Capítulo Cinco
O celeiro foi o primeiro lugar visitado por Edon em sua inspeção na companhia de Embla Garganta de Prata, naquela manhã. Ficou satisfeito com o que encontrou, um estoque de provisões eficientemente armazenadas. As sementes para o próximo plantio estavam bem guardadas e os víveres não corriam risco de perecimento. Edon considerava-se exigente quanto a esses detalhes e tinha por hábito guardar bem mais do que o necessário. O melhor de tudo era que o celeiro mostrava-se limpo e sem vestígios de ratos.
O poço no centro do pátio, todavia, estava mal-cheiroso como todos os demais. Os criados tinham de sair da fortaleza para buscar água no rio Avon. E o próprio rio secara tanto que até o fosso que circundava a fortificação estava ressequido.
A ausência de água no fosso, para apagar o fogo em caso de ataque inimigo, tornava a paliçada de madeira construída por Embla ainda mais ridícula, principalmente por haver tantas pedras disponíveis ao redor. Edon espantava-se com a falta de inteligência da sobrinha. A moça, em sua sofreguidão por conseguir mais e mais terras cultiváveis, permitia que seus homens contassem as árvores e fizessem queimadas, destruindo a floresta, quando o solo se mostrava perigosamente crestado em conseqüência da seca!
O segundo item de sua agenda era proibir o desflorestamento. Ele já havia proscrito o uso de fogo, exceto, claro, na cozinha do castelo, nos fogões das habitações comunais e na forja do mestre ferreiro.
A despensa não lhe pareceu tão fria quanto seria desejável. Para um viquingue, "frio" significava "gelado", e, quanto a esse aspecto, Edon era um fiel representante de seu povo. O compartimento situava-se na parte mais baixa de um declive. O riacho que corria por ali também estava seco.
A vala entalhada nas pedras do chão, por onde normalmente fluía a água fresca de um córrego, entupira-se com uma grossa camada de musgo. Sem hesitação, Edon arrancou-a fora com a faca. A recompensa por esse esforço, porém, limitou-se a esparsas gotas de água.
Desapontado, ele se levantou e olhou em torno. Em suas lembranças, a despensa não era tão grande. Dez anos era tempo demais para recordar detalhes.
Estranho... riachos desse tipo raramente secam por completo observou em tom casual.
Aye Embla concordou a contragosto. 0s poços de Warwick só tem veneno e poeira, graças àquela bruxa.
"Já vai começar a cantilena", Edon pensou com seus botões. Sem retrucar, continuou a examinar as instalações do compartimento escavado na pedra. Havia uma certa umidade no ar, não muita, o que era vital para a preservação de carnes e vegetais.
Você ampliou a despensa, sobrinha?
Embla surpreendeu-se com a pergunta.
Não, está do jeito como a deixou. Não vi necessidade de fazer nenhum melhoramento.
Muito obrigado Edon replicou.
Ele próprio construíra a edícula dez antes, quando escolhera Warwick como seu lar. Era curioso. O curso dos rios podia alterar-se, mas, como aprendera com a experiência, isso dificilmente ocorria com as águas de leitos rochosos.
Agora gostaria de visitar a pedreira ele declarou.
No caminho para a pedreira de onde extraíam granito, encontraram os soldados de Embla em sua patrulha diária. Edon comentou o desaparecimento de seu sobrinho com Asgart, o capitão. Quando este replicou, referiu-se a Harald no pretérito perfeito, e o tempo verbal chamou-lhe a atenção.
Naturalmente, Guthrum lhe revelara sua opinião sobre o que acontecera ao rapaz. Edon não queria acusar lady Embla de ter assassinado o marido, ao menos, não sem provas. E a primeira prova seria encontrar o corpo. Por esse motivo, planejava investigar o caso minuciosamente.
A verdade apareceria, não importava o que custasse.
Edon passou o restante da manhã na pedreira, fazendo anotações cuidadosas sobre o relatório que Maynard, o Negro, preparara. Embla recusou-se desdenhosamente a conversar com Maynard, a despeito da confiança que o vice-rei depositava nele. Embla considerava todos os mercianos úteis apenas para o trabalho braçal e, em decorrência, não era digno de lhe dirigir a palavra. Edon ficou feliz quando a sobrinha encaminhou-se para outra parte da pedreira.
Você percebeu algum indício de que o trabalho aqui na pedreira afetou o riacho sob o despenhadeiro?
Nenhum, meu senhor Maynard respondeu em tom sombrio. Era um homem soturno, que vagava entre o mundo real e os maus presságios.
E o que você acha de três poços e dois riachos nas colinas de Warwick secarem como pão velho?
Maynard sacudiu a cabeça.
É esse maldito tempo. Não chove desde primeiro de maio. Todos os rios desde Anglia até aqui estão abaixo do nível normal. Abaixo do nível, mas não secos, milorde.
E quanto ao Leam? Edon curvou-se sobre uma pedra e esquadrinhou a paisagem árida. Na floresta ao longe, o sol derramava seus raios sobre a cornucópia de árvores. O leito fluvial que se estendia para o leste, rumo a Willoughby, era margeado por uma faixa de árvores agonizantes.
Se eu tivesse que apostar Maynard retrucou com cautela , meu palpite seria que alguém o enfeitiçou ou desviou do curso natural. Um rio desse porte não seca assim só por falta de chuva. Mas, se cair um bom aguaceiro, quem sabe tudo volte ao normal?
Acha mesmo que é necessário chover para que haja água nos rios? Se assim fosse, seria preciso um dilúvio para abastecer os mares.
Tem razão, senhor. Mas, no caso do Leam, talvez uma chuva abençoada pelos deuses pudesse resolver o problema. No passado, os druidas sempre davam um jeito em situações como esta.
É, talvez fosse uma boa idéia chamar um deles. Verei com os mercianos. Agora, vamos até o topo do desfiladeiro para termos uma visão ampla do vale. Talvez possamos traçar o curso das águas desde o alto da montanha.
O ideal seria que nos transformássemos em águias Maynard comentou sem sorrir. Contudo, Edon sabia que aquela era a expressão máxima de humor de que ele era capaz.
Quando terminaram a inspeção do vale de Warwick, Edon deixou-o entregue a seu trabalho de mapeamento e passeou pela pedreira. Deteve-se ao encontrar Embla, que observava a labuta dos operários lá embaixo do despenhadeiro.
Enormes lajes de granito eram retiradas do fundo da cratera, para serem cinzeladas em blocos de um quarto de tonelada, suficientes para construir a muralha da fortaleza de Edon.
Não creio ter visto os alojamentos desses homens Edon observou. Parecia-lhe cômico considerar como sobrinha uma mulher no mínimo cinco mais velha do que ele. Ficam perto daqui?
Meu senhor parece atribuir-lhes a importância dos escultores Embla retrucou, fitando-o com surpresa. Esses operários não são os talentosos artesãos que o senhor contratou. São apenas escravos que obtivemos com a conquista da terra.
Nesse caso, deixe-me reformular a pergunta. Onde dormem os escravos?
Lá. Embla apontou para uma caverna escavada na rocha.
Edon espantou-se. A tal caverna, na verdade pouco mais que um buraco na pedra, não tinha condições de protegê-los contra a fúria dos elementos.
Como mercadorias, os escravos eram tão importantes quanto o gado, e deviam ser igualmente bem alimentados e cuidados. Era óbvio que Embla não partilhava a mesma opinião. Nem naquele nem em vários outros temas. Os escravos dela labutavam incessantemente sob o estalido do chicote. A julgar por seus corpos esquálidos, sua comida mal bastava para garantir-lhes a sobrevivência.
Entendo Edon respondeu. Então, você dispõe de outro contingente de escravos para trabalhar nos campos?
Não, senhor. Esse é um direito dos nossos homens livres. Espero que o longo tempo que milorde passou no oriente não o tenha feito esquecer os costumes do nosso lado do mundo.
Claro que não, estou apenas curioso sobre as mudanças que ocorreram aqui. Eu não me lembro de ter lido sobre escravos no último relatório de Harald Jorgensson, e não estou familiarizado com os valores estabelecidos por Guthrum para indenizar as famílias dos homens escravizados.
Embla ignorou a censura implícita naquelas palavras. Sentia-se tranqüila, pois deixara de prontidão o escriba encarregado das contas, a fim de prestar esclarecimentos a qualquer momento, se o vice-rei assim ordenasse. Ela era capaz de explicar cada marco de ouro que entrara ou saíra muito melhor que o marido teria feito. O idiota teria dado um décimo de tudo como dízimo!
Graças ao seu trabalho e empenho, o proprietário ausente por dez anos, Edon Halfdansson, auferira um lucro invejável. Lucro que, por direito, lhe pertencia.
Milorde talvez demore um pouco para compreender o wergild, o sistema de indenizações instituídos pelos dois reis. Embla argumentou, inabalável. A verdade é que essa lei produz poucos efeitos nesta fronteira, porque a Watling Street é interrompida por uma maldita e mal-assombrada floresta! O rei Guthrum pensa que sua estrada é uma espécie de avenida que liga Londres a Chester, mas, no norte de Warwick, ela simplesmente desaparece. Quanto aos mercianos, eles que fiquem longe do meu caminho, ou me pagarão caro por invadir a nossa propriedade.
Esses homens Edon apontou para a cratera são mercianos pagando caro a você?
Aye. É uma pena que sejam tão fracos que acabam morrendo logo. Mas são substituídos com facilidade, pois se reproduzem como coelhos e sua estupidez compara-se à dos jumentos. Minhas patrulhas capturam bandos e bandos sem o menor problema.
Ah... diga-me, cara sobrinha, o que vocês fazem com as mulheres estúpidas como jumentos que andam pela Watling Street?
Embla respondeu sua perturbadora pergunta sem pestanejar.
Existe trabalho de sobra nas cozinhas, nos teares... com certeza lorde Edon não ignora que não faltam tarefas para uma mulher desempenhar. Além disso, é de bom alvitre permitir que meus cavaleiros façam livre uso das mercianas capturadas. Este expediente as mantém sob maior controle, e não ouvi reclamação alguma por parte dos soldados quanto ao desempenho delas na cama.
Imagino que não ele murmurou. Não pude deixar de observar que não vi nenhuma fazenda merciana quando cruzei o condado. Havia tantas quando parti, há dez anos. Tive de pagar taxas altas para atravessar a colina de Warwick. As propriedades dinamarquesas eram a minoria, naquela época.
Atualmente, somente os dinamarqueses podem ser proprietários de terras, conforme a legislação de Danelaw, milorde.
O vice-rei concluiu que não seria sensato discutir as leis de Guthrum com a esposa de seu sobrinho, pois suas interpretações jamais coincidiriam.
Sugiro deixarmos as questões jurídicas de lado por hoje. Não me será possível mudar coisa alguma antes da vistoria que farei amanhã nas minas de estanho e de prata.
Edon encontrou Rig ao descer a pedreira. O semblante de seu general mostrava-se tenso e irado, com a proeminente mandíbula ainda mais rígida. Edon desmontou e entregou as rédeas de Titan a seu escudeiro.
O que houve? Não me esconda nada.
O vilarejo de Wootton está em chamas Rig comunicou em tom abafado. Um outro tipo de fogo ardia em seus olhos azuis normalmente frios.
Como?! Edon alarmou-se. Virna estava em Wootton... na cabana de Wren.
Eu fui buscar o príncipe conforme mandou, milorde. O general girou sobre os calcanhares e apontou um grupo de quatro viquingues que, apoiados sobre os machados na porta da ferraria, fitavam-nos com expressão amedrontada. Descobri que aqueles homens foram a Wootton para derrubar árvores, contrariando as suas ordens.
O que aconteceu com a matriarca, Wren? Edon indagou, sentindo um arrepio gelado na espinha. E se Virna tivesse morrido no incêndio?
Asgart afirma que os aldeões fugiram para a floresta. Nenhum deles foi capturado, nem a velha.
A notícia aliviou um pouco as apreensões do vice-rei. Então, Rig endireitou os ombros e terminou o relato:
A cabana onde milorde deixou a princesa de Leam estava vazia quando cheguei a Wootton para verificar os prejuízos do incêndio. Não há evidências de que alguém morasse naquela casa, senhor.
O quê...? Edon murmurou, confuso.
Eu achei, entre as cinzas, um baú contendo roupas e jóias da princesa. Estava intacto, então eu o trouxe comigo. Mas foi só o que encontrei. Não havia sinais de mobília, nem panelas, enfim, nenhum vestígio de que a cabana um dia foi habitada. A princesa de Leam não mora no vilarejo de Wootton, milorde.
Ora! Edon grunhiu, entrando no abrigo do ferreiro. A idéia de que Virna o ludibriara provocava-lhe uma profunda ira. Contudo, havia o problema do incêndio e dos desobedientes viquingues para resolver. A princesa sem dúvida não perderia por esperar.
Aqueles homens haviam chegado recentemente a Warwick. Eram refugiados da Lombardia, vagabundos dinamarqueses que perambulavam de província em província através do continente. Edon examinou-os detidamente até escolher um, o mais velho, como líder.
Não ouviram minhas ordens esta manhã, viquingue?
Aye, milorde, ouvimos, sim. O homem mal se mantinha sobre as pernas arqueadas, exaurido pela fome. Sou conhecido como Archam, o Torto. Fui eu o responsável pelo fogo, meus filhos nada têm a ver com isso.
E por que não as cumpriram?
Os quatro trocaram olhares entre si.
Nossa propriedade começa na floresta de Wootton o mais jovem explicou. Pai, conte a verdade ao vice-rei, ou teremos de dizer adeus às nossas cabeças.
Cale a boca, Ranulf um dos irmãos o repreendeu.
São seus filhos, viquingue? Edon tornou a dirigir-se a Archam, que balançou a cabeça grisalha em aquiescência. Edon não saberia calcular-lhe a idade; tinha o rosto e o pescoço vincados por rugas e tisnados de sol. Além disso, era assustadoramente esquálido.
Meus filhos, sim, senhor. Antes eu tinha dez, todos altos e fortes como milorde. Agora, só me restaram esses.
Então, por que arriscou-lhes a vida e me desobedeceu? Edon questionou. Como não recebesse resposta alguma, voltou-se para Rig e ordenou: Leve o mais velho dos filhos para a muralha e degole-o.
Os quatro pareceram levar um susto quando Rig e seus soldados entraram imediatamente para escutar a sentença do vice-rei.
Milorde o mais novo protestou, lutando para proteger o irmão. Nós fomos obrigados a queimar o vilarejo. Asgart nos coagiu a limpar toda a área para começarmos o plantio ainda hoje. Caso contrário, ele nos ameaçou...
Aye o pai interrompeu-o, rompendo com desespero o prudente silêncio que impusera a si mesmo. Nós temos de plantar agora ou não haverá um só grão em nossa despensa no inverno. O verão já passou da metade.
Quando vocês chegaram a Warwick?
Na última lua cheia, milorde respondeu o caçula. Nós acabamos de receber nosso pedaço de terra.
A julgar por sua aparência, um mês antes eles não teriam condições físicas nem sequer de segurar a enxada.
Quantos vocês são ao todo, contando mulheres, crianças e escravos? Edon inquiriu.
Só nos quatro sobrevivemos à longa jornada até aqui, milorde disse o pai.
Quem deu a vocês o lote de terra e autorização para fazer queimadas?
Asgart de Wolverton levou a gente até lá e disse que poderíamos cultivar desde o topo da montanha até o primeiro riacho atrás da vila. Ele garantiu que era o último pedaço de chão. Ah, e também ordenou queimar todos os casebres pelo caminho, habitados apenas por posseiros.
A gente não queria incendiar a aldeia, lorde Edon o filho mais velho finalmente defendeu-se. O capitão Asgart mandou meu pai tocar fogo nas casas ou então ir procurar terras no norte, em York.
Edon não se surpreendeu com a explicação. Virou-se para Rig e determinou:
Mande Thorulf buscar Asgart. Preciso ter uma conversa com ele.
Aqueles pobres homens haviam sido usados e eram tão vítimas quanto os escravos mercianos que vira na pedreira. Não era com eles que devia lutar. Mesmo assim, haviam iniciado o incêndio que destruíra toda um aldeia, e alguém teria de pagar pelo crime. Edon lançou um olhar a cada um dos viquingues e procedeu a um julgamento sumário ali mesmo.
Mestre Maynard vistoriou o condado e, sob o meu comando, dividiu-o em glebas. Existe terra boa e própria para o cultivo a leste da pedreira. Três de vocês poderão começar a trabalhar amanhã de manhã. Quanto a você, Ranulf, terá de pagar a indenização pelo vilarejo de Wootton. Como não dispõe de recursos, prestará serviço durante dois meses ao meu general Rig. Dê o machado para o seu pai. Você não precisará de armas até voltar para a casa dele, depois de cumprida a pena.
Edon, então, voltou-se para Archam, o Torto, e perguntou:
Vocês têm alojamento?
Nay, a gente dorme debaixo das estrelas. Vamos construir um casebre assim que tivermos uma gleba.
Rig, leve-os até Maynard. Archam, o mestre Maynard lhe mostrará o seu pedaço de terra e lhe dará sementes para o plantio. Não se atreva a derrubar nem sequer uma árvore, a não ser para extrair madeira para construir sua casa. Quanto às queimadas, não se esqueça de que estão terminantemente proibidas. Fui claro?
A gratidão não constituía uma virtude comum entre seu povo, mas a daqueles homens era inequívoca. Archam e seus filhos eram diferentes dos viquingues aventureiros que abandonavam sua terra em busca de fortuna, como fizeram os que seguiram Ragnar Lodbok, avô de Edon, quarenta anos antes. Ao contrário, haviam trabalhado como agricultores a vida inteira. Se eclodisse uma guerra, eles só pegariam em armas para defender sua propriedade... jamais para lutar como soldados profissionais.
Foi pensando nisso que Edon decidiu tomar Ranulf para seu serviço, a fim de que Rig o treinasse nas artes marciais. Instintivamente, sabia que era Asgart o verdadeiro desafio para sua autoridade.
E já era tempo do vice-rei de Warwick impor essa autoridade. Com um suspiro, Edon dispensou os homens e retornou ao castelo, onde convocou Theo, instruindo para que trouxesse sua tigela de vinho.
Eu quero saber quando choverá e onde posso encontrar a princesa de Leam. Não perca meu tempo com desnecessárias comunicações com espíritos brincalhões.
Com a ponta dos dedos, Theo começou a contornar a borda da tigela de ouro, produzindo um som agudo e melodioso. Seus olhos vítreos e esbranquiçados esgazearam-se, como se contemplassem alguma coisa muito distante. De súbito, o vidente cessou o movimento e mergulhou dois dedos na bebida agora borbulhante.
A sua princesa se encontra no abrigo de caça junto ao carvalho do rei Offa, perto da margem do rio. Há quatro pessoas ali. A mais velha é a sua dama, Virna. Eu a vejo claramente. Está agitada, andando de um lado para outro, prestes a iniciar uma viagem. Não consigo visualizar para onde. Ela sacrificou sua gargantilha e suas irmãs ficaram muito aborrecidas. Ah, entendi, Virna ap Griffin partirá para a abadia de Loytcoyt.
E o príncipe herdeiro? Edon indagou.
Theo sacudiu a cabeça.
Não o vejo. Como também não vejo chuva. Não por um bom tempo.
Edon conteve-se para não desferir um murro sobre a mesa. Então, Virna pretendia ir para a abadia de Loytcoyt. Com que intenção? Colocar-se sob a proteção da igreja de Alfred, santuário das freiras? Que bem isso lhe faria? Na verdade, pouco lhe importava arrancá-la de uma igreja cristã ou de suas crenças pagãs, desde que conseguisse desposá-la.
Tem certeza de que ela irá para a abadia?
Aye Theo assentiu. Então, franziu a testa. Contudo...
O que foi? Diga de uma vez, homem!
O rei Alfred está vindo para tratar do casamento dela.
Então, o rei de Wessex vem para Warwick? Por que Guthrum não vem também?
Os dois testemunharão a cerimônia, lorde Edon. Theo agarrou o vaso com ambas as mãos e sorveu o vinho de um só gole, até a última gota, dando a consulta por encerrada.
Lady Eloya, que havia permanecido imóvel e em silêncio, levantou-se do banco na outra extremidade da mesa e postou-se atrás da cadeira de Edon, pousando as mãos em seus ombros.
Lorde Edon, se pudesse ver o seu rosto agora, ficaria horrorizado com a expressão de fúria em seu semblante. Tenho pena da princesa, quando você a encontrar.
Enquanto as mãos de lady Eloya lhe relaxavam os músculos enrijecidos na base da nuca, Edon esforçava-se para estancar o fluxo de bílis que lhe queimava o estômago. Ele conhecia a abadia de Loytcoyt, construída no campo da mais sangrenta batalha que já presenciara em toda a sua vida. Os corpos de centenas de celtas haviam constituído o "cascalho" das fundações do prédio. Os ossos pertenciam aos pagãos que se haviam recusado a aceitar a nova religião. Pagãos como ele próprio ainda era.
Periodicamente, essa nova igreja que pregava a paz e o amor entre os homens incitava seus fiéis à ira e às guerras sagradas, levando-os a matar cruelmente todos os que não a professassem. Edon escapara de Loytcoyt com vida, mas, entre os mercianos da floresta de Arden, poucos tiveram a mesma sorte.
Em suas viagens pelo exterior, na companhia de pessoas como Eli, Theo e Rashid, encontrara uma filosofia própria, reforçada por sua profunda crença na idéia de que o espírito sobrevivia à morte da carne. Ao contrário de seu irmão Guthrum, não se sentia pronto para substituir os deuses de sua infância, Odin, Freya, Thor e Loki, por um deus único. Mas suas viagens também o fizeram ver que as caprichosas divindades viquingues não constituíam o Ser Supremo. E ele era prático o bastante para manter a mente aberta, especialmente quando também estavam em jogo questões políticas.
Agradecido, deu um tapinha afetuoso numa das mãos de Eloya.
Muito obrigado, querida, por aliviar minha tensão. Agora, porém, tenho deveres a cumprir, Rashid, foi bom você chegar. Creio que precisaremos em breve de seu auxílio na vigilância.
Edon? Eloya manteve as mãos sobre os ombros dele. Não vá em busca da princesa como quem vai caçar uma lebre. Dê-lhe tempo para aceitar seu destino. Ela aprenderá a amá-lo, como todos nós aprendemos, cada um a seu modo.
Eloya Edon retrucou com impaciência sei bem o que devo fazer. Não me trate como se fosse um garotinho sem modos. Edon ergueu-se e apanhou as armas de sobre o aparador, onde jaziam, brilhantes depois que Eli as poliu. Levarei Sarina comigo.
Acha mesmo sensato? Eloya insistiu com gentileza.
Eloya... Edon repetiu-lhe o nome em tom de repreensão.
Em resposta, ela lançou-lhe um olhar gelado antes de se virar para o marido, como se lhe pedisse ajuda.
Meu caro Edon também se voltou na direção dele , já é hora de você dar um jeito em sua esposa. Ela interfere demais nos assuntos que não lhe dizem respeito.
Rashid, que remexia em seu cesto de remédios e ungüentos, fitou a esposa com ar de reprovação.
Sem se dar por vencida, Eloya sacudiu os ombros com petulância.
A princesa não lhe agradecerá por caçá-la como se fosse um animal selvagem. Além disso, estou certa de que preferirá que ela goste de Sarina, no futuro, ao invés de odiá-la.
Dito isso, apanhou a cesta de linhas e agulhas para costurar um camisolão para o bebê recém-nascido e, afetando indiferença, foi sentar-se ao lado de Rebeca, na outra extremidade do salão. Contudo, quando os homens se preparavam para sair, advertiu-os com atrevimento:
O jantar será servido no horário de sempre, milordes. Não se atrasem.
