Capítulo Três

O calor do dia não se abrandou até o sol afundar no horizonte. Uma brisa suave que soprava do rio acariciou Virna ap Griffin gentilmente, refrescando-a em sua caminhada até o topo da colina de Warwick. O belo e rubro reflexo do sol poente tornou mais fácil para ela deslizar despercebida pelos portões abertos da fortaleza e acercar-se do sólido castelo. Seus cabelos ruivos e a manta escarlate que fora de sua mãe mimetizavam-se naquela luz avermelhada, de modo que podia dispensar o encantamento da invisibilidade. Não tinha a menor necessidade de lançar mão de magia para ocultar-se quando a natureza se encarregava da tarefa. No interior da paliçada de madeira, algum acontecimento inesperado atraiu os curiosos para junto do grande poço comunal, no centro do pátio.

Curiosamente, a maioria dos viquingues se havia recolhido a suas cabanas. Aquela era a hora do dia em que todos corriam para casa, estimulados pelo aroma de carne de cervo e de porco que emanava das cozinhas. Os que se demoravam no pátio não lhe prestaram atenção quando ela subiu os degraus que conduziam à entrada principal do castelo.

Nenhum cachorro latiu em advertência, nenhum grito rompeu a tranqüilidade que envolveu a terra depois que a brisa refrescante se ergueu do rio. Nenhum ser vivo se deu conta de sua presença até ela alcançar o alto da escada e ingressar no átrio.

Então, Virna ap Griffin deparou-se com um lobo.

Encantado com a beleza do pôr-do-sol, Edon deixou de contemplar os comensais reunidos à mesa para admirar o céu através da ampla janela.

Notou sombriamente que o ocaso chegava, mas os espiões que flagara escondidos no velho carvalho, ainda não. Se não viessem, teria se ir à sua procura. Não admitiria que lhe desafiassem a autoridade, mesmo que se tratasse apenas de crianças curiosas. Se o fizesse, jamais seria respeitado em Warwick.

O uivo gutural de Sarina despertou-o das reflexões e o fez desviar os olhos para a escada. Em seu topo, abrigada na penumbra, viu uma mulher trajando um requintado vestido branco sob um longo manto escarlate. Mesclava-se de tal forma com as sombras que mais parecia uma linda aparição, real apenas em sua fantasia. Por um segundo, perdeu o fôlego, imaginando que ela poderia permanecer ali para sempre, imóvel como a mais bela das estátuas, sem que ninguém se desse conta de sua presença.

Sarina caminhou lentamente em sua direção, ganindo baixinho, sob o olhar fixo da estranha mulher. Intrigado, Edon reparou que, entre ela e o animal, estabelecera-se uma inusitada espécie de comunicação. Contudo, concluindo que era apenas imaginação, endereçou-lhe um sorriso de boas-vindas. Levantou-se e ergueu a mão, o comando que Sarina entendia como um sinal de "pare".

O movimento de Edon, porém, atraiu a atenção de Embla, que olhou em torno com desconfiança. Avistando a inesperada visitante, ergueu-se de um salto, derrubando a própria taça de derramando vinho sobre a mesa.

 Prendam-na!  Gritou.

A recém-chegada obviamente não era bem-vinda para nenhum dos soldados de Embla. Os seis viquingues de sua guarda pessoal desembainharam a espada e avançaram em sua direção. Um olhar ameaçador de Sarina, entretanto, deteve-os.

 Prendam-na, eu ordenei!  Embla insistiu brandindo também uma espada.

Edon segurou o pulso da sobrinha e torceu-o até que ela soltasse a arma.

 Você acabou de ultrapassar os limites, esposa de Harald Jorgensson. Estamos em meu salão, reunidos em torno de minha mesa. Nesta casa, as regras da hospitalidade são mais sagradas que todos os deuses de Asgard.

Virna desviou os olhos, até então cravados na loba, para fitar o viquingue de cabelos negros. Ele falara sem alterar a voz, mas seu tom mostrara autoridade bastante para subjugar Embla. Aquela era a primeira vez que via a terrível viquingue desorientada. Seu olhar ardia como veneno e seu corpo enrijecido fazia lembrar uma serpente prestes a dar o bote.

Todavia, não tardou para que ela se recompusesse e enfrentasse o vice-rei com a costumeira arrogância.

 Como pode permitir que uma bruxa da Mércia entre em seu castelo? Uma megera que contaminou os poços de Warwick! Ah, ela veio para tripudiar sobre nós! Creia-me milorde, a despeito de sua aparência angelical, essa mulher maldita lançara feitiços para roubar a sua alma, para exaurir a respiração de sua boca e o sangue de seu coração. Expulse-a, lorde Edon, ou não avalia o mal que causará a todos e...

 Por Freya, é tão grave assim?  Ele a interrompeu, rindo, sem esconder seu desdém. Então, voltou a olhar para a linda dama. Achou que os lábios dela lhe apeteciam como uma fruta madura e suculenta, e a idéia não podia ser mais agradável.

Rastejando, Sarina aproximou-se da visitante e cheirou-lhe a barra do manto com curiosidade. Sua evidente aprovação não destoava da opinião que seu dono formava naquele momento. Observando-a dos pés à cabeça, Edon apreciou-lhe a alvura da pele e o colo macio, onde a união entre os seios fartos era visível sobre o decote do vestido. Suas vestes eram inegavelmente ricas e elegantes; dois dragões entrelaçados, feitos de puro ouro, ornamentavam a manta. Em seu pescoço, uma gargantilha também de ouro, na verdade, uma obra de arte da ourivesaria. E, prendendo as mechas ruivas no alto da cabeça, um delicado diadema.

Até aquele momento, o ataque ferino de Embla não produzira nenhum efeito na desconhecida além de um sorriso. Aliás, um sorriso encantador, repleto de promessas e de mistério. O mesmo ele poderia dizer dos olhos cor de âmbar. Relutante, virou-se para os indecisos guardas da sobrinha e ordenou-lhes que depusessem as espadas.

 A dama não está armada. Sentem-se e sejam cordiais, ou terei de expulsá-los do salão. Rig conduza a nossa visitante até a mesa e cuide para que seja servida. Eloya teve a sabedoria de guardar um lugar para ela.

 Eu me recuso a sentar à mesma mesa que uma merciana  Embla sibilou com honestidade.

 Neste caso, creio que jejuará esta noite, lady Embla. Se esta refeição representa um sofrimento tão grande para você, sugiro que se recolha aos seus aposentos.  Edon dispensou-a, experimentando um grande alívio por se ver livre de presença tão desagradável.

 Percebo que os laços de sangue não significam nada para você, milorde  a viquingue replicou sem se mover.

 Ao contrário, esposa de meu sobrinho  ele retrucou com falsa brandura  , o sangue significa muito para mim. Especialmente quando é derramado sem motivo.

Embla empalideceu. Seus lábios lívidos contraíram-se e seu queixo projetou-se, num esgar de fúria. Edon não via vantagem alguma em permitir que ela continuasse agindo como se detivesse algum poder, depois de seu retorno ao condado.

Ainda não lhe era possível acusá-la da morte de Harald, mas suas suspeitas cresciam a cada minuto. Bem como as de seu irmão Guthrum. Fosse como fosse, não admitiria que Embla desafiasse sua autoridade, e quanto antes ela soubesse disso, melhor.

 Será que corremos o risco de sermos assassinados enquanto dormimos?  Rebeca indagou num murmúrio amedrontado.

Nay, milady, não há perigo  o vice-rei afirmou resolutamente.

Theo virou-se para a esposa, a fim de acalmá-la. Rebeca era muito sensível, e a visão dos guardas armados, comandados por uma mulher violenta, abalou-lhe os nervos. O bebê recém-nascido começou a choramingar em seu colo.

A paz só retornou ao salão depois que Embla saiu, marchando firme para a escada. Até Sarina parou de uivar, o que fez Edon constatar que a loba não a apreciava em absoluto.

Satisfeito com a atmosfera novamente tranqüila, mandou que dois escravos trouxessem mais vinho.

 Lorde Lobo creio que o destino já começou a sua trama...  Theo comentou em tom profético.

Lady Eloya lançou um olhar sagaz ao vice-rei e dirigiu-se a Virna, no idioma saxão:

 Princesa, receio que lorde Edon se esteja sentindo negligenciado.

Virna voltou-se para ela, surpresa, com um movimento tão brusco que também derrubou a taça, acrescentando outra mancha de vinho à toalha. Constrangida, não sabia distinguir o que mais a incomodava, chamar a atenção de todos ou ser alvo do olhar penetrante e perturbador daquele viquingue. Sentia agora a mesma sensação de formigamento que experimentara antes, quando o encontrara no carvalho do rei Olfa.

 Por que me chamou de "princesa"?  Indagou, sem saber exatamente qual das mulheres havia feito à observação.

Uma dama de beleza exótica respondeu da extremidade da mesa:

 Porque o vidente de lorde Edon, Theo, o Grego, marido de Rebeca, nos avisou que receberíamos a visita de uma princesa em nossa primeira noite em Warwick. Esta é a nossa primeira noite, e você é a única que nos veio visitar.

 Logo, a princesa é você  Edon concluiu, abstendo-se de acrescentar que a gargantilha de ouro constituía um indicativo de sua posição na família real. Sem hesitação, segurou a mão dela, úmida e quente, sua brancura contrastando com o tom bronzeado da dele.

 Sinto-me honrada por me ser atribuído esse título  Virna ripostou, inclinando a cabeça de leve para o vice-rei, numa mesura graciosa ao anfitrião e a todos os convidados.  Peço-lhes que perdoem minha chegada intempestiva, interrompendo a sua ceia. Contudo, só o fiz por ter sido intimada a comparecer ao castelo ao pôr-do-sol.

Edon pestanejou, espantado. Aquela mulher, sedutora e refinada, seria a mesma ninfa seminua que surpreendera naquela tarde? Impossível!

 Você não é a garotinha que me espionava, escondida num galho de árvore, é?

 E milorde garantiu que jamais esquece um rosto.  Virna endereçou-lhe um sorriso zombeteiro.  Talvez eu devesse ter desobedecido à ordem, a fim de testar a sua memória...

Edon estudou-lhe o rosto por alguns segundos, sem esconder a admiração. Que pele, que olhos expressivos, que perfeição de nariz... e que boca sensual!

 A minha memória jamais esteve tão boa... e me diz que não lhe ordenei que viesse sozinha  Edon replicou. Não achava prudente ela enfrentar a hostilidade de Embla sem proteção.

 Não disse que vim sozinha  Virna escolheu as palavras com cuidado.  Mas isto não importa, agora. Afinal, milorde dispõe de espadachins e soldados competentes à mesa suficientes para defender uma multidão de damas, princesas ou não.

Edon desviou o olhar deliberadamente para a escada.

 Nesse caso, chame o menino para cear conosco.

 Que menino? Não sei a quem se refere.

"Com que então, ela está disposta a manter um duelo verbal comigo? Será que me considera tão cego quanto Theo?", Edon pensou, fazendo sinal a Rig.

 Você já descobriu o nome da princesa?

Um sorriso caloroso surgiu no rosto de Rig.

 Descobri sim, lorde Lobo. Deixe-me apresentar-lhe Virna ap Griffin. Princesa, este é Edon Halfdansson, vice-rei de Warwick.

O olhar quase dourado de Virna ensombreceu-se e ela retirou a mão da de Edon.

 Você é irmão de Guthrun e filho de Halfdan, que foi rei de Danelaw?

 Declaro-me culpado dessa acusação  ele gracejou, tornando a tocar-lhe a mão.

Virna, porém, furtou-se ao contato, como se este lhe provocasse profunda repulsa.

 O que você tem contra meu pai?  Edon indagou.  Halfdan partiu para Asgard, o reino dos mortos, há cerca de vinte anos. Você não tem idade para tê-lo conhecido pessoalmente. Além disso, tenho certeza de que ele jamais se aventurou até um lugar tão ao sul da segurança de York.

 Talvez eu não seja do sul.

 Ah, mas é sim, princesa. Você pertence à casa real de Leam. A gargantilha em seu pescoço é uma prova. Embla a detesta, e a chama abertamente de bruxa. Será que ela tem razão para odiá-la e acusá-la de bruxaria?  Edon contestou, acariciando-lhe o braço como se a desafiasse a repeli-lo outra vez.

 Embla Garganta de Prata conquistou a fama de maldosa  Virna retrucou, não ousando esquivar-se da carícia.

 A esposa do meu sobrinho insiste em afirmar que você é malévola como todas as feiticeiras.

Virna riu com genuíno humor.

Aye, eu sei.

 E você não nega a sua culpa?

 Para quê? Os viquingues são conhecidos por sua estupidez e credulidade. Agravadas pela força bruta. Embla aproveitou-se dessas "virtudes" para manipular a opinião pública contra mim.

 Agora você está sendo indelicada. Lembre-se de que minha mesa está repleta de viquingues  ele a advertiu com secura.  É melhor começarmos a comer, antes que tudo se esfrie.

Que a advertência era justificada era um fato tão evidente quanto a profunda covinha no queixo do vice-rei. Virna calou-se, ocultando o arrependimento. Edon cessara as carícias em seu braço, mas a sensação provocante permanecia em sua pele, fazendo-a desejar mais.

Num silêncio carrancudo, ele observou as mãos dela, esquias e deliciosamente femininas, e imaginou o prazer que seriam capazes de proporcionar.

Aquela mulher o intrigava. Linda e inteligente, seu olhar cândido sugeria uma doçura que sua língua ferina contradizia. O vestido suntuoso não ocultava o fato de ter sido confeccionado havia muito tempo, provavelmente para outra pessoa; sua mãe? Ela afetava um luxo que a condição de princesa de um reino à beira da extinção não podia sustentar. Em compensação, dispensava quaisquer artifícios, exibindo uma beleza natural. Quem era ela? Bruxa ou anjo? Talvez apenas uma jovem sedutora e ambiciosa.

Tantas contradições e mistérios só intensificavam seu interesse por Virna ap Griffin.

A refeição foi retomada. Reassumindo a postura de anfitrião, Edon apresentou-lhe as pessoas sentadas à mesa.

Como as damas tinham por hábito costurar as próprias roupas, Virna encontrou nessa arte um tema para conversar, sobretudo com Eloya, que a tratava com extrema simpatia.

Divertido, Edon e seus homens ouviam-nas tagarelar enquanto se empenhavam em devorar o conteúdo de seus pratos.

Eloya elogiou a jóias da princesa, e Virna explicou animada, que seus artesãos eram os mais talentosos do condado. Os ourives, por exemplo, eram todos celtas treinados em Erin, e viajavam pela antiga rota de Dublin a Anglesey para vender seus artigos. Depois, reuniam-se no grande mercado de Chester, onde ficava seu castelo.

Por um momento, o olhar de Virna cruzou com o de Edon, e nenhum dos dois se mostrou disposto a desviar-se.

 Será que serei devorada também, milorde? Como esse pedaço de carne de carneiro em seu prato?

Edon encostou o ombro no dela e cochichou:

 Você não é o duende que me espionava hoje à tarde.

 E o que o faz pensar assim?

Edon refletiu no que responderia. Não costumava ceder à atração física. Eram as mulheres que o assediavam, não o inverso. Mas aquela princesa exercia um poder de sedução que despertava seus instintos mais básicos. A necessidade de conquistá-la era quase tão grande quanto a de respirar.

Jamais experimentara tamanha urgência em levar uma mulher para a cama. Além disso, estimulava-o o fato de que dois reis lhe haviam ordenado desposá-la. Ambos os monarcas conheciam a antiga tradição que proibia o casamento com uma princesa e sacerdotisa de Leam, o equivalente celta das vestais virgens de Roma. Indiferente aos tabus do povo merciano, considerava-a não uma casta e sagrada donzela, mas uma jovem encantadora e desejável, capaz de despertar os desejos mais profanos.

 O duende na árvore era a personificação da curiosidade e do impulso, enquanto você é uma princesa enigmática, que deliberadamente mede cada palavra e cada gesto. Na verdade, uma mulher do seu tipo deve ser saboreada como o melhor dos vinhos, devagar, em inúmeros pequenos goles.

Virna engoliu em seco. O vice-rei aproximara-se demais, e essa proximidade lhe tirava o fôlego. Sem que pudesse evitar, fitou-o por um longo instante. Ele não parecia um viquingue. Sua pele morena queimada de sol, os cabelos negros tão sedosos, os olhos azuis como dois pedaços do céu. Os deuses não deviam permitir que um homem fosse tão bonito!

Reparou que Edon, ao contrário de seus pares, não usava barba nem bigode. Havia um quê de malícia e zombaria em seu olhar que a perturbava além do que podia admitir. Os romanos tinham uma palavra para descrever um homem como ele: "sátiro".

 Pelo visto, você tem muitos apetites  replicou, lançando um olhar ao redor da mesa.  Há muitas damas em sua corte, uma delas amamentando o filho recém-nascido. Por isto, abstenha-se de me fitar com essa expressão faminta. Não sou a sua próxima conquista milorde. Só estou aqui porque convém aos meus propósitos conversar com você.

Edon sorriu e tomou o jarro de vinho das mãos inábeis de um escravo, a fim de encher a taça da princesa.

 E que propósitos são esses?

Virna umedeceu os lábios e disse a si mesma para ser corajosa. Timidez e hesitação não defenderiam os interesses legítimos de Venn.

 Enviamos petições que foram recebidas tanto pelo rei de Danelaw quanto pelo de Wessex. Vinte dos meus escravos e mais de uma centena de homens livres e suas famílias foram escravizados ou assassinados por sua preposta, Embla Garganta de Prata, desde a assinatura do Tratado de Wedmore.

 É mesmo?  Edon pousou o jarro de vinho. Conhecia os fatos, na verdade, fora designado para resolver o problema, e estava convicto de que, como qualquer mulher, a princesa exagerava para demonstrar seu ponto de vista.

Ayer  Virna confirmou, adquirindo confiança. Aquele viquingue não a intimidava como temera em princípio. Ergueu a taça de ouro cheia de vinho e sorveu seu delicioso conteúdo antes de prosseguir:  Fui comunicada de que o vice-rei Harald seria substituído.

 Ah, foi?  Ele sorriu.

 Meu primo, o rei Alfred, assegurou-me que o wergild que me é devido será inteiramente pago.

 Ele disse isso?  Edon redargüiu, evitando fitar os utensílios de ouro que se espalhavam pela mesa. A tola princesa julgava que lhe pagariam wergild. Estava errada. Aquela era uma indenização, devida ao rei.

 Disse, sim. E estou feliz por ver as provas da sua riqueza tão generosamente dispostas em sua távola. É ocioso acrescentar que Warwick é responsável pelo pagamento da multa pela captura ou morte de centenas de filhos de Leam. Ao menos, enquanto estiver em vigor o acordo entre Guthrun e Alfred para fazer justiça ao meu povo.

Sem se abalar, Edon ampliou o sorriso, para divertimento da indômita dama.

 Também me alegro por vê-la, de tão bom grado e com tanta honestidade, mostrar o seu triunfo, Virna ap Griffin. Contudo, devo revelar que você não é a única preocupação dos dois monarcas. Acabei de chegar da corte com ordens bastante claras de fortificar esta terra, conhecida como Warwick.

 Minha terra  Virna exclamou com veemência.  As propriedades dos viquingues terminam em Watling Street, bem acima do Avon. Cada pedacinho de chão entre o Severn e o rio Trent faz parte do reino de Leam, desde Weedon Bec até Loytcoyt. Os rios, as florestas de Arden e Cannock, bem como as criaturas ali viventes, pertencem a mim, não a você.

Edon fitou-a com frieza. Ainda assim, Virna continuou:

 Portanto, exijo a demolição desta fortaleza e a liberação da ponte. E ordeno a libertação dos homens livres e escravos do meu povo que foram escravizados por sua representante, Embla Garganta de Prata.

 Mais alguma coisa?

 Sim. Quero que seus homens livres levem o gado, as esposas, concubinas e filhos para o outro lado da Watling Street, que é o lugar deles. Faça isso e eu persuadirei o rei Alfred a não tomar medidas contra Embla Garganta de Prata. Ele é meu parente e me dará ouvidos.

O vice-rei suspirou. Erguendo a mão, interrompeu-lhe o discurso.

 Fui enviado para colocar um ponto final nos conflitos e estabelecer a paz que os dois reis almejam. A disputada terra conhecida como Warwick tornou-se foco de toda a discórdia. Alfred e Guthrun desejam que estas terras sejam bem administradas por guerreiros, pelos homens de Deus e por trabalhadores. Estão ambos cansados de mulheres que não param de brigar como crianças teimosas.

 Brigar como crianças teimosas?  Virna ecoou, repelindo a descrição injusta e desagradável.  Eu não brigo com ninguém. Segundo o rei de Danelaw, o direito à propriedade é uma questão legal, não de hereditariedade. Por esse motivo nós, de Leam, temos investido nossos esforços para criar leis de propriedade sancionadas pelo nosso rei, Alfred. Eu não desperdiço meu tempo com brigas inúteis.

 Está insinuando que Embla é quem perde tempo com disputas inúteis?

 Não. Embla Garganta de Prata se ocupa com assassinatos e torturas, eliminando qualquer um que atravesse seu caminho.

 Nesse caso, como explica que ela ainda não tenha eliminado você?

 É simples, eu jamais cometo o erro de confrontá-la sozinha. Prefiro agir por intermédio da corte dos reis.

 Mas, hoje, você veio a este castelo sozinha  Edon observou.

 Esta é uma suposição sua.

 Está bem  ele cedeu. A princesa, astuciosa e esperta, era versada nas artes verbais e diplomáticas. As petições que enviara a Guthrum constituíam uma prova de seus talentos.  Permita-me informa-lhe que meu dever é fazer que se cumpram todos os termos do Tratado de Wedmore, a que se referiu a pouco.

 Como, se você é o primeiro a não cumpri-los?  Virna estreitou os olhos cautelosamente.  Não estou disposta a ouvir argumentos que apresentam meu povo como culpado, quando, na realidade, é a grande vítima dos desmandos e crueldades de Embla. A cada dia ela queima mais um pedaço da minha floresta.

 Não haverá mais queimadas nos bosques  Edon garantiu com serenidade.  Trata-se de um recurso demasiado perigoso em tempos de seca. Já dei ordens neste sentido.

 E também ordenará aos seus viquingues que respeitem a Watling Street como limite de suas propriedades?

 Isso eu não posso fazer.

 Sugiro que o faça, milorde, caso contrário jamais haverá um ponto final para...

 Ouça-me, princesa  ele atalhou irritado.  Não estamos num tribunal, mas no meu salão, reunidos à volta da mesa. Devemos cear em paz, conversando apenas sobre temas agradáveis e estimulantes. Guarde as suas queixas para um momento mais adequado.

 Quão conveniente é a lei de Danelaw  Virna retrucou sem ocultar seu desdém.  Eu não arrisquei minha vida vindo aqui apenas para discutir amenidades.

 Não, você veio porque eu ordenei.

 Está enganado  ela rebateu.  Vim para estabelecer meus termos e exigir reparação. Quanto mais cedo nos entendermos, mais cedo nos livraremos um do outro.

Edon sacudiu a cabeça. Lançou um olhar por sobre o a mesa para Rig, que acabara de retornar. O vice-rei o havia incumbido de verificar se o garoto esperava lá fora. Com um sinal, Rig indicou que não o havia encontrado.

 Muito bem, milady. Já demonstrou os seus termos. Agora, devo revelar-lhe as instruções dos dois reis. Virna ap Griffin, apresento-lhe Nels de Athelney, confessor de Guthrum.

Um homem, sentado em frente à princesa, levantou-se e curvou-se numa referência solene. Virna fitou-o, pensando que jamais o vira antes. Contudo, ele lhe era um tanto familiar, trajado com uma túnica marrom de lã. De sua cintura pendia uma espada de prata com o punho ricamente trabalhado.

 Cara princesa, é uma grande honra conhecê-la  cumprimentou-a com sinceridade. Virna era quase uma lenda na corte do rei Alfred, uma reminiscência dos dias de Arthur e Camelot, seu nome sempre associado ao culto à Senhora do Lago e à ilha de Avalon, para sempre perdida nas brumas.

 Conte à princesa o motivo de sua presença em Warwick, bispo Nels.

 Bem... resumindo em poucas palavras, milady, fui encarregado do sagrado dever de converter todos os moradores de Warwick, pela cruz... ou pela espada.

 Como talvez tenha percebido Virna ap Griffin, eu trouxe soldados suficientes para garantir o cumprimento do édito conjunto dos reis Alfred e Guthrum, num prazo máximo de trinta dias. Meu general, Rig, já aceitou os ensinamentos de Cristo e orgulha-se de exibir o crucifixo com que meu irmão o presenteou.

Virna desviou o olhar para o perigoso homem sentado ao seu lado. Edon de Warwick continuou proferindo palavras aterradoras.

 Depois de concluídas as conversões, devo pacificar os novos cristãos. Afinal, são todos vizinhos e serão irmãos em Cristo. Por que não serem também amigos? Como palatino deste condado, presidirei uma corte de julgamento mensal, a fim de julgar e conciliar os queixosos. Na manhã seguinte à lua nova, você poderá apresentar as suas reclamações, petições, enfim, o que desejar. Agirei com imparcialidade e justiça ao examinar as provas e proferir minha sentença.

 O quê!  Virna indignou-se.  Você não pode julgar meu povo. Está zombando de mim, viquingue!

Nay, de modo algum  Edon grunhiu, não gostando nem um pouco de sua reação. Ela o fitava como se ele fosse um vilão infame, e não um homem culto, educado em suas viagens pelo mundo.  Faça bom uso dos seus últimos dias de liberdade, princesa. Depois que for acusada de traição perante este viquingue, não poderá mais subir em árvores, nem espionar os incautos, nem acabar com a água que abastece esta terra.

 Do que está falando?  Virna redargüiu com ironia, para disfarçar o desespero.  Por acaso me acusa de reter a chuva e de secar os rios?

 Não eu, princesa  Edon conteve uma gargalhada.  Já é tempo de você descobrir que não é a única pessoa por aqui a escrever ultimatos aos reis. Assim como você pressionou Alfred, a sobrinha de Guthrum também o encostou na parede.

 E daí?

O vice-rei sorriu, sentindo certo prazer com o evidente desconforto da princesa ao ouvir a novidade. Ela era realmente ingênua, uma pobre inocente perdida no meio de um jogo pelo poder. Num movimento deliberado, aproximou-se dela e inalou a suave fragrância de seus cabelos rubros, tornando a acariciar-lhe o braço.

 Você não se defendeu da acusação de bruxaria, quando a questionei. Agora, diga-me, Virna ap Griffin, você é ou não uma feiticeira?