Capítulo 5:
Minerva McGonagall disse a senha distraidamente para a gárgula da torre do diretor e entrou, os olhos correndo as linhas dos documentos em suas mãos enquanto os pés subiam instintivamente com os degraus da escada em caracol. Empurrou a porta com o quadril sem nem mesmo se dar conta que estava entreaberta, a mente muito absorta em seu trabalho. Os ex-diretores pintados nas paredes conversavam animados em tom de fofoca alarmada, mas estranhamente cessaram com sua chegada. Sob o silêncio de expectativa ela finalmente levantou a cabeça e os cumprimentou.
– Boa noite, senhores. Algum de vocês saberia me informar sobre...
– Antes, professora, gostaria de avisar que o rapaz está lá em cima – interrompeu o retrato de Phineas Black, com aquele mesmo ar de censura satisfeita das mães ao encontrar um motivo para dar um sermão.
Ela olhou-o de volta, confusa, o raciocínio ainda meio perdido nos documentos em sua mão.
– Dumbledore – completou Armando Dippet sem conter certa naturalidade divertida.
– Raios! – Minerva exclamou contrariada, largando os papéis sobre o primeiro móvel que encontrou. – Como o deixaram subir?
– São seus aposentos, ele tem todo o direito – ela ouviu Armando respondendo, enquanto subia a escada apressada.
Não podia deixar que ele descobrisse mais sobre sua vida, não mais do que ela já havia decidido lhe contar! Entre suas coisas certamente ele encontraria pistas, senão a história toda de seu passado (ou futuro) cheio de glórias e tragédias que nem ela mesma saberia lhe explicar totalmente se tentasse. E definitivamente esse não era o melhor jeito dele ficar sabendo.
Correu por outras portas entreabertas, sem fôlego pelos degraus percorridos, e a preocupação de que já não desse tempo de impedi-lo tomava conta de si, uma rápida e exagerada onda de pânico descendo pela boca do estômago.
Até que encontrou o jovem Albus em seu quarto, sentado na cama, rodeado de álbuns de fotos antigas e caixas de com papéis, recortes de jornal e cartas pessoais, além de embalagens de doces já consumidos indicando que ao menos os gostos dele ainda eram os mesmos. E ele abriu um sorriso caloroso, olhando-a por sobre os óculos tão típico de si mesmo que por um momento a outra pensou que tivesse recuperado a memória. Isso até que ele abrisse a boca para cumprimentá-la com o nítido encantamento que parecia incapaz de disfarçar quando falava com ela.
– Olá, professora McGonagall!
– Olá, Albus – ela respondeu com um suspiro resignado, tendo recobrado a calma. Tentou soar suave a firme ao mesmo tempo, afinal ele não merecia uma bronca. – Você não deveria estar aqui. Seu lugar é com os outros alunos até que as coisas voltem ao normal.
– Perdoe-me, mas eu estava curioso sobre minha vida.
Os olhos dela correram pelas coisas ao seu redor, aliviados. Não parecia haver nada especialmente preocupante ali. Mesmo assim, não queria desapontá-lo.
– Não posso culpá-lo por isso, tampouco acho que essa seja uma boa idéia.
Assim como sua contraparte futura, o jovem Albus Dumbledore também parecia possuir no azul de seus olhos o dom de enxergar dentro da alma das pessoas. E esses olhos também se mostraram um bocado expressivos, escrutinando-a com uma decepção quase compreensiva, vendo nela o presságio de que seu futuro guardava muita tristeza.
– É tão ruim assim? – ele forçou um sorriso e um certo humor, mas seus olhos ainda o delatavam.
– Não – ela gostaria de conseguir demonstrar um pouco mais de convicção, mas nunca foi boa mentirosa. – A vida de todos está cheia de bons e maus momentos, e única maneira de entendê-la é vivendo. Não há nada para aprender aí até que recupere de verdade suas memórias. São só imagens e palavras, a sua vida não cabe nesses papéis.
– Acho que está certa.
Ele se levantou e guardou os seus pertences no lugar com movimentos precisos de varinha, sem precisar sequer pronunciar nenhum feitiço. Ela não ficou impressionada. Sabia que ele sempre foi talentoso.
– Eu sei que você está preocupado com seu futuro, mas acredite em mim quando digo que você se tornou um homem feliz e realizado. Você viu e fez grandes coisas, deixou uma marca no mundo! E isso é muito mais do que a maioria das pessoas pode dizer – ela se permitiu empregar um pouco mais de ternura na voz, afinal o garoto estava precisando de apoio. – Agora prometa que vai parar com isso.
– Sim senhora.
– Você pode me chamar apenas de Minerva quando estivermos a sós. Lembre-se que antes de mais nada, somos amigos.
Ele titubeou por um momento, como se estivesse tentando impedir-se de falar algo. Mas não conseguiu.
– Apenas amigos? – o rapaz questionou, uma nota esperançosa se fazendo notar em sua voz.
– Mais que isso. Mais que meu mestre, você sempre foi uma grande inspiração na minha vida. E não apenas profissionalmente, mas como o ser humano incrível que você é.
Dumbledore sorriu, mas ela podia ver que não ele não estava feliz.
– Tem uma coisa que está realmente me incomodando. Entendo que tenha que manter sigilo, mas eu queria muito falar com minha família. Podemos confiar neles. Preciso ter ao menos notícias, saber como eles estão.
– Aberforth está bem, ele tem um bar em Hogsmeade. Mas vocês não estão muito próximos ultimamente – ela respondeu prontamente a pergunta, rezando para que fosse a última.
– E mamãe e Ariana?
Não havia uma boa maneira de lhe dizer a verdade, tampouco como continuar fugindo. Mas as palavras simplesmente não chegavam. A garganta da bruxa ficou muito apertada e sem que ela pudesse controlar seus olhos marejaram, por uma dor que era tão dele que doía nela também. Mesmo sem nunca tê-las conhecido, sua perda era tão imensa e devastadora que ela não conseguiria sequer verbalizar o que ele havia há anos lhe confidenciado.
E naquele silêncio lúgubre ele compreendeu, sem precisar de nenhuma explicação além da profunda e dolorosa compaixão estampada no rosto da amiga, que as havia perdido pra sempre.
– Sinto muito, Albus.
Ele se levantou e cruzou a porta na direção da sala, ocultando o rosto. Calado, andava de um lado para outro sobre o tapete como se os sentimentos fossem demais para se conter num lugar só, as mãos inquietas crispando-se de nervosismo, o braços cruzados atrás das costas.
Ela caminhou até a sala e esperou que ele se acalmasse. Afinal, o garoto já estava passando por muita coisa e estava fazendo um grande esforço para manter-se firme.
– E pretendia esconder isso de mim até quando? – Dumbledore finalmente perguntou, de costas para ela, encarando apenas a fotografia de ambos sobre a lareira.
– Você se lembrará em poucas semanas, não vi motivo pra magoá-lo de novo com isso tudo.
– Como foi que aconteceu?
– Isso já não import...
– Importa muito! – Albus a interrompeu, falando por cima do ombro sem tampouco deixá-la ver todo o pesar em seu rosto. – A senhora sabe como eu perdi meu pai?
– Você – ela corrigiu calmamente e se sentou no sofá, então pediu com um gesto que ele fizesse o mesmo, ao que o rapaz respondeu ainda um tanto nervoso. – Sim, você me contou tudo.
– Ele era um bom homem, que cometeu um erro porque estava cego pelo sofrimento. Papai pagou por isso, mas não foi justo. Nunca houve justiça para nenhum de nós.
Seus olhos pareciam ainda mais claros, prestes a transbordar. Então ele baixou o rosto entre as mãos, e tudo que Minerva podia ver eram os cachos vermelhos tremendo enquanto ele chorava baixinho.
– Ambas partiram em paz, garanto que não sofreram ou sentiram dor alguma. Elas tiveram uma vida longa e plena. E você estava lá por elas, fez o que pôde por sua família.
Aquilo pareceu consolá-lo um pouco, mesmo sendo mentira. Pelo que ela conhecia das tristezas de Dumbledore, a culpa havia sido o fardo mais pesado de todos e, ainda que por poucos dias, faria o que estivesse ao seu alcance para amenizá-lo.
Ele levantou o olhar, limpou as lágrimas com as mãos e tentou se recompor como pôde. Ainda forçou um sorriso, que no entanto saiu fraco e pouco convincente.
– Isso é embaraçoso.
– Vem cá – McGonagall não conseguiu mais se conter: puxou-o para um abraço, oferecendo-lhe o ombro para que chorasse. – As coisas podem parecer muito difíceis agora, mas logo entenderá tudo. Enquanto isso lembre-se que não está sozinho, pode sempre contar comigo.
Ela o embalou ternamente, correndo as mãos pelos seus cabelos enquanto ele se acalmava. Passados longos momentos assim sentiu-o inspirar profundamente o perfume em seu pescoço e os braços a envolverem com um pouco mais de firmeza. Foi a vez dela suspirar quando o afastou gentilmente, receosa que o moço estivesse querendo um pouco mais de consolo do que ela estava disposta a lhe dar.
– Eu tenho que ir agora, há assuntos do colégio pra resolver. Mas você pode ficar um pouco mais, se ainda não estiver bem pra ver seus colegas.
– Tem mesmo que ir? – ele insistiu, relutante, e ela teve de fazer muita força pra resistir àqueles olhos tão jovens e já tão profundos.
– Sim, estarei lá embaixo cuidando de Hogwarts por você. Até lá: – McGonagall tirou a varinha do bolso e lançou um feitiço na direção de um grande e antigo globo terrestre na sua estante, que se abriu ao meio revelando-se como mais um dos esconderijos de doces do diretor – aproveite-os pra se alegrar um pouco. E venha me ver se precisar conversar novamente.
– Eu vou. E se puder gostaria que me contasse um pouco mais sobre os bons momentos de que me falou. Acho que estou precisando deles.
– Claro.
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N/a: Olá, meus queridos! Agradeço aos que ainda estão por aqui e aos que chegaram agora e peço milhões de desculpas (embora reconheça que seja imperdoável a minha falta) pela demora em continuar. Mas é que passei por um período complicado e turbulento na minha carreira e vida amorosa gloriosamente inexistentes. Deixem-me alguns reviews de bronca, enviem-me berradores que eu sei que mereço, mas continuem comigo nessa história. Um grande beijo a todos!
KindestHuntress: Bem, trata-se de um jovem cheio de hormônios, ao invés do respeitável senhor de idade a que estamos acostumadas. A julgar pelo encantamento que ele tem pela sua nova professora, acho que nosso ruivinho está imaginando bem mais que os tornozelos dela no momento. E pode aguardar que a imaginação dele será satisfeita.
Sra. McGonagall Urquart: "Que isso, novinho, que isso?" Sim, vai rolar muito amor AD/MM por aqui sim, e eu gosto muito de brincar com a idéia de reverter a imensa diferença e idade entre eles pra mostrar que esse casal independe do tempo pra ser perfeito. Um imenso abraço, guria!
Guest 1: Aqui está, antes tarde do que nunca.
AndyMalfoy: Tb amo escrever essa fic, aliás tudo que seja AD/MM. Beijõõõões!
cath.z: Sim, os Marotos são personagens magníficos demais pra serem deixados de fora, assim como nossa querida Lily. Embora admita que seja um desafio escrever com eles, já que não são tão explorados nos livros como a maioria dos personagens que conhecemos. É uma época única e deliciosa pra se trabalhar!
Guest 2: Obrigada por acompanhar a fic, e prometo continuar tão logo me seja possível.
