Capítulo Dois – O brinco

Tudo naquela noite foi perfeito. A seleção dos alunos novos, o banquete, as conversas, o reencontro com os colegas, e com os rivais também. A maioria dos alunos do colégio tinha problemas com alguns outros estudantes. Os Marotos em geral se davam bem com todo mundo, até porque não tinha muitos alunos que não gostassem deles. O único estudante que eles faziam questão de estorvar sempre que aparecia uma oportunidade irrecusável era Severo Snape. Um garoto alto e magricela, com um nariz de gancho, e cabelos muito oleosos. Mas ele não tinha sido escolhido para ser o alvo de chacotas do grupo só por sua aparência estranha. E sim porque eles achavam que era totalmente inaceitável alguém tão esquisito ser amigo da garota mais bonita da quinta série da Grifinória. Lílian Evans conversava com Snape desde seu primeiro dia de escola. Eles pareciam se conhecer a séculos e sentiam-se bem à vontade quando estavam perto um do outro. Conversavam, riam e estudavam juntos, e quando Tiago começou a se interessar pela moça não deixou que isso continuasse a acontecer. Além de amigo da adorada musa de Tiago, Snape era também muito inconveniente. Estava sempre na cola dos garotos, espiando o que faziam, aonde iam, e metendo seu nariz anormalmente grande aonde não era chamado. E naquela noite não foi diferente. Quando os quatro amigos saíram do salão para suas camas no dormitório da Grifinória encontraram-se com um grupo de garotas que iam para o mesmo lugar. Lílian Evans estava entre elas.

-Como foram suas férias, Evans? – perguntou Tiago em voz alta.

A garota virou-se para olhá-lo com desprezo.

-Ótimas sem você! – respondeu irônica.

-Por que você me odeia tanto?

-Será que vamos ter que ter essa conversa sempre que nos encontrarmos, Potter?

-Acho que sim, já que você nunca reponde a minha pergunta. - respondeu ele chateado – Sabe, Evans – continuou ele, agora com um sorrisinho no canto da boca – às vezes eu penso que você gosta de implicar comigo.

A Moça virou-se de repente, muito zangada:

-Como se atreve?- disse em um tom ameaçador.

-Você me obriga a isso, Evans...

-Líli, vem comigo, tem algo que quero mostrar a você- interveio um garoto saindo do nada, e aparentemente não se dando conta do que estava acontecendo.

Todos olharam para ele com uma expressão entre a surpresa e a distração, e ali parado no meio dos dois ele se virou para olhar Tiago, e depois Lílian.

-Ah – disse calmamente, entendendo tudo – Eu estou interrompendo alguma coisa?

-É claro Ranhoso, você está sempre interrompendo... – ralhou Tiago furioso.

-Não é verdade, Sev. –cortou-o Lílian, dirigindo-se a Snape em um tom carinhoso

- Não há nada para ser interrompido – concluiu pegando o braço de Snape e se afastando.

Tiago parecia prestes a explodir. Os outros três assistiram a cena silenciosos, mas estavam agora, espantados com o que acabaram de ver.

-Vocês viram como ela trata ele? – desabafou Tiago ainda falando muito alto.

-Vimos, cara – respondeu Sirius dando-lhe palmadinhas nas costas – Ela parece gostar bastante dele, não?

-E como assim não existe nada para ser interrompido? – continuou Tiago sem parecer ter escutado o que Sirius disse – Ela realmente acha que o que rola entre a gente é NADA? – perguntou indignado.

-Mas Pontas...não rola nada entre vocês mesmo, oras – disse Sirius cauteloso

-O quê??? – gritou ele – Até vocês?

-Mas é verdade, Tiago – falou Remo pela primeira vez parecendo distraído.

-Remo?! –gritaram todos de repente.

-O quê? O que foi? – perguntou Remo desesperado, olhando de repente as mãos e apalpando o rosto para verificar se estava se transformando. Mas não era lua cheia, não podia se transformar.

-Você...quero dizer, não deveria estar guiando criancinhas? – riu Tiago por um momento esquecendo-se de Lílian.

-Minha Nossa! – lembrou-se ele – Eu fui nomeado monitor, não deveria estar aqui! Ainda bem que subimos cedo, com sorte os calouros devem estar acabando de jantar e esperando que alguém se manifeste para levá-los aos dormitórios. A gente se vê no Salão Comunal – gritou ele, já correndo pelo corredor de onde tinham vindo.

Não acreditava que tinha se esquecido de sua tarefa. Ele passou o verão todo sonhando com o distintivo que naquele momento brilhava em seu peito, e para quê? Para esquecer que deveria mostrar o caminho dos dormitórios aos alunos novos! Ele corria sem parar pelos corredores e pulava vários degraus por vez ao descer as escadas. Parou no saguão de entrada derrapando ao ver que uma garota liderava sozinha um grupo de jovens estudantes da Grifinória. Era a monitora. A garota que até o quarto ano ele só conhecia de vista, mas que havia sido apresentada a ele no trem, mais cedo naquele dia. Era com ela que ele dividiria as tarefas de monitor. Mas não tinha cumprido sua parte até agora.

Ele correu o último pedaço que faltava para alcançar a garota e disse ofegante:

-Desculpe, eu...eu me esqueci...

-Não importa- respondeu a menina séria. Não parecia realmente se importar, na verdade ela não estava com dificuldade nenhuma para organizar as crianças.

-Eu continuou daqui – disse Remo dobrado ao meio, com as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.

-Continuamos juntos – disse ela – Afinal estamos indo para o mesmo lugar.

Ele levantou o rosto e viu que a garota sorria. Um sorriso delicado e sincero. Ela não deveria sorrir, ela tinha que estar brava com ele por não tê-la ajudado a reunir os calouros.

-Então, vamos ficar parados aqui até que horas? – disse ela com sua voz suave.

-Ah – respondeu ele erguendo-se rapidamente – Vamos.

Eles começaram sua caminhada lado a lado com um grupo de baixinhos em sua cola. Olhando por cima do ombro Remo reparou que as crianças não estavam mais assustadas como geralmente ficavam minutos antes da seleção. Elas agora olhavam de um lado para o outro parecendo querer registrar tudo ao alcance de seus olhos. Ele olhou também. Há tempos andava por aqueles mesmos corredores, diariamente, sem perceber o quanto eles eram fascinantes. Todo aquele mundo mágico era fascinante.

-Oh, não! – disse a moça de repente, parando de andar.

-Que foi? – perguntou Remo.

-Perdi meu brinco. – respondeu ela olhando no chão em volta.

Ao escutar isso quase todas as crianças começaram a olhar para o chão procurando o brinco da monitora.

-Como ele é? – perguntou um menininho.

-É uma argola bem grande, de ouro branco com brilhantes. –descreveu ela ainda olhando para o chão.

-Pode não estar por aqui – lembrou Remo com raiva do que estava falando.

-Por Merlim, eu não posso ter perdido, é uma relíquia, é de família. – disse a garota começando a ficar nervosa. – Minha mãe vai me matar.

-Calma – consolou-a Remo – Nós vamos encontrar – continuou ele. Falava com confiança, mas não acreditava realmente que achariam o tal brinco. Se fosse realmente tão valioso, alguém já o teria pego, e ele sabia que as pessoas às vezes podem ser bem desonestas. Afinal, não é todo mundo que encontra algo de valor e sai gritando por ai à procura do dono.

-Não vamos, não – disse ela à beira das lágrimas – Eu posso ter perdido no caminho, no banquete, no trem! – enumerava ela estremecendo com a última opção.

-Você estava com os dois brincos no trem. Eu me lembro. – disse Remo.

-Sério? Bom, menos mal. –respondeu ela um pouco mais tranqüila.

-Hmm...me desculpe, mas...qual é seu nome mesmo? – perguntou Remo corando. Remo Lupin não costumava esquecer as coisas com facilidade, mas estivera muito afobado reencontrando os amigos e voltando para a escola que realmente não conseguia lembrar-se do nome da moça que lhe fora apresentada horas antes.

-Nicole...Nicole Monaggam – respondeu ela meio confusa e meio chateada. Ela fizera questão de escrever a Dumbledore minutos depois que recebera a carta que a nomeava monitora. Escrevera para agradecer a confiança e para perguntar qual era o nome de seu companheiro de tarefas. Achara que seria elegante já estar informada. Era realmente decepcionante descobrir que seu colega monitor não se importava com isso.

-Certo – continuou Remo meio atrapalhado, procurando pela varinha. Estava bem claro para ele que a moça se abalara com sua última pergunta, mas era tão certo que ele logo compensaria sua azarada falta de memória que ele nem se importou com isso.

-O que você vai fazer? –perguntou Nicole confusa, olhando do rosto do garoto para a ponta da varinha.

-Você vai ver – disse ele misterioso, confiante de que seu plano daria certo -Accio brinco de ouro branco cravejado de brilhantes da Nicole Monaggam – falou Remo claramente para o nada, com a varinha erguida para o ar.

Ninguém falou nada. Todas as crianças olhavam para Remo boquiabertas. Muitas das nascidas trouxas viam um feitiço de verdade pela primeira vez. Nicole e Remo, os únicos que tinham entendido a lógica do feitiço, olhavam para o canto do corredor que dava para as escadas que desciam para o saguão de entrada. Se Nicole havia perdido o brinco no Salão Principal ou no caminho, ele viria por aquele lado.

-Vejam – gritou uma menina apontando para o lado oposto ao que os monitores estavam olhando. Os dois se viraram. Um borrão brilhante vinha voando em alta velocidade pelo corredor na direção deles. Algumas crianças gritaram quando ele estava chegando perto, mas então parou tão rápido quanto veio, e ficou pairando no ar na altura do rosto de Nicole. Ela olhava seu tão conhecido brinco com a boca aberta, mas nem tinha consciência disso. Estendeu a mão e o apanhou.

-Está inteiro – disse aliviada com a voz fraquinha. – É meu brinco, e está inteiro – repetiu olhando admirada para Remo, quase caindo no choro novamente. – Obrigada, muito obrigada. Eu nem sei o que dizer.

-Não precisa dizer nada – respondeu Lupin – Vamos andando, está tarde.

Embora estivesse feliz de ter conseguido o brinco de volta, estava agora realmente intrigado. Ele não tinha vindo pelo caminho do Salão, nem por uma janela aberta no caso de ter caído na grama enquanto a garota descia da carruagem. Ele tinha vindo do corredor à frente. O corredor que eles agora seguiam. O corredor que dava única e exclusivamente para o Salão Comunal da Grifinória.