Capítulo Seis
Edon não saiu à procura de Virna ap Griffin.
Tinha muito o que fazer para colocar Warwick no rumo da civilidade e do progresso, providências que deviam ser tomadas sem demora, a fim de pôr ordem em seus domínios.
Uma das primeiras medidas foi restabelecer a guarda, substituindo os homens de Embla Garganta de Prata pelos seus. O primeiro viquingue que esboçou resistência, Asgart, pagou pela insubordinação com a vida.
Contudo, esse ato de rebeldia não constituiu o único motivo que o levou a executar o capitão. Edon não esquecera o incêndio de Wootton, que Asgart justificou como o meio mais eficaz de tirar o príncipe herdeiro e a princesa de Leam de seu esconderijo. A divergência foi resolvida na ponta da espada, num duelo sangrento que só terminou com a morte do homem de confiança de Embla. Antes desse desenlace, porém, Edon concedeu uma chance de redimir-se.
Onde está o corpo de Harald Jorgensson? Diga-me onde enterraram seus ossos e eu pouparei a sua vida.
Ele ainda não está morto, vice-rei, mas você está Asgart ripostou, desviando-se de um golpe e tocando-lhe o peito com a extremidade da lâmina.
Edon, porém, curvara o corpo para trás no último segundo, evitando que o adversário o ferisse. Ato contínuo, decepou-lhe a cabeça sem nenhuma contemplação.
Os cavaleiros de Asgart, fitaram-no com respeito quando Edon virou as costas e afastou-se na direção da sala de banho. Depois de se reunirem em conferência, procuraram o vice-rei e comunicaram sua decisão.
Lorde Edon. O porta-voz deu um passo à frente e estendeu-lhe a espada. Sou Carl Barba Vermelha, de York. O vice-rei Harald esteve lá o ano passado, antes do Lammas, o senhor sabe, a festa da colheita, celebrada em primeiro de agosto, prometendo terras a todos os dinamarqueses dispostos a atravessar a fronteira. Seu sobrinho era um bom homem. Pena que houvesse desaparecido quando chegamos com nossas esposas e filhos. Infelizmente, não fazemos a menor idéia sobre seu paradeiro. Milorde, nós somos excelentes guerreiros, leais ao rei Guthrum, mas não lutamos sem uma boa causa.
Edon estudou-o durante alguns segundos e, por fim, aceitou a espada. Carl ajoelhou-se sobre uma perna.
Jura que jamais pegarão em armas contra mim ou os meus, Carl de York? inquiriu, tocando-lhe o ombro com a lâmina.
Aye. Pelo sangue dos meus três filhos, juro total fidelidade ao vice-rei de Warwick.
Levante-se, Carl de York. A partir de agora, seu comandante é o meu capitão Thorulf. Warwick está em paz e assim deverá permanecer, a menos que o rei Guthrum decida o contrário. Agora, vão cuidar de suas vidas e não se esqueçam de procurar Thorulf amanhã de manhã.
Com essas palavras, Edon retirou-se para a ceia.
O sol já se punha quando Embla regressou de uma ronda pelos campos mais distantes. Com estranheza, reparou que a guarda que montava sentinela na muralha fora substituída. Um novo capitão saudou-a e o escravo que recolheu seu cavalo lhe era totalmente desconhecido. O pior, porém, ainda estava por vir.
O corpo acéfalo de Asgart jazia num esquife, no meio do pátio. A cabeça repousava sobre o escudo, os olhos esgazeados fitando o nada, refletindo seu espanto e incredulidade diante da morte.
Chocada com a cena macabra, ela entrou no salão de Edon cuspindo fogo.
Como ousa?!! vociferou. Com que direito você tirou os meus guardas do portão e ainda matou o meu capitão?! Como se atreve?
Em sua fúria, Embla chegou a desembainhar a espada antes que Rig pulasse de sua cadeira à mesa de Edon e a desarmasse com um único golpe em seu punho.
Senhora, dobre a língua ao se dirigir ao vice-rei de Warwick ele comandou em voz baixa e peremptória.
Você pagará por isto, Rig de Sunderland ela sibilou. Seu veneno, porém, destinava-se a Edon. Venha, seu miserável covarde, eu lutarei com você por estas terras que Guthrum me prometeu. Eu lhe mostrarei qual de nós é mais forte.
Edon, que não parara de comer, deixou cair no prato um osso de galinha, num gesto displicente.
Solte-a, Rig. Milady ficou nervosa e fez ameaças vazias. Contudo, creio que já recuperou o bom senso. Estou certo, sobrinha de Guthrum de Danelaw?
Não tenho medo de você Embla gritou. Nem reconheço seu poder sobre este condado. Ouçam, todos, eu sofri um ultraje. Meu capitão, Asgart, era um bom homem, leal e honesto, que valia por dez soldados. Você o assassinou, Edon de Warwick, e deve pagar-me a devida indenização.
Ah, que interessante! De repente, detalhes supérfluos como wergild passaram a ter valor para você, Embla Garganta de Prata? Edon limpou a ponta dos dedos num guardanapo de linho embebido em água aromatizada com ervas. Então, levantou-se e esperou que seu criado pessoal, Eli, lhe estendesse o escudo e a espada. Todavia, antes de embainhá-la, sopesou a arma e lançou um olhar gelado à parenta. Que valor você estipula para um escravo merciano?
Escravos mercianos não têm valor algum, são como a poeira das estradas! Sob as nossas leis, deve-se indenização somente pelos homens livres.
Ora, muito bem. De acordo com as nossas leis, quanto vale um homem livre? ele indagou, por fim colocando a espada na bainha.
Embla retorceu os lábios, fitando-o com desagrado. Tinha de admitir que o homem irradiava poder em cada músculo de seu tórax. Contudo, via no rosto moreno e feroz apenas a selvageria dos irlandeses, que herdara da mãe. Seria capaz de jurar que, por dentro, ele não passava de um fraco, um pacifista, um homem de palavras, não de ações. Edon devia considerá-la uma mulher estúpida, mas aprenderia uma inesperada lição. Por ora, faria o seu jogo e lhe daria corda.
Um homem livre é avaliado em cinco marcos se for arrendatário de terra, dez marcos se for um artesão competente, principalmente ferreiro. Quinze marcos se servir como guerreiro, vinte se for viquingue e tiver barco.
Pois, então... Edon mirou-a com ar de curiosidade. Eu recebi um pedido de indenização por vinte homens livres declarou, sem tirar os olhos de cima dela. Acontece que eu de fato vi esses homens trabalhando como escravos na minha pedreira. Assim, libertei-os esta tarde. Libertei também suas mulheres e crianças. Para resumir, não há mais nenhum escravo em Warwick. Nenhum.
Você não pode fazer isto! Embla gritou.
Já fiz Edon replicou sem alterar o tom. Enquanto nós conversamos aqui, as mulheres estão encontrando os maridos no salão inferior. Importa-se de ir até lá embaixo comigo, Embla Garganta de Prata, para ouvir os depoimentos dos ex-escravos? Nesse instante, eles estão contanto aos meus escribas por que motivo, já que não cometeram crime algum, foram punidos com a perda de seus lares, a escravidão de suas esposas e o assassinato de seus filhos.
Em minha pedreira só há malfeitores mercianos Embla ripostou com exasperação.
Edon enrijeceu a mandíbula ao fixar o olhar novamente na sobrinha. Ela ainda não compreendera. Talvez mais tarde compreendesse.
Você é uma tola proferiu com simplicidade, como se declarasse um fato corriqueiro. Nós estamos na Mércia, sua idiota! A Watling Street fica a cinco léguas de Warwick! Foi você que cruzou os limites da lei e irritou os reis, mas eu é que terei de pagar o preço sangrento da sua estupidez. Suma daqui, antes que eu perca a paciência de vez e corte a sua bela garganta de prata.
Embla engoliu em seco, mas retribuiu-lhe o olhar feroz.
A quem você terá de pagar o wergild, lorde Edon? Não restou um único proprietário de terras em Leam para reclamar indenização. Estão todos mortos.
Com um sarcasmo letal, Edon respondeu:
É verdade. Você, muito sabiamente, eliminou todos os seus inimigos, exceto um: o herdeiro de Leam, príncipe Venn ap Griffin, tutelado do rei Alfred de Wessex.
Não é verdade! ela sacudiu a cabeça com veemência. O garoto também está morto. Foi sacrificado pelo druida Tegwin. No dia primeiro de maio, quando acenderam aquelas malditas fogueiras no alto da montanha, os druidas ofereceram seu sangue aos deuses, para que chovesse.
E choveu?
Nem sequer uma gota, já faz um ano Embla retrucou em tom de desespero. Pagara ao druida uma boa quantia em ouro para matar o menino. Agora, o vice-rei insinuava que o trabalho não fora feito. Estaria cercada de traidores? Edon era viquingue, mas não agia com tal. Por que demônios ele se preocupava tanto com aqueles desprezíveis mercianos?
Então, parece evidente, não é? o vice-rei voltou à carga. O príncipe não foi sacrificado. Que Odin me ajude, mas você é tão burra que nem se deu conta do óbvio. A indenização será paga, mas tome cuidado, cara sobrinha, pois estou inclinado a debitá-la da sua fortuna pessoal. Agora, trate de manter confinamento em seus aposentos... e não se intrometa nos meus negócios nunca mais.
Do despenhadeiro sobre a pedreira, Edon avistou o lago escondido no coração da floresta, o que só era possível, e por alguns breves momentos, quando o sol atingia o meio do céu. O brilho das águas sob os raios solares representava uma espécie de ponte que o aproximava de Virna ap Griffin.
Seu coração torturava-se com a incerteza sobre o que acontecera a ela. Teria escapado do incêndio? Estaria ferida? No momento, sua única esperança de encontrar respostas era o lago.
E lá estava ele, cintilando ao longe, rodeado por carvalhos ancestrais que formavam um círculo perfeito.
Contudo, nenhum escravo, ou, mais especificamente, nenhum escravo de Embla, admitiria seu significado ou importância. Na verdade, negavam sua existência.
Edon sabia que era mentira. Dez anos antes, perambulara por aquelas florestas e encontrara o lago e uma miríade de lagoas, alimentadas pelo riacho. Lembrava-se de uma cabana de caça na margem, bem como de um misterioso templo de estonteante beleza.
Só se preocupara em pescar e nadar em suas águas frias. Na época tinha apenas dezenove anos e de bom grado trocaria um reino pela companhia de uma linda mulher. Teria sido maravilhoso passar o dia inteiro fazendo amor com ela naquele cenário idílico.
Recordava também que a floresta de Arden era luxuriante. Flores silvestres por toda a parte, as árvores eram tão frondosas que, em diversos trechos, chegavam a impedir a entrada da luz do sol. Mas as trilhas eram boas, fáceis de percorrer.
Imerso em reminiscências do passado, Edon desceu a montanha de Warwick e entrou no bosque. Com cautelosa determinação, iniciou a caminhada por entre as árvores. Para seu desapontamento, contudo, passou a maior parte da tarde implacavelmente quente vagando em círculos, sem conseguir encontrar o caminho.
A floresta de Arden já não era o paraíso dos caçadores. Mais se assemelhava a um lúgubre, imenso e insepulto cadáver. Maus presságios espalhavam-se por toda a parte, crânios, ossos entrecruzados e olhos sinistros, para afugentar os intrusos. Havia também armadilhas e ciladas preparadas de modo estratégico para capturar os incautos. Havia lugares impenetráveis em conseqüência das moitas compactas de urzes e espinheiros. O propósito de tudo isso era claro: "invasores" não eram bem-vindos.
Já no interior da floresta, pareceu-lhe simplesmente impossível determinar a direção correta, quanto mais localizar a trilha. Aquela era uma experiência humilhante e frustrante para um homem que, como ele, já navegara por todos os mares conhecidos, sob as mais terríveis tormentas, sem jamais perder o rumo. Edon de Warwick caminhara pelas ruas pavimentadas de Atenas e também por entre pirâmides dos ancestrais de Cleópatra, mas não era capaz de achar o lago em sua própria floresta!
Nem mesmo Sarina com seu olfato aguçado, lograva seguir o rastro da princesa. Na verdade, perdera-o logo depois de cruzar a muralha da fortaleza. Furioso, regressou ao castelo, lá chegando quando o sol já descia no horizonte.
Rashid e Eli cumprimentaram-no no salão inferior, que se tornara um ponto de encontro para os soldados e capitães do vice-rei.
Teve sorte, milorde? Eli indagou, pressuroso, ofertando-lhe uma toalha úmida para se refrescar e uma taça de vinho.
Nenhuma Edon admitiu, entregando Sarina aos cuidados de Rashid. Embora domesticada, a loba assustava as crianças, de modo que ele tomava o cuidado de mantê-la presa a maior parte do tempo.
Sorveu a bebida estimulante de um só gole e, então, esfregou o rosto e pescoço com a toalha.
A situação da floresta é contristadora relatou aos homens. Há insetos por toda a parte, mosquitos que picam como abelhas. Formigas, então, nem se fala. Ah, aquele bosque mudou muito desde que entrei lá pela última vez, há dez anos. E acredito que essas terríveis mudanças foram provocadas de propósito.
Rashid ergueu uma das sobrancelhas.
É possível, senhor.
Eu sei que é. Bem, preciso tomar um banho. Já temos alguma sala para uso?
Nay, milorde Eli respondeu. Maynard está trabalhando no aqueduto o mais depressa, mas o rio está tão baixo do nível que talvez ainda demore um dia ou dois para terminar. Contudo, já preparei o seu banho da maneira como tenho feito desde que chegamos. Carreguei água, fervi-a com ervas aromáticas e a deixei esfriar novamente. Está como o senhor aprecia.
Muito obrigado. Vocês não imaginam que calor infernal e quanto eu andei! Horas a fio vagando sem chegar a lugar algum.
Então, o senhor encontrou o lago Rashid deduziu, conduzindo Sarina até a escada.
Não cheguei nem perto Edon admitiu.
Talvez milorde tenha iniciado a procura no local errado.
Que ponto de partida você sugere? Tenho poucos dias para achar a princesa. O rei Alfred chegará no sábado, para o casamento Edon resmungou, começando a despir-se.
Experimente começar a jornada pelo rio Rashid sugeriu. Está seco agora, é verdade, mas antes havia bastante água. Parece lógico que o rio corra para o lago.
Suponho que o lago seja a nascente do rio, sim. Mas, e se não for? ele ponderou. Quanto tempo seria necessário para descobrir? Mais dias do que os que tenho, com certeza.
Eli pigarreou. Rashid sacudiu os ombros. Quem poderia responder aquela pergunta? Nenhum dos dois.
Virna, Virna! Olhe o que encontramos! Lacey e Audrey subiram correndo pelo gramado até a lagoa no alto da colina onde Virna se banhava, e irromperam na clareira, cada uma carregando um pequeno fardo nos braços.
O que foi? A princesa apressou-se a sair da água e vestiu o roupão, alarmada com o tom de urgência das pequenas gêmeas. Aconteceu alguma coisa? Vocês se machucaram, minhas queridas?
Oh, não. Veja o que Lacey e eu encontramos na floresta esta manhã. Não são os bichinhos mais bonitos que você já viu?
As gêmeas de cabelos dourados levantaram as flanelas que embrulhavam os fardos, revelando dois pequeninos e trêmulos animais de pêlo branco e orelhas compridas.
Virna franziu a testa, ajoelhando-se ao lado das irmãs.
De que espécie é esse animal?
Eu não sei Lacey admitiu com solenidade. Nem Audrey. A gente nunca viu nenhum igual. Mas, Virna, eles são tão fofinhos, tão macios. Ponha a mão nele, para ver.
Pode segurar o meu, se quiser. Audrey ergueu o filhote pelas orelhas longas e o colocou nas mãos da irmã mais velha.
Virna surpreendeu-se com a leveza e maciez do animalzinho.
Ora, parece uma bolinha peluda. De onde eles vieram?
Não fazemos a menor idéia Audrey declarou e Lacey balançou a cabeça em confirmação. Mas também são gêmeos, como nós. Não podemos separá-los.
De onde será que vieram? Virna especulou. Tachbrook ou Warwick ?
Eles têm um modo de andar tão engraçado Lacey observou e as duas garotas riram.
Tegwin disse que teremos de sacrificá-los a Lugh no festival das primeiras frutas Audrey comentou com naturalidade ,e que esse é o motivo por que nós os encontramos na beira do lago. Mas não é verdade, é? A gente vai ter mesmo de sacrificar os bichinhos, Virna? Nunca vimos esse tipo de animal antes, nem Anna, nem Venn, nem Selwyn. Queremos ficar com eles.
Sim, por favor, podemos ficar com eles? Lacey corroborou o pedido com fervor.
Esperem um momento Virna silenciou-as. Como vocês admitiram, nós não conhecemos a espécie deles. Podem tornar-se ferozes quando crescerem.
Um bichinho tão engraçadinho não pode tornar-se feroz nunca. E nós vamos treiná-los Audrey argumentou , não vamos Lacey?
Claro! Vamos alimentá-los e levá-los para brincar na floresta. E limparemos toda a sujeira que fizerem. É uma promessa, Virna. Por favor, não deixe Tegwin levá-los para o altar do templo. A Senhora do Lago ficou com a sua gargantilha, ela não precisará desses pobres bichinhos. Tegwin é mau.
Psiu, acalmem-se! Virna levou um dedo aos lábios. Vocês não podem colocar-se no meio dessa disputa sem ao menos me darem tempo para pensar. Em primeiro lugar, precisamos saber mais sobre esses dois: a que espécie eles pertencem, o que comem, de que tamanho ficarão quando crescerem. Não tomarei nenhuma decisão antes de conhecer os fatos.
Oh, muito obrigada! Lacey enlaçou-lhe a nuca. Eli, Mel, dê um beijo em sua benfeitora.
Você não pode chamá-lo de Mel Audrey protestou. Esse é o nome que eu dei ao meu.
Está certo, já basta. Mocinhas, vocês já perturbaram a deusa desta lagoa mais do que o bastante por uma tarde. Agora, vamos voltar para a cabana e achar alguém que possa identificar essa raça.
Havia cerca de doze pessoas morando naquelas redondezas, nas nenhuma delas, nenhuma, jamais vira criaturinhas tão estranhas, com orelhas tão insolitamente compridas.
Não se tratava de rato almiscarado, nem ouriço, nem gato, nem cachorro, nem nenhum dos tipos de raposa que viviam em grande número nas florestas. Eles eram imaculadamente brancos, como os animais das regiões mais geladas, que se confundiam com a neve.
Virna intrigava-se com sua procedência. De Arden com certeza não vieram. E de que modo surgiram ali era outro mistério. Claro, conhecia uma pessoa que trouxera toda uma coleção de animais exóticos para Warwick. Seria possível que aqueles filhotes pertencessem a lorde Edon? Se pertencessem, constituiriam espécimes raros e valiosos? Talvez devesse devolvê-los o mais cedo possível. Audrey e Lacey, porém, ficariam de coração partido se fossem obrigadas a se separar dos adoráveis bichinhos.
Quando Venn retornou da caçada, tornou a examiná-los, divertindo-se ao vê-los correr de seu jeito engraçado pelo campo, saltando distâncias consideráveis. O garoto comentava com as irmãs gêmeas que os dois seriam excelentes em caçadas quando mãe Wren chegou correndo, ofegando em conseqüência do esforço. Trazia notícias boas e ruins. As boas eram que os homens de Wootton haviam regressado para casa sãos, salvos e livres da escravidão imposta por Embla Garganta de Prata.
Bem, pelo menos a maioria voltou, posso garantir a matriarca assegurou, enxugando o suor do rosto com a barra do avental. Tomou um gole de água fresca da caneca que a jovem Gwyneth lhe ofereceu. Ah, estou velha demais para disparar por essas colinas.
Para que tanto alvoroço? Tegwin inquiriu com maus modos, aproximando-se. Vinha do templo da Cidadela de Vidro. As histórias selvagens de Wren sempre perturbavam os refugiados no santuário ou instigavam os guerreiros a atacar os viquingues. Já lhe disse para não vir aqui, velha. Qualquer dia desses, um dinamarquês a seguirá e, então, não teremos mais onde nos esconder reclamou.
Não vim falar com você a matriarca respondeu no mesmo tom, virando-se ostensivamente para Virna, legítima líder do povo da floresta. O novo vice-rei visitou a pedreira ontem de manhã e ficou furioso. Você sabia, Virna, que o nome dele, Edon, significa "filhote de lobo" na língua dos viquingues? Bem, mas o fato é que ele conversou com cada um dos escravos, perguntou-lhes o nome e quis saber a história de cada um, de onde eram, quem era seu senhor feudal, esse tipo de coisa.
Wren fez uma longa pausa para retomar o fôlego e tornar a enxugar o rosto. Então, beliscou com carinho a bochecha de Venn.
Sabem o que os homens disseram ao vice-rei? Que seu senhor era o príncipe herdeiro de Leam. Em outras palavras, você, milorde. Quando ouviu isso, o Lobo de Warwick retirou-lhe as correntes e os libertou.
Eles não podiam dizer isso! Tegwin pensou em voz alta, sem se dar conta. Agora, os viquingues sabiam que o príncipe estava vivo! E ele garantira o contrário a Embla Garganta de Prata.
Pois disseram! Wren reafirmou, soltando uma risada escarninha. E o vice-rei lhes prometeu terras e casa também.
Você está mentindo o druida declarou. Esta velha está evidentemente confusa... O sol na cabeça lhe embaralhou as idéias. Nenhum viquingue jamais libertaria um escravo merciano.
Por todos os deuses, estou mais lúcida do que nunca! mãe Wren o contradisse. Ouvi tudo isso de Alwin, que presenciou cada palavra. Ele mesmo contou para mim e a Alice do Vale Verde. Este novo senhor, lorde Lobo, tem muita autoridade e força.
Essa revelação ocasionou uma série de perguntas e comentários por parte de todo o povo da floresta de Arden. A novidade correu de boca em boca, ganhando detalhes misteriosos sobre o novo vice-rei à medida que se espalhava. Houve quem afirmasse ter visto um dragão dormindo em seu castelo, maior do que o mais alto dos viquingues, Carl de York.
Duas crianças, libertadas naquela manhã, chegaram em seguida, em busca dos pais. E tornaram alvo de todas as atenções quando narraram a morte de Asgart, o Terrível. A mais nova das duas proclamou ter ouvido quando o vice-rei trancou Embla numa cela com sua roca, condenando-a a trabalhar. Esse exagero provocou grandes risadas. Aquela megera não saberia distinguir uma urdidura de uma trama, nem uma agulha da linha.
Mãe Wren distraiu-se com o falatório gerado pelo relato das crianças e também com os pequenos e desconhecidos animais. Discretamente, Virna acercou-se da matriarca.
Imagino a reação de Embla às decisões do vice-rei ela sondou.
Bem, não tive nenhuma notícia de Warwick hoje, mas não é difícil concluir que Embla esteja planejando vingar-se. Principalmente pela morte de seu capitão. Ela que se cuide, para não ter o mesmo fim. Asgart se intrometeu onde não devia e veja o que lhe aconteceu.
As ponderações de Wren foram interrompidas pela gêmeas, que, brincando, agarraram-se na saia de Virna.
Cale a sua boca, velha! Tegwin repreendeu-a com dureza, sacudindo a cabeça veementemente enquanto caminhava em sua direção. Como ousa vir perturbar as princesas com suas histórias malucas? Volte para Wootton! Se tornar a pisar aqui, eu amaldiçoarei seu jardim com uma chuva de sapos.
Faça isso e eu o amaldiçoarei com uma nuvem de formigas negras! a matriarca retribuiu a ameaça, traçando um símbolo no ar.
Wren, Tegwin, parem com isso os dois! Virna apressou-se a ordenar. Se tudo for verdade, as notícias que ela trouxe são excelentes e, ao invés de me perturbarem, só me causam alegria. Venha, mãe Wren, eu lhe prepararei um chá de camomila para acalmá-la. O dia está muito quente e você caminhou demais.
Tudo o que lhe contei é verdade, juro Wren declarou, acompanhando sua protegida até o interior do abrigo de caça. Ainda não transmitira as más notícias, pois pretendia revelá-las apenas para a princesa. Era preferível que o povo de Leam se regozijasse com as boas novas a se lamentar pelas ruins. Você deve procurar os ex-escravos e certificar-se por si mesma.
Aye, é o que pretendo fazer Virna disse, pouco se importando se Tegwin aprovaria a idéia ou não. Ele era o guardião do templo, não dela. E não tinha o direito de chamar mãe Wren de mentirosa.
Onde está Gwyneth? Venn indagou antes que Virna entrasse na cabana.
Ela olhou em torno.
Ora, estava aqui há um momento.
É verdade, ela me serviu um copo de água para molhar a garganta a matriarca confirmou, balançando a cabeça branca vigorosamente.
Virna examinou toda a paisagem ao redor e, por fim, avistou a irmã.
Lá está ela, descendo a trilha. Acho que vai banhar-se na minha lagoa. Lacey, Audrey, guardem os bichinhos nas jaulas. Não quero que eles corram por aí com tanto movimento, pois poderiam machucar-se.
Venn contemplou a figura de Gwyneth, que se afastava pela trilha. Alguma coisa não estava certa. Virna se banhava sozinha na lagoa, mas ela era adulta e tinha de fazê-lo com privacidade. As princesas mais jovens eram sempre acompanhadas por alguém, criadas ou guerreiros que pudessem protegê-las. E por que Gwyneth preferira a lagoa de Virna, a mais distante de todas?
Venn decidiu que aquele era o momento de exercitar a própria independência e autoridade. Virna estava ocupada com mãe Wren e as notícias de Warwick.
Lorde Venn Tegwin chamou-o para o templo.
Ele sabia o que isso significava, mais lições. Mais horas gastas repetindo as mesmas velhas lendas de tempos passados. Estava demasiado quente para ficar confinado. E Gwyneth era jovem demais para vagar pelo bosque sozinha.
Agora não, Tegwin. As lições podem esperar.
Sem aguardar resposta, o menino correu para o estábulo e tirou Taliesin da baia. Pulando para seu dorso, Venn galopou para longe, no encalço da irmã.
