Capítulo 2

Severo Snape estava sentado quieto na poltrona de couro em frente à lareira da sala dos professores. As janelas estavam abertas para as brisas leves da noite de verão; em deferência à estação, seu cálice tinha um Riesling seco, melhor do que o conhaque que ele preferia no tempo frio.

O jantar nos aposentos de Minerva fora tedioso. A comida dela era, na melhor das hipóteses, passável. O diretor se juntou a eles, e Severo sabia que Dumbledore estava em sua melhor forma interferente. Dumbledore e Minerva estavam desavergonhadamente tentando juntar Ninfadora Tonks e Remo Lupin num casal. Na opinião de Snape, nem mesmo uma metamoformaga barulhenta e desajeitada com todo o charme feminino de um Tronquilho iria querer se casar com um lobisomem – mesmo um lobisomem com um novo emprego fixo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Quanto ao lobisomem, ele teria sorte se encontrasse QUALQUER mulher para casar com um bundão daqueles.

Severo fez uma cara feia ao pensar em Lupin. Pela segunda vez, Lupin fora escolhido, em cima de sua própria candidatura ao cargo, para ser o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. No calor de cooperação e tolerância que seguiu a guerra, até mesmo um lobisomem poderia se tornar um profissional respeitável; os avanços na Poção Mata-cão significavam que ele só precisava passar as noites do ciclo da lua cheia como um lobisomem; seus dias podiam ser passados na sala de aula.

Não que Severo desejasse algum mal para Lupin. Ele nunca fora um amigo durante os tempos de escola, mas também não fora um dos comandantes dos tormentos de Severo, como Tiago Potter e Sirius Black foram. No tempo em que serviram à Ordem durante a guerra, Severo e Lupin desenvolveram uma relação de trabalho fácil. Não uma amizade - jamais uma amizade; Severo nem tinha e nem desejava amigos.

Severo se sentou mais para frente e serviu outro cálice de vinho, depois bebeu metade dele. Ele não gostava de lembrar. Havia pouquíssimas memórias caras de seu passado que ele se lembraria voluntariamente. Contudo, uma crise o assolava agora, e ele estava meditando.

Hermione Granger. A insuportável, dentuça, cabelo lanzudo, sabe-tudo, pequena pé no saco de aluna grifinória com aquele nome ridículo tornara-se uma mulher fascinante, educada e tentadora, com uma cabeça de cachos castanhos delicados, dentes perfeitamente proporcionais – inferno, tudo perfeitamente proporcional, até onde alguém podia discernir naquelas malditas vestes – e olhos cor de âmbar na luz do fogo. Ela era uma ameaça e ele a estava infernizando por isso, mas ele precisava de um plano.

Não foi até aquela manhã no café que Alvo e Minerva jogaram sobre ele a bomba de que o 157º Simpósio Anual de Educação Mágica seria realizado em Hogwarts no dia 22 de agosto, e que Severo tinha a fez tarefa de organizar o evento. Para ajudá-lo com o fardo adicional daquela tarefa pesada, eles estavam contratando um assistente a quem ele poderia delegar grande parte do trabalho.

Nunca no seu melhor antes de tomar uma quantidade considerável de cafeína, não ocorreu ao Severo até a quarta xícara, em seu escritório, enquanto folheava ociosamente um periódico de Alquimia, que Dumbledore estivera muito despreocupado sobre a questão do assistente. Sem dúvidas, ele estava para ser sobrecarregado com algum tonto que o levaria à loucura com sua inaptidão.

Imediatamente, ele se levantou e jogou pó de Flu na lareira.

– Diretor Alvo Dumbledore.

A cabeça de Dumbledore apareceu como se estivesse suspensa no ar sobre a grelha.

– Sim, Severo?

Severo se sentou no banco baixo à frente da lareira e perguntou:

– Posso lhe perguntar a identidade do assistente que eu terei?

– Certamente. Uma antiga aluna, que acabou de terminar a universidade e ainda não aceitou uma posição, está atualmente livre e concordou em ajudar durante o verão.

Severo se descobriu curiosamente agarrando com força o recipiente de pó de Flu, mas não reagiu quando este quebrou na sua mão e sujou suas roupas com partículas brilhantes. Ela havia excedido ele em esperteza. Ignorar as corujas e convites de festas não era gelo. Ele seria sobrecarregado com Hermione Granger, trabalhando diariamente, bem próxima, pelo verão mais longo da sua vida.

– Você quer dizer, Diretor, Hermione Granger.

– Bem, sim, Severo. Com foi que você adivinhou?

Depois do almoço, Severo pediu uma reunião com Dumbledore, que concordou graciosamente em recebê-lo às duas horas.

No horário marcado, Severo se aproximou dos gárgulas que guardavam o escritório do diretor e disse: – Diabinho de pimenta –, conseguindo entrar para a escada em espiral. No escritório, Dumbledore o cumprimentou, considerando Severo seriamente.

– Diretor, quando eu fui ferido na batalha na propriedade dos Riddle, eu fiquei inconsciente por três dias. Você me disse que usou Legilimência para checar o que eu descobrira sobre os planos dos Comensais da Morte e o paradeiro deles.

Severo parou, numa incomum falta de palavras. De todas as pessoas do mundo, somente na presença deste homem ele podia baixar sua guarda. O que não deixava, contudo, mais fácil para ele expor uma mínima parte de vulnerabilidade.

Dumbledore falou no silêncio:

– Você quer saber se eu por um acaso tomei conhecimento de informações que não eram pertinentes aos movimentos do Lorde das Trevas.

Severo concordou com a cabeça e fez contato visual com Dumbledore, que declarou:

– Havia vários pensamentos muito perto da superfície, sem dúvida devido à sua crença de que estava prestes a morrer, Severo. Imagens de seus pais, da sua infância, momentos com o Lorde Voldemort, e com outros membros da Ordem, estavam no topo da sua mente quando você se feriu.

Havia um certo desespero na expressão de Severo quando ele abriu a boca para falar, mas foi interrompido por Dumbledore, que levantou a mão num gesto de impedimento.

– Sim, Severo, eu testemunhei seu momento com Hermione Granger quando ela temia pela vida dos pais dela. Não, ela não foi convidada para vir a Hogwarts para ajudá-lo com o Simpósio de Educação numa tentativa de juntá-los. Eu estou completamente à par dos seus sentimentos sobre o assunto, tirando a - vamos dizer, Circunstâncias Especiais - que existem entre vocês. Eu não vejo, contudo, por que a Srta. Granger deveria ser penalizada quando ela deseja aceitar a posição temporária de Coordenadora Assistente de Simpósio.

Severo permaneceu sentado por um momento, encarando suas mãos no colo. Circunstâncias Especiais? Dumbledore estava no comando do jogo, como sempre. Abruptamente, Severo se levantou, olhar ainda desviado, e disse:

– Obrigado, diretor. Eu agradeço sua franqueza. Não vou tomar mais seu o tempo.

Severo saiu o mais rápido que possível, inconsciente do sorriso indulgente de Dumbledore, ou dos dedos cuidadosamente cruzados escondidos embaixo da mesa do diretor.

Severo foi até a janela da sala dos professores; o ar estava esfriando, e estava na hora de fechá-la. A visão de Hermione, perambulando pelos jardins à luz das estrelas, o fez fechar os olhos e encostar a testa no vidro frio.

Como ele odiava fraqueza! Seu pai foi tão fraco, um bêbado, e um valentão, tratando sua esposa e filho com punhos e maldições e azarações cruéis. Sua mãe foi tão fraca, encolhendo-se diante de seu pai, submetendo-se à tirania dele, fazendo tentativas tão fracas de proteger seu único filho da brutalidade de Sedgwick Snape. Severo queimou em fúria quando se lembrou de como seu pai destruíra a varinha dela e a forçara a fazer o trabalho doméstico, sem mágica, como uma trouxa. Ele se enfureceu por dentro ao lembrar da penúria da casa deles, das roupas de segunda mão surradas que ele era forçado a vestir, restos dos primos Snape que ele raramente podia ver. E durante todo esse tempo, o bastardo do seu pai vestia roupas finas, tomava bebidas caras, fumava cigarros caros, e tinha mulheres caras, que ele não deixava de ostentar na cara de sua esposa sofredora e seu filho furioso.

O único consolo de Severo eram as caixas empoeiradas de livros de magia no sótão. Sua mãe uma vez lhe disse que os livros foram da biblioteca de seu avô Snape. Desde que ele começou a ler, com a idade de cinco anos, ele se sentava, estudando atentamente os livros. Ele estava convencido de que em algum lugar naqueles manuais estava a resposta para a violência de seu pai. Se ele aprendesse o feitiço apropriado, seu pai poderia não seria tão bravo o tempo todo e amaria Severo e sua mãe. Ele começou com os textos ilustrados, demonstrando como manusear a varinha, exercícios de transfiguração, e preparação elementar de poções. Conforme sua compreensão cresceu, ele pesquisou os livros sem figuras, livros cheios de magias cada vez mais trevosas. Conforme ele passou pela coleção de seu avô, seu cérebro ávido reteve as informações atormentadoras. Quando abriu a última caixa e viu os velhos livros de feitiços, alguns escritos num Inglês tão antigo que mal conseguia decifrar, ele sentiu uma onda de poder.

Ele tinha acabado de completar onze anos e começaria em Hogwarts no outono. Ele não encontrara a magia para fazer seu pai amá-lo, mas ele podia adquirir a capacidade para fazer seu pai o temer e curvar-se diante dele.

Os livros antigos foram os primeiros que empacotou em seu malão para Hogwarts, e ele os exibiu orgulhosamente em seu dormitório na Sonserina. Aos seus colegas, os textos sobre Artes das Trevas eram igualmente atrativos e repulsivos. Seu conhecimento o fez um aliado útil; também o fez um inimigo perigoso.

Severo se forçou a se afastar da janela de onde podia ver Hermione. Pegando a garrafa de vinho, ele a virou, servindo o liquido restante em seu cálice e virou o conteúdo de um gole. Ele recolocou o cálice na mesa e endireitou os ombros. A resistência vinha em reconhecer e prosperar em seus recursos. Ele identificara seus pontos fortes cedo sua carreira estudantil. Ele era um bastardinho sorrateiro, como Lúcio Malfoy, que era um aluno do sétimo ano quando Severo começou em Hogwarts, tão habilmente fraseou. Severo era leal à sua Casa, Sonserina, e não tinha escrúpulos nenhum em ferrar qualquer um fora dela. Ele se tornou popular rapidamente, e era um aluno ambicioso que se sobressaía em todas as matérias, exceto em vôo. Ele se humilhou na primeira aula de vôo ao cair da vassoura como uma criança trouxa cai de uma bicicleta, enquanto a garota ao lado dele ria e os meninos vaiavam e ridicularizavam. Severo não suportava muito bem a humilhação. Aquilo o escaldou como ácido e lembrou-o de estar na presença de seu pai.

Sedwick Snape não gostava da idéia de seu filho esperto, injustiçado e enraivecido com uma varinha na mão. Por essa razão, Severo passou os feriados e os verões em Hogwarts desde os onze anos. Sua mãe tinha permissão de se comunicar com ele por coruja e seu pai o abastecia de má vontade com o mínimo de ouro necessário para comprar vestes e livros todos os anos – de segunda-mão, claro – mas fora isso, Severo era como um enjeitado sem casa.

Ele passou aqueles verões em Hogwarts, aproveitando uma autonomia que nunca conhecera antes. Ele estudou as matérias que mais o atraíam (as Artes das Trevas), praticou o manejo com a varinha (azarações, para melhor atacar Potter e Black), e fez experimentos com poções, para o que ele tinha um talento raro. Para relaxar, ele levou uma das vassouras da escola para o campo de quadribol e ensinou a si mesmo a voar, por tentativa e erro, sem os olhares zombadores dos seus colegas de classe para desdenhá-lo e fazê-lo se sentir envergonhado. Suas atividades eram casualmente direcionadas pelos professores que estavam e saíam, envolvidos em suas próprias atividades de verão. Não era surpresa que ele recebia notas excelentes em cada matéria que cursou no ano dos N.O.M.s, nem que fez o mesmo em seus N.I.E.M.s.

Sedgwick Snape fez bem em evitar a companhia do filho que o abominava, porque Severo se tornou um poderoso bruxo, uma sumidade a ser considerada, cuja vocação era o preparo de poções, mas cuja paixão era as Artes das Trevas.

Estranhamente, quando chegou a hora de Severo deixar Hogwarts, ele não se importava mais em vingar-se de seu pai ou em resgatar sua mãe da escravatura que ela mesma escolheu. Ele foi para a universidade e em seu primeiro ano lá, seus pais morreram num incêndio dentro de casa, sem dúvidas causado pelo hábito patético de seu pai de fumar na cama. Ao atender aos funerais deles, Severo descobriu que anos antes, sua mãe herdara uma pequena propriedade da família com casa e jardins, incluindo uma pensão mensal em ouro. Fora prática de seu pai tomar todo o ouro a cada mês e gastar consigo mesmo. A propriedade fora negligenciada; Severo sabia que Sedgwick Snape jamais permitiria que sua esposa se mudasse para um lugar onde ela poderia ter qualquer aliados naturais contra sua brutalidade. Eles morreram na casa velha onde Severo vivera seus anos de infância. Agora, com 19 anos, Severo estava finalmente livre de seus pais. Enfim, ele tinha ouro e propriedade para si mesmo, sem mais nenhum laço de família, mesmo que tênue. Era uma independência que ele nunca conhecera antes.

Mas naquele ponto, ele já havia chamado a atenção de Lord Voldemort, cujos os muitos projetos interessantes para Severo constituíam em escravatura de um outro tipo.

Suas maneiras e hábitos pessoais impróprios continuaram com ele até voltar a Hogwarts como um professor. Mesmo com o seu flerte com o Lorde das Trevas, Alvo Dumbledore acreditou nele, confiou nele, e o aceitou. Dumbledore também começou a instruir discretamente Severo em assuntos como higiene pessoal assim como comportamento. Severo aceitou aquela instrução discreta com uma gratidão que ele era incapaz de expressar. Ele jamais venceria o Prêmio de Simpatia do Semanário das Bruxas, mas aprendeu como se portar em companhia refinada, como se arrumar apropriadamente, e até, sob o comando de Minerva McGonagall, os segredos da dança de salão.

Pelos últimos dez anos, Dumbledore e McGonagall o encorajaram a se casar. Particularmente, ele não conseguia imaginar a mulher que ele poderia suportar por mais de um bom final de semana de sexo.

Severo tinha uma vida bem ordenada e controlada. Ele tinha um bom emprego, instalações para suas pesquisas pessoais, contato com outros profissionais entre os funcionários de Hogwarts, e tempo para suas procuras raras por diversões. Quando ele queria uma mulher, ele pagava uma. Ele nunca tivera um relacionamento sexual estável, muito menos um romance, com uma mulher. Ele não via utilidade para o amor. Ele vira o amor à primeira mão. O "amor" de sua mãe por ele, o "amor" dela pelo seu pai – amor o deixava doente.

Mas estas pessoas, os funcionários de Hogwarts, eram a sua família. Sua devoção muda a Dumbledore era o mais próximo de afeição que ele se permitia. Seu comportamento frio talvez não oferecesse muito no que se diz a reciprocidade para a inclusão dos outros professores em suas vidas em Hogwarts, mas ele os servia de outras maneiras, como cozinhando poções e assumindo tarefas administrativas. Este lugar era sua casa. Ele era respeitado e aceito aqui. Por toda a cura, o aprendizado, e o crescimento que ele experimentara em sua vida adulta, Severo ainda não conseguia tolerar vulnerabilidade de maneira nenhuma. Ele nunca, jamais se colocaria voluntariamente numa posição que pudesse levá-lo ao ridículo. Seu controle rígido sobre cada aspecto em sua vida era sua segurança.

Ali, então, estava a resposta para a charada do que fazer com a Srta. Hermione Granger. Nada. Ele continuaria a repeli-la pessoalmente, de todas as maneiras, em todas as oportunidades, enquanto mantinha uma relação de trabalho civilizada (para os padrões dele). Acima de tudo, ele não deve ter contato físico nenhum com ela, as Circunstâncias Especiais que se danem. Era apenas um verão, afinal.

Algumas formas de conforto estavam para sempre fora do seu alcance, então ele tinha que tirar seus prazeres onde os encontrava – geralmente se escondendo em suas aulas de Poções.

Antes que se desse conta, haveria uma nova turma cheia de alunos do primeiro ano da Grifinória para ele atormentar.


continua... Master of Enchantment by Subversa traduzido por Regine Manzato.


N/T: Oi gente!!! são quase 23 h00, mas ainda é sábado, num é?!?! Então! tá aí!! hehehe...

Espero que gostem do capítulo, e mandem reviews!

Eu, a Subversa e a FerPotter, minha beta agradecemos de coração os reviews. Ah, só pra começar com a chantagem... próximo capítulo só quando os reviews chegaram à 20!! Tem 10, até agora... vamos ver quanto tempo vai demorar pra chegar à 20.

Ps. Fortaleza Interior está com capítulo novo no www(ponto)snapemione(ponto)cjb(ponto)net

é isso, beijos, e até o próximo capítulo!