Capítulo Oito
Virna ousou. Atirando toda a prudência ao vento, deixou sua guarda para trás na floresta de Arden, e galopou com o vice-rei pelos campos crestados, rumo a Warwick. Cruzaram os portões abertos da fortaleza, levantando nuvens de poeira que os seguiam como sombras. Experimentando uma crescente excitação, a princesa desmontou no pátio, diante do estábulo onde se abrigavam os animais exóticos de Edon. Quando ingressaram no curral escuro, suas narinas arderam ao captar os estranhos odores que pairavam no ar, e os fardos de feno, palha e forragem deram-lhe vontade de espirrar. Ruídos assustadores feriram-lhe os ouvidos, rugidos e barulho de patas pesadas esfregando a terra do chão de modo irrequieto.
Virna e Edon detiveram-se para observar um imenso gato de um tom castanho de amarelo, preso numa jaula com barras de ferro. A besta era centenas de vezes maior do que as que ela conhecia, mas, ainda assim, era claramente um felino.
Oh... exclamou num murmúrio abafado. Então esse é o leão?
Aye ele confirmou com orgulho.
É imenso!
Seu nome é Rex. Não sei qual é sua idade, Rashid garante que já está bem maduro, talvez tenha doze anos mais que eu. Um paxá em Alexandria o mantinha cativo, muito anos atrás. Sob a luz do sol, você poderia ver as cicatrizes em seu torso e perceberia que lhe faltam muitos dentes.
Edon ajoelhou-se e dirigiu-se ao animal num idioma estrangeiro, num murmúrio apaziguador. Pela reação de Rex, Virna constatou que a fera não era hostil ao dono.
Fascinada, ela também se ajoelhou, observando as mãos dele afundarem-se na vasta juba dourada.
Você o trata como se fosse apenas um bichinho de estimação. Pensei que se tratasse de um animal feroz e perigoso.
Ele riu.
E é, muito. Contudo, não o vejo como bichinho de estimação, mas sim como um amigo. Nós nos entendemos. A verdade, cara princesa, é que não pude suportar ver esse animal torturado noite após noite na arena do paxá. O povo de Alexandria achava altamente estimulante colocá-lo junto com um urso para que lutassem até que um dos dois morresse. Por isso, libertei-o.
Libertou-o?
Ajudei-o a fugir. Edon ergueu-se e fez um sinal para que ela o seguisse. Contudo, o pobre estava tão habituado ao cativeiro que não conseguiria sobreviver por conta própria. Então, resolvi trazê-lo comigo. Este aqui é um camelo...
Edon conduziu-a de jaula em jaula, exibindo com orgulho seus raros e preciosos animais. Cada um deles era alvo de uma profunda estima, como Virna percebeu com surpresa. De súbito, a atenção dela foi atraída por uma gaiola repleta de bichinhos peludos e macios como os que as gêmeas haviam encontrado.
E estes? indagou com entusiasmo.
Coelhos ele informou, rindo, e recitou o nome de cada um. A pele é bastante apreciada pelos dinamarqueses, por ser leve e quente. A carne é saborosa. Eles não são comuns por aqui?
Virna acariciou um dos coelhinhos.
Não. São tão estranhos para mim quanto o camelo e o crocodilo.
Que pena ele replicou, erguendo os olhos, divertido, ao se dar conta de que, enquanto ele era atraído pelos animais mais ferozes, ela preferia os mais dóceis e frágeis, o que indicava que seus instintos maternos eram intensos e predominantes. Um bom sinal. Creio que Sarina terá pouca sorte em suas caçadas na floresta de Arden. Coelhos são seu prato predileto. Esses são os que me restaram, porque a outra gaiola se arrebentou quando chegávamos a Warwick. Em breve, porém, haverá uma multidão deles aqui, pois se reproduzem com inacreditável velocidade.
Coelhos... o que eles comem?
Qualquer coisa que brote da terra. Esses malandrinhos podem fazer um belo estrago nas hortas.
A noite já caíra por completo, forrando o céu com um tapete de estrelas. A lua, porém, ainda não nascera. No interior das altas muralhas havia tochas acesas, principalmente junto dos portões e da escada que conduzia à entrada principal do castelo. Nas janelas do segundo andar, luzes bruxuleavam convidativamente.
Gostaria de cear comigo, milady? Edon propôs, tomando-lhe a mão para guiá-la através do pátio.
Ela sacudiu a cabeça numa negativa muda, tentando localizar seu cavalo.
Está tarde. É melhor eu ir embora.
Nay ele a contradisse, enlaçando-lhe o ombro para conduzi-la até o castelo. Venha, meu salão está bem iluminado. Há comida suficiente para um convidado a mais em minha mesa. Quando a lua nascer, aí sim, você poderá partir.
Virna sentiu a pele arrepiar-se sob a mão grande e forte em seu ombro. O som de uma flauta entoando uma suave melodia e o espocar de risos alegres chegaram-lhe aos ouvidos. Embora não quisesse admiti-lo, atraía-a o estilo de vida do vice-rei e sua corte. Música, debates, caçadas, viagens... tudo tão fascinante e diferente da vida severa e cheia de aflições que ela levava! Ao lado de Edon, experimentava uma sensação inebriante de juventude e espontaneidade... e era isso o que mais a atemorizava.
Dessa vez, entraram de braços dados no salão, envoltos numa deliciosa atmosfera de camaradagem. Os convidas saudaram-lhes efusivamente, dirigindo-lhes sorrisos de boas-vindas. Abriram espaço para ela na longa mesa, de modo a acomodar-se no lugar de honra, ao lado do vice-rei.
Ao contrário do que ocorrera na outra noite, Virna agora se dava conta do festim que lhe era servido. Tomada por um súbito apetite, comeu de tudo um pouco, a sopa temperada com ervas e alho-poró, as enguias nadando num molho denso de hortelã e uvas secas e o suculento lombo defumado de cervo. Havia também azeitonas recheadas com carne de caranguejo, um macio pão de trigo e outro preto, de centeio, de que gostou tanto que comeu um inteiro, besuntado com manteiga derretida.
Saciada demais para atrever-se a aceitar os pratos seguintes, passou a observar disfarçadamente a voracidade com que Edon devorou as aromáticas tortas de carne e, depois, o pudim de pão.
Ao longo da refeição, as damas tagarelavam entre si, enquanto seus homens conversavam de modo menos ruidoso. Todos queriam comentar os acontecimentos pitorescos ou engraçados daquele dia. O ambiente revelava-se bem mais descontraído do que na primeira visita de Virna.
Milady, gostaria de segurar o meu pequeno Thomas? Rebeca de Hebron ofereceu, tendo notado os constantes e afetuosos olhares que a princesa dirigia ao filho recém-nascido.
Virna corou, constrangida, pois julgara que seu interesse passaria despercebido.
Desculpe, eu não pretendia incomodar, mas ele é tão lindo...
Rebeca sorriu e gentilmente lhe estendeu o menino adormecido. A princesa de Leam acomodou-o no colo com movimentos firmes e suaves, que demonstravam a sua prática.
Como é leve! Ela sorriu, dividindo a atenção do bebê e sua jovem mãe. Seus traços são tão delicados... Oh, você deve sentir-se muito orgulhosa.
Muita obrigada Rebeca agradeceu o cumprimento. Mas vejo que você tem muito jeito para lidar com crianças. Creio que não demorará muito para acalentar seus próprios filhos nos braços. Nosso vice-rei deseja uma vasta prole.
É mesmo? Virna tornou a enrubescer. Para ocultar o embaraço, começou a acariciar de leve a cabeça de Thomas. Todavia, a imagem que Rebeca sugerira não lhe era desagradável. Ao contrário, pois adorava crianças.
Aye Rebeca confirmou com candura. Fiquei feliz quando os reis ordenaram a lorde Edon que se casasse. Só assim ele parará de correr pelo mundo e criará raízes ao lado de uma só mulher.
Virna acarinhou o rostinho com a ponta do dedo, comovida com a fragilidade daquele pequenino ser.
Nada me agradaria mais do que filhos. Contudo, jamais o terei.
Edon, que discretamente acompanhava o diálogo, intrometeu-se:
Não duvide de mim, princesa. Sou tão fértil quanto os gregos.
A sua fertilidade não está sendo posta em dúvida, milorde Virna ergueu os olhos para ele , mas sim a minha impossibilidade de aceitar a sua proposta.
Os tempos mudam, milady. Princesas virgens já não constituem um benefício para o seu povo ele apressou-se a argumentar. Na verdade, Leam é apenas um título, pois como reino já não existe. É melhor que você se una à casa de Warwick, pois eu protejo o que me pertence.
Melhor para quem, milorde? Virna redargüiu.
Para todos, sem distinção. Só há uma solução para o nosso conflito. Através do casamento, podemos formar um povo único... e mais forte. Nossos filhos herdarão as terras que hoje nós disputamos.
Reconheço a sabedoria de sua palavra, milorde, mas devo continuar obedecendo às nossas tradições. Se eu não o fizer, será o fim delas.
Que tradições são essas? interpelou-a Nels de Athelney, entrando na discussão. Virna voltou-se para o padre e reparou na espada presa em sua cintura. O que representava uma descortesia, pois as regras básicas de etiqueta proibiam o porte de armas à mesa. Na verdade, aquele gesto era quase um insulto ao anfitrião.
Vou-lhe citar um exemplo. Faz parte das minhas obrigações oferecer os primeiros grãos a Lugh, para que as colheitas de outono sejam tão abundantes quanto as primeiras do verão.
Não vejo como essa prática possa impedi-la de cumprir o dever cristão de casar-se e gerar filhos o jovem bispo ponderou com firmeza.
Eu também tenho o hábito de agradecer pelas boas colheitas Edon acrescentou. E diversas vezes presenciei cerimônias cristãs em que se abençoavam os animais e os frutos da terra.
Convém agradecermos sempre ao Senhor por nos conceder prosperidade Nels comentou em tom judicioso. Este é um dos poucos costumes pagãos que nossa Igreja aceita.
Perdoe-me, mas é muito confuso para mim Virna dirigiu-se a Edon. Como é possível que tudo em que acreditamos desde a aurora dos tempos seja considerado pagão e repugnante para as crenças de seu bispo cristão, quando, na realidade, celebramos as mesmas coisas?
O paganismo se baseia no politeísmo, ou seja na crença em inúmeros deuses explicou Nels de Athelney. Só existe um único Deus, Senhor de todas as criaturas.
Virna franziu a testa e sacudiu a cabeça.
Meu primo, o rei Alfred, apresentou-me a alguns padres que mencionam com fervor a Santíssima Trindade. Agora, o senhor me diz que existe apenas um...
E seu nome é Alá Rashid interveio. Esses infiéis a desviarão do caminho da verdade, lady Virna. Se algum dia me conceder um pouco do seu tempo, eu lhe provarei quanto estão errados os padres que vivem na corte de seu ilustre primo.
E, ao proceder assim, ele lhe garantirá um lugar no inferno objetou Nels de Athelney. Meu senhor Edon, tenho de protestar. Devemos cristianizar o condado, e não confundi-lo ainda mais.
Edon soltou uma gargalhada e fez sinal magnânimo para o bispo.
Em minha casa, respeitamos as crenças uns dos outros, Nels. Tolerância é a palavra aqui. Cara princesa, parece-me que, na temporada que passou no castelo de seu primo, em Winchester, você professou a religião dele. É verdade?
O bebê acordou nos braços de Virna e, faminto, começou a agitar-se, forçando-a a adiar a resposta até devolvê-lo à mãe. Contudo, surpreendeu-a a sensação de vazio que experimentou depois que o pequeno Thomas saiu de seu colo. Alarmada, admitiu que ansiava por filhos nascidos de seu próprio ventre.
E então? Edon voltou à carga. Você se submeteu à vontade do rei Alfred quando estava sob sua tutela, princesa?
Quer mesmo saber a verdade? ela redargüiu, tentando ganhar tempo, pois ignorava até que ponto podia expor-se.
Aye, nada menos que a verdade Edon insistiu.
Virna lançou um olhar ao longo da mesa, contemplando a curiosa mistura de culturas e tribos que aquelas pessoas representavam. "É esta a verdadeira coleção de animais exóticos", pensou, "esta estranha gente que Edon reuniu sob seu teto".
Embora não tenha sido batizada... sim, eu me submeti.
Por quê? Medo de represálias? Edon pressionou-a, determinado a extrair da princesa muito mais do que ela estava disposta a revelar.
Não, não sinto o menor temor em relação a Alfred, Creio que apenas não desejava ofendê-lo. Meu primo é um homem incomum, bastante sábio e compreensivo respondeu com sinceridade.
Então, foi por esperteza? Edon ergueu uma sobrancelha.
Virna fitou-o sem saber se ele zombava dela.
Como assim?
Suponha que o nosso bom bispo Nels aqui presente encostasse uma faca em sua garganta, obrigando-a a optar entre o batismo e a morte. O que você escolheria?
O batismo, é claro. Chama isso de esperteza?
Eu não chamaria de triunfo da fé o bispo interveio. Mas consideraria uma pequena vitória, porque a semente teria sido plantada. Dê-me tempo princesa, e eu certamente serei capaz de mostrar-lhe o caminho da salvação.
Virna tornou a sacudir a cabeça, rejeitando a oferta.
Não preciso da salvação a que se refere, porque meu espírito regressará na próxima vida. Enquanto isso, cuido do lago de Leam, cujas águas têm o poder da cura. Meu dever é protegê-lo e preservá-lo, e juro que o farei até a morte.
Afora o lago, quem é que você protege, princesa? o bispo voltou à carga. Um druida adorador de árvores?
Não.
Ela protege um menino de doze anos Edon explicou. O príncipe herdeiro de Leam.
Virna dardejou-lhe um olhar penetrante. Aquele viquingue era demasiado perceptivo. Intrigada, indagou-se até que ponto ele tinha intimidade com seu parente, o rei Alfred de Wessex. Afinal, parecia saber mais sobre a sua vida e a da sua família do que seria recomendável.
Ah-há! exclamou o bispo, recolhendo-se em profunda reflexão.
Edon balançou a cabeça para os demais convivas ao levantar-se da cadeira.
Venha, milady, a lua já se ergueu. Eu a acompanharei sã e salva de volta para a sua guarda.
Virna nem se havia dado conta da passagem das horas, mas o vice-rei tinha razão. Uma enorme lua cintilava entre as estrelas, como uma pedra preciosa. Ela se despediu de todos e seguiu pela escada até o salão do andar inferior.
Um rapaz aproximou-se com uma tocha para iluminar o caminho até os portões. Edon afastou-se para dar ordens ao cavalariço e Virna resolveu esperá-lo no pátio. Então, aproximou-se do poço, guiada por uma certa curiosidade. Observou que barras de ferro e de madeira o fechavam completamente. Também notou que não havia caçambas por perto e o chão ao redor estava seco. De súbito, sentiu o cheiro de enxofre e adivinhou por que o poço fora selado. A água se estragara, como acontecera em vários lugares, cerrou os olhos, respirou fundo várias vezes... e soube que, a menos de dez metros dali, pouco abaixo do solo, corria um grande lençol de água cristalina.
O vice-rei saiu da cocheira e convidou-a para caminhar até o alto de uma pequena elevação, na extremidade do pátio, de onde se descortinava todo o vale iluminado pelo luar. Uma brisa suave e prazenteira acariciou-lhes os cabelos, refrescando a temperatura. Na havia neblina, nem mesmo sobre o rio Avon. Já fazia muito, muito tempo que Virna não via as brumas outrora tão comuns em sua terra. Sentia saudade daquele elemento, tão indispensável para o bem-estar de Leam quanto o ar, a água, o fogo e a terra.
Por alguns instantes, os dois quedaram-se num silêncio repleto de cumplicidade.
A lua está quase dourada, o que é estranho para uma noite límpida de verão ela comentou, por fim.
É Edon concordou. Meu vidente diria que se trata de um prenúncio de guerra, se tivesse olhos para vê-la.
Qual dos homens à mesa era o seu vidente?
Theo, aquele maroto de cabelos crespos, pai do bebê que tanto lhe encantou. Mal se percebe que ele é cego... talvez por enxergar mais do que todos nós juntos.
Virna fitou-o, surpresa. Por algum motivo, concluíra que Thomas fosse filho do vice-rei e que as mulheres fossem concubinas dele. Afinal, era costume dos viquingues. Como se tivesse o dom da telepatia, Edon prosseguiu:
Não, o pequeno Thomas não é meu filho, se é o que pensou. Determinado a esclarecer quaisquer eventuais mal-entendidos, acrescentou: Tampouco aquelas mulheres são minas concubinas. Preferi não complicar as coisas, aqui em Warwick.
Entendo Virna habituara-se com o fato de que alguns homens possuíam concubinas. Esse costume, aceito tanto em Leam quanto em Danelaw, enfurecia os bispos do rei Alfred.
Mesmo? Ele contemplou o rosto de feições delicadas por um longo momento. Tendo por esposa uma mulher linda como aquela, jamais desejaria outra. E essa era uma idéia perigosa. Ocorreu-lhe que a princesa de Leam talvez não tivesse consciência do próprio poder de atração. Gostaria de beijá-la, Virna ap Griffin.
Edon demonstrava maior coragem e honestidade, ao expressar abertamente seus desejos, do que ela, que os ocultava até de si mesma. Na verdade, essa idéia rondava-a incessantemente desde o momento em que o encontrara, sob o carvalho. Mas por nada no mundo cederia a esse anseio.
Por quê? Virna inquiriu baixinho.
Ele quase riu da perversidade da pergunta. E indagou-se se ela também teria percebido a quietude que se apossara da fortaleza. Era como se cada ser vivente no interior da paliçada aguardasse para descobrir se o vice-rei de Warwick conseguiria conquistar a intocável princesa de Leam.
O fato de Virna pertencer à família real não lhe impedia o coração de bater descompassado quando a tocava, nem tornava menos atraente o perfume de sua pele. Ela o fascinava. Considerava-a uma mulher ímpar, a mais bela e sedutora entre todas, e muito, muito importante para ele. Preparara-se para desposá-la, mas jamais poderia imaginar que viria a gostar dela.
Acariciou de leve o contorno suave de seu queixo com uma das mãos, enquanto, com a outra, enlaçou-lhe as costas, puxando-a para junto de si. Então, curvou a cabeça e capturou-lhe os lábios, experimentando seu sabor pela primeira vez.
Virna correspondeu quase de imediato. Seu corpo encaixou-se no dele com perfeição, como se tivessem sido feitos um para o outro. Seus seios fartos apertaram o tórax de Edon, sua cintura esguia abrigou a mão dele com calorosa receptividade. Ela jamais havia beijado um homem, não tinha a menor idéia de como proceder, mas seus instintos a guiavam com segurança.
Sem se dar conta, gemeu baixinho quando o beijo se tornou mais ousado. Edon abraçou-a com força, fazendo-a sentir-se pequena e vulnerável sob a pressão de seu corpo. Não sabia onde pousar as mãos, mas a paixão dos carinhos dele subjugou-a e, antes que pudesse refletir, achou o caminho por sob a túnica e acariciou-lhe os músculos fortes dos quadris e das costas. Deliciou-se com o calor de sua pele, lisa e macia sob seus dedos.
O beijo tornou-se ainda mais íntimo e exigente antes de suavizar-se de súbito, até cessar. Edon encostou o rosto no dela e Virna, pela primeira vez, experimentou a sensação de aspereza da barba que despontava roçando em sua face, torturando-a e provocando-a ao mesmo tempo. Era um doce tormento, que a fazia ansiar por algo que não sabia bem o quê. Exasperada, tomou a iniciativa de colar a boca na dele novamente, aceitando a profunda intrusão de sua língua.
Longe de sentir-se chocada ou de repeli-lo, deixou-se envolver por um profundo prazer ao sentir o gosto de sua boca. Edon de Warwick era todo masculinidade, poder e força, despertando nela sensações e sentimentos absolutamente desconhecidos.
Por mais íntimo que fosse o beijo, não era o bastante para o vice-rei de Warwick.
Volte para dentro comigo ele propôs num murmúrio rouco em seu ouvido. Ainda é cedo. Prometo devolvê-la sã e salva à mãe Wren antes que o galo anuncie um novo dia.
Um arrepio percorreu a espinha de Virna. Ela era virgem e já havia passado cinco anos da idade de se casar. As carícias de Edon sugeriam segredos repletos de prazeres insuspeitados. Queria... precisava desvendá-los.
Incapaz de lutar contra o torpor que a envolvia, abriu a boca para responder "sim".
Nesse momento, um grito rompeu o silêncio e as promessas daquela noite. Virna recuou, assustada, enquanto Edon desembainhava a espada.
Um segundo grito, mais agudo e desesperado do que o primeiro, clamava por ajuda.
Ele localizou a origem dos gritos antes de Virna.
Fique aqui comandou, embrenhando-se na escuridão rumo ao estábulo.
E então, os portões do inferno se abriram.
Aqui estão eles Gwyneth sussurrou com entusiasmo.
Psiu, Gwyneth! Venn repreendeu-a, lançando um olhar desconfiado na direção da guarda postada na muralha da fortaleza. Anoitecera depressa. Quatro viquingues de ar feroz montavam sentinela, dois na torre do portão e dois na frente da entrada principal do castelo.
Por favor, Venn. Eu quero um, apanhe para mim.
Já disse para ficar quieta. Quer que nos surpreendam aqui?
Gwyneth jamais se preocupara com esse tipo de problema. Ninguém jamais ousara causar-lhe mal ou ameaçá-la. Examinou a gaiola onde estavam os bichinhos de orelha comprida, que, conforme descobrira, os dinamarqueses chamavam de "coelhos".
Olhe como são engraçadinhos, Venn.
Ele afastou-se da ruidosa irmã para espiar as outras jaulas. O rugido assustador de animais ferozes provocou um repentino arrepio no jovem príncipe.
Ai, esse aqui me mordeu! Gwyneth lamentou-se em voz alta.
Você quer ficar em silêncio, pelos deuses? impaciente e zangado, Venn admoestou-a, pronto para desferir um tapa na garota desobediente.
Gwyneth sugou o dedo ferido, distraída, sem lembrar que deixara a porta da gaiola aberta. Em conseqüência, os coelhos começaram a escapar, saltitando pelo estábulo.
Oh, sua tola, veja o que fez! Ajude-me aqui, rápido! Eles estão fugindo!
Venn tentou capturar os pequenos animais que o rodeavam, mas, antes que pudesse recolocá-los na gaiola, outros quatro pularam sobre ele, batendo-lhe no peito e caindo no chão. Enraivecido, ele bateu a porta da jaula.
Mas o que está acontecendo aqui? resmungou um viquingue, entrando no estábulo com uma tocha na mão. Ei, você, garoto! O que está fazendo com esses bichos? Saia já daqui!
Os coelhos se haviam espalhado por todos os cantos. Gwyneth disparara para a porta na extremidade oposta àquela por onde o viquingue entrara. Amaldiçoando a própria curiosidade, Venn fugiu, contornando furtivamente um fardo de feno.
No pátio reinava uma escuridão absoluta, o que era bom para os irmãos, pois os ajudaria a se esconder. Venn ocultou-se atrás de uma pilha de pedras, os monolitos que os viquingues usavam para construir as muralhas, junto da paliçada de madeira. Foi através de uma fresta nessa deficiente defesa que os dois irmãos entraram na fortaleza.
Venn, estou com medo a menina gemeu.
Fique quieta! ele ordenou pela última vez, já sem o menor resquício de paciência. Que Lugh os socorresse! Se ela não fosse tão teimosa, eles não estariam ali, arriscando suas vidas apenas para capturar um coelho idiota.
Agarrando a mão da jovem princesa, arrastou-a para cima da pequena montanha de pedras.
Por Taliesin, corra o mais rápido que puder até escapar daqui.
Gwyneth pulou de uma altura de três metros até o chão, mas não proferiu um único som. Levantou-se de imediato e ergueu a cabeça para ele, aguardando instruções.
Eu lhe disse para correr! ele insistiu. Sua túnica se havia prendido numa lança pontuda. A ponta de madeira machucava-lhe as costelas. Venn encolheu-se, contemplando a fresta estreita por onde Gwyneth passara com tanta facilidade. Aquela era demasiado estreita para ele.
Corra, Gwyn! insistiu.
Gwyneth obedeceu. Disparou, célere como uma raposa, curvada sob os arbustos amontoados como pilhas de lenhas, ao longo do fosso seco que contornava a paliçada.
Nesse ínterim, Venn puxou a túnica, rasgando-a, e com isso logrou soltar-se da estaca. Então, respirou fundo, projetou-se no ar e saltou por sobre a paliçada... mas algo saiu errado. Desabou pesadamente sobre um espinheiro. Os ossos do tornozelo torceram-se e sua perna falhou. Quando conseguiu libertar-se do arbusto e ficar de pé, teve de andar saltitando como os coelhos do vice-rei. E, na metade do caminho pela trilha até o rio, Venn deparou-se com a viquingue mais cruel que já conhecera em seus doze anos de vida.
Imobilizada pela surpresa, Embla Garganta de Prata viu-se diante do troféu mais precioso, o príncipe herdeiro de Leam. E soube imediatamente como tirar partido da situação. Cuidaria para que o intrépido príncipe jamais lhe escapasse das mãos... e concluiria a tarefa que ele próprio quase realizara sozinho. Ela lhe quebraria o pescoço.
