Capítulo 4:

Cerca de uma hora depois McGonagall já havia providenciado um par de uniformes para Dumbledore, enviado um bilhete encomendando a poção de envelhecimento a Horace, incumbido um elfo doméstico de adquirir para ele toda a lista de materiais do sétimo ano e o enviado para dentro de seu próprio quarto, a fim de conseguir as roupas e objetos pessoais de que precisava antes de encher seu malão e mandá-lo para o dormitório dos rapazes da grifinória.

O que lhe pareceu muitíssimo irônico: ter como aluno o seu antigo professor. Certamente os dois ririam um bocado disso quando ele voltasse ao normal, ou ao menos era o que ela esperava. Não queria sequer pensar na possibilidade dos danos em sua memória se prolongarem ou ainda... Não, isso não aconteceria.

Ainda teve que ajudá-lo a ajustar as lentes dos óculos e as vestes, que eram extravagantes e adultas demais para um garoto de dezessete anos, e convencê-lo que a varinha de sabugueiro que ela recuperou (misteriosamente intacta) dos escombros do laboratório era mesmo sua. Até porque não fazia idéia de onde ele poderia ter guardado a antiga, se é que ainda a possuía. Também lhe mostrou como ele era atualmente nas fotografias que o diretor mantinha sobre a lareira, mas o rapaz ainda parecia relutante em acreditar na estranha realidade que se apresentava perante seus olhos.

– Nunca sequer imaginei que viveria até os noventa e sete – ele comentou, ainda olhando espantado para a própria imagem envelhecida.

– Bom, era o que você tinha.

– Então o que ainda estou fazendo em Hogwarts? A menos que eu seja o maior repetente da história... – Albus brincou apontando a sua volta, trazendo à tona seu bom humor habitual.

– Você é o diretor – ela respondeu rindo, mais aliviada de que ao menos ele já estivesse mais calmo. E pela forma como o outro anuiu, já tinha deduzido tudo. – E também é o meu chefe e... meu melhor amigo.

– Fico muito feliz com isso.

McGonagall pensou em todos os anos em que o conhecia e tudo o que sabia dele. Havia tanto o que ser dito! E, pensando bem, muitas coisas que talvez fosse melhor omitir. Não tinha porque encher sua cabeça, sendo que esperava vê-lo de volta ao normal em breve. Diria apenas o essencial, sem preocupações ou problemas sobre o pobre rapaz. Ser jogado oitenta anos "no futuro" já deveria ser assustador o suficiente.

– Você também é um homem muito importante, Albus, e por isso a mentira se faz tão necessária. Ninguém pode saber que está assim... – ela gesticulou apontando para sua aparência – tão jovem. Você tem muitos inimigos que se aproveitariam dessa situação para atacá-lo.

– Claro – ele respondeu com um sorriso que pairava entre o ceticismo e o sarcasmo.

– Estou falando sério. Você é provavelmente o bruxo mais influente e poderoso da Grã-Bretanha e há muita gente empenhada em matá-lo – ela afirmou com uma seriedade inquestionável, e viu mais uma vez os olhos muito azuis do garoto se arregalarem de espanto. – Mas penso que ficará mais seguro escondido entre os alunos. Então você será Albert White até que volte ao normal, e não dirá a verdade a ninguém sobre isso.

– Sim senhora – o ruivo concordou obediente, mas logo uma nova preocupação se apoderou de suas feições. – E a minha família?

– O que? – ela perguntou, fingindo não ter ouvido bem, como se faz para ganhar tempo ou tentar escapar de dar a resposta. Mas não havia escapatória.

– Minha mãe e meus irmãos, como estão? Eu posso falar com eles?

Era exatamente esse tipo de coisa que McGonagall estava tentando evitar. Ainda mais terrível que ter que mentir para ele era ter de partir-lhe tão devastadoramente o coração assim. Albus não precisava passar por isso. Não tão jovem. Não outra vez. Ou ao menos não pela boca dela.

– Não há motivo para preocupar ninguém com isso. Você logo estará bem e se gabando dessa peripécia, se bem o conheço – ela brincou e se levantou, o olhar procurando o relógio, doida pra mudar de assunto. Não sabia o que dizer caso ele insistisse.

– E quanto à esposa ou filhos?

Nesse ponto o bruxo parecia ainda mais ansioso. E era uma pena ter que decepcioná-lo com esta outra perda, mas não era algo que se pudesse esconder. Ao menos ele não a sentiria tanto, já que ainda não conhecia sua falecida esposa.

– Você é viúvo. Não conheci Connie pessoalmente, mas já vi algumas fotografias e ouvi várias histórias a seu respeito. Sempre me pareceu uma pessoa maravilhosa.

– Connie?

– Constance Dumbledore – Minerva explicou apontando para uma foto um pouco antiga dele com uma bruxa.

Ela parecia ser pouco mais de uma década mais jovem que Albus, o corpo magro e curvilíneo, pele negra, cabelos longos e trançados de lado já com alguns grisalhos aparentes, olhos amendoados e escuros, e lábios cheios formando um amplo e misterioso sorriso. Ele tinha um braço ternamente posicionado em torno dos ombros dela e pareciam formar um casal muito feliz.

A foto o causou certa surpresa. Mesmo na comunidade bruxa havia um grande preconceito relacionado à cor de pele e dificilmente as famílias se misturavam dessa forma. Não tinha como sua mãe ter permitido um casamento assim... Mas que bobagem! Ele era um homem adulto e dono de seu nariz, não? De certa forma ele gostou disso, se dar conta da própria liberdade de escolha. O fez sentir mais poderoso até que a afirmação de McGonagall sobre ele ser "o bruxo mais influente da Grã-Bretanha".

– Linda, não acha? – Minerva comentou, vendo-o perdido em pensamentos observando a imagem.

– Muito – ele concordou com um sorriso, mas a essa altura já era o rosto da professora que ele estava encarando. – O que houve com ela?

– Foi há muito tempo, Albus – ela tentou desconversar, novamente consultando o relógio na parede.

– E eu já era importante, ao que parece – novamente Dumbledore deduziu corretamente. A tristeza nos olhos de Minerva ao respondê-lo confirmou isso.

– Não foi bem assim. Houve uma guerra na qual vocês dois participaram ativamente, e às vezes o preço de lutar pelo bem é muito alto... O que importa é que vocês se amavam e foram muito felizes juntos. No entanto, você nunca foi pai. Quer dizer, até onde eu saiba – ela acrescentou com um sorriso brincalhão, tentando melhorar o ânimo da conversa.

Ele riu sem muita convicção, então suspirou. Deu mais um longa olhada em volta, com certo conformismo desanimado no rosto.

– Isso é um bocado triste, ser tão velho e tão só. Eu tinha tantos sonhos...

– A vida nunca é como planejamos aos dezessete anos, acredite.

– Ao menos tenho bons amigos ao eu lado – ele disse, apontando outra foto de si mesmo, agora acompanhado de Minerva no que parecia ser uma festa de natal no castelo, na qual ela abria um sorriso sério e comedido e ele fazia uma careta e depois gargalhava com gosto. – E você, Srta. McGonagall, tem alguém em sua vida?

– É complicado. E eu só tenho trinta minutos até minha próxima aula, que felizmente é do sétimo ano da grifinória.

O que viria muito a calhar, para introduzi-lo aos demais alunos.

Minerva inicialmente pensou em incumbir Remus Lupin de instalar seu novo colega e cuidar de sua adaptação, mas achou melhor delegar essa tarefa para a Srta. Evans. Era tão gentil e boa aluna quanto o outro, porém seria incontestavelmente melhor companhia. Os Marotos eram bons demais em xeretar e desvendar mistérios, acabariam descobrindo-o.

A professora não se surpreenderia se em sete anos de estudo eles tivessem descoberto mais sobre o castelo do que ela em décadas de ensino.

Então tratou de sentar o par de ruivos lado a lado e pedir a moça que lhe passasse os conteúdos e auxiliasse em tudo, ao que por sua vez a jovem Lily atendeu com um sorriso simpático. Não esperava que Albus tivesse muitas dificuldades pelo que conhecia de sua notável e precoce inteligência, mas seus estudos estavam defasados em oitenta anos.

Mas se era mantê-lo longe das atenções que a vice-diretora pretendia, o feitiço saiu pela culatra. Se havia uma coisa que James Potter detestava mais do que seguir as regras, era ver qualquer outro rapaz perto de sua tão querida namoradinha. Tanto que ao término da aula tratou de esbarrar descaradamente no colega, o bastante para derrubá-lo sobre outro grupo de alunos, que pareceram tão ou mais contrariados que o próprio Albus com isso. Mesmo que não tenha chegado a cair no chão, ele pôde ouvir nitidamente o som de um de seus novos tinteiros se partindo e ao passar a mão por baixo de sua mochila sentiu-a úmida da tinta que provavelmente ele teria muito trabalho para limpar dos materiais e das anotações que conseguira emprestadas.

– Foi mal, novato – disse James com imenso deboche, dando uma leve cutucada com o cotovelo em Sirius Black, parado a seu lado, rindo. – Não te vi aí.

– Isso foi um bocado rude – Albus respondeu olhando para a mão tingida de preto. Depois limpou-a na própria calça com pouco caso e já estava prestes a seguir seu caminho quando o Potter o segurou.

– Antes a gente precisa bater um papinho, de homem pra homem.

– Por isso você trouxe o seu? – Dumbledore zombou, apontando com a cabeça para Black, cuja varinha se levantou ameaçadoramente a altura dos olhos de ambos.

– Tá querendo morrer, palhaço?

A essa altura a professora apareceu no corredor, observando-os. Sirius baixou o braço devagar e muito a contragosto, enquanto Albus sorria com o mesmo deboche que eles haviam demonstrado há pouco.

– Seria preciso mais que dois de vocês pra isso. Eu reconheço um valentão quando vejo um, e lhes advirto que não temo nenhum embate – então o ruivo deu de ombros. – Mas tampouco o desejo. Não tenho a menor vontade de perder tempo com vocês.

– Você foi avisado.

– Babaca.

Com essa despedida muito pouco amigável os dois saíram, ambos esbarrando nele novamente. Mas dessa vez Albus já estava preparado o suficiente para não perder o equilíbrio, embora tenha ficado com o ombro dolorido. Pensou em revidar, mas a professora McGonagall ainda estava olhando. E Lupin se aproximava com um olhar penalizado e um sorriso sem graça.

– Eles costumam ser melhores que isso, eu juro – ele afirmou a guisa de desculpa.

– Duvido que consigam ser piores – Albus zombou de volta.

– James é um cara legal, só tem um gênio ruim. E é muito apaixonado pela Lily, você não faz idéia de há quanto tempo.

– E não me importo nem um pouco – Dumbledore comentou com pouco caso, a atenção voltada para a mochila, já aberta, revelando um pequeno pântano de tinta negra sobre seus pertences.

– Precisa de ajuda? – Remus ofereceu, embora seus olhos estivessem fixos no fim do corredor onde os amigos gesticulavam o chamando.

– Obrigado, mas posso cuidar disso – Albus afirmou com um sorriso educado, seguindo o olhar do colega. – Vai lá, eles estão te esperando.

– Até mais, cara!

E pareceu que era isso que McGonagall estava esperando para se aproximar.

– Sr. White – ela o cumprimentou cordialmente, a entonação aplicada nas palavras reafirmando a necessidade de continuar com a mentira, mesmo que ninguém mais estivesse lhes prestando atenção.

– Professora.

– Vejo que já está se enturmando.

– Eu devo ser muito simpático. Não era tão popular assim nem na minha antiga turma.

– Ou talvez o Sr. Potter tenha reparado no seu olhar para as pernas da Srta. Evans – ela observou, vendo-o se encolher encabulado, baixando o olhar para a mochila em suas mãos como pretendesse se esconder lá dentro. – Sim, eu vejo muito bem tudo o que acontece na minha sala de aula.

Ele realmente tinha dado uma boa espiada, afinal não era de ferro e a moça era deveras bonita. Mais que isso, ficara um pouco surpreso com a vestimenta das colegas, já que as meninas da sua época eram muito mais recatadas.

– No meu tempo as saias do uniforme costumavam ser muito mais longas. Não estou acostumado, sabe... – ele explicou, um certo rubor subindo-lhe às faces, quando voltava a encará-la. – A senhora não sabe quão difícil era ver sequer um tornozelo feminino.

– Está tudo bem, é apenas engraçado vê-lo como o menino que você é agora – ela afirmou rindo e pousou a mão em seu ombro como que para tranqüilizá-lo. O efeito desse pequeno gesto, no entanto, superou um pouco o que ela esperava. – Mesmo assim tenho que pedir que se comporte.

A essa altura o rapaz já havia se distraído com a proximidade entre os dois e o movimento dos lábios da professora, tentando arduamente se lembrar com foi tê-los contra os seus ainda que tão somente numa respiração boca-a-boca.

– Desculpe, o que a senhora disse?

– As professoras do seu tempo também não costumavam usar batom? – McGonagall zombou, novamente muito atenta aos olhares de seu aluno.

– Eu dificilmente teria notado. Nunca tive uma professora tão bonita antes.

Ela balançou a cabeça e apontou a varinha para os materiais de Dumbledore, que literalmente num passe de mágica já estavam como novos.

– Melhor se apressar, Sr. White, talvez ainda dê tempo de tomar um banho frio antes da sua próxima aula – ela disse meio em censura, meio em brincadeira e rumou de volta para sua sala de aula, deixando o rapaz de faces muito coradas sozinho, imaginando como seriam os tornozelos de sua professora.


n/a: Gostaria de agradecer muitíssimo a todos os comentários, a quem favoritou e está seguindo esta fic e esta autora, aos hits do Brasil e de fora. É muito recompensador ver que há mais gente apreciando minha escrita. Um grande beijo a todos.

KindestHuntress: Os Marotos praticamente governam Hogwarts, e eu pretendo explorar bem isso! E nosso Albus já está caído por sua professora, mas quem está livre de se apaixonar assim nessa idade?

AndyMalfoy : Não precisa me forçar, guria. Eu escrevo sempre que posso! No entanto gostaria de poder mais... Mas espero compensar em qualidade a quantidade que ainda não posso oferecer pra vcs. Vê se não some vc Tb, tá?

Uhura: Sim, o Albus é um doce. Quisera eu ter conhecido um ruivo desse aos meus 17 aninhos... Mas aproveito para lhe agradecer por ter escolhido essa fic para em incitar a escrever novamente. Tem sido muito divertido!

Humphrey: Não precisa matar os leitores, todos sabem que eu não escrevo nada sóbria e não posso ser levada a sério, hahahaha. Bjs pra ti tb!

Lilyzinha: Sim, estou de volta! Pretendo continuar as outras tão logo tenha tempo e inspiração. Todas elas tem planos e rascunhos para o futuro, falta apenas desenvolver os capítulos, assim como tenho muitas outras guardadas para trabalhar mais adiante. Eu posso demorar, mas sempre continuarei escrevendo.

Mar: Sua primeira ADMM? Pois continue com eles que garanto que não se arrependerá! Recomendo minhas outras fics, inclusive, que são quase todas dedicadas a esse casal maravilhoso. Mas aqui trata-se de um Albus adolescente, ainda não é o homem que estamos acostumados a ver nos livros, e essa e é uma nova e interessante faceta de se abordar. Espero q continue te agradando e, por favor, continue por aqui. ^^