Capítulo XX
Resolução
Os jogadores japoneses eram conhecidos por sua educação e calma ao jogar, e também por não vencerem campeonatos mundiais, mas Maya estava começando a discordar da reputação deles ao levar uma quarta bolada na região da barriga.
A pancada fora mais forte que as outras e a obrigou a cair no chão apoiada nas mãos. Estava prestes a se levantar, mas uma segunda pancada veio de dentro para fora e a obrigou a permanecer sentada. As dores estavam de volta. Quando acabasse aquela partida e não fosse mais jogadora de futebol certamente teria que procurar um médico para se tratar da cirrose.
As jogadoras de seu time vieram ver se ela estava bem e a ajudaram a se levantar enquanto perguntavam sobre o seu estado mental e físico.
- Estou bem. – disse olhando na direção que supunha ser de onde a bola viera. Um jogador alto e grande com dois garotos gêmeos ao redor estava ali. Não pareciam tão maldosos a ponto de atirar-lhe uma bola somente por estarem perdendo por uma diferença de seis gols.
Sentiu algo subir-lhe pela garganta e o gosto amargo de vômito tão familiar estava de volta, mas fez questão de engolir e sorrir para todos de forma a aparentar que estava bem.
Alguns repórteres vieram e perguntaram-lhe sobre seu estado físico, e ela garantiu-lhes que estava bem o suficiente para jogar aquela partida e vencer. Eles então perguntaram sobre o porquê de ela ter se atrasado enquanto olhavam aflitos na direção do árbitro que já estava reclamando da presença deles no campo.
- Fiquei presa no engarrafamento. Mas como essa será minha última partida não poderia deixar de vir.
Eles então perguntaram sobre o porquê daquela afirmação.
- O futebol tirou tudo de mim, e dessa vez sou eu quem me retiro. – disse antes de os dois serem expulsos do campo pelo árbitro.
Durante os outros vinte minutos teve que correr de um lado ao outro do campo, e mesmo que isso a deixasse cansada esforçava-se para não aparentar o quão fora de forma sentia estar.
Mas depois a única coisa que tomava conta de sua mente era observar Genzo, e logo teve certeza sobre seus sentimentos. Não gostava de Karl. Nunca gostara. Não era justo ter um novo relacionamento com ele e dar-lhe ainda mais esperança de que poderia ser um dia amado. Era inútil, nunca aconteceria.
Àquela altura estava bem claro para ela que todas as qualidades as quais prezava e esperava para a pessoa com quem fosse se casar estavam em Genzo, e que fora uma estupidez recusar o pedido de casamento que o rapaz lhe fizera. Se pelo menos pudesse voltar atrás e desfazer todos os enganos que vinha cometendo... Se ao menos pudesse mostrar a ele o quanto o amava e o quanto precisava dele em sua vida.
Estava tão distraída com Genzo que nem percebera quantos passes havia perdido. Nem mesmo parecia perceber que estava parada no meio do campo chorando, e nem percebera que havia começado a chover. As pessoas ao seu redor se moviam, mas ela continuava parada.
Eu estraguei a minha vida toda.
Caiu de joelhos e abraçou a si mesma enquanto chorava, procurando consolo em si, já que não havia mais ninguém que pudesse lhe dar.
Fui tão estúpida.
Amava Genzo, e um dia ele a amara. Isso já a deixava feliz, mas queria mais. Era impossível não querer mais de uma pessoa tão afetuosa como ele.
Queria mais toques, mais beijos, mais abraços. Queria acordar e ter certeza de que se olhasse para o lado na cama veria Genzo deitado e dormindo profundamente. Queria tanto estar ao lado dele e significar algo para ele. Em sua pressa de fazer a si mesma feliz esquecera de quem a fazia se sentir assim.
Se pudesse voltar no tempo... Havia tantas coisas que gostaria de reparar e outras tantas que gostaria de não ter feito.
Um apito longo e alto chamou a atenção de todos para o lado esquerdo do campo, onde o pai de Maya acompanhado de Rivaul e o árbitro estavam parados. O árbitro segurava a placa usada para informar troca de jogadores, e Maya já conseguia prever o porquê e a concordar com a decisão do pai.
O irmão começou a caminhar em sua direção e quando chegou até onde estava abaixou-se e a abraçou. O jogo estava parado e os jogadores esperavam que Maya fosse substituída para continuar a jogar. Não se atreveu a olhar para Genzo para saber o que ele estava fazendo.
- Você não precisa fazer tudo isso só para ficar com ele. É óbvio que ele não a ama mais, Maya. Vamos embora, e deixe-me cuidar de você. – Rivaul sussurrou em seu ouvido, e instantaneamente Maya agarrou-se a ele e chorou ainda mais com a cabeça apoiada em seu peito.
Karl dissera a mesma coisa que seu irmão há alguns minutos. Era tão óbvio que Genzo não a amava mais? Então por que só ela não conseguira perceber? Era tão burra assim?
- Vamos embora, por favor.
Meneou a cabeça, concordando com o pedido e se levantou apoiada no ombro de Rivaul. Sorriu para ele e beijou-lhe a bochecha num sinal de agradecimento ao mesmo tempo em que se soltou dele.
Ergueu o braço acima da cabeça e depois curvou o corpo numa mesura ao público que a estava assistindo. As palmas calorosas foram a resposta por tantos anos de sacrifício.
Acabara. Sua carreira como jogadora de futebol finalmente acabara, e sentia-se até aliviada porque esta tinha finalmente sido encerrada.
Estava caminhando em direção ao pai e ao árbitro quando sentiu uma dor mais forte do que já havia sentido e algo escorrer por entre as pernas. Caiu, e como estava apoiada em Rivaul o puxou junto para o chão. A dor era tão forte e tão intensa que não conseguia nem raciocinar. Levou a mão aonde se sentia molhada entre as pernas e quando a levantou na altura dos olhos viu um líquido vermelho escarlate. A simples visão daquilo a deixou enjoada e virou a cabeça para vomitar no lado oposto ao que Rivaul estava abaixado junto a ela.
Os olhos dele estavam arregalados e o seu medo era visível. Ele a agarrou pelos ombros quando pareceu que iria desmaiar e o gesto brusco a fez despertar. Os lábios dele se moviam, mas não conseguia ouvir o que estava dizendo. Só conseguia sentir dor e percebia que estava perdendo ainda mais sangue.
Rivaul virou o rosto e gritou algo na direção onde antes estava o pai. Os jogadores e repórteres estavam reunidos ao redor de Maya enquanto tentavam animá-la com palavras, mas nada adiantava. Somente conseguia ver seus lábios se moverem e sentia-se fraca, prestes a desmaiar.
Conseguiu segurar a mão de Rivaul e chamar sua atenção. Olhou-o nos olhos castanhos e sorriu. Ele estava chorando.
- Ajude-me, Rivaul, está doendo muito. – disse, mas depois sua visão ficou ainda mais turva e então não viu mais nada. Havia desmaiado.
Retiro o que eu disse. Eu realmente gosto da Maya e escrever esse final de capítulo até me fez chorar i.i
