Mudanças

--Capitulo 6--

Voltava para casa quando se lembrou. Já fazia cinco dias que o kyoto de Wyvern havia partido naquela missão. Abriu a porta da pequena casa que tinha no Cocyte, lembrando da última vez que o vira. Tirando quando ele partiu fora nos aposentos dele, para conversar sobre a... Missão. Sabia sim o que havia dito a ele, sabia no que aquilo tudo podia resultar, mas... Não sentia medo, pelo menos nada anormal, acreditava. Claro, ainda tinha um pouco de receio quando o tocava, mas mesmo assim podia controlar, e como quase afirmara, gostava do jeito dele consigo. Quer dizer, do modo como ele agia agora. Não imaginara, e era difícil mesmo agora ver o kyoto como alguém capaz de ser terno, mas percebera sim um tanto de carinho pelas ações dele, um brilho diferenciado naqueles orbes de cor tão rara. Ficou algum tempo arrumando sua moradia antes de voltar a patrulhar o Cocyte.

Observava o horizonte que parecia momentaneamente interminável quando ouviu um espectro de nível inferior se aproximar. Haviam recebido alguns relatórios da missão do kyoto de Wyvern, o que significava que ele devia estar voltando, e foi informado que assim que Radamanthys efetivamente voltasse ao meikai havia ordens para que fosse falar com ele. Concordou, mentalmente completando que o faria de qualquer forma, já que tinha de tratar com ele sobre os três infernos dos quais o kyoto cuidava e lhe passara a responsabilidade durante aquele tempo.

Em relação a isso, não podia realmente dizer que tudo correra bem, tivera algumas dificuldades em fazer os outros espectros aceitarem os comandos, o trabalho era realmente exigente e além de tudo havia os serviços burocráticos que tinha de fazer também. Cansava um bocado e ainda tinha a responsabilidade de, ao menos algumas horas por dia, vigiar a nona prisão.

Cerca de um dia após, foi avisado que o kyoto estava já em seus aposentos e chamou a sapuris por cosmo, logo se dirigindo para o local. Ia bater na porta quando ouviu a voz do outro falando para que entrasse e, apesar de surpreso, o fez. Observou o local onde já estivera, mas estranhou ao não ver o kyoto ali e procurou o cosmo dele. Viu a bela sapuris montada a um canto e seguiu a energia que vinha do fim do corredor. Bateu na porta de trás da qual o outro estava e após ouvi-lo falar que entrasse abriu-a, olhando em volta rapidamente e logo percebendo o inglês deitado na cama. Roupa de treinos, mas... Estava um tanto ferido... A perna, os dois braços... Não parecia tão grave assim, mas teve de admitir que era o suficiente para se preocupar, um pouco.

- "Caixa de primeiros socorros, primeira gaveta dessa estante a seu lado."

O ruivo ia falar algo quando foi interrompido por aquilo e apenas concordou. Era um pedido de ajuda um tanto peculiar, mas... Sabia como o outro era orgulhoso. Tirou a sapuris para melhor se mover dentro do quarto e abriu a gaveta indicada, achando a caixa e se aproximando do outro, observando os ferimentos.

- "O ferimento da perna está infeccionando e os dos braços apenas precisam de ataduras para estancar o sangue."

Mais uma vez apenas aquiesceu, precisaria primeiro limpar os ferimentos e... Tinha um pano limpo na caixa, serviria.

- "Banheiro?"

Depois de perguntar viu-o apontar uma porta a sua esquerda e molhou um tanto o pano na pia, voltando depois e passando-o sobre os ferimentos, limpando-os e percebendo melhor a situação de cada um. Hum... Tinha um frasco com iodo na caixa, serviria para desinfeccionar o ferimento na perna. Abriu o frasco, estava ao lado do kyoto e devagar despejou apenas um pouco sobre o ferimento, vendo-o crispar um tanto as mãos, em silêncio. Orgulhoso ele... Sabia que aquilo podia doer e muito. Passou novamente o pano sobre o ferimento, secando um pouco e na caixa achou faixas e ungüentos. Passou a mistura cremosa no ferimento e fez um curativo, subindo agora para cuidar dos braços dele.

Pelo que vira os demais ferimentos não precisavam de nada além de limpeza, então daria atenção a aqueles que, como dissera o kyoto, precisavam de ataduras. E também notou que o do braço direito precisava de alguns pontos.

- "Se continuar me analisando assim não me responsabilizo pelas conseqüências."

Depois de falar, o kyoto viu o ruivo corar, murmurando qualquer coisa que não entendeu e sorriu de canto, observando o que ele fazia. Normalmente cuidaria sozinho dos próprios ferimentos, mas... Queria alguma desculpa para ter o outro perto de si. Afinal, apesar do que se passara antes de sair em missão, é claro que percebia que o espectro ainda parecia um tanto arredio a contato físico. E ao mesmo tempo em que se preocupava pelo motivo daquilo, não conseguia refrear a vontade de se aproximar mais do que devia... Sendo que não entendia ainda por que diabos se interessava tanto por ele.

O inglês suspirou ao sentir a agulha em seu braço, enquanto o outro começava a fazer os pontos e ergueu o rosto para ele, observando-o. Algumas vezes, mesmo antes da guerra santa, se perguntara por que aquele espectro com o qual raramente falava, jurara fidelidade a si. Quer dizer, fidelidade ao kyoto de Wyvern. Se bem que, mesmo não o conhecendo muito bem, considerava-o um de seus espectros de confiança e... Não era só isso. Chamou o nome do cipriota, vendo-o voltar o rosto para si e acabou por perguntar o que estava na sua mente até então.

- "Valentine, por que não gosta quando te tocam?"

E a pergunta tão simples fez o espectro de Harpia hesitar por um momento, observando os orbes dourados que o olhavam curiosos por apenas um momento antes de baixar os olhos, pensando um tanto. Continuou a fazer os curativos nos braços do outro enquanto respondia num tom baixo... Embora não realmente quisesse falar, não conseguiu impedir-se de proferir algumas palavras.

- "Por que desde que me lembro nunca recebi um toque que não fosse de violência, repreensão ou agressão."

Apesar de tudo a voz lhe saiu calma, talvez até demais, com bem menos sentimento do que deveria ao dizer algo assim, e Radamanthys percebeu. Ergueu uma sobrancelha, observando o outro. Até que fazia sentido, e eram muitos os espectros que deviam ter memórias parecidas... Afinal, não haviam sido escolhidos aleatoriamente. Viu-o começar a fazer o curativo de seu outro braço, tendo de inclinar um tanto o corpo sobre o seu, e devagar ergueu a mão direita, tocando uma mecha do cabelo vermelho que pendia e disse, enrolando os fios em seus dedos.

- "É compreensível. E se isso lhe compensar de alguma forma, saiba que não o machucaria, no que de mim isso depender..."

Não sabia de onde saíam aquelas palavras, mas elas não representavam mentira alguma. E, se possível fosse, protegê-lo-ia do que pudesse. O ruivo parou novamente, observando-o a principio sem compreender aquelas palavras, demonstrando depois um pouco de surpresa para que então um pequeno sorriso aparecesse em seu rosto. Não compreendia ao certo por que ele falava aquilo, mas... Se verdade fosse, significava que o outro realmente se importava consigo e... Era bom saber aquilo... Afinal, sabia que sentia algo além de admiração e respeito profissional pelo ser à sua frente. Ou não deixaria que a conversa ficasse tão pessoal, e nem responderia...

- "Eu... Hum... Obrigado. Radamanthys..."

Notou que era a primeira vez que o chamava pelo nome, sem nenhum tratamento mais formal e ia se desculpar quando viu um sorriso de canto nos lábios do kyoto. Isso... Queria dizer que ele gostara? Já havia terminado de cuidar dos ferimentos dele e fez uma leve menção de se afastar quando se sentiu seguro pelo braço e voltou a erguer o olhar para ele, vendo um tanto de curiosidade, interesse e algo que não exatamente classificaria como carinho, mas a palavra ideal não lhe vinha à mente.

O inglês, que apenas o observava sem dizer nada, manteve o leve sorriso nos lábios. Estranho, não costumava sorrir assim, mas... O jeito do outro o fazia sentir, quem sabe, um tanto de paz. E paz era tão raro no mundo em que viviam... E achava que o ruivo a sua frente passava isso. Paz, serenidade... E uma estranha inocência que agora que reparava não o deixava se afastar. Lembrou-se da reação de Valentine antes que partisse em missão e puxou o braço que segurava mais para perto, vendo o espectro largar a caixa de primeiros socorros no pequeno móvel ao lado da cama e voltar a atenção para si como se perguntasse o que queria. Claro, os ferimentos do kyoto ainda doíam um tanto, mas nada que lhe tirasse a atenção daquele que observava e continuou a puxá-lo para perto.

Valentine não sabia se simplesmente se afastava ou continuava a se deixar levar por ele, mas... Mesmo que receasse um tanto aquela proximidade, o gesto dele ao puxá-lo não parecia conter ironia nem nada do gênero e acabou não resistindo. Percebendo a aceitação dele, Wyvern apenas aproximou-o mais e quando as faces estavam a poucos centímetros de distância deteu-se por um momento a observar a face em duvida que tinha a sua frente. Novamente os orbes verdes lhe chamavam a atenção. Agora que realmente pareciam vivos lhe eram tão bonitos. Resolveu, pelo menos por enquanto, não questionar mais nada. Seu jeito não tão familiar até a si mesmo, o que sentia pelo outro... Simplesmente subiu a mão que estava no braço do espectro até sua nuca e num rápido movimento acabou com o espaço entre eles, prendendo os lábios alheios num beijo apaixonado, mas ainda calmo. Era obvio para si que o outro não corresponderia a um primeiro momento, mas, passado esse momento, até alegrou-se ao sentir que ele começava a responder ao toque. Não pensou antes de enlaçar a cintura do outro, os dedos roçando de leve a pele da cintura por baixo da camisa dele e perguntou-se se o gemido que acabara de ouvir em meio ao beijo era mesmo seu. Não duvidava, do jeito que estava...

O espectro afastou-se depois de algum tempo, ao escutar um som diferente em meio ao beijo. Ele... Ele... Era melhor parar com aquilo antes que perdesse o controle. Notou que o kyoto o observava e apenas suspirou, deixando de corar ao poucos e achou melhor mudar o assunto. Afinal, tinha de reportar a ele sobre as prisões.

- "Wyvern, quanto ao meikai... Durante sua missão quase tudo ocorreu bem, há apenas alguns pontos que tenho de lhe falar."

O inglês deixou que o outro partisse o beijo e afastou as mãos do corpo dele, vendo-o ficar mais sério e suspirou. Ouviu-o começar a falar e ele próprio voltou ao jeito mais distante e normal a si. Bendita mudança de assunto... O outro ainda era bastante arisco a certos tipos de toque e não podia fingir que não tinha curiosidade para saber o motivo daquilo. Não que ele não tivesse lhe dito, há poucos minutos, mas sentia que não era tudo, queria uma explicação melhor do que aquela. Mas a hora não era a adequada. Sim, o meikai. Acima de qualquer coisa aquilo era o que importava. Ao notar que o cipriota parecia aguardar permissão para falar, aquiesceu com um movimento de cabeça, escutando o que ele lhe falara e ao mesmo tempo pensando. Sim, havia notado isso antes de partir em missão. Como sempre, mais uma vez um grupo de demônios de baixa classe tentava se rebelar contra as ordens de Hades. Aquilo teria de ser averiguado e, provavelmente, aqueles desordeiros deviam ser punidos.

Além da questão dos demônios, o espectro de Harpia falou a ele quanto às tentativas de tomar o poder dos outros dois kyotos, Ayacos e Minos. Várias vezes encontrara ambos dando ordens aos espectros de Radamanthys, que, por conseqüência, não respeitavam o que normalmente seriam seus deveres. O dialogo durou cerca de uma hora e por fim o ruivo terminava de guardar os medicamentos que usara nos ferimentos do outro, que haviam sido esquecidos anteriormente. Enquanto ia recolhendo as coisas, sabia que o outro o olhava e por fim virou-se a ele, já trajando a sapuris, fazendo uma respeitosa mesura e dizendo que se retiraria. Notava certo cansaço na face do kyoto. Era compreensível. Ele acabara de voltar de missão, ferido, e ainda, depois dos relatórios que sabia que ele já mandara à Hades, discutira consigo quanto às prisões que comandava no meikai.

Logo, saindo da Giudecca, voltou ao Cocyte, o coração ainda batendo um tanto rápido. O que quer que estivesse acontecendo entre ele e o kyoto de Wyvern lhe afetava... E cada vez mais. Lembrou-se do abraço e do beijo que o outro lhe dera. Ao mesmo tempo em que ainda se acostumava com aquele tipo de aproximação, admitia para si mesmo que apreciava aqueles toques, o respeito e o aparente cuidado que o outro tinha consigo... Mais ainda lhe era uma verdadeira incógnita o motivo de o kyoto agir dessa maneira.

Não demorou a voltar para a nona prisão, que fazia fronteira com a Giudecca, logo sentindo os ventos cortantes passarem por si. Podia ser frio ali, mas no momento não notava isso, apenas andava o caminho de volta à sua casa. Era inicio de tarde, tinha que dar um jeito nos relatórios por escrito que ainda tinha de entregar à Lord Hades.

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N.A.: Capitulo rapidinho, só de passagem... Peço desculpas pela demora...