O peso enorme na cabeça como se fosse uma ressaca por um balde inteiro de vinho, rodou saindo do conforto do colchão– nunca experimentado antes– com aquele aroma agradável impregnando no tatame. Lentamente abriu os orbes verdes ainda turvos, frágil estranhando todo aquele luxo. Nem que cuidasse de sua casa ao máximo não chegaria ao nível daquilo.

Cambaleou para o lado segurando a pequena cômoda envernizada para não cair, ajeitou a franja atrapalhada sobre a testa e continuou a caminhada até o shoji, arrastando-o por completo. Virou o rosto de relance vendo sua imagem no grande espelho, sua roupa estava mudada, de uma calça e blusa simples qualquer masculinas, para um vestido branco até os joelhos com um robe bege de mangas bem largas.

Algo estava errado era notório quando recordou de relance os eventos da noite passada, corajosamente tentando descobrir o que se sucedia correndo para fora a encontro das escadas ao lado. Estranhou de algo tradicionalmente oriental para os pisos frios de ferro e embutido por estranhos objetos tecnológicos.

"Oh! Se não é a gracinha que o almirante estava se divertindo na noite passada" Exclamou um deles que era assustadoramente diferente com seu rosto em forma de um porco, este tentou a tocá-la em seu rosto, porém ela desviou "entendo como o chamou a atenção com sua beleza rebelde".

A linguagem estrangeira era profunda para os nativos, embora já pelas constantes invasões ocorridas pelo enfraquecimento do planeta não é tão complexo entender algumas palavras ditas. Mesmo que soasse assombroso guardou para o poço de sua emoção fechando a expressão, fechar a expressão sempre era uma boa tática defensiva de seu povo contra estrangeiros que ousassem tirar proveitos desarmados.

"Não seja tolo o jovem líder nos deu a ordem para que não tocássemos na garota" Repreendeu um homem de cabelo grisalho liso, utilizando de uma mascara de "oni" escondendo o seu rosto "Senhorita, peço que me siga por favor".

Ele conversava utilizando o mesmo dialeto falado naquela região para alívio da garota, mesmo não querendo esta o seguiu com isso. Subiram a rampa automática que dava para o ultimo andar, por nunca ter pisado naquilo quase perdeu o equilíbrio sentido a mão fria do desconhecido segurá-la.

"Me desculpe pela situação anterior, espero que fique tranquila, pois não fizemos nada com você. O Jovem líder apenas pediu que cuidássemos de suas feridas e lhe trouxesse para falar com ele" Explicou soltando-a virando novamente para frente.

Havia um grande portão no fim da rampa com desenho de um dragão vermelho detalhado em dourado, uma bela obra artística e luxuosa que abria com uma volta inteira e circular daquele mesmo dragão exibindo um escritório onde estava à imagem que dirimiu o misterioso ocorrido, o rapaz que viu e lutou após a hecatombe. Ele guiou seus olhos a ela cinicamente e levantou-se ficando mais próximo.

"Eu gostaria saber o nome da mocinha que tentou me bater sem motivos ontem. Estou ansioso para ouvir sua voz autoconfiante novamente para entrar confronto com um inocente" Começou sua fala de acusação intimidadora "Não há resposta? Chega a ser entediante levando em conta o seu instinto".

O silêncio tomou posse da intimidação feita por Kamui, mas não pelo medo, pois ela olhava fechada o desafiando.

"Sem respostas mesmo, Porém não acho isso de todo ruim" Ele bocejou girando na cadeira de rodinhas complemente "Você pode ser ainda mais ameaçadora se falasse sabia?"

"O que o senhor indagação pretende fazer se eu responder? Vender-me para algum amanto endinheirado? Não lhe daria bom lucro já que eu farei de tudo para matar um porco inútil" Finalmente se pronunciou com todo nojo retido.

"Minha nossa quanta violência" Ele deu uma curta gargalhada que aumentou quando a viu ranger os dentes "o interesse que você me despertou foi o motivo para eu chama-la aqui",


"A linha vermelha não estava quebrada, firme ela continuou a enrolar-se em meu dedo. Sua promessa foi clara para tocar meu coração."


Ele havia saído de sua cadeira para mais próximo dela mansamente repetindo:

"Você me interessou ao ponto que me fez chamá-la aqui, não se pergunta pelo o que seja?" Contestou como um sopro nos ouvidos da jovem "Creio que não, portanto permita-me sem mais delongas lhe propor. Que tal formar equipe junto a mim, mulher brutal?"

"Não faço negócios com promovedores de trafico humano, portanto senhor pirata estupido faça o favor de devolver minhas vestes e me indicar a saída?" Respondeu ríspida franzido a sobrancelha azul escura contrastando a profundeza dos seus olhos.

Opções entre sim e não reações seriam inexistentes, matar aquela garota– continuamente interessante, diga-se de passagem– lhe reteria apenas confusão e irritabilidade desnecessária. Concedeu, portanto o desejo dela, entregando suas roupas desagradáveis por tão abatidas e guiando-a a saída. O valoroso "não" ele desconhecia, o que fez seu orgulho abatido pela negação.

Quando a rampa chegou ao fim brincou com o cabelo da jovem momentaneamente puxando-o para baixo, sendo que está reagiu lançando sua sombrinha para o lado direito de sua cintura para atingi-lo na barriga. Porém, em vão por ele ter desviado, mas vitorioso por conseguir se soltar.

"Nada divertida sabia? " Admitiu o almirante erguendo-se encarando a jovem furiosa "Apenas diga seu nome antes de partir".

"É Mizuki " Disse secamente pegando de volta sua sombrinha e saindo pra encontro da brisa molhada.

Uma pequena luz irritante avançando na escuridão profunda, certo? – riu vendo-a desaparecer lentamente– O que seria de uma luz da lua junto a um imortal? Eu sou Kamui, por vier da duvida em que quiser me seguir um dia estarei a lhe esperar.


"Precisamos ser pacientes, mas não ao ponto de perder o desejo; devemos ser ansiosos, mas não ao ponto de não sabermos esperar" (Max Lucado).


Quantas vezes voltar para casa se tonar ruim ao querer um mínimo e caloroso "bem vindo de volta!", mesmo depois de tantos anos tentando ignorar, este abatimento pela carência ainda existia forte.

"Estou de volta ge ge" Referiu-se ao retrato posto na pequena estante enquanto despejou a sacola em que estava retida a comida, a qual havia comprado numa quitanda durante sua volta.

"O imortal" soou longo em seus pensamentos, o significado do imprudente Kamui ou a imprudente teria sido ela? Afinal ela finalmente encontrou alguém que a derrotou tão facilmente botando até em risco sua vida. Suficiente forte para proteger sua vida e o que lhe resta, naquele planeta desestruturado aquele desconhecido da área conseguiu superioridade.

Incomodada ficou abocanhando um pedaço do pastel que trazia lembranças da vagarosa infância, de um mínimo de memória do homem que estava na foto.


A memória de uma data feliz que acabou em tragédia e servia-lhe de incentivo para lutar, proteger o que não pode.


xXxOoOxXx

Uma possível presa ele alimentaria e veria o quanto poderia alcançar, ver se seu investimento valeria a pena ou não deixando-a passar inocente por sua teia. Seria capaz dela chegar a sua altura? Realmente interessante o querer dela, viver e ficar conformado sem nunca se rebelar com algo mais forte não era a cara dela, pelo contrário aquele pedido confirmava que ela fará de tudo para conquistar a velocidade tão rápida que nem perceba sua proeza.


Esse é o instinto de um predador.


Durante a madrugada cobriu seu rosto com uma máscara de oni¹ cobrindo o restante com a capa de capuz preto, o momento em que finalmente descobriu para onde eram fornecidas todas aquelas pessoas vitimas daquele tráfico estúpido. Guardou uma pequena adaga entre as vestes para caso ocorresse uma falha, embora não quisesse que tivesse de recorrer à violência.

Não era tão distante daquele esconderijo no ferro velho da cidade, temido pelo apodrecimento, poucos se davam conta dos sequestros que levava aquelas pessoas a serem vendidas por lá. Recolhidas num só ponto considerado cego, em que os guardas baixaram a visão naquele dia por comemorarem a volta do Harusame para quem lucravam e eram recrutados em troca das cargas humanas.

Golpeou fatalmente na garganta dois dos guardas que estavam à frente do túnel com o conjunto de adagas, silenciosamente descendo para a parte mais profunda. O túnel que foi palco de uma grande tragédia comentada a todos os cantos há dez anos, em que crianças que resistiam o poder de Hosen foram mortas tentando fugir.

A segurança tinha sido feita apenas por aqueles dois, mostrando autoconfiança e até burrice dos contrabandistas. Chegando ao último nível estava aquela multidão acorrentada nos pés e mão além de estarem terrivelmente amordaçada, dentre eles crianças e idosos era o que tinha mais. Tratou de retirá-los o mais rápido possível guiando-os para a saída segura.

"Então existe uma hierarquia tão patética, assim como também tem uma heroína contra isto... Você tem minha gratidão, eu seria mais grato ainda, entretanto se seguisse comigo e em troca eu quebraria o acordo com esses idiotas" Ouviu passos de bota indo contra poça d'água lentamente, com a voz arrastada ao fim da frase "Me contaram que havia tal justiceiro por estas bandas causado prejuízo a tráfico, não esperava que seria você Mizuki-chan".

Congelou ao ouvir o ruído de pisadas sobre o telhado próximo ao ferro velho– Eles estão vindo! – gritou em sua mente, seria turbulento lutar e ao mesmo tempo guiar os ex prisioneiros. O sorriso de Kamui se alargou percebendo sua dependência inevitável levando em conta que caso tentasse sozinha teria ele como seu inimigo, sendo que ele provavelmente tinha o poder me matar ela sozinho.

"O tempo esta acabando Mizuki-chan, o que irá escolher? Eu lhe prometo a verdadeira força se vier comigo além de poupar seus camaradas, você deseja isto não é?" O rapaz saltou a sua frente com a expressão de pedir sua resposta urgentemente, com os lábios movidos levemente como se tivesse vencido a partida"Vou repetir, o tempo esta acabando".

O silêncio causado pelo medo congelante selou um compromisso, ela teria que segui-lo por fraquejar naquele momento crucial.


A teia foi formada.


"Que pena que não consiga se mover ou responder por tanto temor, não se assemelha nada com a pessoa que usou deste caminho uma vez" Ele girou esvoaçando sua capa branda esperando a aproximação dos contrabandistas "Faça algo útil e evacue essas pessoas".

Sem mais delongas ele percutiu naqueles homens como um redemoinho de carne e sangue que os desbancou em poucos minutos, tudo aquilo causou uma dispneia em Mizuki cuja viu todo o desdém daquele homem com seus oponentes "o que seria dela se ele viesse acima dela com toda sua força?" a dissiparia por completo talvez.

Entretanto não se acanhou ao tomar nota da superioridade dele, pelo plano principal o restante não chegaria lá, sendo assim, tranquilizou a multidão guiando-os a saída seguida logo por Kamui. Ele era insistente e agora ainda lhe devia pela ajuda soando mais irritante ainda pelo seu sorriso vitorioso, admitiu sua derrota em realmente não ter se precavido a uma situação "b" arriscando assim a vida de seu povo, concluiu que poderia não ter conseguido sem ele.

"E então, não desejas mesmo a verdadeira força juntando-se a mim?" Tornou a perguntar, para um bandido ele tinha uma estranha filosofia, recrutar sem entender seu passado nem nada, apenas desejando alimentar uma bendita arma.

Ser alimentada para a guerra não era ruim em tudo, apenas escolheria seu campo de batalha diferente. Matar parece o centro principal da batalha, principalmente para o Yatos que consideravam qualquer desvio disto como uma morte certa, entretanto poderia mudar tal paradigma? Como a etimologia já diz aparenta algo regulador e inquebrável, entretanto parece uma tolice a ser mudada por uma raça a beira da extinção.

Alcançado tal "verdadeira força" ela poderia retornar ou estrava destinada ao abate? Desejava ela que quando voltasse pudesse proteger sem temer o que lhe era devido, guardar o pouco que lhe restava num mundo em que quando terminava seus afazeres de "heroína" resguardava-se a seu lar solitário.

"O que a aranha deseja alimentando uma lagarta?" Indagou vendo-o abrir a boca levemente em sinal de surpresa, se desfazendo num sorriso sanguinário a exibir toda sua arcada dentária.

"Alimenta-la até desabrochar uma bela borboleta, parece interessante, não? Respeitar o desenvolvimento para garantir uma diversão futura num cruzar de espadas, ou melhor, vindo de uma mulher sempre é bom encontrar-se ao lado do futuro poderoso do universo"Respondeu acrescentando "A não ser claro que tenha outra ideia, entretanto, adoraria tê-la como uma lagarta em um casulo a espera de sua glória".

Caminhou na direção do grupo de fugitivos para a entrada do novo esconderijo, acenando-lhe com a cabeça como confirmação de um sim. Escolha certa ou errada, meio certa, porém, também meio errada, conflituosa e adorável decisão marcada naquele momento. A teia se volta ao pequeno casulo a se formar, o predador vacilará ou abaterá sem dó? Só o tempo daquele navio que trançaria as nuvens poderia dizer.