o levá-la até a cozinha do hotel enquanto mais fotógrafos tiravam inúmeras fotos dos dois.

Os seguranças do hotel ficaram do lado de fora da cozinha, impedindo que repórteres ou fotógrafos tentassem entrar e interrompê-los.

- Por que você fez isso? – ele a perguntou, mas não parecia bravo, e sim magoado.

Então aquela mulher realmente era a acompanhante dele.

Lágrimas vieram involuntariamente, e Maya começou a chorar, coisa que não fazia há meses e que achara ter desaprendido de tanto que já havia feito. Genzo lhe estendeu um lenço de seda branco, no qual ela enxugou suas lágrimas.

Quando tornou a olhá-lo, viu em seus olhos o mesmo sentimento de antes do término do namoro dos dois. Parecia preocupado.

- Você realmente está saindo com ela? – perguntou entre soluços

- Isso não vem ao caso.

- Você está ou não?

- Não.

- Então por que você a trouxe aqui esta noite?

- Porque ela me perguntou se eu havia recebido um convite extra, e eu disse que sim, então ela me pediu por ele e eu o dei.

- Não acredito. – disse enquanto esfregava os olhos para evitar que chorasse novamente. – Ela é uma vadia ridícula. Como você pode sair com ela?

- Não fale assim dela! – disse num tom de voz mais áspero, e como ela lhe deu as costas para tornar a sair da cozinha e voltar ao restaurante, ele lhe segurou o braço. – Você devia pedir desculpas a Amber.

Maya soltou-se do braço dele e correu até fora do restaurante, e os seguranças não fizeram nada para impedi-la de sair.

Genzo a alcançou e tornou a segurar seu braço.

- Solte-me! – gritou, e seu grito chamou a atenção dos fotógrafos que rapidamente fizeram um círculo em torno deles. – Só porque eu bati na sua nova putinha, você não deveria vir me dizer o que fazer!

O rosto de Genzo ficou pálido, e ele caminhou até Maya calmamente, e a encarou durante algum tempo. O olhar dela era determinado e atrevido.

- Não fale assim dela.

- É a verdade. Ela é uma puta ridícula, e sinto muito se estou ofendendo a mulher que vem dando pra você nos últimos meses.

O tapa que ele lhe dera foi tão rápido e tão imprevisível que Maya o ficou olhando durante minutos tentando convencer-se de que não acontecera. Mas em segundos a verdade lhe ocorreu, e recomeçou a chorar, porém como não o queria fazer na frente de tantas pessoas, correu para fora do restaurante e depois para fora do hotel. Alguns fotógrafos a seguiram.

Um táxi estava passando, e parou ao seu grito para que o fizesse.

Maya lhe disse o nome do hotel no qual estava hospedada, e em alguns minutos estava de volta ao quarto do qual nunca devia ter saído.

A noite fora um desastre.


E a diversão começa... Pelo menos para mim.