Capítulo 3

As duas apressaram o passo, Minerva positivamente furiosa. Não podia deixar que ninguém soubesse, ainda mais aqueles quatro!

Os meninos, porém, pareciam muito à vontade no local. Potter e Black imitavam um duelo de esgrima com duas das hastes de soro, Lupin estava sentado na cama ao lado da de Dumbledore com o braço estendido para apertar sua mão, enquanto Pettigrew apenas permanecia próximo, mas observando a brincadeira de fora com certa admiração abobalhada. Pra ela, a visão do caos.

Não tinha como seu dia dar mais errado.

– Muito prazer, eu sou Al... – o jovem Albus começou a se apresentar, mas foi prontamente interrompido pela professora, a voz soando um pouco mais autoritária e alarmada do que deveria, mas os demais garotos pareciam já estar acostumados com esse tom.

– Albert White – McGonagall inventou o primeiro nome e desculpa que lhe passaram pela cabeça. – É um aluno novo, que ficará conosco por pouco tempo.

Ela lançou para seu patrão amnésico um olhar breve, mas significativo, que madame Pomfrey reforçou colocando uma das mãos sobre o ombro do rapaz. "Minta conosco", foi a ordem que elas deixaram implícita, e ele prontamente se calou e obedeceu.

– Transferido? – perguntou James Potter, depois de ter dado a estocada final com a haste de soro no peito do amigo, que caiu para trás no leito, gesticulando com uma mão sobre a ferida imaginária e emitindo onomatopéias representando uma grande perda de sangue.

– O Sr. White estudava com tutores, mas com a proximidade dos N.I.E.M.s seus pais acharam que fosse bom cursar ao menos um pouco do ensino regular – novamente McGonagall explicou por ele, sem conseguir conter um olhar de desagrado.

Ela não poderia explicar uma transferência se lhe perguntassem a sério, não tinha como forjar a papelada pra isso. Tampouco achou que Dumbledore poderia se passar por estudante de qualquer outro colégio, sendo tão britânico como ela o via. E mais particularmente tão grifinório.

– Tutores?! – exclamou Sirius, rindo. – Você é retardado ou o que?

– Menos dez pontos, Sr. Black. Não é assim que se recebe um novo colega de classe.

– Ao menos ele sabe falar por si mesmo? – foi a vez de Potter caçoar.

– Não costumo interromper quando há damas conversando – o jovem Dumbledore respondeu com um sorriso simpático na direção de McGonagall, embora sua cabeça pendesse um pouquinho para o lado, na direção dos garotos, como se os apontasse no que poderia ou não ter sido uma provocação direta. E era.

Por um breve momento todos o olharam com surpresa, exceto Peter que não percebeu nada. Aparentemente ninguém estava acostumado a ver alguém retrucando as provocações dos Marotos, quanto mais troçando deles.

E se aproveitando dessa brecha de distração, Minerva puxou o ruivo pelo braço, conduzindo-o para fora:

– Venha comigo, Sr. White, temos muitas coisas para resolver sobre sua estadia conosco.

Ela o levou pelos corredores, cumprimentando apressadamente os demais funcionários e alunos que passavam por eles, sem dar a ninguém tempo de perguntar quem era o rapaz. Tampouco deu a ele qualquer chance de falar até que tivessem sozinhos na torre do diretor, tendo atravessado seu gabinete dizendo apenas "explico mais tarde" aos quadros curiosos, e adentrado a sala dos aposentos particulares de Albus Dumbledore.

Lá sua pressa acabou, vendo-o observar com uma curiosidade inquieta suas próprias coisas, sem fazer a menor idéia de onde estava e porque tinha sido levado pra lá. Por um momento achou tão engraçado vê-lo atordoado e assustado daquela maneira que se esqueceu do quão estava aborrecida com a situação perigosa e incômoda na qual ele os tinha colocado. Toda aquela bagunça podia ser culpa dele, mas o pobre rapaz parecia estar pagando caro pela própria travessura.

Dumbledore, por sua vez, se sentia cada vez mais confuso. Não se lembrava de nenhuma das pessoas por quem passara no caminho, tampouco avistara qualquer rosto familiar desde que acordara, exceto o do diretor de sua época, mas ocupando um quadro na parede. E Albus sabia o que aquilo significava, mas não tinha como ser possível... Também já estivera antes naquela torre, mas nunca havia imaginado o que estaria no andar superior do escritório. Agora sequer sabia a quem ele pertencia.

Amnésia, foi o que a "nova" enfermeira disse. E pelo visto estava muito, muito certa. Mas quanto exatamente de sua memória estaria prejudicada? Quanto tempo havia perdido?

– Perdoe-me por agora há pouco – ela se desculpou, fazendo-o emergir da onda de preocupações na qual parecia estar se debatendo. – Eu não gosto de mentir, mas a situação se faz necessária.

Então os olhos dele se voltaram pra ela, expectantes, curiosos, e algo além disso que ela não soube ou não quis reconhecer. Estranhamente e a despeito dos próprios problemas, ele abriu um breve sorriso como os que ela estava acostumada a ver diariamente no rosto de seu ex-professor.

– Está tudo bem – ele afirmou, mas ponderou por um momento de prosseguir. Parecia tenso até em abordar o assunto. – Mas eu não conhecia aqueles garotos... ou ao menos não me lembro de conhecê-los. Na verdade não me lembro de nenhuma daquelas pessoas.

Minerva apontou para ele o sofá, no qual ambos se sentaram. Seria difícil de explicar.

– E de mim, Albus, você se lembra?

– Sim – novamente ele sorriu, os olhos brilhando muito, ainda mais que de costume. – Quer dizer, não me lembro de conhecê-la de fato. Apenas a vi, ontem, durante o sono.

– Você poderia me explicar isso melhor, por favor? – ela perguntou, curiosa e ligeiramente incrédula.

– Foi um sonho estranho, mas muito real – o outro explicou, as sobrancelhas franzindo levemente com o esforço de se recordar dos detalhes. Então seu sorriso cresceu, mais um tanto encabulado.

Ela notou o rubor tomando conta de seu rosto, especialmente nas orelhas, e teve de dar um aceno de incentivo para que ele continuasse:

– E?

– Eu estava em chamas, mas não havia dor ou mesmo calor algum. Só uma onda poderosa de magia consumindo o ar à minha volta e então tudo ficou confuso e agitado, até que você apareceu e o mundo se acalmou novamente. Você me tirou das chamas e me beijou... – involuntariamente ele levou a mão aos lábios, tocando-os de leve com as pontas dos dedos como que para reviver o momento. Mas então olhou para a expressão surpresa dela e baixou o rosto, fugindo do seu olhar – e depois disso eu não me lembro de mais nada.

Por um momento ela esperou que ele continuasse ou se explicasse melhor, ou até mesmo admitisse ser tudo uma brincadeira de muito mal gosto. Mas não, claro que não. Albus Dumbledore, especialmente jovem e ingênuo como se encontrava no momento, jamais seria capaz de tamanha estupidez.

Ao menos agora sabia como ele se recordava do acidente. Um tanto lúdico, mas a mente tem suas próprias maneiras de vivenciar as coisas. Estranho ele sequer mencionar o fato de ter quase morrido.

– Sabe quem eu sou?

Ele negou com a cabeça, então encolheu os ombros:

– Alguma nova professora.

– Sim e não. Sou professora, mas nem um pouco nova no cargo. Me chamo Minerva McGonagall.

– Um lindo nome, aliás.

Ela tentou não sorrir com sua tentativa de ser galante, mesmo em meio ao nó que deveria estar sua cabeça a essa altura. Era mesmo bem do seu feitio recobrir-se de gentileza, independente de qualquer adversidade.

– Trabalho aqui em Hogwarts desde 1956 e conheço você há dez anos antes disso.

Nesse ponto os olhos do garoto se arregalaram, suas feições sendo tomadas do mais completo espanto. Como havia esquecido mais de cinqüenta e oito anos?! Era uma vida toda perdida, completamente apagada. Onde estavam as pessoas que ele conhecia? Quem era ele agora?

Dumbledore sentiu-se estranhamente entorpecido por um longo minuto, como se seu cérebro tivesse sido estrunchado e o corpo ainda não tivesse se dado conta disso. Era informação demais para processar.

– Não, não é possível – ele a contestou baixinho e hesitante, negando com a cabeça, enquanto seu olhar a escrutinava, suplicante, amedrontado.

– Temo que seja. Nós estamos em 1977 – Minerva afirmou firmemente, sem deixar margem para mais nenhuma dúvida. Porque não era da sua compaixão que Albus precisava agora. – Você sofreu um acidente, ou ao menos eu espero que tenha sido um, envolvendo uma explosão com fogo gubraiciano e aparentemente reduziu sua própria idade em oitenta anos. Mas eu não o tirei das chamas. Quando cheguei no seu laboratório o incêndio já havia acabado, mas você estava desacordado no chão e não estava respirando. O beijo do qual você se lembra foi apenas uma respiração boca-a-boca, eu estava tentando reanimá-lo.

Ele anuiu lentamente, de os olhos distantes, um pouco vidrados, e era quase como se McGonagall pudesse vê-lo lutando para absorver toda essa história. Depois de quase um minuto ele respirou fundo e voltou a encará-la.

– Obrigado por salvar minha vida.

– Estou feliz por ter chegado a tempo – ela respondeu sorrindo e pousou uma mão sobre o braço dele, na tentativa de tranqüilizá-lo. – E garanto que não há nada com o que você se preocupar. O traremos de volta ao normal muito em breve, com sua memória intacta, então tudo fará sentido novamente.


KindestHuntress: Suas orações foram atendidas! E muito apreciada, obrigada. Porque Ele escreve certo por linhas tortas, e eu tardo, mas não falho. Ou falho tardiamente... Mas não importa. Enquanto minha inspiração me permitir voltarei com mais ADMM para alegrar nossos corações.

Humphrey:Oh, meu amigo, roubar é crime. Tão difícil que foi tirá-lo de Azkaban e você já se metendo com furto! Da próxima vez me avise que te mando o capítulo por coruja, que é mais seguro. Quanto as lemons, não se preocupe que já estou trabalhando nisso.

Uhura: Sim, sim, é gostoso trabalhar com o Marotos, sair um pouco da zona de conforto dos personagens habituais e expandir nossos horizontes. Como você mesma disse, empolgante. Quanto a ti, sei que Albus e Minerva povoam tanto sua imaginação quanto a minha, então se permita abandonar um pouco os afazeres para escrevê-los mais.

Andy: Sim, estou de volta. E estava sentindo sua falta! Quanto ao próximo capítulo, garanto que já está em andamento.