Mudanças

--Capitulo 2—

Quem olhasse agora realmente acharia estranha a bagunça existente no quarto do ruivo. Vários papéis amassados e rabiscados poluíam a visão do quarto impecável de sempre, e só se reconhecia a figura magra, sentada no chão com um bloco agora fino de papeis e um lápis na mão. Esboçava milhões e milhões de vezes e nunca conseguia chegar ao ponto que queria. Desenhava sombras, brilhos, o contorno, mas a figura, repetida milhares de vezes em cada papel não saia perfeita como ele queria. Por fim, chegando a um resultado aceitável, note-se que aceitável não é definido como bom neste contexto, largou o papel no chão e saiu do quarto.

Via-se uma pequena figura na folha, desenhada darias vezes até chegar ao final. Um olho. Simples, porem muitíssimo complicado. De linhas às vezes fortes ou fracas, voltas ou retas, mas não conseguira exprimir aquele brilho. Aquele 'que' de vida, que normalmente conseguia.

Pelo menos por aquele dia iria desistir do que o estava incomodando há exatas duas semanas. Tinha uma boa memória para tudo, ainda mais se fosse algo marcante. E não conseguia esquecer aquele rápido reluzir de curiosidade nos olhos do kyoto. Aquilo o incomodava, pois, pelo que se lembrava, até então o kyoto só lhe olhara com desdém, indiferença, ou algo assim, não com aquela expressão quase... Calma. Não que o rosto dele tivesse mudado, mas os olhos... Notava que às vezes conseguiam ser expressivos.

Entrou na cozinha, pegando um pão dentro do armarinho e comendo, a seco mesmo, não sentia muita fome. Suspirou, olhando sua armadura largada num canto da sala. Pelo horário já estava quase na hora de começar a ronda. Desencostou-se da parede, onde estava até então e elevou um pouco do cosmo, chamando a armadura, que vestiu seu corpo perfeitamente, e ficou segurando o elmo na mão. Saiu pela porta, e mais uma vez a visão daquele lugar desolado o atingiu, como sempre. Sentia, pelo cosmo, que não havia nenhum espectro por perto. Sorriu internamente e se permitiu fazer algo que não deveria, pois era um gasto desnecessário de energia.

"Então... Vamos lá... Faz tempo que não faço isso..."

Deixou de ocultar o cosmo e o elevou um pouco, sua energia tingindo um pouco de azul escuro o ambiente. As asas de sua armadura abriram e ele correu o mais rápido que pôde, rapidamente alçando vôo. Era uma sensação boa de liberdade, que o fazia esquecer dos pensamentos confusos que sempre tinha. Sentia o vento extremamente frio batendo em seu rosto, os cabelos totalmente jogados para trás. Era uma bela visão, o espectro, com a armadura num roxo escuro, as asas que era em predominância prata, a pele alva, pálida, e os cabelos quase vermelhos jogados ao vento.

-0-0-0-0-0-0-0-0-0-

Radamanthys estava perto do castelo de Hades, treinando alguns soldados que considerava fracos, quando, apenas por ter prestado atenção, sentiu um cosmo alto e forte vindo do Cocyte. Não se lembrava de nenhum espectro de lá que tivesse um cosmo tão elevado. Largou os espectros, dando um descanso a eles e trajando sua esplendida sapuris se dirigiu rapidamente ao inferno de gelo.

Chegando lá viu uma figura que o fez se surpreender. Ainda estava longe e não podia ver quem era, mas aos poucos a figura, parecendo sentir o cosmo do kyoto, foi perdendo altura e 'pousou', e Wyvern pôde reconhecer aos poucos quem era. Os cabelos ruivos, a armadura de Harpia, os olhos de vidro. Estreitou os olhos e falou num tom sério.

"Sabe que não deve gastar energia em coisas como essa Valentine de Harpia..."

Comenta num tom frio, tentando dissipar a idéia que parecera uma imagem... Bonita. E achando ridículo ele mesmo achar que a imagem do espectro parado ali, com os cabelos revoltos e os olhos com um minúsculo brilho no fundo era algo bonito também.

Valentine o olhou, a sensação de voar o devolvera um pouco de felicidade, mas agora aquilo passava e os olhos voltavam a embaçar. A expressão um tanto ofegante foi mudando pra séria de sempre. Olhou-o e falou formalmente.

"Perdoe-me então vossa majestade Radamanthys..."

O ruivo percebeu o brilho irritado que os olhos dele adquiriram, mas não falou nada. Deus as costas ao juiz e começou a caminhar, sentiu seu ombro ser segurado e se virou devagar, controlando a muito custo à reação de se afastar rapidamente quando sentiu o toque. Sua face foi encarada pelo juiz durante algum tempo e depois o kyoto simplesmente se virou e foi embora, parecendo um tanto irritado porem pensativo. Harpy suspirou e ficou vendo o loiro se afastar. Realmente, não sabia o que ele tinha na cabeça, mas tentaria não pensar naquilo. Tentaria. A intensidade do olhar dourado o deixara pensativo, incomodado, e, por um segundo, o fizera esquecer que aquele que estava olhando era realmente o terrível kyoto do inferno.

-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-

Levantou-se da larga cama dossel que havia em seu quarto. Olhou para o relógio de cabeceira. Cinco horas da manhã, devia se levantar e começar suas atividades. Trocou de roupa rapidamente e vestiu a sapuris, saindo então do quarto e posteriormente do castelo de Hades. Devia ver naquele dia os três círculos do inferno mais próximos ao castelo, onde ficavam os seus espectros. O inferno inteiro era dividido em três círculos, também chamados prisões. Minos de Griffon, o kyoto que julgava as almas, tinha seus espectros nas três primeiras prisões, onde estavam aqueles com pecados mais leves. Ayacos de Garuda cuidava das que vinham depois, onde os crimes eram mais pesados. Já ele, Radamanthys, por ser considerado o kyoto mais forte, cuidava dos últimos circulo, o sétimo, o oitavo, e o nono, onde ficavam as almas que haviam cometido os mais graves delitos.

Passou pela menor fronteira do Cocyte, querendo chegar o mais rapidamente possível na sétima prisão, a dos suicidas. Havia ouvido boatos dentro do castelo que algumas das almas que 'viviam' no lago estavam tentando escapar, e sabia que seus espectros, apesar de serem ordenados, só olhavam aquela área de tempos em tempos. Chegou perto do escuro e borbulhante lago, vendo, ao longe, por onde ele corria, algumas almas que os demônios não conseguiam conter. Seu impressionante cosmo se elevou, e, em poucos instantes, as almas estavam novamente controladas, atordoadas. E os demônios que não haviam conseguido segurá-las haviam sido aniquilados. O kyoto deu um sorriso de escárnio. Não se importava em matar aqueles pequenos monstros. Eram pragas que se multiplicavam rapidamente.

Demorou ainda uma hora ou duas para verificar toda aquela prisão. Mesmo com sua velocidade, era um lugar grande que só tendia a crescer. Saindo dali passou para a oitava prisão, na qual não se demorou muito tempo também, e quando entrou no inferno de gelo estava perto do meio-dia.

Estava irritado, com vontade de descontar seu incomodo em alguém. Algum espectro mais forte do que os normais, de preferência pois já havia se cansado de lutar com gente fraca. Lembrou-se então daquele outro dia, quando surpreendera o espectro de Harpia usando seu cosmo e voando pelo cocyte. Lembrou-se dos olhos dele, da estranha sensação que tinha ao vê-los. Procurou-o com seu cosmo, e sentiu sua energia em algum local bem longe da trilha que ia pelo gelo. Chamou-o pelo cosmo, e alguns minutos ele apareceu, usando a velocidade que seu cosmo permitia. Se demorara tanto tempo queria dizer que estava realmente longe. Viu o chegar e parar há uns dez metros de distância.

O ruivo abaixo novamente o cosmo e se aproximou do kyoto. Num andar lento e até felino, mas que era característico dele. Olhar era sério e centrado, como sempre, mas deixava transparecer um tanto de curiosidade. Por que ele o havia chamado afinal de contas? Sutilmente analisou o cosmo dele, afinal, a energia era tão elevada e tão singular que não necessitava esforço nenhum para isso. Ele parecia... Irritado. Ouviu-o falar.

"Muito bem... Harpia..."

Não entendeu o que ele queria dizer com aquilo, mas quando o viu desaparecer e sentiu o cosmo dele elevado como numa luta compreendeu. Realmente, já havia entreouvido comentários que às vezes o juiz gostava de 'treinar' com alguns espectros. Apenas estranhou que tivesse escolhido justo a ele, afinal, praticamente nunca tinham trocado palavras ou qualquer coisa assim. Foi obrigado a cessar os pensamentos quando sentiu um chute forte nas costelas e foi atirado longe. Ouviu então a voz arrogante, que tinha um tom estranho que não conseguia definir.

"Preste mais atenção espectro..."

Imediatamente Valentine pôs-se em modo defensivo, modo de batalha. A expressão antes apenas séria ganha uma nuance fria e os olhos um tom metálico. Sente o cosmo dele se aproximar e consegue, dessa vez, agilmente escapar do golpe solto pelo juiz. Sabia que ele não usava toda sua força, pois não era permitido machucar fatalmente nenhum de seus soldados. E mesmo sendo forte, o ruivo era fraco em comparação ao juiz. Podia apenas usar a agilidade e a intuição que tinha, além de uma boa percepção do que estava ao redor.

Foi à vez de Harpia desaparecer usando sua velocidade. O que se via eram apenas manchas se encontrando e se distanciando, em uma alta velocidade. Nenhuma palavra era proferida, não necessitava que fosse. Socos, chutes, e golpes variados eram usados por ambos, mas o inglês atacava muito mais agressivamente, e o cipriota concentrava-se mais em defender-se e, quando podia, atacava.

O kyoto estranhava. Acertava vários golpes no ruivo, mas este não soltava nem um som. Ele era bastante orgulhoso, pensou com um sorriso irônico, sem parar de lutar. Mas tinha de admitir que o espectro lutava bem. Se não fosse a diferença de forças e de cosmos, talvez em uma batalha puramente corpo a corpo Valentine pudesse lutar de igual para igual utilizando da agilidade que tinha. Aproveitando uma brecha do ataque de Valentine, e também que o treino já durava por demais e não estava mais irritado, usou um golpe de mão e acertou-o na boca do estomago, fazendo-o cair um tanto longe. Com a respiração um tanto entrecortada pela adrenalina viu o outro se levantar, bem mais ofegante que ele pelo lugar no qual fora acertado. Radamanthys o viu endireitar o corpo e dizer, num tom que parecia feito apenas para irritá-lo e provoca-lo.

"Satisfeito... Vossa Majestade? Acho que... posso me retirar então..."

O espectro não sabia por que fazia isso, mas sentia necessidade de provocar o kyoto, mesmo sabendo que poderia ser castigado por isso. Aquele 'treino', de alguma forma, o havia feito se sentir diferente, estranhamente. Algo que realmente não sabia definir. Devia ser apenas sua imaginação, pensou. Sentiu que seguravam seu rosto pelo queixo e ouviu o que o de olhos dourados falava, no seu modo arrogante, bem próximo a seu rosto.

"Quem pensa que é para falar dessa forma?"

Sentia a mão dele o tocando. Não estavam mais treinando. Um estalo no fundo de sua mente e o modo de agir mudou drasticamente. Novamente aquela reação, que demorara mais do que o normal mas chegara. Afastou-se abruptamente, os olhos arregalados e a voz um tanto esganiçada, mas ainda em seu tom baixo.

"N-não me toque...!"

O loiro muito estranhou a reação dele, deixando, por causa da surpresa, sua face expressar a preocupação que vinha sabe-se lá de onde mesclada com a irritação. Por que ele havia mudado o jeito de agir tão rapidamente? Por que reagira daquela forma? Ficou olhando-o nos olhos, agora visíveis, pois o elmo da sapuris afastava a franja. Os olhos verdes estavam totalmente abertos e transpareciam confusão e até medo, mas aquilo só durou um segundo, e Wyvern chegou a se perguntar se realmente havia visto aquilo. A expressão de Harpia foi voltando ao normal devagar. Ele odiava e ao mesmo tempo se sentia confuso com a própria reação.

Sempre, mesmo que evitasse aquilo acabava acontecendo, por instinto. Antes que ele pudesse pensar já tinha se afastado e pronunciado aquelas palavras... Sempre as mesmas, sempre. Viu que o loiro o olhava, numa muda pergunta que exigia resposta. Vencido pela repentina confusão que aquele toque provocara, falou em um tom diferente.

"Me desculpe... Eu... Eu... Não sei dizer por que isso aconteceu, acho melhor mesmo ir embora..."

Após essas palavras o ruivo deu as costas e se afastou, em passos rápidos e incertos. E o vento frio e gelado, que levava junto um pouco de neve, o fez desaparecer rapidamente dos olhos do juiz, que ficou observando-o até desaparecer. A face do loiro tinha uma expressão séria e arrogante, a expressão que tinha na maior parte do tempo. Porem perguntas e mais perguntas sem respostas rondavam sua mente, uma curiosidade se apossando de si. Mas não tinha muito tempo para aquilo, devia voltar para o castelo de Hades, tinha uma reunião com aqueles dois detestáveis kyotos.

Depois de algum tempo entrou pela porta da sala, encontrando apenas o controlador de marionetes com seus longos cabelos brancos no local. Sentou-se em uma cadeira bem afastada daquele homem, ouvindo depois o som de passos atrás de si e a aproximação do moreno Garuda. Suspirou, aprumando-se na cadeira. Começara.

-0-0-0-0-0-0-0-0-

O ruivo chegou a sua casa depois de um tempo, confuso e com raiva de si mesmo. Largou-se no sofá, cansado. Sempre procurava em suas memórias o porquê afastava cada toque, contado. Nunca conseguia, mas também pudera. Sua vida, quase totalmente, fora vivendo como espectro, no submundo. Antes disso não lembrava muito bem. Sua infância, onde deveria estar a única explicação, era algo nublado, um passado incerto que do qual tinha poucas lembranças. As únicas recordações eram de um lugar enorme com altos muros brancos, normais em seu país, com janelas minúsculas e de ar abafado. Recordava-se de pessoas quietas e severas, murmúrios contínuos pela noite e um silêncio desagradável. Lembrava-se também de grandes salões, com bancos de madeira e com pouquíssimos adereços nas paredes nuas, sempre um tipo de... Altar, ao fundo. À sua mente vinham memórias vagas de gritos vindos de uma voz rouca, arrogante e após isso... Dor. A lembrança mais viva era de uma pequena saleta, toda feita de antiga madeira, cheia de panos, coisas que não conseguia identificar e aranhas, ratos. E as imagens cessavam por, por causa da surpresa, sua face expressar a preocupaçe olhos dourados falava, no seu modo arrogante, bem pro ai. Estranhamente não se lembrava do mar e nem muito do céu claro quase sem nuvens e totalmente azul de seu país natal, uma pequena ilha do mediterrâneo.

Perdera a conta de quantas vezes tentara identificar aquele local branco, sem sucesso. Também, com lembranças tão escassas era difícil. O único lugar no qual poderia achar informações seria também um dos lugares no qual não podia ir. A biblioteca do castelo de Hades. Sabia que lá se encontravam livros com informações sobres todas as partes do mundo, mas tinha conhecimento também que essa biblioteca era reservada aos kyotos e a espectros permitidos por eles de entrarem lá, o que, praticamente, nunca acontecia.

De repente a sua mente veio uma imagem. Quando o kyoto o tocara, e ele se afastara, a reação do inglês, a qual não havia prestado muita atenção na hora, fora estranha. Podia jurar que antes dele refazer a expressão arrogante vira um brilho diferente nos olhos dourados. Algo parecido com o que havia visto na floresta dos suicidas. Era algo que o incomodava e ao mesmo tempo o deixava curioso. Aquele brilho fugas nos olhos dele, por um instante, pareceu... preocupação? Balançou a cabeça, e teria rido não fosse a situação. Até parecia que o grande kyoto de Wyvern iria se preocupar com algum espectro, ainda mais com ele.

Levou a mão até o tórax, sentindo a região que o outro acertara doer. Mais tarde cuidaria daquilo. Levantou-se, dando um suspiro e foi até a cozinha, tomando um copo de água. Apoiou-se no balcão e olhou o velho relógio de madeira. Era ainda inicio da tarde. Descansaria um pouco e depois retomaria a vigília do cocyte, mesmo já tendo acabado seu 'turno'.

Quando recostou-se na cama, seu olhar recaiu rapidamente nas folhas jogadas à um canto do quarto. Virou nos lençóis, deitando de lado, podendo ver uma em especial que estava virada para ele. Era o desenho que havia feito dos olhos do inglês arrogante. Ficou algum tempo observando a imagem, perdido em lembranças e reflexões, tentando recusar-se a admitir que começava a pensar no juiz mais do que seria necessário. Virou-se novamente na cama, ficando de cara com a parede. Se ficasse para o outro lado não conseguiria tirar os olhos do desenho. Bufou, tentando afasta-lo de sua mente e deixou o sono chegar aos poucos. Apenas um leve cochilo antes de voltar ao inferno de gelo.

------------

Bom... Um tanto atrasado, mas chegou o segundo capitulo... Espero que gostem... E ah, o próximo deve demorar um pouco mais pois estou podendo ficar pouco tempo no computador. Desculpem-me. E quanto aos p.o.v.'s ... Voltarei a fazê-los no capitulo três, nesse estava meio difícil de escrever...

A.M.