Capítulo Nove

Edon correu na direção do setor da paliçada em que a muralha de pedra, ainda em construção, circundava a de madeira. Escalou a gigantesca parede, guiado pelos ruídos de luta sobre o muro. Lá no alto, segurou-se nas estacas pontudas e içou o corpo até o topo.

Equilibrando-se precariamente, encontrou a fonte daquele grito agudo e desesperado.

Na entrada da floresta, Embla Garganta de Prata empenhava-se numa luta feroz com uma pessoa de baixa estatura. Ela puxava a cabeça de seu oponente pelos cabelos, erguendo no ar sua espada de dois gumes.

 Pare!  Edon bradou a plenos pulmões, saltando de uma altura de quase quatro metros, desembainhando a própria espada enquanto caía.  Largue a arma!  ordenou ao aterrissar.  Eu disse para largar a arma! O que está acontecendo aqui? O que faz fora da fortaleza, Embla?

Milorde!  a sobrinha balbuciou, evidentemente surpresa por sua inesperada aparição em cena.  Você aqui?

O adversário dela, na verdade um garoto, desabou no chão, cobrindo a cabeça num gesto instintivo de autodefesa.

 Perguntei o que está acontecendo aqui  o vice-rei insistiu.

Raciocinando depressa, Embla apontou uma sacola de couro sobre a grama.

 Eu surpreendi esse tratante rondando o poço!  mentiu, arquejando.  Eu o vi... tentar... despejar... o conteúdo... daquele saco... dentro da... água  ela abaixou a espada, respirando com dificuldade.  As pontas da... paliçada... o impediram de... fugir.

Edon apanhou a sacola e constatou que não pesava quase nada. Abriu-a e vasculhou seu conteúdo: apenas raízes e grama.

 Ele também me... viu e... correu  Embla concluiu.

Venn resolveu aproveitar que os viquingues discutiam para escapar. Mas, no momento em que se moveu, Embla desferiu-lhe um chute nas costas.

Edon ouviu o gemido de dor do menino e o chiado do ar que lhe escapou dos pulmões. O menino encolheu-se, para proteger-se da crueldade da mulher.

 Isso não é motivo para tentar matar uma criança  repreendeu-a, estreitando os olhos numa expressão de desconfiança.  Por que saiu da fortaleza?

Embla enxugou o suor da testa com o antebraço.

 Que eu saiba, não fui proibida de me ausentar do castelo. Perdoe-me por não soar o alarme, mas não havia razão para pedir ajuda. Além disso, não havia tempo, pois eu precisava capturá-lo antes que fugisse. Creio que esse garoto é cúmplice do criminoso que envenenou a nossa água.

Edon cheirou o interior da sacola. Não era necessário nenhum tipo de magia para envenenar um poço. Certos tipos de ervas e raízes podiam dar cabo dessa tarefa. Com efeito, o conteúdo da sacola apresentava um odor pungente.

 É veneno, senhor?  Embla indagou em tom receoso.

 Não sei, mas tem cheiro forte  Edon fechou a bolsa, pretendo examiná-la mais tarde, num local mais iluminado. Guardou a espada e, puxando-o pela túnica, obrigou o menino a levantar-se.

 Odin nos proteja! Veja as tatuagens dele!  Embla exclamou, apontando para os sinais marcados no ombro do garoto, revelados quando Edon puxou-lhe a túnica.  É um assassino celta!

Nesse momento, um grupo de sentinelas liderado por Rig aproximou-se correndo, trazendo tochas por sobre as cabeças. Sob a luz, Edon esperava identificar a criança. Seu rosto era comum, mas os dragões entrelaçados da tatuagem no ombro, não.

Edon entregou a sacola ao seu general. O garoto começou a espernear, tentando a um só tempo golpeá-lo e desvencilhar-se.

 Fique quieto, seu malandro  o vice-rei ordenou-lhe.  Você não vai a lugar nenhum.

 Solte-me  Venn protestou.  Eu não fiz nada! Essa bolsa não é minha!

 Eu vi quando ele a jogou no chão, antes de pular a paliçada  Embla acusou.

 Mentira!  Venn sibilou. Seu ódio por aquela mulher, que sempre fora imenso, atingia agora limite extremos.

Rig examinou um punhado de raízes e alarmou-se ao identificá-las.

 Raiz sanguinária e sombra-da-noite, milorde. Aqui há veneno suficiente para matar cada homem, mulher e criança do condado.

 Já disse que isso não me pertence!  Venn defendeu-se, respirando com dificuldade. Sabia que precisava escapar dali de algum modo. Balbuciando orações para que Lugh lhe emprestasse a força de que precisava, girou o corpo e atingiu a perna de Edon com todo o seu peso e, ato contínuo, esmurrou-lhe o ventre e logrou sair em disparada.

Edon soltou-o porque se surpreendera com o inesperado ataque, não por se ter machucado. Na verdade, o golpe nem lhe fizera cócegas. Como a túnica do menino era velha, o tecido rasgou-se, facilitando-lhe a fuga.

Furiosa e frustrada, Embla percebeu que aquela era a sua chance. Disparou atrás de Venn, gritando:

 Não se preocupe, milorde! Eu lhe pouparei o trabalho de sujar a sua espada com o sangue imundo desse celta!

Brandiu a lâmina no ar, com a intenção de decapitar o fugitivo com um só golpe.

A perna direita de Venn, que estava ferida, falhou e ele tombou no chão, milagrosamente escapando da espada de sua perseguidora no último instante.

 Maldição!  Edon praguejou em altos brados, correndo para impedir uma tragédia. Agarrou o pulso de Embla e empurrou-a para o lado antes que ela tentasse um segundo golpe.  Não! Já basta!  Postou-se entre ela e o garoto, protegendo-o com o próprio corpo.  Não importa que crimes ele cometeu, nenhum garoto de Warwick será assassinado pela sua fúria cega enquanto eu for o vice-rei!

Dessa vez, Venn enrodilhou-se no chão, certo de que morreria a qualquer instante. O sangue pulsava forte em suas têmporas, impedindo-o de prestar atenção as palavras de Edon.

O feroz líder dos viquingues agarrou a arma de Embla pela lâmina de gume duplo. Ela praguejou, num guincho esganiçado.

 Rig, venha até aqui  Edon gritou.

 Pronto, senhor  Rig obedeceu, abrindo caminho entre os guerreiros irados.

O vice-rei ergueu o menino, puxando-o pelo braço tatuado, e o observou dos pés à cabeça. Era muito jovem e exibia um galo na testa. Um filete escuro de sangue escorria-lhe da boca.

Era evidente que Embla já o havia surrado bastante quando Edon interveio. Era um milagre que ainda não lhe tivesse decepado a cabeça para ostentá-la como troféu.

 Tome conta desse prisioneiro. Cuide de sua segurança. Nós vamos investigar seu suposto crime assim que o sol nascer.

 Para que desperdiçar seu tempo dessa maneira?  a sobrinha protestou, desafiando-o.  Eu o peguei em flagrante. Pela lei de Odin, é meu direito tomar-lhe a vida. Exijo que o entregue a mim e me deixe concluir o que comecei.

Edon perscrutou os semblantes dos homens. Vários dos guerreiros concordavam com Embla. Condenavam uma criança à morte sem saberem se era realmente culpada. Nenhum deles escutara, ou dera atenção, quando o garoto negou ser dono da bolsa. Edon e Virna haviam passado um tempo considerável junto ao poço e também na pequena elevação, não muito distante, antes de ouvirem o grito. As acusações de Embla não encontravam amparo no que ele havia testemunhado. Algo não estava certo naquela história.

Antes que se iniciassem os manifestos em favor de Embla, ele ergueu a voz.

 Talvez alguns de vocês ainda não tenham entendido as minhas ordens.  Um respeitoso silêncio espalhou-se entre os soldados.  Eu determinei que nenhum homem, ou mulher ou criança de Warwick sofrerá execução sumária. Todos terão direito a um julgamento justo, onde sejam apresentadas as provas concretas de seu crime.

Rig segurou a mão de Venn e apressou-se a conduzi-lo para junto de Edon ao ouvir um homem interpelar:

 De que provas o senhor precisa?

 Embla Garganta de Prata lhe contou tudo o que presenciou  outro deles acrescentou, em seu apoio.

 É. Isto basta para nós!  um terceiro exclamou.

 Mas não basta para mim! E eu sou o vice-rei de Warwick, não Embla Garganta de Prata e tampouco vocês.  Com um gesto autoritário e ameaçador, colocou-se na frente de Venn, com as pernas abertas e os punhos crispados, fitando cada rosto com expressão de desafio. Aqueles eram homens rudes, habituados a matar e saquear sem pensar duas vezes. Consideravam Embla uma espécie de deusa, uma verdadeira valquíria que os valorizava e conduzia a gloriosas batalhas contra os mercianos.

Contudo, misturados em suas fileiras, estavam os soldados bem treinados do vice-rei, guerreiros perigosos e leais até a morte. Maynard balançou a cabeça para Edon e postou-se atrás de Embla. Bastaria um pequeno sinal e a sobrinha do rei seria cortada em pedaços.

Ela olhou para trás, viu Maynard e compreendeu. Sem se deixar intimidar, voltou os olhos para Edon, como se o desafiasse a ordenar-lhe a morte.

 E então, milorde?  provocou-o.  O que me responde? Eu declaro que esse garoto é meu prisioneiro e escravo, já que perdeu a luta esta noite. Exijo que o entregue a mim, como qualquer vice-rei entregaria um escravo tomado em batalha. Se quiser, proíba-me de matá-lo, será um prazer. Eu o farei suplicar pela morte.

Como reação àquelas terríveis palavras, Venn tentou livrar-se da mão de Rig, que prendia seu pulso com firmeza, enquanto resmungava palavras ininteligíveis.

Nesse momento, Sarina uivou entre as árvores. O leão de Edon rugiu do lado de dentro da paliçada. Cada cachorro e animal feroz das redondezas começou a ganir e uivar. Um súbito vento elevou-se do rio e correu por entre as copas das árvores.

Então, tudo aconteceu no tempo de duas batidas do coração. Edon recuou um passo, sendo logo imitado por seus seguidores. Eles olharam ao redor com ansiedade, como se fantasmas ou espíritos os cercassem.

No íntimo, Edon considerava o episódio particularmente insólito. Aquele garoto e Embla não eram estranhos um para o outro, mas sim inimigos antigos.

 Venha buscá-lo, cara sobrinha  Edon ripostou, sua voz sobressaindo com esforço sobre os ruidosos uivos que cortavam a noite.  Venha. E aproveite para me contar a que batalha eu a enviei esta noite. Minha última ordem para você, testemunhada por todos, foi que se recolhesse aos seus aposentos. Onde está o tecido que lhe mandei fiar? Ou será que a sua roca se quebrou?

 Não realizo tarefas femininas imbecis, Lobo de Warwick. Sou uma valquíria de Guthrum, assim nomeada quando ele colocou esta gargantilha de prata em meu pescoço. Como guerreira, posso derrotar qualquer dos homens aqui presentes.

Edon soltou uma gargalhada escarninha.

 Por Odin, será verdade? Pois a mim você não derrota, mulher  replicou, desafiando-a deliberadamente.

Muitos dos viquingues a quem ela vencera no passado agora fitavam-na de modo diferente. Edon sabia que poucos ali não lhe admiravam a intrepidez, pois era inegável que ela era corajosa o bastante para provocá-lo em público.

 Sou o vice-rei de Warwick, Embla Garganta de Prata. Tenho o que você jamais terá, masculinidade! Venha, experimente lutar comigo. Você foi longe demais tentando agir como homem, não vá recuar agora. Vamos, mostre que é um macho!

A provocação fez os homens rirem, exatamente como Edon desejava. Ela precisava ser humilhada publicamente para aprender. "Não que isso possa trazer Harald Jorgensson de volta à vida", pensou com ressentimento.

 Vá em frente, Garganta de Prata  gritou um viquingue ao lado de Maynard.  Experimente a lâmina no vice-rei!

Nay, milady, não faça isso!  tentou dissuadi-la outro homem.

Durante alguns minutos, vários dos guardas manifestaram-se contra e a favor do embate, estimulando Embla ou desencorajando-a.

O luar fornecia luz suficiente para revelar a raiva crescente que tingia de vermelho o rosto contorcido da sobrinha do vice-rei. Edon não disse mais nada, nem se juntou às gargalhadas gerais que espocavam a todo instante. Desejara que a mulher recuasse, mas agora percebia claramente que seria impossível submetê-la à sua autoridade apenas com a ajuda do tempo e de muita paciência. Qualquer esperança de paz entre ambos estava acabada. O insulto a Edon, feito na frente dos homens que ela comandara em sua ausência, representava o golpe de misericórdia.

No dia seguinte, iria mandá-la para Guthrum. Era melhor deixar que o rei decidisse seu destino. Se ela permanecesse mais tempo em Warwick, sem a menor sombra de dúvida teria de matá-la. E ele não queria o sangue de uma mulher em suas mãos.

Tendo decidido o destino da esposa de Harald, ordenou a Rig que levasse o garoto embora. Venn, entretanto, não queria abandonar a cena antes do confronto final. Ninguém jamais se havia dirigido a Embla Garganta de Prata como fizera o viquingue de cabelos negros. Podia-se sentir o cheiro do ódio e da raiva dela no vento inquieto. Contudo, logo em seguida o grande e loiro viquingue chamado Rig fechou as mãos maciças em seus braços e forçou-o a afastar-se dali.

Assim que o prisioneiro foi retirado, Edon fitou os viquingues com uma expressão grave e desembainhou a espada. Com uma deliberada exibição de poder, ergueu o braço e abaixou-o, enterrando a ponta da lâmina na terra, entre os pés. Desse modo, atraiu a atenção de todos.

 Ouçam-me, para que não haja mais nenhum mal-entendido!  sua voz soou alta e clara por entre o assobio do vento.  Só existe lugar para um vice-rei em Warwick! Apenas um homem pode ser investido com esse poder. Estou diante de vocês como esse homem. Aqui está a minha espada. Qualquer um que queira desafiar-me, venha e arranque-a da terra! Arrebatem a espada do Lobo de Warwick!

Na véspera, todos os viquingues de Warwick testemunharam a força e a habilidade de Edon com aquele tipo de arma quando a cabeça de Asgart rolou de sobre os ombros. Claro, havia alguns que julgavam-se tão competentes quanto ele. A tensão que pairava no ar era palpável, mas nenhum homem avançou para tentar conquistar a espada do vice-rei.

Embla manteve-se rígida como um estátua de pedra, ruminando sua fúria interior, sabendo que não podia derrotar seu inimigo numa luta justa. Em silêncio, orou para que Freya a ajudasse a derrotá-lo. Ele haveria de implorar-lhe pela vida, como fizera seu covarde sobrinho, Harald. Mas ela não teria compaixão. Ao contrário, pretendia torturá-lo ainda mais, fazendo-o morrer lentamente, depois de semanas, talvez meses, de agonia. O jogo ainda não terminara, e ela acabaria conquistando o poder que tanto ambicionava.

Por ora, o confronto chegara ao final. Os guerreiros dispersaram-se, sacudindo a cabeça e rindo. Voltaram para o que faziam antes, seus jogos, bebidas e brincadeiras.

Em poucos instantes, duzentos homens reduziram-se a um pequeno grupo. A maioria compunha-se de escravos de Edon. Embla permaneceu imóvel no mesmo lugar de onde lançara seu desafio. Respirava depressa, em curtos haustos. Tinha olhos cheios de lágrimas de ódio, que lutava amargamente para conter, sem muito sucesso.

Aquelas lágrimas comoveram Edon de uma forma inesperada. Uma coisa era vê-la erguer o queixo com arrogância. Outra era ver o mesmo orgulho se romper, deixando-a vazia e sem esperança. Em vão, tentou imaginar o que lhe havia corrompido a alma, destroçando-lhe a feminilidade e todas as virtudes dela advindas, suavidade, compaixão e bondade, por exemplo.

Em seu lugar, Virna estaria soluçando. Na verdade, Virna jamais se colocaria naquela situação. Que mulher, com o mínimo de amor no coração, arriscaria tudo por um lote de terra?

Os animais de há muito se haviam calado, e o vento apaziguara. A quietude da noite só era perturbada pelos ruídos dos pássaros noturnos e por uns poucos predadores que vagavam pela floresta. Internamente, Edon sentiu-se abrandar, mas não sabia como transpor o abismo que se interpusera entre ele e a esposa de seu sobrinho. As barreiras impostas por ela impediam-no de abrandar também sua atitude. Ele era o príncipe herdeiro. O sangue real corria em suas veias, não nas dela.

Ainda assim, concedeu-lhe mais tempo para recuar com dignidade, talvez até pedir-lhe perdão. Mas Embla deixou a oportunidade perder-se.

Então, Edon rompeu o silêncio. Suas palavras soaram bem moduladas, o tom absolutamente neutro.

 Agora, chegou a hora de me explicar o que realmente aconteceu entre você e Harald Jorgensson. Eu ouvirei a sua versão dos fatos com isenção, abstendo-me de julgar... quem sabe até deixando para trás o que já passou. Não sou um homem impiedoso, Embla. Se perdoei o garoto pelo suposto envenenamento do poço, posso ser convencido a perdoá-la também.

As lágrimas secaram-se nos olhos de Embla. O aço de que era feito seu coração se forjara nas fornalhas do ódio. Fitando-o com olhos gélidos, ela replicou:

 Há cerca de um ano, o vice-rei Harald desapareceu. Foi levado para a floresta de Arden por sua namoradinha, Virna ap Griffin, aquela sem-vergonha!

Edon enrijeceu-se, odiando os insultos que Embla cuspia com a mesma facilidade com que respirava. Mas nada fez para interrompê-la, determinado a deixá-la dizer tudo o que quisesse. Sentia-se mais otimista do que nunca quanto ao deslindamento do misterioso desaparecimento de seu sobrinho. Talvez a enxurrada de palavras seguinte revelasse o segredo.

 Posso dizer-lhe exatamente como ele morreu, pois vivo aqui com seus adorados celtas há dez anos. Conheço meus inimigos muito melhor do que você, Edon Halfdansson.

Ele balançou a cabeça;

 Prossiga.

 As bruxas ap Griffin lançaram poderosos feitiços, atraindo os homens para a floresta. Na noite de Lughnasa, assaram um bolo especial com o último milho da terra. Uma parte do bolo, marcada com ferro em brasa, foi oferecida aos convidados do sexo masculino para o festim das primeiras frutas. Harald Jorgensson também foi escolhido para comer um pedaço.

 Em conseqüência das ervas venenosas colocadas no doce, meus guerreiros ficaram com a cabeça confusa e permitiram que lhes despissem as vestes logo após a refeição. Então, o ritual de morte teve início. Contudo, não lhes parecia real, e acreditaram tratar-se apenas de uma encenação.

 As bruxas e os druidas serviram diversas vezes aos participantes uma cabeça contendo um forte hidromel, até esvaziarem o caldeirão. Então, Harald foi colocado diante deles, forte e viril, um macho capaz de dar prazer a cada bruxa da floresta. Um homem invejado pelos druidas por sua bravura e habilidade nas artes da guerra.

 Eles o levaram até a estrada que cruza o Lago Negro, no ponto em que o pântano se transforma em lodaçal, onde fica seu altar sangrento. Uma corda feita de tripa de carneiro foi amarrada em seu pescoço com três nós. Um guerreiro golpeou-o por trás, atingindo a têmpora do estonteado Harald.

 O druida torceu o garrote em sua garganta. As veias incharam, seu pescoço foi esmagado e ele já não podia respirar. Mesmo assim, ainda conseguiu ver a lâmina de osso que espetaram em sua garganta. Ele pôde senti-la perfurando-lhe a carne e sentiu quando seu sangue jorrou, num jato quente e forte.

 Seu coração batia forte e feroz, numa cadência igual à dos tambores dos pantomimeiros. Aquela sua adorada feiticeira trouxe o caldeirão vazio para capturar cada gota daquele sangue até que o coração dele, aquele forte coração que eu tanto amava, parou para sempre, e o último sopro de vida se esvaiu de suas veias.

 Os pés do meu Harald haviam escorregado sob ele, afundando-se pouco a pouco na água negra. Mas os monstros o impediram de emergir em sua pantanosa cova enquanto seu sangue jorrava. Então, deixaram-no desaparecer no lodo. Uma tripla morte, lorde Edon, ele foi drogado, garroteado e privado do próprio sangue.

 E ouça meu aviso. O dia de Lughnasa está próximo. Cuidado. A bruxa do Lago Negro já lançou um feitiço sobre você.

Encerrando o depoimento com esse sombrio vaticínio, Embla guardou a espada. Em seguida, prostrou-se aos pés do vice-rei.

 Proteja seu lindo garoto tatuado, Lobo de Warwick. Que vocês dois apodreçam pela eternidade em dez infernos cristãos, atormentados por todos os demônios que a humanidade conhece.

Depois de lançar essa praga, Embla levantou-se e, ereta e orgulhosa, caminhou na direção dos portões da fortaleza sem olhar para trás.

Maynard, testemunha silenciosa do relato e da maldição, fitou seu senhor com ar soturno, perscrutando sua reação às palavras insanas da mulher. Nenhum dos guerreiros que haviam permanecido junto do vice-rei tinha rido ou feito qualquer comentário. Ninguém ali costumava rir de pragas e maldições.

 Como é que ela conhece todos os detalhes do ritual?  Maynard questionou em tom baixo, para que apenas Edon o ouvisse.

 Esta, meu amigo, é uma boa pergunta. Se descobrir a resposta, avise-me imediatamente. Enquanto isso, tome conta daquela sacola e verifique se não há raízes espalhadas pelo chão. Nels, precisarei da sua ajuda.

 Às suas ordens, lorde Lobo.  O bispo curvou-se, admirado com a habilidade de Edon em controlar situações particularmente perigosas sem fraquejar.  Há muitos demônios à solta, esta noite.

Aye, se há  Edon concordou. Então, pediu ao padre que se encarregasse da conversão do garoto. Pretendia julgá-lo e, se o considerasse inocente, queria apenas que vivesse como cristão. Se, ao contrário, tivesse de condená-lo à morte, seria imprescindível salvar-lhe a alma antes de executá-lo.

O bispo assentiu, refletindo que aquela noite mostrara por que motivo dois reis depositavam sua inteira confiança no Lobo de Warwick. Esperava que ele também se submetesse ao batismo, e o mais breve possível, pois sabia que todos no condado o imitariam. Líderes assim carismáticos eram raros. E preciosos, pois cada um de seus atos inspirava o povo a segui-lo até a morte.

O coração de Virna continuou fora do ritmo por muito tempo depois que os portões da fortaleza se fecharam. Edon mal havia corrido para descobrir a causa daquele grito horripilante quando ela foi encontrada por um de seus homens e imediatamente levada para o castelo.

As pesadas portas de carvalho foram trancadas por dentro pelos leais soldados da guarda de Edon, que permaneciam sempre de prontidão para proteger as mulheres.

 Graças a Deus está a salvo, princesa.  Lady Eloya abraçou-a com evidente alívio. De braços dados, as duas subiram para o salão principal.

Haviam apagado todas as tochas e a única luz consistia no luar quase dourado que se infiltrava pelas janelas. Familiarizada com a posição dos móveis, lady Eloya conduziu-a com segurança até o canto onde as mulheres se haviam reunido.

Sem opor resistência, Virna deixou-se guiar, aguçando os ouvidos para tentar discernir o que acontecia lá fora. Tudo o que conseguia escutar, porém, eram os gritinhos e murmúrios apavorados das damas do castelo, que julgavam que a fortaleza estava sendo atacada.

 Theo, diga-nos o que vê  lady Eloya rogou-lhe.

 Não há nenhum exército atacando nossos portões, senhoras  o vidente cego afirmou com convicção.  Façam silêncio e perceberão que não se ouve ruído de metal contra metal, nem e sente o cheiro de sangue. Não há motivo para pânico.

Virna mordeu o canto inferior da boca. O medo demonstrado pelas viquingues não era nada comparado ao dela. Algo mais medonho do que uma batalha acontecia naquele exato momento. Não sabia do que se tratava, mas seu instinto gritava que um grande perigo rondava o seu povo. Sem fazer alarde, aproximou-se de uma janela e rezou. Invocou os elementos para que corressem em seu auxílio e impedissem que uma tragédia acontecesse, fosse lá qual fosse.

Os animais começaram a uivar e a rugir, um vento inesperado varreu a copa das árvores e gemeu pelo pátio. Durante um tempo que lhe pareceu uma eternidade, o vento soprou, os animais uivaram e a sensação de perigo a atormentou. Por fim, a natureza acalmou-se. Virna, porém, continuou aflita, atribuindo a si mesma a responsabilidade pelo que ocorrera aquela noite. Quando voltaria a agir com o bom senso que se esperava de uma princesa? Por que todas as vezes que se aproximava do vice-rei de Warwick, começava a comportar-se como uma idiota?

 Vejam  lady Eloya exclamou.  Os homens voltaram!

Todas as mulheres dispararam para as janelas e constataram que os guerreiros retornavam para o castelo.

Mas havia um prisioneiro.

O coração de Virna falhou uma batida. Rig de Sunderland amarrava uma corda em volta do pescoço de Venn ap Griffin, prendendo a outra ponta no mastro erguido no pátio. Virna sentiu os joelhos fraquejarem. Alguns minutos depois, Embla Garganta de Prata cruzou os portões com passos firmes e arrogantes.

O que sucedera, afinal? Por que acorrentavam Venn? O que ele poderia ter feito para que o melhor homem de Edon o tratasse como um cachorro selvagem? Horrorizada, Virna espiou enquanto o viquingue prendia correntes de ferro nos tornozelos e pulsos do menino.

Uma pequena e escarnecedora multidão se juntava, à medida que os homens entravam pelos portões. Embla deteve-se na beira da multidão, como um abutre aguardando a morte para atacar. Nem bem Rig concluiu sua tarefa de prender o prisioneiro, Embla apanhou uma vareta e começou a atormentar o indefeso garoto, desafiando-o a revidar, se conseguisse.

Virna quase se atirou pela janela ao ver o irmão arriscando-se a quebrar o pescoço, num esforço para atingir Embla de algum modo.

 Princesa!  lady Eloya gritou, alarmada.  Espere! Alguém, depressa, acenda uma tocha. Princesa Virna, não pode saltar pela janela, é muito alto!

Ela porém, não podia esperar até que providenciassem luz. Desistindo da janela, disparou para a escada, esbarrando em bancos e cadeiras. No salão inferior, uma tocha solitária ainda queimava perto da porta onde Eli montava guarda. Virna voou naquela direção, bradando:

 Abra a porta! Abra-a ou morrerá!

Havia sacado uma adaga da bainha oculta sob a túnica. Eli fitou a lâmina que reluzia no ar e considerou-a insignificante. Quando ela se aproximou, segurou-lhe o pulso e desarmou-a com facilidade.

 Eli, abra a porta!  Virna tornou a ordenar.  O que quer que tenha acontecido, já acabou. Eu preciso ir.

Só nesse momento os guardas do lado de fora bateram na porta, mandando abri-la.

 Viu?  Virna disse a Eli.

Sem se deixar impressionar, ele replicou:

 Fique fora do caminho, milady.

Reunindo o pouco que lhe restara de paciência, Virna recuou um passo. Com exasperante lentidão o rapaz retirou a trava e, assim que viu uma brecha Virna disparou por ela.

Teve de deter-se, porém, ao esbarrar numa verdadeira muralha humana, composta por Edon de Warwick, Rig, Thorulf, Rashid, Maynard, o Negro e o bispo Nels de Athelney. Edon agarrou-a pelos ombros.

 Princesa, aonde pensa que vai?

 Por Anu!  Virna esbravejou.  Por que acorrentou meu irmão?