Capítulo Sete

Depois de ouvir as más notícias narrada pela mãe de criação, Virna decidiu ir a Wootton verificar pessoalmente os prejuízos causados pelo incêndio. Aproveitaria a jornada para certificar-se de que os escravos de Leam haviam sido libertados.

Dessa vez, preferiu não viajar sozinha. Trajou-se de acordo com sua posição, escolhendo sua melhor saia e uma túnica de trama colorida e elaborada, que lhe chegava até os joelhos. Para completar, colocou polainas e botas confortáveis para cavalgar. Assim que ficou pronta, reuniu uma guarda de guerreiros leais para escoltá-la.

Quando chegou a Wootton, encontrou sete dos vinte escravos libertados por Edon perambulando, desorientados, por entre os escombros do vilarejo. Haviam perdido suas mulheres, filhos e casas, mas curvaram-se diante da princesa de Leam como homens livres. Cada um ansiava por reconstruir a própria vida, como faziam os estóicos filhos de Leam havia séculos. Gratos por recuperarem a liberdade, saudaram sua princesa com palavras repletas de esperança.

O vice-rei de Warwick lhes falara sobre paz duradoura e prometera indenização pelo serviço forçado. Quatro deles haviam concordado em continuar trabalhando na pedreira. Não lhes desagradava a idéia de cortar blocos de granito para as muralhas do castelo do viquingue, e gostavam de entalhar e esculpir belos dintéis e peças decorativas para a fachada.

Virna escutou-os, pensativa. Edon Halfdansson intrigava-a. Primeiro, insultara-a da maneira mais infame e, agora, tratava seu povo com inesperada justiça. Por quê? O que teria em mente?

Determinada a investigar-lhe os planos, ordenou à sua guarda que a acompanhasse até Warwick. Precisava vê-lo, conversar com ele, e nem os protestos dos seus fiéis soldados a dissuadiram da idéia. Além disso, ainda não haviam discutido a questão sobre o danegeld, a taxa adicional que devia ser paga pela ocupação das terras. Tampouco haviam chegado a um acordo quanto à invasão das terras de Venn.

Milady, não é prudente entrar nesse castelo sozinha  Selwyn insistiu, preocupado.

Parada com sua escolta diante da paliçada de madeira que rodeava a fortaleza, Virna admitiu para si mesma que cometera um erro, três noites antes, ao enfrentar seu adversário no território dele.

 Talvez você tenha razão  concordou.  Vá até o portão e faça anunciar ao vice-rei que estou disposta a encontrá-lo no carvalho do rei Offa uma hora antes do crepúsculo. Ele deverá ir sozinho, caso contrário o encontro será cancelado.

Selwyn ponderou sobre a ordem antes de cumpri-la. O velho carvalho situava-se num ponto da floresta onde seria fácil proteger a princesa contra eventuais emboscadas. Sim, o plano era bom. Satisfeito, conduziu o cavalo até os portões e transmitiu a mensagem de Virna.

Rig estava por perto quando Selwyn deu o recado.

 Espere, senhor  Rig deteve-o quando já fazia meia-volta.  Lorde Edon preferirá ouvir de sua boca a mensagem da princesa de Leam. Aguarde um minuto e eu o trarei aqui.

Selwyn apertou os olhos, desconfiado, mas não detectou nenhum hostilidade. Fitando com firmeza o jovem viquingue, decidiu que ele poderia trazer até seis homens do mesmo porte que não faria diferença: poderia dar cabo de todos, se necessário.

 Esperarei apenas um minuto, não mais. Corra viquingue. Traga o seu vice-rei.

Rig não desperdiçou tempo discutindo. Correu para o castelo, gritando o nome de Edon.

 O que houve?  O vice-rei estava justamente descendo a escada, tendo trocado as vestes após o banho.

 Há um guerreiro pintado no portão. Um celta, trazendo uma mensagem da princesa. Eu o retive com a promessa de que milorde lhe falaria pessoalmente. O senhor virá comigo?

Aye  Edon sorriu, estendendo as mãos para que Eli lhe entregasse a espada e o escudo. Enquanto descia os degraus da frente, perguntou a Rig:  Que tipo de pintura o guerreiro exibe?

 Uma coisa terrível.  Os olhos azuis do rapaz faiscaram.  Um falcão em pleno vôo no ombro esquerdo e uma serpente ao longo do braço direito.

Sem tecer comentários, Edon apressou-se a chegar ao portão.

 Sou Edon Halfdansson, vice-rei de Warwick  apresentou-se ao avistar o homem com a pintura descrita.

 E eu sou Selwyn de Leam.

 Um dos guerreiros de Virna ap Griffin?

 Sim  Selwyn confirmou com orgulho, permitindo que seu cavalo erguesse as duas patas dianteiras na direção do dinamarquês, levantando uma nuvem de poeira. O viquingue era um gigante perto dos gigantes de sua raça. Os boatos traduziam bem a realidade. Seu cabelo era tão negro quanto o de Selwyn fora um dia, embora o estrangeiro o usasse de modo feminino, solto e espalhado pelos ombros. O dele estava sempre preso numa única trança grossa que lhe descia pelas costas como uma tatuagem, símbolo de sua honra e coragem.

 Bem?  Edon nem pestanejou diante da bravata do celta.  O que deseja sua alteza?

 Marcar um encontro no carvalho do rei Offa, uma hora antes do pôr-do-sol. Vá sozinho, viquingue, ou não a verá  Selwyn deu o recado e esporeou o cavalo. O animal recuou e tornou a erguer as patas da frente antes de sair em galope pela estrada poeirenta. O manto escarlate do guerreiro tremulou no ar como um estandarte.

 É uma cilada, milorde  Rig preveniu-o, expressando os temores que o assaltavam.

 Encontre alguém que saiba onde fica esse tal carvalho  Edon replicou, já resolvido a comparecer ao encontro. Cilada ou não, iria ao encontro da princesa. As previsões de Theo assomaram-lhe à mente, advertindo-o de que Virna partiria em breve. Aquela talvez fosse a única oportunidade de convencê-la a mudar-se para Warwick.  Levarei Sarina comigo, e você, Maynard e Thorulf me seguirão a distância. Não quero que a princesa se sinta ameaçada.

 Nesse caso...  Rig encolheu os ombros, desistindo de concluir a frase. Nada mais havia a dizer. Edon daria conta de uma dúzia de homens da idade daquele celta, e Sarina poderia derrotar a tribo inteira.

Não faltava muito tempo para o crepúsculo, de forma que tinham de tomar providências sem demora. Descobriram que o carvalho do rei Offa era o mesmo onde haviam parado para descansar, na chegada a Warwick. Edon galopou sozinho a partir de Wootton, com Sarina correndo ao lado de Titan.

Virna galopou pela Fosse Way, confiante porque seus guerreiros estariam escondidos nos arbustos próximos da velha árvore. Eles não teriam como ouvir a conversa com o vice-rei, mas estariam lá se precisasse de ajuda. E isso era o bastante.

Ao se aproximar do carvalho, segurou as rédeas de Ariel com mais força. O cavalo, farejando o cheiro da loba, moveu a cabeça com inquietação, Virna lançou um olhar à expressão sombria do rosto do viquingue que se aproximava, vindo em sentido contrário. Por um instante sentiu medo. Apertou ainda mais as rédeas e rilhou os dentes, ordenando a si mesma que não reagisse como uma covarde.

 Pare onde está!  bradou.  Não ouse aproximar-se, pois sua loba perturba meu cavalo.

 E quanto a você? Será que o dono da lobo a perturba?  Edon provocou-a, detendo o cavalo e fazendo um sinal a Sarina para que se deitasse.

Nove longos metros os separavam. Aliviada com a distância, Virna deixou escapar um suspiro e acariciou o pescoço de Ariel, a fim de acalmá-lo.

 Talvez...  ela admitiu, recordando a sensação dos lábios dele em seu corpo. A lembrança da própria vulnerabilidade a fez enrubescer. Dessa vez, cuidaria para que se limitassem aos assuntos que deviam discutir, seu povo, as terras e as indenizações.

Edon olhou em torno, esquadrinhando as árvores copadas. Tinha certeza de que os soldados da princesa se ocultavam nos galhos, porque Sarina se pusera em posição de alerta, olhando naquela direção.

 Pois nada tem a temer. Aproxime-se um pouco, ou ficaremos roucos de tanto gritar.

Cautelosamente, Virna comandou Ariel para avançar alguns metros, sem deixar de fitar seu adversário por um só instante.

Edon sustentou o olhar, observando que ela novamente arrumara os cabelos em cachos voluptuosos, que flamejavam como fogo sob o sol poente. A gargantilha desaparecera de seu pescoço, deixando em seu lugar uma faixa de pele mais clara, que enfatizava a ausência da jóia.

 Boa tarde, milady  saudou-a, curvando-se quando seus cavalos se posicionaram frente a frente.

 Boa tarde, lorde Edon  ela retribuiu, fazendo uma graciosa reverência, típica das cortes.  Você foi pontual.

 Que homem se atrasaria para um encontro com você?

 Apenas aqueles que nada tivessem a lucrar com o compromisso.

 Ou aqueles cujo sangue já não ferve diante de uma mulher tão bela. A que devo o prazer de revê-la?

 Queria agradecer por libertar os homens do meu povo. Você age depressa quando convém a seus propósitos.

 E que propósitos seriam esses, alteza? Eu já lhe transmiti as ordens dos reis. A segurança da fronteira entre os dois reinos deve ser assegurada o quanto antes.

 O melhor modo de garantir a segurança da fronteira seria a sua retirada imediata.

 Isto, como sabe, está fora de questão. A minha presença lhe desagrada tanto assim?

As lembranças da outra noite mais uma vez voltaram à mente dela. O cheiro daquele homem, a força de seus músculos, a aura de poder e masculinidade. Admirava a pele amorenada, os cabelos negros e os olhos de um tom tão escuro de azul que pareciam quase negros sob a sombra do carvalho. Não, a presença dele, na verdade, agradava-lhe mais do que seria desejável, especialmente por ser uma sacerdotisa. Um vivo rubor tornou a tingir-lhe as faces.

 O título da colina de Warwick lhe pertence  replicou, desviando-se da pergunta.  Não o disputarei mais. Contudo, Leam e a floresta pertencem a mim. E seus homens reduziram Wootton a cinzas. Quero a sua palavra de que as queimadas cessarão.

 Já lhe dei minha palavra, princesa. Lamento a destruição da sua aldeia e sinto-me aliviado por constatar que milady escapou sã e salva  Edon declarou com sinceridade.  Fiquei alarmado quando me informaram do incêndio, pois você me levou a crer que morava na cabana de Wren, em Wootton.

Virna preferia deixá-lo acreditar em qualquer coisa a revelar-lhe a verdade, que ela, as irmãs e o irmão não tinham mais nenhuma casa que pudessem chamar de lar. De que lhes adiantaria viver no castelo de Chester, se já não havia leamurianos suficientes para defendê-lo?

 Venha comigo para Warwick, Virna. Lá poderemos sentar-nos calmamente e discutir meus planos para Warwick e Leam. Eu lhe mostrarei como os nossos povos podem conviver em paz.

 Planos que incluem casamento?  ela indagou com certa rispidez.  Não, muito obrigada, viquingue.

A hostilidade da resposta feriu a autoridade que Edon conquistara tão duramente. Será que teria de lembrá-la que quem detinha o poder de fato era ele?

 Você não é tutelada do rei Alfred de Wessex?

 Alfred é guardião de Leam  Virna retrucou com serenidade, esforçando-se para não reagir aos maus modos com que a pergunta fora formulada.  Devo ao rei pouco mais do que respeito por ser mais velho do que eu. Apenas meu pai poderia me ordenar que me casasse. Ele, não.

Edon controlou-se para não explodir. Como era ingênua aquela princesa!

 Então, por que marcou este encontro? Qual o objetivo desta conferência?

Virna ergueu o queixo, num gesto de orgulho.

 Desejo saber quando você pagará as taxas que me são devidas.  Jamais necessitara tanto de ouro. Ouro para apaziguar a Senhora do Lago e todos os deuses que ela ofendia diariamente com suas dúvidas e indecisão. Ouro bastante para abrandar a fúria dos espíritos da terra, dos ventos, e das águas, para convencê-los a abrir mão do sacrifício de um pequeno rei de doze anos.

Edon não conteve um suspiro. Será que ouro era tudo o que interessava àquela tola?

 Virna, receio que você conheça muito pouco sobre leis.

 Por que diz isso?

 Porque é verdade, milady.  Desta vez, Edon recorreu a toda a sua paciência.  O wergild, as taxas de que tanto fala, não lhe pertence. Mesmo eu tendo descoberto o erro de Embla ao matar todos os seus vassalos, seus homens livres e escravos, o pagamento é devido ao rei ofendido. Guthrum ou Alfred seria o beneficiado com as taxas.

Virna fitou-o como se ele houvesse subitamente se transformado em algum tipo de dragão, cuspindo fogo através das palavras. Um profundo horror arregalou-lhe os olhos e entreabriu-lhe os lábios.

 Não. Não pode ser. Você está enganado. Eu li o tratado.

Edon balançou a cabeça.

 Eu também. Na verdade, Virna, eu redigi muitos tratados desse tipo para meu irmão Guthrum. Passei vinte anos de minha vida atuando como penhor da boa fé dos dinamarqueses, nas cortes e terras mais distantes. O ouro, em si, não significa nada. Não passa de dinheiro sujo, ou de uma garantia da paz, mas, em qualquer caso, é sempre fundido com sangue. Venha comigo para Warwick. Lá eu tenho documentos e testemunhas para provar o que lhe disse. Posso ensinar-lhe tudo o que aprendi a esse respeito.

Virna girou sobre a sela e apontou na direção de Wootton.

 Está insinuando que vocês podem queimar as nossas aldeias sem que a justiça dos seus reis os obrigue a me indenizar para que eu possa reconstruí-las?

 Eu prometi aos seus homens livres que as cabanas serão reconstruídas. Vigas e telhados são fáceis de substituir. De que mais os seus camponeses precisam? Do raro e precioso ouro galês? Barras de prata das minas de Wroxeter?

 O ouro galês seria suficiente  Virna replicou, relanceando os olhos para as maravilhosas faixas de filigrana que ornamentavam os antebraços dele. A Senhora do Lago certamente se comoveria com aquelas obras-primas da ourivesaria.  As leis são bastante específicas.

 São, sim. Deixe-me explicar-lhe o que elas ditam.

 Por favor  Virna aquiesceu em tom solene.

 Suponha que um dinamarquês e um saxão se cruzem aqui, debaixo deste carvalho, a caminho do campo de uma batalha entre Danelaw e Wessex. Um soldado olha para o outro e nenhum gosta do que vê. Os dois discutem. As palavras conduzem a golpes e eles sacam suas espadas. O saxão mata o viquingue sob os olhos do rei Alfred e do rei Guthrum. Pela perda de um soldado viquingue, Alfred de Wessex deve pagar a Guthrum oito marcos de ouro. Se o dinamarquês tivesse matado o saxão, Guthrum teria de pagar a Alfred oito marcos de ouro. É assim que funciona, Virna.

 O que está dizendo? Então, para que serve o wergild?

 O interessante desse sistema é que, no exemplo que lhe dei, Guthrum poderia dirigir-se ao comandante do soldado e dizer: "Você não é capaz de controlar seus homens? Se houvesse disciplina em seu exército, seus soldados não morreriam fora do campo de batalha." Trata-se de uma lei muito simples, milady, que determina com precisão quem deve o que a quem.

Horrivelmente simples, ela constatou. Sentia no coração o peso da desesperança. Como fora tola. Ele, sem dúvida, devia considerá-la a mais ignorante das criaturas, exigindo-lhe a todo momento um ouro que não lhe era devido.

 Aqui, em Warwick, tenho quinhentos viquingues sob o meu comando. Se Guthrum estivesse em guerra com alguém, eu teria de lhe enviar quinhentos soldados. Por cada homem que eu não mandasse, teria de pagar o wergild para o meu irmão. Essa é a lei.

 Bem, isto muda tudo.  Virna murmurou, abalada.

 Não se, em vez de ouro, você buscar a paz. Na próxima lua cheia, eu convocarei um eyre. Você pode acusar a minha procuradora, Embla Garganta de Prata, e ela terá o direito de se defender das acusações. Leve as suas testemunhas e qualquer pessoa que possa falar em favor do povo de Leam. O tratado dos reis será seguido ao pé da letra.

 O que significa eyre?  Virna indagou, desconfiada.

 Um tribunal de julgamentos autorizado pelos reis.

 E quem será o juiz?

 Eu, e minha decisão será implacável.

Virna franziu a testa.

 Saiba de uma coisa  Edon acrescentou num tom mais severo do que antes.  Embla Garganta de Prata tem acusações contra você. Ela afirma que o Tratado de Wedmore foi rompido primeiro pelos ataques leamurianos ao acampamento de Warwick. Ela também acusa o druida, Tegwin, de ter assassinado meu sobrinho, Harald Jorgensson. Se vocês o estiverem mantendo em cativeiro no templo da floresta de Arden, sua situação se complicará. Serei obrigado a responsabilizá-la, como sacerdotisa do templo.

Agora, Edon lhe ferira o orgulho. Virna ergueu o queixo e lançou-lhe um olhar dardejante.

 Nós não mantemos prisioneiros em nossos bosques sagrados. Não seria digno. Sabemos que, como nós, celtas, os viquingues não se esquivam da morte pela espada. Somos todos guerreiros.

Em silêncio, Edon admirou sua postura correta. Aquela mulher, mais corajosa e honesta do que a maioria dos dinamarqueses, não hesitara em reconhecer a grande afinidade entre os dois povos, o código dos guerreiros, que proclamava que a morte em batalha constituía uma grande honra.

Aye, temos esse ponto em comum. Mas você, Virna ap Griffin, não pode erguer a espada contra mim. Nós nunca seremos iguais num campo de batalha.

 Por quê? Porque você é homem e eu, mulher? Bobagem. Contudo, fique tranqüilo, minha função como sacerdotisa não é pegar em armas.

 Há mais uma coisa. Se você quer um lugar neste mundo para o seu jovem príncipe, venha comigo a Warwick e estabeleceremos os termos de um acordo. Eu já a preveni de que seus dias de correr solta pelas florestas estão no fim. E é verdade.

 É uma ameaça?

Nay, eu não faço ameaças. Não preciso desse recurso para impor minha vontade. Você tem de prestar contas a dois reis e a mim, começando pela água que não corre pelo rio.

Virna virou-se na sela com arrogância e olhou o poeirento Leam. Em seguida, ergueu a cabeça para contemplar o céu sem nuvens e então riu para o vice-rei de Warwick.

 Acha mesmo que uma simples mulher pode controlar as nuvens do céu, viquingue? Onde está a chuva que alimenta os rios?

Edon fez Titan avançar alguns passos, postando-se ao lado de Ariel, e arrancou as rédeas das mãos de Virna.

 Ainda haverá luz suficiente para nós explorarmos a nascente do rio que secou, princesa. Venha comigo.

Virna não se moveu.

 Você não dispõe de nenhum mestre de runas que o aconselhe a não desafiar os deuses?

Nay, milady. Mas tenho um vidente que faz profecias com base no movimento do vinho num tigela de ouro. Ele é tão eficiente quanto qualquer mestre de runas. E você, do que dispõe? De um druida capaz de enfeitiçar as águas?

 Agora quem demonstrou ignorância foi você, milorde. Esse dom é meu. Trata-se de um dever sagrado da sacerdotisa de Leam. É minha a prerrogativa de extrair água de terras ressequidas.

Edon percebeu o zelo brilhando nos olhos cor de âmbar. Ela não o temia, por mais que ele se mostrasse agressivo. Em vez de se aborrecer com a constatação, sentiu-se divertido e não conteve um sorriso.

 Eu não acredito em feiticeiras com poder sobre as águas, Virna. Qualquer homem ou mulher com um mínimo de bom senso pode encontrar água sob a terra. Não é preciso nascer princesa de Leam para possuir esse talento.

 Eu não rio dos deuses  Virna ripostou, sem protestar quando Edon comandou seu cavalo num trote ligeiro, levando Ariel junto.

 Então, o que faz? Reza para as árvores e para o lago?  ele inquiriu. Seu tom irônico mal disfarçava sua crescente curiosidade em relação às crenças e rituais da sacerdotisa das florestas. Seria possível que ela acreditasse mesmo ter tanto poder? E se tivesse, conseguiria achar água pura e límpida? E se Embla estivesse certa ao acusá-la de enfeitiçar o poço deliberadamente?

 Quem não reza para os deuses em que acredita?

Edon refletiu sobre a questão, enquanto trotavam por sobre os troncos caídos que se espalhavam pelas margens barrentas do rio. Surpreendentemente, Virna não esboçara nenhum protesto contra o fato de ele controlar o cavalo dela, o que o levava a duas conclusões. Primeira, seus homens deviam estar nas cercanias. Segunda, o rio não conduzia ao lago.

Depois de cruzarem o trecho mais acidentado, ele lhe devolveu as rédeas. A princesa pressionou os flancos de Ariel e passou a galopar ao lado de Edon.

 Você não reza para o Todo-poderoso Odin? Não oferece sacrifícios a Freya e Thor?

Aye  ele admitiu com candura.  É verdade. Mas viajei por terras muito distantes e aprendi que os deuses não moram em árvores e rios.

 Está zombando de mim, viquingue. Não sou inculta nem iletrada. Nem vivo apenas na floresta. Tenho um grande castelo em Chester e um templo aqui que fariam as casas de vocês parecerem míseras taperas. Não há nada que não seja perfeito e belo dentro dos muros do templo de Arden. Nós, celtas, vivemos em paz e prosperidade por séculos. Sobrevivemos aos romanos e também sobreviveremos a vocês, dinamarqueses.

Edon lançou-lhe um olhar compassivo. Ela realmente acreditava que o mundo jamais mudaria, a despeito de a história provar o contrário. Contudo, teve o cuidado de não expressar condescendência em seu tom de voz.

 Você fará muitas amizades em Warwick. Estou certo que gostará de Eli, Theo e Rebeca, a mãe daquele bebê que nasceu no dia da nossa chegada. Ela cresceu num vilarejo perdido na encosta de uma remota montanha, num lugar chamado Síria, e é devota de um deus chamado Yahweh. Seu povo foi o primeiro a acreditar num deus único e a se proclamar o povo eleito.

 Um único deus?  Virna fitou-o com incredulidade.  Impossível. Nem mesmo os cristãos crêem nisso. O rei Alfred sempre menciona a Santíssima Trindade de Deuses.

Atirando a cabeça para trás, Edon soltou uma gargalhada.

 Você também conhecerá Eloya e Rashid. Os dois são casados e vêm de uma terra ainda mais selvagem e inóspita do que a de Rebeca. Na Pérsia, grandes mares de areia se estendem até além do que a vista alcança. Quando o vento sopra, levanta imensas nuvens de areia que recobrem tudo. Eloya e Rashid descendem de Alexandre, o Grande que conquistou o mundo anos antes de os romanos invadirem a Bretanha. Seu deus é chamado de Alá, e, assim como Yahweh, é considerado único e Todo-poderoso.

 É tudo muito estranho. Por que mantém pessoas tão diferente entre si?  Virna perscrutou-lhe o semblante, em busca da resposta. Só o que vislumbrou no rosto másculo e bonito foi honestidade e inteligência. E isso, mais do que todas as atitudes beligerantes daquele dinamarquês, a fazia sentir-se ameaçada.

 Porque, desse modo, não há uma só noite em meus salões em que não ocorra uma discussão interessante, que nos leva a explorar os limites de nossos conhecimentos e experiências. Você apreciará essa diversidade de modos de pensar e de crenças quando for morar lá, como minha esposa.

 Nunca serei sua esposa, viquingue  Virna afirmou, sacudindo a cabeça com firmeza.  Nenhuma princesa de Leam jamais se casou.

Sem se deixar abalar, Edon sorriu.

 Não é difícil romper tabus, depois que se dá o primeiro passo. O que aconteceu com a sua gargantilha?

Virna franziu a testa. O vice-rei era mesmo observador. Só esperava que ele não soubesse o que significava o desaparecimento do talismã.

 Dei em oferenda ao meu espírito guardião, a Senhora do Lago.

O semblante de Edon tornou-se grave.

 Mostre-me o seu lago, Virna ap Griffin.

Em hipótese alguma ele poderia nem sequer desconfiar do quanto ela se sentia tentada a obedecer-lhe. Com ansiedade, lançou-lhe um olhar às compactas árvores que os ladeavam. Com exceção de Selwyn, seus homens estavam a pé. Então, voltou os olhos para Sarina, que trotava ao lado de Titan.

 Só se você me mostrar a sua coleção de animais exóticos.

 Muito bem, que assim seja. Possuo espécimes bastante heterogêneos, leões, macacos, crocodilos, coelhos e papagaios. Eu lhe contarei a história de como cada um deles veio parar nas minhas mãos e como os camelos salvaram as nossas vidas nos desertos da Terra Santa. Rashid fez muitos desenhos de diversos outros animais curiosos. As duas irmãs mercianas que servem como criadas em meu castelo pensaram que ele retratara bogans.

Virna engoliu em seco. Segundo a crença, bogans eram espíritos malévolos que moravam nos pântanos, de onde saíam à noite sob a forma de animais a fim de praticar o mal e espalhar morte e doença pela floresta. A morte sacrifical de Venn aprisionaria os bogans do pântano de Arden por um milênio. Então, as chuvas voltariam a cair e purificariam a terra. A vida se renovaria e Leam refloresceria. Ao menos, assim afirmava Tegwin.

 Conhece a lenda sobre os bogans, milorde?

 Conheço muitas coisas, princesa. Venha, vamos tomar a direção de Warwick. Tenho muito para lhe mostrar.

Como retornaria a Warwick com ele? Virna sentiu um arrepio de medo percorrer-lhe a espinha. Contudo, não daria sinais de fraqueza diante de um viquingue. Respirando fundo, desviou o olhar para a loba e inquiriu:

 Conte-me de que modo conseguiu fazer amizade com um animal tão perigoso.

Edon dedicou-lhe o primeiro sorriso de genuíno prazer. Seus olhos brilhavam de divertimento.

 Na verdade, Sarina não é uma loba. Pertence a uma raça especial de cão de caça, não muito diferente dos mastins de pêlo liso com que vocês costumam caçar nesta ilha. O sol já se põe, princesa. Decida agora se irá ou não para Warwick.

 E quanto ao lago, milorde?  Virna inverteu o jogo, provocando-o.  E quanto ao teste a que pretendia submeter meus poderes sobre a água?

Edon tornou a sorrir.

 Sou um homem paciente... às vezes. A água pode esperar até amanhã. A questão, princesa, é saber se você ousará vir comigo para Warwick... ou não.