Capítulo 17
Correr para não perder
Estava atrasada, e logo para uma ocasião tão importante. Não queria estar, mas já era fato e não havia como desfazer. Se ao menos não tivesse pedido tantas bebidas para o quarto na noite anterior... Mas o que podia fazer? Bebia parecia o único consolo nos últimos meses.
Praguejou baixo e prendeu os cabelos no alto enquanto se dirigia ao banheiro da suíte. Ligou o chuveiro e tirou a camisola. Voltou ao quarto para separar o uniforme da Seleção Brasileira e a faixa de capitã e pôs tudo numa bolsa grande junto com outras coisas que precisaria levar. Ligou a televisão e observou alarmada que os repórteres locais e os internacionais já cobriam o que prometia ser o maior evento do dia no Japão, e talvez no mundo. E com certeza em sua vida.
Retornou ao banheiro e tirou o resto de roupa que faltava, entrando debaixo da água corrente em seguida. Não reclamou da temperatura baixa e permaneceu quieta, esperando que a água lavasse seu corpo.
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Genzo estava ansioso. Nervoso pelo que poderia acontecer durante os noventa minutos em que ele e Maya estivessem jogando um contra o outro, mas ansiava pela oportunidade de estar perto dela mais uma vez.
Com ela, nunca sabia o que podia acontecer. Estando ao seu lado tudo era novo e surpreendente. E mesmo após tantos meses não conseguira esquecê-la. Em seus sonhos olhos verdes sempre o perseguiam.
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Saíra tarde do hotel e no meio do caminho para o estádio ainda ficara presa num engarrafamento gigantesco.
- É por causa do jogo. – o motorista do táxi dizia e fazia crescer o pânico dentro da bela garota de olhos verdes no banco de trás.
Esperou mais dez minutos, mas o veiculou andou muito pouco, se é que aquilo podia ser considerado andar, assim como os outros veículos.
Não podia acreditar que deixaria de ver Genzo por algo tão tolo. Aquele jogo podia mudar toda a sua vida! Faltar a ele não era uma opção.
Procurou no bolso do moletom por algumas notas que valessem a quantia mostrada no taxímetro. Achou mais do que procurava e deu-as ao motorista que se pôs a procurar por dinheiro para o troco.
- Não precisa, estou com pressa. – disse antes de sair do táxi e começar a correr entre os carros. Podia ver o topo do ginásio surgindo ao longe; não devia ser muito longe, só precisava se esforçar para chegar até lá o mais breve possível.
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Caminhando pelo corredor em direção ao campo, o som dos pés dos jogadores de ambos os países pisando o chão lhe pareciam extremamente ruidosos. Parecia que a cada pisada seu coração ia saltar pela boca.
Estranho, pensou, mas não conseguia ver os cabelos ruivos de Maya à frente da fileira de jogadoras brasileiras.
Os aplausos calorosos dos torcedores preencheram cada vazio do lugar quando pisaram o gramado. De um lado ficaram as brasileiras e do outro os japoneses, ambos enfileirados lado a lado. Tocou-se o hino nacional de ambos os países e depois os jogadores dos dois times andaram em fila indiana para apertar a mão do adversário.
Quando achou que seria a vez de apertar as mãos de Maya e seu coração saltou mais uma vez, uma outra moça estava em seu lugar e usando a faixa de capitão dela. Não, aquela não pertencia à Maya. Não havia o desenho discreto de uma rosa branca bordada no canto superior esquerdo. Aquela cujas mãos as suas apertavam não era quem estava esperando.
Então ela preferiu não vir. Pensou com tristeza.
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O céu estava nublado e cinzento. Parecia que ia chover a qualquer instante.
Papai do céu está lavando o céu.
Enquanto corria lembrou-se dos dias em que chovia e era obrigada a ficar trancada dentro de casa ao invés de brincar no quintal. Num desses dias seu irmão inventou aquela história sobre a chuva dizendo que Deus havia dado uma grande festa no céu no dia anterior e por isso precisava de tanta água. A partir daquele momento a pequena Maya se esforçava para não deixar a água que imaginava ser extremamente suja não cair sobre si.
Rivaul certamente estaria entre os espectadores, e Karl também. Até sua mãe confirmara presença ao mandar um buquê de flores com um cartão de boa sorte. Todos estariam lá para lhe dar forças.
Que ironia. Após anos tentando reunir a todos, e no final eles o faziam voluntariamente apenas por se preocupar com ela. Talvez nem houvesse sido necessário ter abdicado de tanto.
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- Parece mesmo que Maya Lopez resolveu não vir. – o locutor disse e sua voz ecoava pelo estádio. – Talvez ela tenha ficado com medo após o incidente na recepção aos jogadores de dois dias atrás.
- Ou talvez ela tenha mesmo desistido de recuperar o amor da vida dela.
- Isso se ele for o amor da vida dela.
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Que irritante.
Não agüentava. Além de não poder ver Maya, ainda tinha que ficar escutando especulações sobre o término do namoro de seis anos dos dois.
Realmente irritante.
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O jogo começou e a bola rolou primeiro para o campo brasileiro, mas as jogadoras rapidamente acharam um meio de reverter a situação e no minuto seguinte avançavam em direção ao gol onde Genzo esperava distraído.
A bola voou tão rápida em sua direção que mal teve tempo de tentar segurá-la. Bateu com força na rede e a multidão se levantou de seus lugares para vibrar.
- Parece que o massacre começou, e logo no segundo minuto do jogo. – o segundo comentarista disse.
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As saídas e entradas para o estádio estavam todas trancadas. Precisava entrar, mas não sabia como.
Pegou o celular e discou alguns números.
- Estou com problemas. Pode vir até a quarta saída do estádio me ajudar a entrar?
