-Eu não preciso de Madame Pomfrey agora!

Garante ele severamente à nascida trouxa. E naquele momento seus olhares se encontraram como a fusão de duas correntes magnéticas que os impedia de perceber qualquer coisa que não fosse a presença um do outro.

Ela mordeu o lábio inferior, incapaz de realizar qualquer outro movimento para se afastar ou se aproximar dele, o jovem bruxo por sua vez perdeu todo o fôlego quando sua mão gelada agarrou tão possessivamente o pulso delicado da sua melhor amiga, deixando uma voz insistente no fundo da sua mente repetir em um mantra suave que esta era também a sua esposa grávida e a mãe dos seus filhos.

-Por favor, fique!

Repetia hesitante o Potter incapaz de tirar os olhos dela, do seu rosto delicado com traços evidentes de preocupação, dos cabelos tão atrevidamente cacheados e macios e dos lábios presos entre os dentes brancos perfeitos provocando solavancos assustadores em seu estômago.

Ela era tão diferente e ao mesmo tempo tão semelhante à "sua Hermione". Isso o confundia terrivelmente. Maldição ele só tinha 14 anos de idade! Como diabos deveria agir agora?

A nascida trouxa por outro lado, não tinha certeza do que viria a seguir, Harry estava nervoso, desconfiado, sem suas memórias... nesse momento tentar descobrir o que se passava na sua mente era como lidar com uma caixinha de surpresas.

Para sua aflição, o pedido do seu marido ecoava no interior silencioso da enfermaria de Hogwarts, revelando uma necessidade inesperada no tom de voz do grifinório. Com o coração apertado, ela percebeu que por mais desesperado que Harry pudesse se encontrar, ainda precisava dela, só tinha à ela para se agarrar e confiar.

Hermione respirou fundo cedendo ao pedido do moreno de olhos verdes que tanto adorava, mesmo que não fosse admitir, ela precisava tanto dele quanto ele precisava dela. James estava com uma doença contagiosa, seria um risco muito grande se aproximar do pequeno Potter com tão pouco tempo de gravidez.

Sem escolha, ela deu alguns passos incertos e sentou-se ao lado dele, sem quebrar o contato intenso de seus olhos tendo plena certeza que ele poderia facilmente ler através de seus olhos castanhos todas suas dúvidas e preocupações, ao menos o "seu Harry" seria capaz de fazê-lo, pensava ela com um ligeiro toque de tristeza. A raiva ainda queimava dentro do peito, a dor que as acusações de Harry provocaram ainda recentes, mas seu coração não parecia obedecer sua vontade de manter distância do grifinório.

-Eu sinto muito ter gritado com você! Ter acusado você...

Desculpa-se Harry afrouxando seu aperto em seu pulso e deslizando a mão até encontrar a dela, entrelaçando seus dedos desajeitadamente, como se temesse que no momento que a soltasse, ela fosse desaparecer diante de seus olhos. Percebendo o nervosismo do moreno, Hermione segura firmemente sua mão em resposta.

-Está tudo bem, Harry!

Responde calmamente a nascida trouxa com um sorriso frágil, que fez o coração do Potter apertar dolorosamente. Ele conhecia bem esse sorriso, em qualquer lugar, em qualquer tempo... ela ainda estava magoada com ele, mas o desculpava apesar de tudo.

-Não, não está tudo bem!

Insiste ele sentindo a garganta ficar seca e o coração bater dolorosamente contra o peito. Maldição por que tudo tinha que ficar tão complicado? Já não era ruim o suficiente não lembrar de como raios se livrou de Voldemort, casou-se com Hermione e tivera três filhos? Sentia-se sufocado, louco, simplesmente perdido. Como deveria consolar sua melhor amiga? Pior ainda... sua esposa? Merlin o ajudasse.

-Harry, eu já disse está tudo bem, acredite em mim!

Responde a jovem senhora Potter pacificamente, na tentativa de confortar seu melhor amigo, cujos olhos aterrorizados revelavam o mesmo menino angustiado e solitário que escapara do torneio tribruxo.

-Não, Hermione! Não deveria ter brigado com você, você está... você está grávida!

Protesta Harry precisando tomar uma respiração profunda antes de dizer com todas as letras a palavra que tinha despertado seu desespero momentos atrás. Seus olhos verdes, finalmente quebraram o contato com os orbes castanhos da nascida trouxa e voltaram-se ansiosos e amedrontados ao ventre delgado que escondia os primeiros sinais da gestação de um filho seu, um bebê que também era dele, seu sangue, sua carne, sua descendência, assim como o pequeno James e provavelmente Teddy e Lily, cujos rostos e idades ainda eram um mistério para ele. Engoliu em seco antes de com um esforço hercúleo, fitar o rosto preocupado de Hermione.

-E eu vou ser... pai... Eu estou tão confuso!

Confessa ele soltando a mão de Hermione e enterrando os dedos nervosamente nos cabelos negros sem conseguir esconder a frustração que toda aquela situação causava sobre ele. Era dolorosamente obvio o esforço que ele estava fazendo para não perder a cabeça novamente e a jovem senhora Potter encontrou-se surpreendentemente comovida.

-Oh Harry!

Murmura ela desejando abraça-lo para confortar o sofrimento no qual o moreno estava sufocado, mas só conseguiu levar hesitante uma mão ao seu ombro em apoio, assim como fazia nos seus tempos de Hogwarts, testando as águas antes de prendê-lo em abraço esmagador. Precisava ser mais cuidadosa, Harry ainda pensava e agia como se fossem apenas melhores amigos. Mas, antes que tivesse chance de dizer qualquer coisa ao grifinório foram interrompidos por uma tosse forçada.

O casal Potter voltou sua atenção para a figura que os observava na porta de entrada da enfermaria com certa desconfiança. Tratava-se de um homem alto, ombros largos e expressões severas, no auge dos seus quarenta e poucos anos, tinha olhos azuis e cabelos compridos, o manto que usava lembrava vagamente as vestes do professor Snape, no entanto eram de um tom azul marinho profundo contrastando com as vestes cinzentas.

-Sinto em interromper, mas quando soube que estavam aqui, não pude deixar de vir!

Anuncia o estranho desviando o olhar de um Harry Potter perturbado para uma Hermione Potter preocupada.

-Não é o melhor momento, professor Desmond!

Responde formalmente a nascida trouxa levantando-se e chamando a atenção do bruxo para si, dando à Harry a chance de se recompor antes de encarar o curioso professor.

-Ora minha cara senhora Potter, todos os momentos são bons quando queremos cumprimentar um velho amigo!

Insiste com um sorriso sombrio Desmond estendendo galantemente o braço e tomando a mão de Hermione à leva até os lábios.

-Continua fascinante como sempre!

Provoca Desmond ainda com os lábios a centímetros da mão da nascida trouxa. Ela estremeceu irritadiça. Querendo impor a maior distância possível entre eles.

-O professor Longbottom já sabe que estão por aqui? Poderíamos todos tomar uma boa cerveja amanteigada em nome dos velhos tempos, não?

A grifinória estreita os olhos em desgosto com a sugestão do bruxo, e agradeceu aos céus pois no minuto seguinte, Harry estava de pé ao seu lado encarando o estranho de manto azul com desconfiança, especialmente depois do olhar fulminante que a nascida trouxa dava ao mesmo.

-Oh! O senhor Potter, não me parece muito feliz com a sugestão!

Importuna Desmond com um semblante cinicamente amigável quando Hermione puxa sua mão para longe de suas garras. O Potter por outro lado mantinha uma expressão estoica, não dedicando um único olhar ao "intruso".

-Não estamos aqui para uma visita amigável professor!

Rebate a bruxa furiosamente e ao seu lado, Harry ficava mais tenso ainda com as provocações que o estranho jogava sobre eles.

-Não? Visitando um enfermo então?

Questionava com um sorriso de escárnio olhando em volta na busca do pobre aluno moribundo que merecia a visita da tão querida família Potter. Hermione parecia pronta para explodir aquele homem em pedacinhos enquanto Harry rangia os dentes em frustração, perguntando-se por que a presença daquele bruxo parecia despertar o pior dele.

-Professor Desmond? Onde você está?

A voz autoritária de Madame Pomfrey interrompeu mais uma tentativa do bruxo de cabelos compridos em interrogar os Potter.

-Acredito que o dever me chama! Foi um prazer revê-la Hermione Potter... uma lástima não poder dizer o mesmo do seu marido!

Despede-se ele com um ligeiro aceno enquanto a senhora Potter fervia diante do olhar pretencioso que o estranho bruxo lhe lançou antes de partir.

-Quem é ele?

Questiona o moreno entre dentes, não gostando da atitude do tal Desmond. Algo dentro dele vociferava para arrancar aquele maldito sorriso da cara dele. Hermione teve que tomar várias respirações profundas antes de conseguir responder ao grifinório, ela estava visivelmente perplexa com a visita inesperada daquele homem e a forma como mascarava seu sarcasmo com uma falsa polidez.

-Desmond Wright, atual professor de poções de Hogwarts e meu antigo chefe no departamento de criaturas mágicas!

Explica Hermione cruzando os braços e olhando desconfiada para o interior da enfermaria onde o bruxo estava discutindo algo com a curandeira mais velha.

-Eu não gosto dele!

Murmura o moreno recebendo um olhar compreensivo da melhor amiga de cabelos encaracolados.

-Até hoje não conheci alguém capaz de tolerar seu humor negro por muito tempo!

Explica impaciente a nascida trouxa voltando toda sua atenção ao grifinório, teria que tomar bastante cuidado a partir de agora, com Harry fora de casa, muitos poderiam reconhece-lo e nem todos eram amigos, se alguém descobrisse o estado real das memórias do bruxo que derrotou Voldemort... Hermione balançou ligeiramente a cabeça em negativa. Nada de pensamentos negativos agora.

-Mas, não precisa se preocupar com ele!

Insistia a nascida trouxa percebendo como seu amigo parecia tenso após o encontro. Harry, no entanto prestava pouca atenção às palavras da melhor amiga, ainda mantinha os orbes verdes presos na imagem do homem que fora ao encontro de Madame Pomfrey.

-Ele me lembra Snape!

Sibilava o moreno entre dentes, sem perceber uma de suas mãos fechadas em punhos e na outra segurava firmemente a varinha, como que por reflexo já seguia alguns passos na direção do leito onde tinha deixado James momentos antes, somente a ideia de uma versão mais jovem do seu odiado mestre de poções se aproximando de seu filho doente embrulhava seu estômago.

-Harry? Harry, onde está indo?

Questiona alarmada Hermione, assustada pela mudança repentina no comportamento do melhor amigo. Para complicar ainda mais, ele parecia não ouví-la, seguindo a passos largos pelo interior da enfermaria com a varinha na mão.

-Só estou indo verificar James!

Responde o moreno sem voltar mais atenção aos chamados cada vez mais preocupados e distantes da sua melhor amiga.

-Harry, não é permitido varinhas na enfermaria! Volta aqui!

Desesperava-se a jovem senhora Potter apressando-se para alcançar o moreno, estava quase correndo para alcança-lo e mesmo assim não conseguia detê-lo. Tomando uma respiração profunda e decidindo agir rapidamente para evitar um desastre maior Hermione puxa sua própria varinha.

Antes que o jovem senhor Potter tivesse a chance de protestar, ela tinha-o petrificado no meio do caminho. Ofegante, a nascida trouxa mal recuperou seu fôlego e logo coloca-se de frente ao marido congelado magicamente, sentindo o coração apertar com a visão do seu semblante tão sério e sombrio.

-Harry! Me perdoa, mas não tinha outra forma de parar você!

Desculpava-se ela nervosamente rezando interiormente que esta atitude não direcionasse toda a ira de Harry em sua direção. Os olhos do grifionário moviam-se ferozmente de Hermione ao leito de James.

-Se concordar em ficar calmo e guardar sua varinha eu prometo que não vou te enfeitiçar de novo! Se concorda comigo, pisque os olhos duas vezes...

Continuava ela respirando pesadamente, seus olhos castanhos focados na resposta do moreno que para seu alívio completo, concordou rapidamente. Com um movimento fluído o grifinório estava livre do encanto, seus músculos outrora tensos estavam relaxados e finalmente podia encarar corretamente a nascida trouxa.

-Eu sinto muito Harry! Não queria quebrar sua confiança, mas você parecia disposto a enfeitiçar qualquer coisa no seu caminho e eu mal conseguia acompanha-lo então só encontrei uma alternativa para...

Começava novamente a grifinória, mas fora interrompida pelo moreno.

-Está tudo bem, Hermione!

Diz firmemente o Potter guardando sua varinha e segurando a nascida trouxa pelos ombros. Por um momento, tudo que queria fazer era abraça-la bem forte, até que toda preocupação no rosto delicado desaparecesse por completo, porém, ele ainda pensava e agia como um garoto desajeitado de catorze anos de idade e jogou esses pensamentos bem no fundo da sua mente, afinal tinha algo muito mais importante para dizer agora.

-Eu só... eu só acho melhor deixar que Madame Pomfrey me consulte outro dia... não quero ficar no mesmo lugar que aquele cara e... vamos levar James pra casa ok?

Explicava ligeiramente contrariado o moreno para a completa surpresa de Hermione, que o fitava incrédula.

-Mas, é importante que você seja verificado imediatamente Herry! Quanto mais rápido descobrirmos o que aconteceu, mais rápido podemos curá-lo!

Desesperava-se a nascida trouxa temendo ver o estado de Harry se agravar e não poder fazer nada além de assistir seu marido agir como um adolescente mal-humorado e paranoico, desconfiando dela e assustando seus filhos a ponto de se tornar uma ameaça a si mesmo e sua família.

-Podemos tentar amanhã ou quando James tiver melhor... são só um par de dias!

Rebate o grifinório secamente, soltando Hermione, mas mantendo o contato afiado de seus olhos.

-Oh, Harry!

Suspirava derrotada a senhora Potter, sem esconder a decepção.

-Eu não vou ficar no mesmo lugar que ele, Hermione!

Defendia-se Harry sentindo uma estranha agitação dentro de si.

-Vamos! Vamos levar James pra casa!

Anuncia o moreno em tom de finalidade, seguindo sozinho em direção ao leito do filho deixando uma Hermione aflita para trás.