Capítulo Quatro
A resposta de Virna veio na forma de uma sonora bofetada no rosto do vice-rei. Recusando-se a permanecer ali, onde corria o risco de ser insultada ainda mais, ela ergueu-se e fugiu de sua mesa.
Edon alcançou-a na metade do caminho para escada. Sem hesitação, agarrou-a pelos ombros, virou-a para si e sacudiu-a.
Seu canalha, derrube-me, vamos! Virna gritou em protesto, esmurrando-lhe o tórax musculoso.
Tranquem os portões Edon ordenou aos surpresos soldados que mantinham guarda no salão inferior. Prendam qualquer homem que puxe uma arma em defesa desta mulher.
Sem proferir mais nenhuma palavra, ele girou nos calcanhares e marchou pelo corredor, carregando-a nos ombros, afetando indiferença diante de suas tentativas de soltar-se. Contudo, tinha de admitir que não era fácil dominá-la. A princesa lutava, embora inutilmente, com incansável perseverança, e o que lhe faltava em força física era compensado por uma surpreendente determinação.
Assim que entrou em seus aposentos, Edon jogou-a sobre o leito, mantendo-a presa pelas mãos. Apesar de muito mais fraca do que seu adversário, Virna continuou a debater-se, tão difícil de ser capturada como enguias numa tigela de óleo, enquanto lhe perfurava os tímpanos com gritos agudos.
O horror que experimentava intensificou-se quando ela constatou que sua túnica rasgara-se de um ombro a outro.
Enfurecido pela afronta que a princesa lhe infligira ao esbofeteá-lo publicamente, Edon apertou-lhe ainda mais os pulsos.
Nesse momento, Sarina entrou no quarto e pulou para cima da cama, observando a cena com olhar esgazeado.
Essa atitude só piora a sua situação Edon bradou, por fim. A insolência daquela mulher impedia-o de sentir qualquer vestígio de compaixão. O que ela pensava, afinal? Que ele não tinha orgulho? Não percebia que ele também era um príncipe, filho de um rei? Agredi-lo diante de toda a sua corte constituía uma afronta imperdoável, pela qual teria de pagar.
Desesperada, Virna virou a cabeça e fitou a loba nos olhos. O animal uivou baixinho, mas, logo em seguida, principiou a rosnar. E, lentamente, avançou na direção do viquingue com a clara intenção de atacá-lo.
Sarina, sou eu Edon murmurou. Somos amigos, lembra-se? Eu sou seu dono, você não me pode fazer mal.
A loba, que já encostava as presas no punho de Edon, contemplou-o com evidente confusão no olhar. Ganiu, aflita, e recuou um passo, parecendo cheia de vergonha e culpa.
Para fora, Sarina Edon ordenou. Agora!
Fugindo do poder daquela estranha mulher, o animal escapou pela porta.
Solte-me, seu bárbaro! Virna sibilou.
Milady Edon advertiu-a , dirija-se a mim nesse tom novamente e serei obrigado a ensiná-la a respeitar um homem.
Ouse encostar um dedo em mim e eu o matarei com as minhas próprias mãos Virna rebateu.
Pode dizer-me como pretende fazê-lo? ele zombou. Com outro feitiço? Com sua língua ferina? Ah, com as mãos, estas que você nem sequer consegue libertar? Desviou o olhar para o seio desnudo da princesa, exposto sob a luz da lua que se infiltrava pela janela. Até agora, todas as suas tentativas de me vencer fracassaram. Continue o espetáculo. Será divertido apreciar os seus atos de bruxaria.
Viquingue miserável! ela bradou. Você me ludibriou, mas não permitirei que escarneça de mim.
Não está em condições de ditar ordens, milady Edon retrucou com aterradora severidade.
Selwyn! Virna chamou, reunindo as últimas forças para aquele último grito, sabendo bem que aquele não era um bom recurso. Em sua arrogante e excessiva autoconfiança, decidira ir sozinha a Warwick. Não havia nenhum guerreiro para defendê-la, e Edon não tardaria a descobrir o fato, se já não o houvesse descoberto.
Em mais uma tentativa inútil, pinoteou sobre a cama, com a intenção de libertar-se e pular pela janela. Contudo, só logrou que Edon estendesse o corpo sobre o dela, numa posição de perturbadora intimidade.
Está me esmagando, viquingue! Ficarei com manchas roxas até os pés.
Foi você que pediu isto. Pare de opor resistência e simplificará tudo.
Prefiro morrer a render-me a você!
Edon ergueu-lhe os pulsos, prendendo-os ao lado de sua cabeça.
Não creio que morra esta noite, princesa. Sua morte acrescentaria injúria à ofensa que já me fez. Não. Tenho planos muito diferentes. Você servirá para eliminar as diferenças que separam Wessex e Danelaw.
Virna cravou as unhas nos braços dele, arranhando as faixas douradas que ele usava como proteção.
Você não me utilizará para coisa alguma! declarou com veemência.
Para Edon, aquela foi mais uma prova de que Virna ap Griffin precisava de uma lição da qual jamais se esquecesse.
Queria beijar-lhe os lábios trêmulos de fúria, saborear aquela boca carnuda e rubra, introduzir a língua por entre os dentes alvos e perfeitos. Contudo, sua astúcia o advertia contra tal beijo. Não haveria prazer algum em ser mordido por aquela indomável princesa. Assim, em vez disso, percorreu com a língua o pescoço esguio e delicado, numa carícia lenta e provocante. Em seguida, mordiscou-lhe a orelha, sentindo-se agradavelmente compensado ao ouvir o gemido desintencional que Virna deixou escapar.
Por favor, saia de cima de mim! ela implorou, engolindo o orgulho a contragosto. Você está me machucando.
Renda-se de uma vez e a dor cessará Edon replicou, concentrando a atenção na pele macia de seus seios.
Virna sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha quando ele grudou a boca em seu mamilo.
Não! Ordeno que pare! Ela ergueu um joelho, na tentativa de fazê-lo rolar para o lado, mas arrependeu-se de imediato. Naquela posição, sentia-se mais vulnerável do que nunca. Viquingue, você está muito perto de violar uma sacerdotisa. Todo o povo de Mércia se levantará em protesto contra essa profanação.
Edon não se apressou a responder. Entretinha-se brincando com seus mamilos, maravilhado por vê-los tão túrgidos e satisfeito por constatar que aquela sedutora mulher era sensível aos seus afagos. Por fim, ergueu a cabeça e fitou-lhe os olhos irados.
Tudo o que um dia foi a Mércia hoje implora aos reis pela paz, milady. A princesa de Leam é o trunfo que Alfred oferece para pacificar os dinamarqueses. Nenhum homem brandirá armas e desafiará meus direitos sobre você. O pacto foi selado pelos dois monarcas. Só lhe resta curvar-se perante a vontade deles... e a minha.
Eu o matarei antes que isso aconteça, viquingue ela garantiu.
Edon tornou a baixar a cabeça na direção de seu seio. Virna viu-se indefesa, mas, orgulhosa, jamais admitiria. Quando ele recomeçou a sugar-lhe os mamilos, ela cerrou os olhos e conjurou seus deuses e os quatro elementos para que corressem em seu auxílio.
Trovões ribombaram ao longe e uma súbita rajada de vento invadiu o quarto. Mas nenhum raio caiu sobre o homem que a insultava, e o vento não tardou a reduzir-se a uma débil brisa, que logo serenou. Nenhum espírito corporificou-se para salvá-la. Os deuses recusavam-se a atender-lhe os rogos.
Para sua maior mortificação, Virna percebeu com espanto que o próprio corpo lhe desobedecia, amolecendo, estremecendo de leve sob as carícias ousadas e ofensivas. Gemidos involuntários de prazer brotavam de seus lábios.
Para Edon, aquela demonstração bastava. Por ora, só necessitava certificar-se de que a futura mãe de seus filhos, herdeiros de Warwick, não era fisicamente imune a ele. Não toleraria desposar a princesa, caso esta se revelasse incapaz de sentir e proporcionar prazer.
Desistiu de violentar-me, afinal? Virna indagou, esforçando-se por manter a voz firme. O luar permitia-lhe contemplar a boca tentadora, o nariz reto e os arcos negros das sobrancelhas do viquingue. Aquele homem a tocara como nenhum outro jamais se atrevera. E agora, exibia-se como um pavão.
É o que deseja? Quer obter uma prova de que não passo de um bárbaro? Edon redargüiu.
Como pode divertir-se em insultar-me?
Em insultá-la e acariciá-la também. O que fará agora, princesa? Devo levá-la para o desfiladeiro e amarrá-la nas rochas? Ou, quem sabe, exigir ao rei que pague um resgate para libertá-la? Ou talvez eu deva apenas esperar que os bravos guerreiros de Wessex venham matar o dragão e salvá-la...
Já basta! Não temos mais nada a discutir. Deixe-me ir, eu lhe suplico.
Não até que você me dê garantias de que se comportará como uma verdadeira princesa, refreará sua agressividade e me fará companhia pacificamente.
De minha boca você não ouvirá promessas vazias.
Edon endireitou os braços e ergueu os ombros. Com esse movimento, aumentou a pressão das mãos nos pulsos dela.
Rig! chamou em voz alta.
No instante seguinte, o homem surgiu no umbral.
Em que posso servi-lo, senhor?
Traga-me duas tiras de couro trançadas e um pedaço de pano para amordaçar esta mulher. Já terminamos nossa conversa.
Seu idiota! Nós não estávamos conversando. Em vão, Virna tentou libertar uma das mãos para tornar a esbofeteá-lo.
Seu poder de dedução me surpreende Edon grunhiu, empurrando-lhe os braços para trás e encostando-os no colchão de penas. Ao fazê-lo, torceu-os de leve, para demonstrar uma vez mais a futilidade de sua luta. De súbito, seu semblante tornou-se sombrio, indicando que o jogo terminara. Por que o menino não veio com você? indagou.
Porque eu o mandei para casa Virna respondeu.
E onde é sua casa?
Você construiu esta maldita fortaleza bem em cima dela!
Edon apoiou os cotovelos sobre a cama. Os seios túmidos de Virna estavam agora muito perto, expostos através do rasgão da túnica e realçados pelos movimentos irregulares de sua respiração entrecortada. Rig retornou e colocou algumas tiras compridas de pano e outras de couro, retiradas de um espartilho ao alcance da mão direita do vice-rei.
Virna girou a cabeça para fitar os objetos. Seu coração disparou, incontrolável, dentro do peito, ao constatar uma mudança sutil no humor de lorde Edon. Até um momento antes, havia um toque bem-humorado em suas atitudes, mas, agora, ele se tornara verdadeiramente ameaçador.
Você não ousaria amarrar-me.
Prezada milady, eu ouso o que bem entender.
Solte-me. Poderíamos recomeçar a discutir nossas diferenças...
Não. Os olhos dele fixaram-se com firmeza nos de Virna, não traindo nenhuma inclinação a fazer concessões. A tensão entre ambos atingira um grau perigoso. Não posso permitir que perambule livre por esses corredores. Minha sobrinha anseia por cortá-la em pedaços e armazenar sua alma num jarro. Meu rei quer batizá-la como cristã. Seu rei deseja casá-la o mais rápido possível. E eu, cara princesa, preciso de um gole de vinho. Nossos debates secaram-me a garganta.
Virna não se deu ao trabalho de opor resistência quando ele encheu-lhe a boca com um pano antes de amordaçá-la. Sabia reconhecer quando perdia uma batalha e suas mãos estavam demasiado dormentes para esbofeteá-lo outra vez. Sem dúvida, não constituía perigo algum para aquele arrogante viquingue. Cônscio da própria vitória, Edon amarrou-lhe os pulsos e os tornozelos. Antes de sair, lançou-lhe um olhar de triunfo que a chocou mais do que todas as agressões sofridas.
Apesar de infeliz e mal acomodada, Virna ainda conseguiu cochilar à medida que a noite avançava. Para onde fora seu inimigo era algo que nem imaginava. O castelo parecia dormitar no silêncio. As vozes do salão havia muito se tinham calado, e a loba regressara, amedrontada. Cheirara-lhe os cabelos e vagara pelo quarto sem rumo certo.
O que mais a afligira era a lembrança do irmão. Venn sem dúvida se desesperaria com sua prolongada ausência. Stafford não demoraria a convocar a guarda para atacar a colina, se o príncipe herdeiro desse a ordem. Ela precisava fugir, de algum modo.
Mal tomara essa decisão, Edon de Warwick entrou no aposento. Sem proferir uma palavra, despiu o cinturão e as faixas que lhe protegiam os braços e estendeu-se na cama, ao lado dela. Virna virou a cabeça para fitá-lo com um olhar suplicante.
Milady, já é muito tarde ele murmurou. Não recomece a sua cantilena, eu lhe suplico. Não tenho a menor inclinação de ouvi-la.
Para provar o que acabara de afirmar, fechou os olhos e ignorou-a por longos minutos. Virna manteve-se imóvel e calada, ruminando uma raiva impotente e o profundo desejo de matá-lo. De súbito, ele estendeu a mão e acariciou-lhe os seios. Lá fora, as cotovias começaram a cantar, anunciando que o sol em breve se levantaria.
O colchão rangeu quando Edon se virou para o lado dela, retirou-lhe o diadema e, com mãos surpreendentemente gentis, removeu a rede que lhe prendia os cabelos. Os cachos ígneos se espalharam ao redor da cabeça bem feita de Virna. Ele se maravilhou com o brilho sedoso das mechas, que fulgiam como fogo sob os primeiros raios de sol da manhã. Um sentimento de remorso acossou-o por tê-la deixado amarrada e amordaçada por tanto tempo. Como pudera fazer isto com uma mulher tão linda?
Então, está disposta a cooperar comigo agora, princesa?
Virna balançou a cabeça, numa concordância muda. Seus olhos baixos, porém, não o enganaram. Era visível a rebeldia sob a aparente submissão.
Edon segurou-lhe os ombros e a fez sentar-se. A túnica rasgada escorregou para baixo, expondo-lhe o busto nu. Edon quase perdeu o fôlego ao deparar-se com tão estonteante beleza. A contragosto, não logrou esconder os efeitos que aquela visão produzia sobre seu corpo. Determinado a ignorar os atributos físicos ímpares da princesa, apanhou a faca que jazia sobre a mesa.
Não se mexa advertiu-a. Não me agradaria feri-la.
Com movimentos precisos, cortou-lhe as tiras que lhe prendiam os tornozelos e os pulsos. Em seguida, curvou-lhe a cabeça para livrá-la da mordaça. Removeu o chumaço de pano de sua boca, lançando-o ao chão.
Virna abriu e fechou a mandíbula diversas vezes, tentando engolir. Edon segurou-lhe as mãos frias e entorpecidas, consternado ao ver o inchaço nos dedos esguios e delicados. Tomada por uma súbita fraqueza, ela deixou a cabeça pender sobre o ombro de seu inimigo. Edon massageou-lhe as mãos com vigor e gentileza.
A dor passará em breve garantiu-lhe.
Como resposta, ela limitou-se a assentir com um gesto quase imperceptível. Edon redobrou os esforços para restabelecer a circulação do sangue pelas extremidades do corpo de Virna. Os seios desnudos da princesa roçavam em seus braços, numa involuntária carícia provocante.
Edon pousou a mão insensível da princesa sobre a coxa, sabendo que ela não conseguiria movê-la, não antes que cessasse o doloroso formigamento. Com movimentos sempre suaves, esfregou-lhe os braços, ombros e pescoço.
É muito bonita, Virna ap Griffin. Não, nem tente falar. Eu lhe revelarei o que penso, e você me escutará porque em breve serei seu marido. Só existe uma solução lógica para a disputa pelo governo de Warwick. E essa solução consiste em unificar nossas reivindicações individuais por meio do matrimônio. Alegra-me constatar que seus seios me atraem. Gostaria de segurá-los e massageá-los como estou fazendo com suas mãos. Contudo, não os tocarei por saber que isso não lhe agradaria, neste momento. Mas, quando for minha esposa, estou certo de que experimentará um prazer inefável ao desnudar-se para mim e entregar-se às minhas carícias. E não mais desejará derrotar-me, porque agradecerá o êxtase que lhe proporcionarei.
Virna reprimiu um gemido. Quisera não ter a boca tão seca, em conseqüência da mordaça, para poder cuspir-lhe no rosto. Aquele monstro merecia ser castigado sem nenhuma contemplação. Se tivesse forças, com certeza lhe cortaria a garganta sem hesitação.
Edon, porém, depositou um beijo desprovido de malícia em sua têmpora. Não ousaria beijar-lhe os lábios, pois não duvidava que a rebelde princesa o morderia. E então, a briga recomeçaria. Em vez disso, e cônscio de que não poderia conter o próprio desejo por mais tempo, levantou-se e recolocou o cinturão e as faixas dos braços.
O rei Alfred insistia que ela era virgem, reverenciada pelo povo e totalmente intocada, a despeito de já ter vinte anos. A princesa era livre para percorrer toda a floresta de Arden, na verdade, toda a antiga Mércia, protegida pelo colar de ouro que lhe adornava o pescoço. Ninguém se atrevia a molestá-la, sabendo tratar-se de uma sacerdotisa de Leam, sagrada para os celtas como a própria Senhora do Lago.
Virgem ou não, Edon decidiu desafiar um pouco mais seu autocontrole e tornar a contemplá-la na penumbra. Admirou-lhe os seios fartos, a pele alva e macia, a curva suave dos ombros, as mechas de cabelo vermelho como o fogo e os olhos cor de âmbar. Aproximou-se dela e propôs:
Venha, fique de pé diante de mim. Verei o que posso fazer para prender sua túnica. Se a vissem assim, julgariam que já fiz amor com você.
Asno! Virna sibilou, enquanto ele a ajudava a erguer-se.
Isso, provoque-me! Ele estendeu um dedo ameaçador em sua direção. Ouse abusar de minha paciência outra vez e eu a possuirei agora mesmo. Sou um homem, Virna ap Griffin, e tão fraco quanto qualquer outro quando a questão é sexo. O seu rei determinou que encerremos a disputa por Warwick, e eu conheço o método mais eficaz para cumprir esta ordem. Você não tem como evitar o que deve acontecer, portanto, não percamos mais tempo debatendo sobre futilidades.
Edon virou-a ligeiramente, para unir a parte da frente da túnica com a de trás. Abriu o broche e colocou-o na posição certa para prender a parte superior da veste. Franziu as sobrancelhas e avaliou o próprio trabalho, considerando-o satisfatório, dadas as circunstâncias. Tornou a virá-la e repetiu o processo no lado esquerdo.
Pronto, isso servirá, por ora. Contudo, você é muito mais bonita sem roupa. Não me incomodarei por ter uma bretã como esposa, já que seus seios são tão... apetecíveis. Só espero que saiba manter a língua bem afivelada entre os dentes.
Caminhando pelo corredor ao lado de Edon, Virna inclinou a cabeça e fulminou-o com o olhar. Aquele viquingue arrogante e desrespeitoso não mostrava nem sequer a mesma sensatez com que os deuses brindavam os pardais. Se tivesse o mínimo de bom senso, jamais insultaria a princesa de Leam. E o vice-rei pensava em desposá-la! Ah, mas nem em cem anos... Ela o mataria mil vezes antes de consentir em tal despropósito. Tomada por um súbito impulso, apanhou a faca que ele deixara sobre a mesa ao lado da cama, num gesto rápido e audaz. Contudo, ao erguer a mão, preparando-se para fincar a lâmina na garganta de seu inimigo, o formigamento obrigou-a a soltar a arma, que tombou no chão, produzindo um ruído metálico.
Surpreendido pelo ataque inesperado, Edon curvou-se e recuperou a arma. Prometendo a si mesmo ser mais cuidadoso no futuro, guardou-a na bainha de couro presa ao cinturão.
Ignorando-o deliberadamente e engolindo a frustração pela própria incapacidade física, Virna espiou o salão ainda às escuras. O cavalete da mesa havia sido removido, mas, em seu lugar, agora via-se um aparador provido de jarros, cuias e uma tigela de madeira abarrotada de frutas. Ela encheu uma cuia com chá de um dos jarros e tomou-o puro.
Venha, quero que me mostre o caminho para a sua casa, princesa Edon ordenou. Seus criados devem estar muito preocupados.
Não pretendo voltar a dirigir-lhe a palavra, milorde Virna retrucou no tom mais firme que conseguiu.
Ora, declaro-me realmente aliviado com essa informação Edon retrucou com sarcasmo. Irrita-me a tendência feminina de tagarelar horas a fio sem dizer coisa alguma que valha a pena ouvir. Acompanhe-me. Meus homens já devem ter preparado os cavalos.
Para cumprir sua promessa, Virna fingiu não tê-lo escutado. Seguiu-o em silêncio, torcendo para que os deuses enviassem um raio que o partisse ao meio. Entretanto, não ousou conjurar os elementos e ordenar-lhe que destruíssem aquele homem...
Esperta o bastante para enganar os viquingues e burlar a maioria das leis impostas pelos invasores dinamarqueses, Virna ensinou a Edon o caminho para a aldeia de Wooton, e não para a floresta. Na porta de sua cabana, mãe Wren caminhava de um lado para outro, fazendo estalar a grama ressequida sob seus pés. Estranhos presságios acerca do futuro de Warwick oprimiam-na quando, para seu profundo alívio, avistou Virna, que se aproximava a cavalo, escoltada pelo vice-rei.
Valendo-se de suas prerrogativas como velha matriarca reverenciada por todo o povo de Leam, na verdade, o que restara do povo, dirigiu-se ao viquingue.
O senhor não tinha o direito de manter minha princesa fora de casa até essa hora da manhã! protestou com veemência. Ajudou sua protegida a desmontar e aconchegou-a em seus braços.
Edon lançou um olhar à cabana, fixando-a na memória. Pretendia retornar em breve e visitar sua futura esposa. Quanto mais tempo passassem juntos, menos ela resistiria à idéia das núpcias.
Onde estão os guardas da princesa, Selwyn e Staffort, e o irmão, Venn? indagou à velha.
Por aí! mãe Wren ripostou em tom belicoso. Estão vasculhando a região em busca de Virna. Onde mais poderiam estar, meu caro lorde? Dormindo junto com as galinhas? Ah-ah! Não os nossos bravos guerreiros, Selwyn e Staffort. Quanto a Venn, este pode ser ainda um menino, mas conhece suas obrigações para com a irmã.
Edon resmungou baixinho. Esperava levar o rapaz para mantê-lo sob custódia, agora, mais do que nunca. Se levasse Venn ap Griffin para Warwick , Virna não teria outra alternativa além de aceitar o batismo e o casamento.
Quando o príncipe chegar, avise-lhe que enviarei meus homens para buscá-lo ao meio-dia. Ele deve acompanhar-me hoje no adestramento de falcões.
Oh, estou certa de que ele apreciará muito o seu convite a matriarca replicou, fingindo concordar. Venn cuspiria no rosto do viquingue. Agora trate de ir embora. Minha senhora está exausta, mal se agüenta em pé.
Wren apressou-se a conduzir Virna para o interior da cabana e bateu a porta. As duas abraçaram-se, buscando forças uma na outra, enquanto Edon se afastava com os dois cavalos.
Minha criança... a velha suspirou antes de prosseguir. Esta noite os meus cabelos tingiram-se de cinza para branco antes que a lua sumisse no céu. Faça isso comigo outra vez e terá de procurar-me em meu túmulo.
Mãe Wren, você é a melhor artista de pantomima de toda a floresta de Arden Virna retrucou, beijando-lhe o rosto com gratidão. Obrigada, mil vezes obrigada. Tive tanto medo que você revelasse o paradeiro de Venn.
A velha soltou uma risada escarninha e afagou-lhe o braço.
Não é preciso empregar muita malícia para enganar um dinamarquês.
Depois de relatar os acontecimentos da noite, Virna começou a vagar de uma extremidade à outra da sala, erguendo densas nuvens de poeira do chão com seu passo exasperado, assaltada por um profundo ressentimento. Já havia trocado o manto real por um traje de caça e guardado o diadema em local seguro, e aguardava, impaciente, os comentários de sua mãe de criação.
Você ouviu pelo menos uma única palavra de tudo o que lhe contei?
Ouvi, sim. Cada uma delas Wren replicou, calmamente sentada num tamborete de madeira e couro, fiando em sua roca como se nada de aterrador houvesse ocorrido. Todo o povo de Leam, sem exceção, deverá converter-se ao cristianismo e você se casará com o viquingue.
E então?
Qual é o problema, menina? Ser cristão não é tão ruim assim, ora essa. Eu mesma me sinto bastante inclinada a converter-me.
O quê?! Virna crispou os punhos. Esses viquingues mataram meus pais!
Não é verdade, Virna. Sua mãe morreu de parto e seu pai, graças à própria falta de sabedoria. Devia ter concordado com a paz, em vez de partir para uma batalha perdida. O vice-rei Edon e seus viquingues não tiveram nada a ver com a morte deles e você sabe disso. Como também sabe que deve curvar-se perante a vontade dos reis. Tegwin não possui mais nenhum poder. Metade das histórias antigas se embaralhou na cabeça dele. Por que não ouve os mais velhos e experientes, criança? Nós percebemos e entendemos o que está por vir.
Ah, não, mãe Wren... até você? Virna redargüiu com tristeza. Por outro lado, Venn está tentando agarrar-se a seu direito inato. Para ele, nada há de errado em acreditar nos velhos deuses de Leam, que tanto esplendor trouxeram à nossa terra. Meu irmão crê que dar ouro em oferenda à Senhora do Lago não é uma mera tradição, mas um ritual sagrado. O coitado não duvida que os deuses falam com ele e se revelam em seus sonhos.
Seu irmão é um garoto. Segue tudo o que lhe ensinam. Envie-o para uma abadia e ele rezará para o Cristo. Faça o que seu pai devia ter feito há muito tempo. Deixe-o aprender a nova religião. Ele não terá dificuldade para se adaptar. Toda a região de Wessex converteu-se ao cristianismo. Por que Leam ainda resiste? Não se iluda, minha filha... os dias dos druidas já se acabaram.
Você não compreende. Venn recusa-se a abandonar o último druida vivo. Tentei persuadi-lo a regressar para Chester ou ir estudar em Evesham. Mas é inútil. Ele não sairá daqui, a menos que Tegwin o acompanhe.
Nesse caso, você precisa tomar uma atitude drástica.
Qual?
Case-se com o viquingue. Tivesse eu um homem como aquele para aquecer meu leito nas noites de inverno... Eu o vi quando chegou a Warwick, todo garboso naquele cavalo negro. E que comitiva! Não, minha cara, eu jamais deixaria escapar um dinamarquês moreno como esse vice-rei. A mãe dele era irlandesa... Ele lhe dará um bom punhado de filhos.
Virna cerrou os olhos e rogou aos deuses que lhe concedessem o dom da paciência. Wren já não era jovem e merecia ser tratada com carinho.
Você não me está ajudando com tais conselhos observou no tom mais sereno que pôde. Para vingar a morte de meus pais, sou capaz de matar todos os viquingues.
Você fala sobre o que não sabe. O rei Alfred lhe deu permissão para levar suas irmãs para Chester neste verão e, em vez disso, você vem para Warwick criar confusão. Despose o dinamarquês. Será melhor para todos.
E depois, hein? O que deverei fazer? Virar as costas ao meu irmão? Você não ignora o que acontecerá se eu o deixar sozinho neste momento. Tegwin o convencerá a sacrificar-se na noite de Lughnasa.
Wren deteve a roca e fixou os olhos na chama da lareira que, demasiado flébil, mal iluminava a sala tosca da cabana.
Tem razão, Virna ap Griffin, não posso ajudá-la. Venn tem sangue real, e esse fato determina seu destino. Nem você nem eu temos meios de mudar isto. Seu irmão será feliz no Outro Mundo.
Virna caiu de joelhos diante da mulher mais velha e tomou-lhe os dedos nodosos entre as mãos.
Mãe Wren, eu amo meu irmão. Tenho cuidado dele desde o tempo em que ainda era apenas um bebê. Não posso deixá-lo partir para o Outro Mundo, mesmo que seu sacrifício salve o mundo. Minha vida seria vazia sem ele... ou sem Lacey, Audrey e Gwyneth. Meus irmãos são tudo o que me resta , meu sangue, meu coração e minha alma.
Vamos, vamos Wren tentou apaziguá-la, libertando as mãos para afagar-lhes os cabelos. O casamento com o viquingue não implicaria abrir mão de tudo isso. Eu sinto que aquele dinamarquês tem bom coração. Talvez ele possa dar a Venn a proteção que você não pode.
Ora, não me dê conselhos tolos. Ajude-me a encontrar um modo de deter essas mudanças indesejadas. Se houvesse um meio de empurrar os viquingues de volta para o Avon, então Venn poderia assumir seu legítimo trono. Afinal, ele é o último filho da casa real de Leam. Oh, imagine como seria bom vê-lo viver uma vida longa, casar-se e ter herdeiros!
Aye. Ele é o último dos nossos reis. E merece uma vida longa tanto quanto o primeiro homem que, apanhando uma clava e obrigando todos os demais a obedecê-lo, proclamou-se rei. Não sei o que lhe dizer, minha criança. Você deve procurar respostas junto a pessoas mais sábias do que eu.
Está bem Virna concordou. Mas quem?, indagou a si mesma no longo caminho de volta ao lar, através da floresta.
Os antigos deuses não mais apareciam para ela. Anos se haviam passado desde que o velho templo na clareira parecera a seus olhos a legendária "Cidadela de Vidro". Agora, só conseguia enxergá-lo como um prédio em ruínas, destituído pelos novos tempos de toda a sua grandeza e misticismo.
Por fim, chegou ao lago sagrado. Caminhou por sobre pedras até atingir-lhe o centro. O céu, que ainda conservava o frescor da madrugada, refletia nas águas a sua tonalidade tímida de azul.
Virna ergueu as mãos. Como ocorria sempre que reproduzia o gesto ancestral, pequenas ondas e redemoinhos agitaram-se na superfície. De súbito, porém, todo o movimento cessou. Era uma pena não haver mais ninguém capaz de decifrar aqueles sinais. No passado, todas as princesas de Leam sabiam interpretar tais presságios. Virna contudo, não sabia.
Herdara poucos e insignificantes poderes, como o de invocar os elementos, o de, às vezes, e sempre involuntariamente, "ouvir" os pensamentos das pessoas, o da invisibilidade, o de lançar alguns feitiços aos animais e, de todos o mais importante para sua sobrevivência, o dom de localizar água em terras secas. O grande dom da visão, este ela perdera. A cadeia de conhecimentos se rompera com a chegada dos monges.
E agora, para aumentar sua aflição, havia a inédita catástrofe de não chover nenhuma vez entre Beltane e Lughnasa. Os três meses mais férteis da estação do crescimento transcorriam sem nem sequer uma gota de chuva para abastecer os rios.
E essa catástrofe despertara no povo de Leam lembranças havia muito esquecidas. Todos recordavam os antigos rituais de sacrifício que salvaram a vida de seus antepassados.
Bem como Virna, Venn e Wren, cada leamuriano sabia que, se não chovesse até o dia primeiro de agosto, a única coisa que poderia poupá-los da morte por inanição seria o sacrifício do príncipe herdeiro de Leam. A festa das primeiras frutas, Lughnasa, constituía a última oportunidade de recuperarem os favores dos deuses.
Se ignorassem as sombrias previsões de Tegwin, a população corria o risco de ser varrida da face da Terra em menos de uma geração.
Venn era o príncipe herdeiro de Leam. Portanto somente ele poderia dar fim à calamitosa seca. Para garantir a sobrevivência de seu povo, teria de oferecer seu corpo e seu sangue em sacrifício.
Sua única possibilidade de escapar seria a chuva. Se chovesse abundantemente ao longo do mês de julho, o menino seria poupado de morte tão prematura.
Em decorrência, Virna via-se num impasse, enfrentando uma terrível crise de fé. Como acreditar que os deuses exigiam a vida de seu irmão como condição para não matá-los de fome? Não. Não podia aceitar como verdadeiro o poder de Tegwin, o último dos druidas, arrogava a si mesmo. O sacrifício de Venn resultaria inútil, pois com certeza a seca continuaria... sem nenhuma intervenção divina.
Agora, porém, havia um novo deus, Cristo, em quem até o rei Alfred tinha fé. Ela admitia que uma parte de seu ser desejava conhecê-lo, ardendo de curiosidade e anseio. Contudo, era inadmissível adotar uma nova crença sob a ameaça de uma espada, por imposição do rei Guthrum.
Todas essas questões a afligiam demais. Precisava aconselhar-se com alguém mais sábio, que pudesse esclarecer-lhe todas as dúvidas que a assaltavam sem comiseração.
Mas sua solidão era absoluta. Se buscava respostas, devia procurá-las no interior de seu coração, ou, talvez... no lago.
Virna recitou palavras de conjuração, rogando à Senhora do Lago que lhe mostrasse o caminho que devia seguir. Com gestos lentos, retirou a gargantilha. Orações sem oferendas eram abomináveis para os deuses.
Senhora, eu lhe suplico que me dê um sinal. Mostre-me o que fazer para salvar a vida de meu irmão. Sei que devo fidelidade às nossas crenças, mas confesso que já nem sei no que acredito. Perdoe-me, eu lhe rogo, se demonstro fraqueza ou egoísmo. Não quero que meu povo pereça, mas não suporto a idéia de ver meu pequeno Venn morrer. Ajude-me, Senhora do Lago, envie-me um sinal!
Calou-se e estendeu o colar sobre o lago. Repentinamente, as águas tornaram-se a agitar-se, agora de modo mais intenso. Alguma coisa ergueu-se diante dela, lançando as gotas prateadas sobre suas pernas, arrancou-lhe a jóia das mãos e desapareceu nas profundezas do lago.
Era o sinal que pedira!
Sua oferenda fora aceita, a Senhora do Lago atendera aos seus rogos!
Contudo, outro vulto igualmente sombrio pulou sobre a água, e mais outro, e outro ainda...
Eram peixes, nada mais.
A sacerdotisa de Leam invocara sua Senhora, mas somente os peixes atenderam ao chamado.
