Capítulo 2
Madame Pomfrey já nem se lembrava quantas vezes ao longo dos anos em que trabalhava em Hogwarts fora acordada no meio da noite para atender uma emergência. E a professora Minerva, que foi justamente quem bateu apressada em sua porta nesta madrugada, era de longe a sua visita mais frequente, já que os grifinórios pareciam sempre mais propensos a acidentes do que os demais alunos. Desde que os jovens senhores Potter e Black iniciaram sua vida escolar então, ter uma noite plena de sonho vinha se tornando cada vez mais raro.
Mas nunca antes havia sido chamada por um motivo tão inusitado.
– Onde ele está? – perguntou a enfermeira, terminando de amarrar o roupão enquanto andava entre as camas, tão alerta que ninguém jamais poderia supor que apenas há dez minutos estivesse entregue ao sétimo sono. É certo que tivera certa dificuldade em entender a história estapafúrdia que a colega lhe contara sobre seu paciente noturno, mas é provável que ainda que estivesse totalmente desperta ficasse confusa do mesmo jeito.
– Ali, eu o deixei ali – Minerva apontou para um leito mais próximo da porta, onde estava deitado um rapaz ruivo, enrolado no roupão xadrez da professora. – Agora ele respira normalmente e a pulsação parece estável, mas... Não faço idéia do que aconteceu, Poppy.
Pomfrey examinou o jovem brevemente. Os sinais vitais estavam bons, apesar dele estar todo chamuscado e ter uma considerável concussão na parte de trás da cabeça, onde provavelmente tinha batido quando caiu no chão. Mas nenhuma só queimadura, a despeito da explosão a que foi exposto.
O que mais estranhou foi que ele, seja lá quem fosse, não era um de seus alunos. Na verdade, apesar do garoto ter qualquer coisa de familiar, nunca o tinha visto antes na vida.
– Sim, o rapaz me parece bem. Está apenas inconsciente. Mas eu pensei que estávamos falando de Albus.
– Esse é o Albus – McGonagall respondeu enfaticamente, apontando com a cabeça para o outro ali presente.
A enfermeira abriu um sorriso debochado, que foi morrendo aos poucos ao ver que, por incrível que parecesse, a outra estava falando sério.
Então Pomfrey voltou a examiná-lo, mas dessa vez sem ser clinicamente. A altura era a mesma e os traços também, mas ele estava visível e absurdamente rejuvenescido. O nariz longo era reto e normal, o cabelo vermelho-cobre estava mais curto e ainda com sinais de ter sido queimado e sua barba era tão rala como a dos sextanistas que vinham procurá-la para obter poções contra seus problemas com acne. Fora isso, era o próprio.
Ainda de olhos arregalados de surpresa, usou a varinha para determinar-lhe a idade.
– Dezessete! Como o Dumbledore foi perder oitenta anos?
– Eu não sei. Como disse, encontrei-o em seu laboratório completamente destruído, já assim – McGonagall explicou rapidamente, o sotaque pesado de apreensão. – Ele vai ficar bem, não vai?
– Creio que sim. Ele é forte e jovem, vai se recuperar rápido. E quem sabe quando acordar poderá nos dizer o que aconteceu.
Minerva assentiu em resposta, mas a essa altura da conversa já tinha voltado a observar a versão adolescente de seu melhor amigo e empregador, que parecia quase sereno ali adormecido em seu leito hospitalar. Relutantemente, lá pelas três da manhã acabou sendo convencida por Poppy a retornar a seus próprios aposentos para ter o resto da noite de sono, já que o mais provável é que ela tivesse de lidar com a administração do colégio sozinha no dia seguinte.
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Albus Dumbledore abriu os olhos devagar, dando de cara com o desfocado teto pintado numa enjoativa cor pastel. Deu uma olhada em volta, tanto incomodado pela claridade, consideravelmente maior do que estava acostumado ao encontrar pela manhã em seu dormitório, como pela própria visão embaçada. Por isso apoiou-se num dos cotovelos e pegou os óculos de meia-lua na mesinha de cabeceira ao lado. E, por algum motivo que ele não soube entender, as lentes lhe pareceram fortes demais.
Como já havia notado, se encontrava na enfermaria. Estava sozinho ali e, pela luz do sol vinha da janela, ainda devia ser bastante cedo. Era curioso, pois não se lembrava de ter ficado doente, embora houvesse uma dor latente na parte de trás da cabeça, que não seria de se estranhar se tivesse sido causada por um balaço errante ou algo do tipo. Notou também que não estava usando um de seus pijamas, mas os reservados para pacientes.
Sua memória estava meio nebulosa, mas ele se lembrava perfeitamente das deliciosas costeletas das quais se empanturrara no jantar anterior e da meia hora antes de finalmente adormecer que passara ouvindo Elphias se lamuriar porque sua ex-namorada tinha começado a sair com um garoto corvino. Tivera também um sonho estranho e intenso com um mar de chamas azuis e uma linda mulher com o mais incrível par de olhos verdes que já tinha visto, que beijava-o com lábios que tinham o próprio gosto do fogo... Mas não conseguia pensar em nada que explicasse uma internação clínica.
O rapaz esperou pacientemente, e só levou cerca de quinze minutos para que a porta que dava para a sala particular da enfermeira começar a se abrir.
– Bom dia, Madame Cunningham – ele cumprimentou, enquanto se sentava em seu leito. Mas essa não era a velha e doce bruxa que esperava encontrar lhe dando assistência médica. – Oh, perdão. Onde está Madame Cunningham?
Pomfrey abriu um sorriso condescendente, daqueles que usava com tanta frequência com seus pacientes que já nem se dava conta. Mas o erro ao ser nomeada realmente lhe chamou a atenção porque sua predecessora se chamava Madame Boyle, e isso foi há mais de três décadas.
– Madame Cunningham? – ela repetiu, inquisitória.
– Sim, ela está doente? – Albus disse, o tom e a voz exatamente iguais aos que sempre usava, ou ao menos desde que haviam se conhecido. – A senhora seria a substituta, eu suponho.
Ah, era muito pior do que ela havia imaginado! Ao que tudo indicava, ele não havia regredido só na aparência, mas até na própria memória. Poppy ainda ponderou por um instante enquanto se aproximava da cama do seu jovem paciente. É claro que também poderia ser um caso de amnésia devido a queda, mas isso era pouco provável... E fácil demais de curar.
Se as memórias tivessem sido apagadas ou alteradas por magia, no entanto, ela nada poderia fazer. Seria preciso um medibruxo especializado, um legilimens habilitado e uma procuração do próprio Dumbledore autorizando a mexerem na sua cabeça, e mesmo assim estaria fora de cogitação. Ele sabia demais do Ministério e dos segredos da própria Hogwarts pra ter sua mente sondada por quem quer que fosse.
– Albus.
– Sim?
– Você se lembra de mim?
– Eu deveria?
Ela não respondeu, indecisa de como seria recomendável contar-lhe do acontecido. Definitivamente não se trata de algo fácil de explicar.
– Qual é a última coisa de que você se lembra?
– Ter ido dormir noite passada. Mas não aqui, na minha cama.
– E que dia foi noite passada?
– Quinta-feira.
– Não da semana, Albus – a bruxa insistiu, deixando-o intrigado tanto com as perguntas como com o modo que chamava-o pelo prenome com familiaridade.
– Três de novembro.
– De que ano?
– 1898, é claro – ele afirmou com um riso nervoso que ela respondeu com um olhar que beirava a piedade. – Mas por que a senhora está me perguntando tudo isso?
– Apenas me certificando do estado atual da sua memória. Você teve uma queda feia e caiu de cabeça, e está com amnésia.
Como se fizesse parte da compreensão do ocorrido, Dumbledore correu a mão pela parte dolorida da cabeça e deu uma olhada em volta. A enfermaria não parecia diferente, exceto pela própria enfermeira, mas era bem provável que nada naquele lugar tivesse sofrido qualquer mudança considerável desde sua inauguração.
– Eu não me lembro de ter caído... Mas provavelmente isso faz parte do problema – ele admitiu, usando o bom humor pra disfarçar o quanto isso o deixava confuso.
Ela o compreendeu e reconheceu seu amigo Albus nisso.
– Sim, exatamente. Não precisa se alarmar com isso, nós vamos dar um jeito em você logo logo – Pomfrey garantiu tão confiante que ele anuiu com um sorriso. Seus anos de experiência ensinaram que demonstrar calma eficiência na frente das crianças era o principal em qualquer situação, mesmo quando não sabia como agir. – Apenas peço que continue aqui, em repouso, ao menos até que eu possa decidir que providências tomar a seu respeito.
– Sinto muito, madame...
– Pomfrey. Poppy Pomfrey.
– Encantado em conhecê-la. E lamento em ter que contrariá-la, mas não vou poder ficar aqui. Tenho que terminar um trabalho pra minha aula de Transfigurações de amanhã, senão vou prejudicar a nota dos meus colegas. E acredite, Elphias e Sibele já estão suficientemente... – Albus já tinha os pés no chão a meio caminho de se levantar quando avistou Minerva chegando com um misto de curiosidade e alívio no olhar. – Quem é ela?
A enfermeira se virou e foi até recém chegada, perdendo o imenso e deslumbrado sorriso que o rapaz abriu antes de voltar a se sentar na cama, parecendo ainda mais atordoado que antes. Ela também sorriu como se o cumprimentasse e ele acenou de volta por pelo menos cinco segundos, até se dar conta que ela tinha se virado pra falar com a outra e sua mão continuava se balançando no ar sem motivo.
– Professora McGonagall.
– Olá, Poppy – a vice-diretora saudou, puxou a colega para trás de uma das cortinas dos leitos e baixou o tom de voz como sempre fazia quando abordava um assunto importante ou sigiloso. – Como ele está?
– Amnésico e confuso, mas esbanjando saúde. Dumbledore não se lembra de nada desde 1898, e estou quase certa de que isso é devido ao rejuvenescimento.
Minerva tirou os óculos e esfregou as pálpebras por um longo momento, a noite mal dormida cobrando sua falta com uma poderosa dor de cabeça, que só fazia aumentar junto com mais esse problema. Para um homem tão inteligente, ele havia sido demasiado imprudente consigo mesmo! Se já seria difícil lidar com um Albus de aspecto adolescente, cuidar de um garoto sem memória a ainda gerir a escola seria praticamente impossível.
–Justo agora!
– Por que justo agora?
– Há uma guerra lá fora! E o que vamos fazer para proteger nossos alunos quando o grande defensor do mundo bruxo passa a ter só dezessete anos?
– Eu ainda não havia pensado nisso.
– Como também não deve ter pensado na segurança dele ainda. Albus tem muitos inimigos e qualquer um deles adoraria vê-lo nessa situação. Por isso devemos manter tudo em segredo absoluto – Minerva soltou um suspiro resignado, deixando transparecer toda a sua preocupação. Então recolocou os óculos, retomando toda a sua determinação costumeira. – Falarei com o Horace para preparar uma poção potente de envelhecimento. E se a amnésia estiver mesmo relacionada ao rejuvenescimento de Albus, creio que estará tudo resolvido em pouco mais de uma volta de lua. Até lá posso inventar alguma viagem de última hora para o diretor e substituí-lo nesse meio tempo, não seria a primeira vez.
– Mas e como esconderemos o rapaz enquanto isso?
– Vou pensar em algo, mas até lá mantenha-o na enfermaria em observação até a noite. Você não viu o tamanho da explosão, não sei como aquilo não o matou... Sabe-se lá que outros estragos o feitiço que o deixou assim pode ter causado.
Poppy se lembrava muito bem do quão amedrontada a amiga parecia ao trazê-lo na noite anterior e, se tratando de uma pessoa controlada como Minerva McGonagall, a situação devia ter sido mesmo terrível.
– Eu cuidarei dele.
– Fico mais... – a professora afirmou com ares de agradecimento e abriu a cortina para retornar para a enfermaria, quando foi desagradavelmente surpreendida. – Oh, droga!
Como de costume no primeiro dia da lua minguante, Remus Lupin aparecera para cuidar dos da fraqueza e os ferimentos que sua licantropia causava, e com ele vinham seus três amigos inseparáveis e incorrigíveis. E populares, encrenqueiros e inoportunos como sempre foram, claro que a primeira coisa que fizeram foi puxar assunto justamente com a pessoa que elas deveriam manter longe dos olhos de todo mundo.
N/a: Olá meus amadosss e queridíssssssimos leitoressss (sim, eu também sou ofidioglota). Bem, é a primeira vez que trabalho com os Marotos, então estou empolgada! Aguardo as opiniões de vocês e desde já deixo meus mais sinceros agradecimentos a todos que estão lendo e especialmente aos que perseveraram durante minha longa ausência.
KindestHuntress: Minha cara colega, que bom vê-la por aqui! Envergonho-me de todo o tempo que estive sem postar e garanto que muitos outros capítulos e histórias virão. Imagine só que gracinha nosso querido Dumbledore 9vinho, ruivinho, com sardas... é demais pro meu pobre coração.
Uhura: Fico muito satisfeita que aprecie o presente, de verdade é uma grande honra. Bem sabe que só você mesma pra trazer à luz meus projetos mais ousados! Aliás, aproveito aqui pra deixar meu protesto pela sua falta de novidades também. Sua vez que botar a pena e o pergaminho pra trabalhar, guria!
Sra. McGonagall Urquart: Nosso Albus é sim deveras curioso, mas essa é uma qualidade essencial de qualquer cientista. Quanto a gostar de brincar com ele, bem, admito que é outro passatempo delicioso. Fico muitíssimo feliz em ver mais uma colega escritora e apreciadora de ADMM prestigiando minha fic! E é somente por isso que a perdôo por apreciar o canon, rs.
cath.z: O que o Albus fez foi descobrir "um novo uso das penas de fênix", que no entanto eu garanto que não será publicado como ele fez com o sangue de dragão. Já o que será feito disso só o tempo dirá. ;)
Humphrey: Eu senti mais saudades ainda de escrever, vc não faz idéia. Espero que tenha gostado desse capítulo também, meu amigo, e garanto que vc não perde por esperar os próximos.
