Capítulo XXII

Pra sempre

Quando Maya acordou Genzo não estava esperando por ela ao lado de sua cama. O ato de abrir os olhos havia causado uma guerra interior nos últimos dois meses, mas agora que o fazia achava estranho não ter a única pessoa para quem lutara tanto para voltar.

Sentou-se na cama, mas algo preso a seu braço a impediu e fez deitar novamente. Era uma agulha que injetava soro em sua veia, e no nariz também havia algo estranho que já vira antes em filmes.

Tirou o que estava em seu nariz, e suspirou antes de tirar a agulha do soro de seu braço, que doera apenas um pouco ao sair de sua pele. Massageou o local de encontro entre o braço e o antebraço onde antes a agulha estava, e se sentou na cama enquanto observava o quarto escuro pouco mobiliado, a não ser pela poltrona afastada da cama, um armário, uma porta que provavelmente levava a um banheiro e uma outra para sair.

Sentiu um vento frio percorrer desde sua espinha até a nuca, e só então percebeu a camisola de hospital que estava vestindo e a deixava num estado seminu.

Estava num hospital mesmo, então as pessoas já deviam estar acostumadas a verem outros andarem de um lado para o outro com aquele tipo de roupa.

Sentia-se zonza, mas levantar definitivamente era melhor do que permanecer deitada esperando que alguém entrasse no quarto e a visse acordada. Queria encontrar Genzo.

Se suas lembranças eram corretas e o que lembrava não era um sonho, então ele a pedira em casamento antes de desmaiar e, o mais importante, ela aceitara.

Abriu a porta do quarto devagar sem fazer barulho e se enfiou pela abertura pequena para a claridade do exterior do quarto. Não havia ninguém no corredor, mas viu uma câmera acima da porta que estava virando para focalizar o lado em que estava. Moveu-se para debaixo da câmera e quando esta virou para a esquerda seguiu o corredor pela direita, e depois virou à esquerda.

Além de portas de quarto, dessa vez havia uma recepção e algumas enfermeiras paradas de cada lado do balcão à frente do corredor, rindo baixo para não acordar os pacientes. Dava para ver pela janela próxima ao balcão que era noite. Mas ainda precisava saber que dia era.

Estava caminhando nas pontas dos pés em direção à recepção quando duas mãos fortes em seus ombros a fizeram parar. Virou-se e olhou assustada para o homem no jaleco branco que a havia surpreendido, mas ele não parecia surpreso e sorria.

- Estou feliz que tenha acordado Maya, mas não é apropriado ficar andando de um lado para o outro logo após de ter acordado de um coma.

- Eu estava em coma? – perguntou debilmente e sentiu-se fraca, e já ia caindo escorada à parede quando o médico novamente a segurou pelo ombro e a pôs de pé, mas dessa vez não a soltou.

- Venha até minha sala e prometo que lhe explicarei tudo.

Maya então o seguiu pelo corredor de onde tinha vindo, mas não entraram no quarto de onde havia escapado há poucos minutos e sim numa sala mais à frente. O médico apontou para uma cadeira aparentemente confortável e se sentou do outro da mesa de madeira.

- Meu nome é Michael, e tenho cuidado de você desde que chegou nesse hospital. A verdade, Maya é que você esteve em coma durante dois meses desde a partida contra o Japão, mas creio que você se lembre disso, certo?

Meneou a cabeça indicando que se lembrava, mas apressou o discurso quanto ao seu estado e perguntou por Genzo.

- Ele tem estado aqui quase todos os dias desde aquele dia, mas hoje foi para casa descansar. Creio que não tenha sido nada fácil para ele vir aqui sempre, mas eu e as enfermeiras sempre o víamos no seu quarto conversando com você.

Maya sorriu, e pensou no quão típico de Genzo era aquela atitude.

- Entretanto, Maya, devo adverti-la de que seu estado de saúde é perfeito, a não ser por um pequeno detalhe. Tivemos que retirar o seu útero devido a uma séria inflamação, então você não pode mais ter filhos.

Ficou calada por uns instantes enquanto Michael explicava sobre mais detalhes de sua condição, mas na realidade não estava mais ouvindo. E se Genzo não a quisesse mais por não poder gerar um herdeiro? Ele era mesmo aquele tipo de homem machista, ou a aceitaria de volta do mesmo jeito?

E isso logo agora que havia recuperado-o...

Mas então percebeu que não devia pensar em como Genzo se sentiria, mas em seus próprios sentimentos. Como se sentiria agora que não podia mais ser mãe? Mesmo que nunca tivesse desejado estar casada a ninguém, sempre desejara ter um filho em seus braços e poder cuidar dele e fazer tudo diferente da maneira como seus pais a criaram.

Entretanto, agora todos esses sonhos se foram.

O médico a conduziu de volta ao quarto, e naquela noite Maya nem dormira com medo de não acordar novamente, mas em sua mente tentava prever qual seria a reação de todos quando lhe contasse sobre o que havia acontecido.

Rivaul lamentaria, sua mãe choraria e seu pai diria que sentia muito. Mas não conseguia prever a reação de Genzo.

Chorou a noite toda tentando convencer a si mesma que não era sua culpa, mas sabia que era. Se ao menos não tivesse sido tão irresponsável. E se tivesse aceitado o pedido de casamento de Genzo na primeira vez em que ele o fizera nada disso teria acontecido.

Mas quando Genzo entrou no quarto na manhã seguinte Maya já havia adormecido novamente, e só acordou quando ele tocou em seu rosto para secar o resquício de uma lágrima próxima aos olhos.

Abriu os olhos lentamente, pois ainda estava sonolenta, mas ao vê-lo parado diante de si todo o sono fora embora e a única coisa que sentia era uma vontade imensa de abraçá-lo. Nem precisou se levantar porque estando deitada mesmo ele a abraçara e apoiara a cabeça em seus cabelos.

- Senti tanto a sua falta. – ele chorou baixinho próximo ao seu ouvido e Maya fez o mesmo, e retribuiu o abraço com força, rezando para que nunca mais tivesse que ficar longe dele por tanto tempo.

- Genzo, espera, tenho que lhe contar uma coisa.

- Não quero saber Maya, me conte depois. Deixa eu ficar com você por somente um minuto.

- Deixo você ficar comigo pela eternidade. – respondeu de volta e agora tinha certeza de que não importasse o que ela dissesse Genzo não se importaria. Ficaria com Maya para sempre, independente de terem filhos ou não porque para o amor que sentiam bastava um ao outro.


E esse é o final da história. Obrigada a todos que vem acompanhando desde 2005 e desculpe pelas várias vezes em que eu demorei um século para atualizar a fanfic. Obrigada de coração :)