Capítulo Dez

Estupefato, o vice-rei fulminou a princesa com o olhar onde a raiva flamejava como fogueiras de Beltane. Os seis homens ao lado dele paralisaram-se, surpresos e indecisos.

 Você está insinuando que...  Edon tartamudeou, apontando com a espada para o garoto preso no mastro.  ... que aquele menino é o príncipe herdeiro de Leam?

Virna sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

 Sim  murmurou com desespero, caindo de joelhos diante do Lobo de Warwick e agarrando-lhe as mãos. Em prantos implorou-lhe:  Por favor, milorde, liberte-o e eu farei tudo o que me pedir. Eu lhe rogo, não o castigue, não importa o que tenha feito. Eu me ofereço para receber a punição em seu lugar. Não lhe faça mal. Ele é o eleito dos deuses, se lhe tocar um único fio de cabelo, Lir lançará seu dardo vermelho e sua flecha amarela sobre a terra. Tudo será destruído... cada planta e cada animal sofrerão uma morte atroz, bem como todo o povo de Leam, viquingues e mercianos. Por favor, milorde, solte-o.

Edon recuou um passo. Ela tornara a aludir a bruxarias e sua paciência para tolerar tolices desse tipo já se havia esgotado.

 Então, deseja barganhar comigo, Virna ap Griffin?

 Meu senhor  a princesa sussurrou, abalada com sua súbita frieza.  Eu lhe suplico... Não conhece a fúria da vingança dos deuses tanto quanto eu.

 Vice-rei de Warwick, protesto  Nels interveio.  Esses deuses pagãos não têm poder algum sobre nós. Pense no que seu irmão dirá se você ceder aos caprichos dessa senhora.

 Com a sua licença  Edon replicou com firmeza, fitando-o com reprovação por interferir em seus assuntos , gostaria de resolver este problema sozinho. A questão é a identidade desse garoto acorrentado ao mastro.

 Que mal uma simples criança poderia ter feito a você?  Virna gritou.

 Um grande mal, princesa  Edon acenou a Thorulf para que mostrasse a sacola, prova principal do crime.  Ele pretendia colocar raízes venenosas no nosso suprimento de água. É assim que os seus deuses derrotam seus inimigos, Virna ap Griffin? Enviando garotos para envenenar poços e, assim, matar mulheres e crianças inocentes?

Virna espantou-se. Examinou atentamente a bolsa, identificando as raízes exibidas por Thorulf, e concluiu que jamais vira aquela sacola antes. Não pertencia a Venn.

 Não, Edon de Warwick, os meus deuses não agem dessa forma. Não mandam ninguém, principalmente crianças, em seu lugar. Se meu irmão portava essas raízes, não o fazia para envenenar o seu poço.

 Como sabe?  Edon interpelou, irado.

 Porque de fato usamos todas essas raízes, mas apenas para curar doenças ou para encantamentos benéficos, como para obter amor e prosperidade. A sanguinária, por exemplo, é um afrodisíaco poderoso e protege seu portador.

 Pois não protegeu seu irmão esta noite, Virna  Edon contrapôs, erguendo uma sobrancelha com evidente descrença.

 Exatamente, milorde. E este é um argumento em seu favor  ela rebateu com firmeza.

 Como assim? Não me exaspere, princesa ap Griffin, e diga de uma vez o que faz um menino dessa idade com tantas raízes de sombra-da-noite em sua sacola.

Virna umedeceu os lábios.

 Branwyn, a Senhora do Lago, roubou sombra-da-noite de seu irmão, Lir. Ele achava que a raiz só servia para inspirar os homens para a guerra, mas Branwyn havia encontrado outras utilidades bem melhores. Descobrira que podia usar a raiz para mudar de forma e viajar ao Outro Mundo, bem como para ver o passado e o futuro. Por favor, milorde, se realmente acredita que Venn trouxe essas raízes para lhe fazer mal, deixe-me ser punida no lugar dele. Mas solte-o, por todos os deuses. Farei tudo o que quiser em troca da liberdade de meu irmão.

Virna sentiu na boca o gosto do medo. Como confiar naquele homem? E se ele fizesse cumprir a promessa e, depois, não soltasse Venn? E se a obrigasse a submeter-se à sua vontade pelo resto da vida?

Contudo, sua decisão já fora tomada, para o melhor... ou para o pior.

 É verdade, milorde, afirmo perante todos que me submeterei à sua vontade, seja esta qual for. Se libertar o príncipe herdeiro de Leam, serei sua escrava pelo resto dos meus dias  declarou com honestidade.

Edon perscrutou-lhe os olhos e constatou que estava sendo sincera. Ele vencera a batalha que ambos vinham travando desde que se conheceram. Não haveria mais discussões sobre o casamento ordenado pelos dois reis. Sua união ligaria os dinamarqueses de Warwick e os nativos de Leam. Virna era a soberana de seu povo, e sufocaria qualquer resistência. Sim, tudo daria certo.

Contudo, não lograva sentir-se feliz. Claro que, como vice-rei, regozijava-se com a vitória. Mas o homem queria mais. Queria que Virna se tornasse sua esposa por amor, não como um sacrifício para salvar a vida do irmão. Era estranho... em princípio, preocupara-se apenas em fazer o que fosse o melhor para Warwick, mas, agora... os sentimentos pareciam-lhe importantes.

Entretanto, não podia dar-se ao luxo de exigir tanto. O rei Alfred chegaria em breve, e urgia tomar providências para que suas ordens fossem cumpridas à risca. Virando-se para os homens ao redor, indagou:

 Nels de Athelney, você ouviu as palavras da princesa de Leam? Seu voto de rendição incondicional a mim?

Aye, lorde Lobo  o bispo confirmou, perplexo com o rumo inesperado dos acontecimentos.

 E você, Rig?

 Sim, milorde. Ouvi a princesa jurar que se submeteria ao senhor em troca da liberdade de seu irmão.

 Rashid? Maynard? Thorulf?  Edon dirigiu-se com gravidade a cada um deles, para que dessem seu testemunho da petição da princesa. Todos atestaram ter ouvido o juramento.

Edon balançou a cabeça, satisfeito. Não alterou a gravidade de seu semblante ao voltar-se para Virna.

 Então, a partir deste momento fica por todos entendido que nunca mais se alegará que as princesas e sacerdotisas de Leam são proibidas de contrair núpcias. Correto?

Edon percebeu que os ombros de Virna se vergaram sob o peso da derrota, mas seu queixo manteve-se erguido com altivez quando ela respondeu:

 Sim, milorde.

Edon sentia-se acossado por emoções tumultuadas e contraditórias. Por um lado, reconhecia a própria boa sorte: conseguir a rendição de um reino em razão de um bocado de raízes parecia até inverossímil. Por outro lado, sentia a dor que oprimia o coração dela, e essa sensação de empatia, além de inédita era-lhe absolutamente inconveniente.

 Muito bem, Virna ap Griffin, desta forma a sua promessa de trocar sua vida pela do príncipe herdeiro de Leam foi garantida. Rig, solte o garoto. Nels de Athelney, ordeno-lhe que tome o príncipe sob sua custódia e o acompanhe até Evesham. Futuramente, deverá entregá-lo ao seu tutor legal, Alfred de Wessex. Levante-se princesa, você virá comigo.

Ela cobriu o rosto banhado de lágrimas com as mãos, soluçando de alívio. Contrafeito, Edon curvou-se e ajudou-a a erguer-se. Manteve-a presa pelo pulso, dizendo a si mesmo que assim procedia para evitar que ela corresse para junto do irmão. Contudo, em seu íntimo, sentia que naquele momento ela precisava de todo o amparo possível.

Edon pressentia que seria mais prudente manter os dois irmãos separados. Ambos eram pessoas misteriosas, que insinuavam possuir poderes estranhos. Dali em diante, trataria de investigar esse enigma.

A princesa estava aterrorizada, Edon pôde percebê-lo claramente ao entrar no salão, mais tarde, naquela mesma noite. Encontrou-a sentada numa cadeira almofadada, as mãos crispadas sobre o colo. Absorta, não se envolveu no falatório que a entrada dele provocou. As senhoras o crivaram de perguntas, querendo saber tudo em detalhes, quem era o prisioneiro, que crime havia cometido e que medidas o vice-rei tomaria.

Edon não ignorava o que atormentava a princesa. Virna ap Griffin preocupava-se com as repercussões de sua impensada promessa. Talvez se torturasse por não ter simplesmente trocado de lugar com o irmão no mastro, em vez de jurar eterna obediência.

O começo da madrugada mostrava-se bastante frio, principalmente em contraste com o calor que reinava ao longo do dia e da noite. Eloya mandara trazer mantas e insistira para que Virna ficasse com seu melhor xale. Edon mandou servir hidromel e levou um cálice para ela.

 Beba isto, Virna  aconselhou-a, colocando a taça entre seus dedos hirtos.  Garanto que lhe fará bem.

 O que fez com meu irmão?  ela indagou, erguendo o rosto.

Ele percorreu-lhe a face com as costas da mão que segurava a espada, comovido com a tristeza que lia nos olhos cor de âmbar.

 Interroguei o príncipe sobre suas atividades desta noite e sobre a sacola que ele trouxe a Warwick.

 Aquela sacola não pertence a Venn  Virna argumentou.

 Trata-se de uma bolsa comum, sem nenhuma característica que a destaque  Edon replicou. O príncipe havia alegado a mesma coisa, portanto Virna não lhe contara nenhuma novidade. Não havia evidência alguma que ligasse a sacola a quem quer que fosse.

 Venn possui muitas sacolas, como você também deve possuir, estou certa  Virna ponderou.  Mas ele é um príncipe herdeiro e, por isto, todos os seus objetos de uso pessoal são confeccionados pelos talentosos artesãos. Se fosse de Venn, teria de exibir seu brasão marcado a fogo no couro. Veja...  Virna fez uma pausa em sua explicação para curvar-se e erguer a barra da túnica, expondo os pés calçados em botas de couro.  Percebe, milorde? Reparou nos símbolos no couro das minhas botas.

Edon contemplou o tornozelo delgado que se delineava sob o couro macio do sapato antes de examinar os sinais. Era nítido o desenho de dois dragões entrelaçados.

 Este é o símbolo ap Griffin, dois dragões entrelaçados. Tudo o que Venn possui ostenta essa marca, de uma forma ou de outra, pintada, bordada ou pirogravada. Se a sacola realmente fosse dele, teria obrigatoriamente de exibir os dragões em algum lugar.

Divertido com aquela demonstração simplista da inocência de Venn, Edon sorriu, acariciando-lhe o pescoço.

 Está-me dizendo que tudo o que você possui também tem essa marca, milady? Pode mostrar-me onde está o símbolo na sua túnica?

Virna franziu a testa e apertou os lábios. Contudo, sem protestar, colocou a taça de lado e desatou os laços que lhe fechavam a gola da túnica, expondo o corpete de linho por baixo. Deslizou a túnica até debaixo do busto e mostrou-lhe o avesso do tecido, onde dois dragões entrelaçados haviam sido caprichosamente bordados.

Edon sentiu-se tentado a contemplar, em vez do símbolo, os seios fartos que se comprimiam sob o corpete. Conteve o ímpeto, porém, e limitou-se a examinar os dragões.

Ocultando o embaraço, Virna apanhou a bolsinha escondida na cintura da veste e desatou-lhe as fitas.

 Por favor, abra a mão, milorde  pediu-lhe.

Aquiescendo, Edon estendeu-lhe a palma, onde ela depositou o conteúdo da bolsa. Edon contemplou as ervas, notando que haviam sido separadas em pequenos maços amarrados com uma fita estreita.

 O que é isto  inquiriu, sem identificar as folhas e flores secas que ela pousara em sua mão.

 Minha flor, campânula. Todas as pessoas que carregam campânulas junto ao corpo são compelidas a só dizer a verdade.

 Ah-ah  Edon assentiu.  Então, você chegou ao ponto que queria, esta flor é a prova da sua sinceridade. Certo?

 Sim e não  Virna retrucou, sombria.  Dizer sempre a verdade é um dos mais sagrados deveres de uma sacerdotisa de Leam. Por isto devo segurar as campânulas em minha mão direita quando presido o tribunal perante o meu povo. Como regra geral a flor impede que se minta.

Edon apontou para as duas pedrinhas que se achavam entre os maços de ervas.

 E estas pedras, milady? Para que servem?

Virna tocou uma delas com a ponta dos dedos.

 Esta é a magnetita, tem o poder de atração. Ela me trará o que eu mais desejar.

 E a outra? Se não me engano, trata-se de uma ágata cor-de-rosa.

 É, sim, e contém o poder de curar. Esta veio do fundo do meu rio, o rio Leam, a quem meus poderes são sempre dedicados. Na verdade, é o Leam que tem o poder de curar, não eu.

Edon recolocou os talismãs na bolsa, reparando que esta também ostentava o brasão ap Griffin bordado em relevo. Sentia-se mais do que inclinado a acreditar que a sacola não pertencia a Venn. Mas ele poderia tê-la conseguido em qualquer lugar... o mesmo se aplicando a Embla Garganta de Prata.

 Preciso conversar com meu irmão, milorde.  Virna pousou os dedos gentilmente no braço dele.  Venn não pode partir para Evesham desse modo, e sob custódia. Como príncipe, precisa levar os melhores trajes, seu cavalo. Ah, e Stafford deve acompanhá-lo.

 Quem é Stafford?  Edon inquiriu, prendendo uma mecha rubra de cabelos atrás da orelha delicada de Virna. Mais uma vez, fez um esforço imenso para controlar o ímpeto de mordiscar o lóbulo bem torneado.

 O homem de confiança de Venn. O mesmo que Rig é para você  ela explicou, deixando-o tocar-lhe o pescoço com os lábios.

Por alguns instantes, Edon distraiu-se observando o arrepio que suas carícias provocavam na pele alva e macia.

 Você tem sabor de mel...  murmurou, esquecendo momentaneamente o assunto em discussão.  Devo concluir que Stafford é tão sábio quanto Rig? E que, portanto, descobrirá onde se encontra o príncipe Venn ap Griffin, que não regressou para casa esta noite?

Virna suspirou. Não entendia por que não substituíra Venn no cativeiro. Edon nem sequer abordara a questão. Por que recusara a troca que ela primeiro lhe propusera?

 Sim, Stafford saberá exatamente onde iniciar as buscas. Imagino sua reação ao descobrir que o príncipe herdeiro foi arrancado de sua jurisdição. Ah, prevejo grandes confusões...

 Evesham fica dentro da minha jurisdição  Edon revelou, ainda distraído com a visão de seu colo, com o início dos seios fartos atraindo-lhe o olhar como a magnetita que ela trazia na bolsa. Não mais se contendo, passeou com os lábios nessa direção.

Também perturbada ao extremo, Virna se esforçou para raciocinar com clareza e escolher as palavras com todo o cuidado.

 O povo da floresta de Arden ignora a extensão jurisdicional do vice-rei de Warwick, milorde. A maioria concluirá que o príncipe foi esquecido nas masmorras de Embla.

 O que quer dizer com "esquecido nas masmorras de Embla"?  Edon indagou, subitamente alerta.

 Exatamente o que disse. A masmorra de Embla é um lugar onde as pessoas são colocadas e esquecidas para sempre. Interrogue qualquer escravo que tenha a infelicidade de servi-la.

 Existe um lugar assim aqui?

Virna sacudiu a cabeça.

Milorde conhece Warwick melhor do que eu, que sempre me mantive a distância, por medida de segurança.

Dito isto, ela se recolheu a um silêncio pensativo. Edon terminou de beber o hidromel e removeu o cálice vazio de Virna de suas mãos, colocando as duas taças sobre uma mesinha.

 Venha, já é muito tarde. Vamos para a cama.

Virna ergueu os olhos para fitá-lo, procurando ocultar o pânico que a invadia. Preferia morrer a permitir que ele descobrisse seus sentimentos. Edon retribuiu o olhar, com uma expressão de desafio. "Será que ela tentará ganhar tempo antes de dormir comigo, na esperança de escapar de alguma forma?", pensou.

Apenas a jura solene que prestara diante de tantas testemunhas impedia Virna de soltar a mão que a prendia e sair correndo.

Edon desejou boa noite a todos e conduziu-a para os aposentos dele. Uma criada seguiu-os, carregando uma bacia e uma ânfora com água, bem como toalhas de linho, para as abluções da princesa. Edon instruiu-a para colocar tudo sobre o aparador.

 Estas são as suas roupas e jóias que salvamos do incêndio em Wootton. Sirva-se como quiser  ele ofereceu, abrindo um baú de madeira.

Virna agradeceu e fitou-o com timidez.

Milorde, devo mandar uma mensagem para mãe Wren sobre o meu paradeiro. Meus criados...

 Ficarão preocupados, não é? Para onde devo enviar a mensagem?

 Para o priorado de Loytcoyt. Eu lhe havia pedido que me esperasse lá. Apenas diga que estou bem. Ela descobrirá o resto.

Edon retirou-se, para dar-lhe um pouco de privacidade.

Quando descia as escadas, encontrou Rig e convidou-o para caminhar um pouco. Gostava de patrulhar cada canto da fortaleza todas as noites antes de se recolher, na companhia de seu general. Às vezes, conversavam todo o tempo. Outras vezes, tinham pouco a dizer e preferiam meditar em silêncio.

Conforme os antigos costumes viquingues, ninguém tinha nada a ver com quem o vice-rei dormia ou deixava de dormir. Mas, desde o seu batismo, Rig incomodava-se com aquela fraqueza de Edon. Aquela noite, era ainda pior. Rig sabia que ele pretendia fazer amor com a princesa de Leam. Antes do casamento!

Calados, os dois atravessaram os portões. Os guardas estavam de prontidão, e a sentinela fora reforçada. Um coelho saiu saltitando de trás de uma pilha de tonéis e correu pelo pátio. Edon franziu a testa.

 Alguém deixou a gaiola aberta.

Aye  Rig concordou, sem dar muita atenção. Preocupavam-no problemas mais importantes do que gaiolas abertas.

 Quem toma conta dos coelhos?  Edon indagou, sempre ávido por detalhes sobre as tarefas delegadas a outros.

 O filho de Archam, o Torto, Ranulf, acho que é esse o nome. Você lhes deu um lote de terra perto da pedreira. Ontem eles construíram os alicerces da casa, mas acho que Ranulf dorme no galpão.

 Vamos verificar se ele está dormindo  Edon propôs, voltando os olhos para a muralha.

 Por falar em dormir, milorde, a noite está excelente para dormirmos na colina, sob as estrelas.

 Não tenho a menor intenção de dormir ao ar livre, Rig. Não quando tenho uma cama tão confortável à minha espera.

 Mas a princesa está lá.

Aye  Edon sorriu com satisfação.  E me deu muito trabalho levá-la para lá. Rig, quero que você comece a interrogar os mercianos sobre a masmorra de Embla. Ouvi coisas a esse respeito que não me agradaram. E estou intrigado com as últimas palavras que Asgart disse antes de morrer.

 Que palavras, milorde?  o general indagou, ainda descontente com a obstinação de Edon em deitar-se com a princesa. Os dois ainda não eram marido e mulher perante Deus. O bispo Nels certamente não aprovaria.

 Eu encostara a espada em sua garganta, tinha a vida dele em minhas mãos. Eu lhe disse que não o mataria se me revelasse onde estavam enterrados os ossos de Harald Jorgensson.

 O vice-rei Harald era um viquingue. Seu corpo teria sido cremado, milorde, como é o nosso costume  Rig ponderou.

 Não se ele tiver sido assassinado. Uma pira funerária chamaria muito atenção. Não, Rig, quando eliminamos um inimigo de modo desonroso, não celebramos sua passagem para o Outro Mundo com uma grande cerimônia... ou mesmo com uma pequena. Nós o enterramos discretamente num local conhecido apenas por poucos.

 Ah  Rig assentiu com gravidade.  Faz sentido. Ainda assim, investigamos todas as piras funerárias acesas no último ano. Nenhuma delas nos pareceu suspeita.

Edon fitou as duas alas na extremidade nordeste da fortaleza. A que Embla Garganta de Prata ocupava estava tão quieta quanto uma abadia cristã. Na outra, onde se alojavam os guerreiros solteiros, havia luz. Os viquingues gostavam de beber e disputar jogos de azar até o meio da madrugada.

De pé sob o facho de luz, Edon pôde avistar o interior do aposento do bispo de Athelney. O príncipe herdeiro de Leam, sentado num tamborete, ouvia com ar carrancudo o sermão apaixonado que Nels lhe pregava.

 O que você acha do príncipe?  Edon perguntou.

 Não sei. Só sei que a tatuagem em seu corpo não sai com água.

 Thorulf me disse que é permanente. É estranho que uma tatuagem dessa seja feita numa criança. Deve ter um significado qualquer.

 Qual?  Rig crescera na distante Caledônia, lutando contra os pictos. Eles, também, constituíam um povo estranho, costumavam guerrear nus, como os celtas, e pintados com anil dos pés à cabeça.

 Que o jovem Venn é especial... principalmente dentro do seu clã  Edon concluiu o pensamento.  Cada uma das tatuagens lhe confere, simbolicamente, o poder do espírito dos dragões. Olhe para ele e você quase acreditará que a história maluca que Embla contou esta noite é possível.

 Maluca mesmo. Eu andei pesquisando. Ninguém que conheça os ritos dos sacrifícios druidas se atreve a descrever o que acontece durante os rituais. Marque bem as minhas palavras, Edon. Aquela mulher é desequilibrada.

 Também acho. Creio que será melhor enviá-la para Guthrum. Causa-me espécie que Embla falasse do príncipe como se não o conhecesse, quando estou convencido de que todo o tempo ela sabia de quem se tratava. Também acredito que sua intenção era matá-lo. Pelo menos, parecia bastante empenhada em quebrar-lhe o pescoço, quando os encontrei.

 E é possível  Edon acrescentou, após uma pausa  que a sacola em questão não pertença ao príncipe, mas a Embla. Além disso, ela não explicou o que fazia fora da fortaleza. Thorulf fechou os portões assim que entrei com a princesa. Eu mesmo tive de escalar a paliçada e pular.

Rig refletiu sobre as palavras do vice-rei e balançou a cabeça, partilhando sua desconfiança em relação a Embla.

Edon retomou a caminhada. Os dois chegaram a um muro de pedra que os separava do pântano. Até ali, tudo estava em ordem. As cigarras chiavam. Um rouxinol cantou a distância.

 O que o leva a julgar que sua sobrinha conhecia o príncipe?  Rig inquiriu.

 As coisas que o menino balbuciou, ainda sem fôlego. Ficou muito claro que, embora a temesse, seu ódio por ela era mais forte do que tudo. Quanto à sacola, Virna também sustenta que não pertence a Venn.

 A princesa naturalmente fará tudo para salvar a vida do irmão. Até mesmo mentir, se necessário.

 É verdade. E pensar que, se o garoto estivesse com o tutor, sua segurança seria muito maior. Por que ele se submeteu aos riscos de viver na floresta, cercado de hostilidade e ameaçado por inimigos como Embla Garganta de Prata?

 Isso não sei responder  Rig replicou, carrancudo.  Deve haver alguma coisa aqui que requeira sua presença. Será que é algo tão simples quanto a posse da terra?

 Talvez.  Edon ergueu a mão, de súbito, ordenando silêncio. Ouvira um ligeiro ruído, à esquerda, por trás de um monte de feno. De repente, um jovem saltou de trás do fardo e disparou atrás de um coelho que fugia em passo acelerado.

 Eu te peguei!  o rapaz exclamou, exultante. Agachou-se, sorrindo, e agarrou o bichinho pelas orelhas. Quando percebeu que Edon e Rig o observavam, acomodou o animal no colo com cuidado e murmurou, embaraçado:  Desculpe por assustá-lo, milorde.

Tanto Edon quanto Rig haviam reconhecido o jovem viquingue. Tratava-se de Ranulf, o mais novo dos filhos de Archam, o Torto, que ateara fogo em Wootton.

 Por que há coelhos espalhados por todos os lados, Ranulf? Será que você foi negligente a ponto de se esquecer de trancar bem a gaiola depois de alimentá-los?

 Oh, não, lorde Lobo  Ranulf sacudiu a cabeça, envergonhado.  Duas crianças entraram no celeiro e abriram a gaiola. Eu corri atrás deles, mas os malandros fugiram. Desde então, estou lutando para recuperar os coelhos que escaparam. Acho que este era o último.

 Que crianças?  Edon esperava que os pais soubessem controlar os filhos, ensinando-os a respeitar a propriedade alheia.

 Um menino e uma menina. Mas não moram no castelo, nem são viquingues. Eu reparei que a garota usava uma gargantilha de ouro, muito valiosa, e a ouvi dizer que queria ter um coelho só para ela. Acho que estavam tentando roubar um bichinho. Mas eles correram quando eu cheguei e não os vi mais. Sinto muito, milorde.

Edon aceitou o testemunho de Ranulf como verdadeiro e o dispensou. Em seguida, prosseguiu a ronda.

 Um garoto e uma garota com uma gargantilha de ouro, é?  comentou com Rig.

 E não eram viquingues.  Rig considerava aquele detalhe muito importante.

 A princesa me contou que não existem coelhos neste condado, embora eu já os tenha visto em outras partes da Bretanha. Os animais nativos não têm carne tão suculenta nem apresentam a mesma variedade de peles que os nossos  Edon murmurou.  Você acha que o tal garoto era o príncipe?

 Há um jeito de descobrirmos.  Rig deteve-se e se despediu de Edon.  Eu levarei Ranulf para dar uma olhada no príncipe e ver se pode identificá-lo como o ladrão de coelhos.

O vice-rei aprovou a idéia. O depoimento de Ranulf revelaria um propósito diferente para a presença do príncipe em Warwick.

Edon continuou a caminhada sozinho até a casa de banho, para meditar confortavelmente imerso na água tépida. Além disso, queria livrar-se da tensão e da poeira acumuladas naquela noite. Apesar de a qualidade da água não ser das melhores, ainda era a única disponível na fortaleza.

A nova casa de banho ainda estava em construção. Com sorte, Maynard resolveria o problema trazendo água fresca em breve. Edon esfregou-se diligentemente, então saiu e vestiu o robe que Eli deixara para ele.

Não tendo mais nada para retê-lo, Edon encaminhou-se para os seus aposentos.