Capítulo Onze

Tão irrequieta quanto qualquer dos animais mais exóticos aprisionados na jaulas, Virna esquadrinhou o aposento de Edon. As dependências internas, todas muito amplas, ofereciam-lhe bastante espaço para explorar. Através de uma janela parcialmente fechada com vitrais coloridos, o luar jorrava até a cama.

Pensou que poderia habituar-se a olhar por aquela janela e avistar boa parte de seu adorado vale.

Entretanto, brincava com a idéia de fugir. Improvisaria uma corda com os lençóis, e, lançando o encantamento de invisibilidade, correria pelo pátio e escalaria os portões. Consolava-se com esses planos, sabendo, contudo, que jamais se desonraria com a quebra do juramento.

Além disso, era forçada a admitir que se sentia demasiado curiosa sobre o que sucederia aquela noite. Jamais dormira com um homem, nem imaginara fazê-lo um dia, tendo em vista sua posição social e religiosa. Havia, porém, um detalhe conhecido apenas por poucos, e do qual ela própria se esquecera. A castidade nem sempre constituía um dos requisitos básicos. Às vezes, ocorria exatamente o inverso. As sacerdotisas consagravam o corpo e a alma à Senhora do Lago, que dispunha deles como bem entendesse. Se lhes fosse exigido entregar-se a um homem, não poderiam recusar-se. Nesse caso, manter a virgindade significaria desobediência. Desse modo, não era impossível que seu casamento com o vice-rei fizesse parte dos desígnios da divindade. Como não sabia interpretar os sinais da Deusa, tornava-se impossível afirmar com certeza. Disso resultava um impasse: como devia reagir à excitação que lhe provocava a perspectiva de fazer amor com Edon? Podia dar-lhe vazão ou reprimi-la... mas em qual dos casos estaria atraindo a fúria divina?

Angustiada, sentou-se à janela e contemplou o céu. As estrelas jaziam frias e distantes, como pequeninos diamantes incrustados no negrume da noite. Nada se movia. Nenhum vento trazia nuvens de chuva para encobrir a lua. Tudo era quietude e paz.

Em seu íntimo, ao contrário, a paz não passava de uma possibilidade remota. Preocupava-se com as irmãs. Estariam aflitas, sem saber do seu paradeiro? Algo lhe dizia, porém, que àquela hora elas dormiam em seus leitos, protegidas pelas criadas.

Não, sua ausência e a de Venn não seria percebida antes do amanhecer. Então, Tegwin, Selwyn e Stafford dariam o alarme. Virna suspirou, apegando-se à esperança de que Edon cumpriria sua promessa de enviar a mensagem para mãe Wren.

 O que a faz suspirar tão profundamente?  o vice-rei perguntou, fechando a porta.

Assustando-se, Virna virou-se para fitá-lo.

 Oh, não o ouvi entrar  replicou, levantando-se. Deu um passo em sua direção e tropeçou na barra do camisolão.

 Pudera, estava tão absorta.  Ele a amparou, evitando-lhe a queda.

Ela levantou ligeiramente a barra, constrangida, a fim de não tornar a pisá-la. Sem dúvida, comportava-se como uma tola, quando desejava parecer a mais linda das mulheres. Só não compreendia por que isto a aborrecia tanto. Por que era tão importante mostrar-se bonita?

 O que olhava pela janela, milady?

Virna soltou a saia do camisolão, deixando as mãos penderem. Recobrando a compostura, respondeu:

 A lua, as estrelas, o rio... O vale de Leam é lindo, visto daqui.

Edon ergueu-lhe o queixo com um dedo, aproximando o rosto dela do seu. Contemplou-lhe os cabelos soltos e escovados, formando um rio escarlate de ondas suaves e sedosas que caíam em cascatas até os tornozelos.

 Eu sei. Obter o melhor ângulo do vale e do rio era o que eu pretendia, quando planejei a posição de meu quarto.

 Como assim? Você chegou há tão pouco tempo... o castelo já existia.

 Ah, isso aconteceu há muitos anos... dez, na verdade, quando se iniciou a construção da abadia de Loytcoyt. Na mesma época, portanto, em que comprei a colina de Warwick.

Virna ergueu ainda mais o queixo, livrando-se da mão dele.

 Comprou?

Aye.  Edon balançou a cabeça.  Paguei um belo preço. Daffyd ap Griffin arrancou mais ouro de mim do que qualquer outra pessoa com quem já negociei. Mas eu queria ver essa imagem da minha janela. É perfeita.

 Ele tirou vantagem de você  Virna comentou com simplicidade.  Tio Daffyd era tão proprietário desta colina quanto do vento ou da chuva. Tampouco você é dono da colina, Edon Halfdansson. Nunca o será.

Edon apoiou as mãos nos quadris, franzindo a testa.

 O que está dizendo, Virna ap Griffin? Trata-se de alguma manobra para escapar da sua promessa, agora que suspendi a punição do príncipe?

 Eu nunca faria isso!  ela rebateu, sustentando-lhe o olhar.  O que estou afirmando é que meu tio Daffyd ap Griffin, não era dono de nada, e, portanto, você não comprou coisa alguma. A colina de Warwick jamais pertenceu a ele. Em conseqüência, também não pertence a você, mesmo depois de construir esta bela fortaleza.

 É a minha casa e eu a defenderei até a morte  ele declarou com veemência.

 É claro que sim, mas isto não o torna proprietário das terras. A colina pertence ao passado, ao presente e ao futuro. É a perpetuação de Leam, e perdurará além das nossas vidas.

 Enquanto eu viver, esta colina será minha  Edon declarou em tom categórico.  Nossos filhos a herdarão, um dia. É assim que será, princesa, não importa o que diga. Eu cuido do que é meu... o que inclui você.

 Só não entendo por que insiste em me...

 Possuir?  Ele soltou uma risada baixa, sensual.  Você sabe que é muito bonita, não sabe?

 Não mais do que qualquer outra mulher.  A negativa foi espontânea. Embora não ignorasse a reação que provocava nas cortes de Alfred e de Guthrum, não avaliava bem o próprio poder de atração, o fascínio que exercia sobre os homens. Mas começava a avaliar o fascínio que aquele homem exercia sobre ela. E, naquele instante, com os cabelos molhados gotejando, um filete de água escorrendo pelo peito entrevisto pela fresta do roupão, ele lhe apetecia demais. Sem conter o impulso, estendeu o dedo para tocar uma gotícula que cintilava sobre a pele amorenada.

 Esteve no rio, milorde?

Nay, na casa de banho  Edon explicou em tom rouco, estremecendo com o toque delicado e extremamente provocante.

 É verdade... eu me havia esquecido de que vocês viquingues, preferem banhar-se em ambientes fechados.

 Ah, é um prazer incomparável, milady.

Edon sacudiu os cabelos encharcados por sobre os ombros e abraçou-a. O calor do corpo de Virna alimentava o desejo intenso que o consumia. Gentilmente, tocou-lhe os lábios com os dele, beijando-a com grande suavidade. A princesa, assustadiça e arisca como as criaturas selvagens da floresta, precisava ser domada antes de intensificar a intimidade.

Virna foi tomada por uma profunda languidez. A doçura do beijo revelava-se mais embriagante do que o mais forte dos vinhos. Mas, quando sentiu que ele contornava seus lábios com a ponta da língua, foi como se Leam e Warwick simplesmente jamais tivessem existido. Era tudo tão novo e tão mágico que não lhe seria possível nem sequer pensar em outra coisa que não nas mãos dele correndo-lhe pelas costas, pressionando-a de encontro ao corpo másculo e rígido. O ar fresco da noite arrepiou-lhe a pele nua, depois que ele lhe arrancou o camisolão com movimentos febris, embora delicados.

 Eu quero você desde a primeira vez em que a vi  Edon sussurrou em seu ouvido. A honestidade com que admitia o próprio anseio surpreendeu-o tanto quanto a ela. Mas cobiçar não lhe bastava. Precisava tê-la nos braços, possuí-la... amá-la.  Não resista, Virna, por favor. Entregue-se a mim.

E entregar-se a ele era algo que cada nervo do corpo dela exigia. Mas a dúvida ainda a impedia. Se fizesse amor com aquele homem, estaria servindo aos desígnios da Senhora do Lago... ou rompendo um voto sagrado?

De qualquer modo, o conflito já fora resolvido. Se faltasse à palavra empenhada diante de todos, Venn estaria perdido. Por ele, deveria sacrificar-se.

A consciência, porém, a impedia de mentir a si mesma. Não se tratava de sacrifício. Desejava o vice-rei de Warwick como uma mulher deseja um homem. Obedecer àquela ordem significava cumprir o mais prazeroso dever de sua vida.

Com um suspiro, Virna entreabriu os lábios, quando ele tornou a beijá-la, e não esboçou resistência à língua que lhe invadia a boca, provocando-a. Seus seios se comprimiam contra o torso que a abertura do roupão desnudava. Completamente inebriada, acariciou-lhe a nuca e os ombros, ansiando por tocá-lo cada vez mais. Seu corpo másculo a intrigava e enfeitiçava.

Então, sem interromper o beijo, Edon ergueu-a nos braços e levou-a para o leito, depositando-a com todo o cuidado. A fúria do desejo que o consumia contrastava com a suavidade com que a preparava para o ato do amor.

Virna fitou-o, expectante, quando ele afastou-lhe as pernas e deitou-se sobre ela. Embora virgem, sabia muito a respeito do ato amoroso, afinal, as sacerdotisas eram também as confidentes e conselheiras das mulheres de seu povo. Aprendera que não se tratava de uma simples união física, mas de um ritual no qual as almas se tocavam por meio da ligação carnal. Evidentemente, seu conhecimento era apenas teórico, já que nunca o verificara na prática. E só naquele instante vislumbrava o real significado do ato físico do amor. Sentiu-se prestes a desvendar o mais delicioso dos segredos no momento em que os dedos de Edon alcançaram seu recanto mais íntimo e sagrado. Começou a gemer baixinho, transportada, enquanto ele beijava e mordiscava seus mamilos.

Edon, por seu turno, estava surpreso. Sexo não era mistério para ele, que já levara para a cama um grande número de amantes. Mulheres sedutoras, bonitas, cobiçadas... que se desvaneciam de sua memória como fumaça no ar. Ainda assim, experimentava uma excitação tão grande que parecia ser a primeira vez que se deitava com alguém. A princesa era especial, por alguma razão obscura. E era de fato virgem, como constatou ao acariciá-la. Talvez fosse verdade, afinal, que ela jamais mentisse...

Virna ofegava. Já não sabia discernir se o que sentia era prazer ou desespero. Ele a atormentava, tocando-a num ponto de extrema sensibilidade.

 Já basta, por favor...  suplicou.

 Ah, milady, isto é apenas o começo...  ele preveniu, tornando a colocar-se sobre o corpo dela. Então, acalmou-a com um beijo profundo, longo, lento, ora mordiscando-lhe os lábios de leve, ora explorando-lhe o interior da boca com a língua.

Em princípio hesitante, ela logo aprendeu a retribuir o beijo com as mesmas carícias. Aos poucos, relaxou em seus braços. Entretanto, quando percebeu que ele estava prestes a penetrá-la, inteiriçou-se.

 Pare!

Milady, não posso!  Edon afagou-lhe os cabelos e, de súbito, penetrou-a com uma estocada firme e profunda.  Agora é tarde.

Virna agitou-se, sem fôlego para que o desconforto cedesse lugar a uma sensação de preenchimento e plenitude que nunca suspeitara pudesse existir. Seus olhos se encheram de lágrimas, quis gritar mas limitou-se a murmurar:

 Nesse caso, vá até o fim.

 Eu seria um louco se não o fizesse.

Edon obedeceu sem titubear, secando as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto com beijos ternos, penetrando-a num misto de voracidade e gentileza.

De súbito, Virna enrijeceu-se. Perplexa, constatou que o prazer se fora, que o desvirginamento a magoara fisicamente e a ultrajara. Se ao menos tivesse certeza de que sua decisão não feria os juramentos prestados à Senhora do Lago, se ao menos não doesse tanto...

Preocupado, Edon fitou-a e adivinhou o que se passava no coração dela. Então, espaçou as estocadas, tornando-as mais brandas, como se apenas a acarinhasse por dentro. Encostou o rosto no dela e afagou-lhe os olhos com os lábios.

Aquele era o sinal de que Virna precisava para relaxar. A penetração deixou de incomodá-la. Ao contrário, fazia-a sentir-se feminina, receptiva... e plena. Instintivamente, abriu mais as pernas e flexionou os joelhos, recebendo-o em seu corpo sem nenhuma reserva. Pouco a pouco, o mundo ao redor foi perdendo a substância. A cama, o quarto, o castelo. Restaram apenas a lua e as estrelas no céu e, bem abaixo, o bosque e o lago sagrados. Ela estreitou-o mais entre os braços, agarrando-se a ele quando começara a flutuar na brisa da noite. E a brisa se transformou em vento e o vento em turbilhão, à medida que o prazer crescia num ritmo vertiginoso. As estrelas rodopiavam ao seu redor, formando um caleidoscópio, envolvendo-os como um manto, até que as sensações se intensificaram num nível insuportável... e um êxtase quase místico fez Virna gritar,

No segundo seguinte, estavam de volta à cama. Edon aninhou a cabeça em seu ombro como um menino cansado. Uma emoção inteiramente nova tornou a encher de lágrimas os olhos de Virna. Ela experimentara o supremo triunfo de sua feminilidade, e sentia-se liberta. Sem dúvida, fora a Senhora do Lago quem a conduzira àquele momento, àquela experiência ímpar. Agora, caberia a Gwyneth o papel de princesa virgem de Leam. Tomada por uma imensa gratidão, afagou os cabelos negros de Edon e murmurou:

 Obrigada...

 Por que me agradece, Virna? Eu fui um bruto, não contive a voracidade e a machuquei. Normalmente, tenho maior autocontrole. Minha única desculpa é o fato de que há muito tempo não fazia amor.

 Não zombe de mim  ela replicou.  Como pode afirmar isto, quando trouxe tantas mulheres para Warwick?

Fingindo-se de ofendido, ele apertou de leve a ponta do nariz dela.

 Eu trouxe muitas mulheres... e homens e animais. Acha que levo todos para a cama? Sou um viquingue, milady, não um pervertido.

 Então, é um viquingue diferente de todos os outros. Poucos dos que conheço demonstram ter escrúpulos ou princípios.

Edon refletiu sobre a observação. Era verdade que seu comportamento se diferenciava do dos outros homens. Principalmente agora, que nem ele se reconhecia mais. Nunca antes tivera de fazer confidências à parceira, depois do amor. Mas Virna também era diferente das outras. Era rara e especial. E seria sua companheira pelo resto da vida.

Movido por uma súbita ternura, segurou-lhe a mão, entrelaçando os dedos nos dela.

 Talvez, quando alguém começa a vida como refém e permanece nessa condição por tantos anos, aprenda a ver o mundo com mais cuidado e respeito  replicou, simplificando a sua história.

 Você foi refém?  ela indagou abalada.

Aye, ainda nem tinha perdido todos os dentes de leite e já servia a meu pai, Halfdan, e a meu irmão Guthrum, como emissário e penhor de sua boa fé junto ao imperador do oriente  ele revelou, escorregando para o colchão, ao lado dela. Em seguida, puxou-a de modo a aconchegar-se em seus braços.

 Quantos anos você tinha?

 Nove quando o navio zarpou para Constantinopla.

 Você estava com medo?

 Não creio que eu entendesse os fatos o suficiente para ter medo. No início, sentia muita falta da minha mãe, mas, depois, entusiasmei-me com a aventura. O que me espanta é eu não ter sido jogado no mar na minha primeira viagem. A verdade era que eu estava bem protegido pelos velhos guerreiros que meu pai enviara comigo para me educarem conforme os costumes viquingues. Eu me lembro que, quando chegamos lá, o imperador desconfiou que eu não fosse o filho de Halfdan porque eu me parecia com a minha mãe, irlandesa de nascimento.

 O que levou o imperador a se convencer da sua identidade?

 Ah, bem...  Ele sorriu.  A minha audácia. Acho que ameacei arrancar-lhe a cabeça com a minha faquinha por ousar chamar-me de bastardo diante da corte. Um filho viquingue pode tornar-se um verdadeiro tormento quando teima em provar sua linhagem... ou sua masculinidade.

 E isso aos dez anos?  Virna soltou uma gargalhada.

 Nove  ele corrigiu, espetando de leve a ponta de seu nariz.  Você entenderá melhor quando nossos filhos nascerem, milady.

Virna acomodou a cabeça no ombro dele.

 Eu gostaria de ter muitos filhos. Mas eu sei o que você quer dizer com relação a esse "orgulho infantil". Criar Venn não tem sido nada fácil. Ele...  calou-se e mordeu o lábio.

 Ele precisa da orientação de um homem  Edon concluiu por ela, adivinhando-lhe o pensamento.  Não deve ser uma tarefa simples, educar um príncipe herdeiro sob circunstâncias tão adversas. Seja honesta comigo, Virna. Não é preciso esconder mais nada de mim, já que dentro de poucos dias será minha esposa. O seu irmão não precisaria ter corrido perigo, esta noite, se você o tivesse trazido para Warwick naquele primeiro dia. Embla nutre uma verdadeira animosidade contra ele.

Virna refletiu sobre aquelas palavras.

 Estou ciente disso. O que me dá mais motivos para mantê-lo bem afastado daqui.

 Não. Ele agora permanecerá no castelo  Edon declarou sem rodeios , mas você não precisa preocupar-se com a segurança do garoto. Nem com a sua. Já designei os melhores homens para proteger os dois.

 É muita gentileza  ela retrucou, desviando o olhar. Era gentileza, mas ele não considerava o fato de que sua segurança sempre fora responsabilidade dela e de seus leais vassalos.  Nós não queremos ser um fardo para você.

 Fardo?  Ele riu, embora franzindo a testa. Resistiu à tentação de sacudi-la de leve, para que despertasse para a realidade. A despeito de ter implorado pela vida do irmão e de ter feito um juramento solene, Virna ainda mostrava reserva contra ele e tudo o que representada. Isso o frustrava mais do que podia esperar.  Você jamais será um fardo para mim, Virna ap Griffin.  Levantou-se da cama e umedeceu uma toalha na bacia.  Deixe-me ajudá-la. Receio tê-la machucado com a minha sofreguidão.

Virna enrolou o lençol no corpo, tentando sentar-se.

 Não me machucou, milorde. Posso cuidar-me sozinha.

 Psiu...  ele a fez deitar-se de novo.  Quero que se recupere logo, para podermos fazer amor de novo.

Virna estremeceu. Os cuidados de Edon agradavam-lhe, mas não queria ser tocada naquele momento. Ainda sentia-se sob o forte impacto das emoções que acabara de descobrir. Era curioso como sempre separava suas carências físicas das necessidades espirituais. Agora, porém, era como se corpo e alma finalmente se tivessem tornado indissociáveis.

 Você sangrou um pouco, mas acho que não lhe causei um grande mal  ele comentou, visivelmente aliviado.  De qualquer modo, por mais que ainda a deseje, é melhor deixá-la em paz, por ora.

 Então, como passaremos o que ainda resta da noite, Edon?

Ele se deitou ao lado dela e a abraçou.

 Nós dormiremos, milady. Contudo, previno-a de que não controlarei meus instintos depois que o dia raiar. Portanto, trate de descansar e recobrar as forças.

Ela bocejou e espreguiçou-se. Tantas coisas aconteceram num espaço tão curto de tempo. Estava exaurida, sem dúvida, mas também excitada com as mudanças. Contente, aninhou-se nos braços dele e adormeceu. Quando despertou, uma cotovia cantava no peitoral da janela.

Edon acordou com a mesma melodia. Ergueu a cabeça, pestanejou e disse, sorrindo:

 Minha querida feiticeira merciana, este é um bom augúrio para iniciarmos um novo dia.

Virna também sorriu, encantada com o cântico suave. Instantes depois, dando o concerto por encerrado, o pássaro abriu as asas e voou na direção do lago sagrado. Mas o doce encantamento de seu vôo rompeu-se quando um raio de sol atingiu a cotovia, fazendo-a cintilar num ameaçador tom vermelho como sangue. Aquele era o pior presságio que Virna já presenciara em sua vida.

Mal contendo a ira, Embla caminhava de um lado para outro sobre as lajes úmidas da masmorra.

 É tudo culpa sua!  gritou para o enfraquecido e machucado homem acorrentado à parede de pedra.  Eu ia envenenar toda aquela gente, mas agora não há mais a menor chance de fazer isto.

Em seu delírio, Harald Jorgensson mal podia erguer a cabeça para fitar a esposa e tentar compreender suas acusações. Viu-a andar a esmo, brandindo a espada no ar, num paroxismo de fúria.

 Você podia ter matado aquele miserável há dez anos. Teve oportunidade de acabar com ele, mas não! Era tão covarde naquela época como o é hoje!

Embla deteve-se diante do marido e golpeou-lhe a face com o punho da arma.

 Tenho de cuidar pessoalmente disto, como sempre, não é?

Ela ergueu a perna para desferir-lhe um pontapé, mas desistiu no último instante. Na verdade, espancá-lo já não lhe proporcionava o mesmo prazer de antes. Cansara-se da brincadeira... Que graça havia, se ele já nem tentava esquivar-se e muito menos revidar? Desgostosa com a visão do homem quase desmaiado, dependurado pelas correntes, virou as costas e saiu da cela, chutando para longe a tigela de comida podre que Eric, o Sem Língua levava periodicamente para o calabouço.

Só havia uma coisa capaz de dar a Embla Garganta de Prata uma verdadeira satisfação: eliminar Edon Halfdansson e Virna ap Griffin de uma vez por todas.

Ainda soluçando, Gwyneth ap Griffin finalmente adormeceu no colo de Anna. Não que a serva pudesse consolar a princesa, aquela noite.

Tegwin ia e vinha pela rampa que ligava o templo do jardim do abrigo de caça do rei Offa, erguendo nuvens de poeira com suas botas pesadas.

 Eu hei de invocar uma praga de gafanhotos para expulsar os viquingues, no dia de Lughnasa  ele prometeu.

 Ah-ah!  escarneceu Wren.  Você não poderia invocar nem sequer uma praga de moscas para atormentar o sono deles. Pare de falar bobagens. Nossa princesa precisa de nós!

Aye  Selwyn concordou.  É hora de nos unirmos e darmos uma demonstração de força. Essa é a única linguagem que os dinamarqueses entendem.

Tegwin bufou, irritado. Detestava aquela mania matriarca de sempre o repreender na frente das pessoas representativas do clã. Ela era tão estúpida quanto Embla Garganta de Prata, que gostava de desafiar-lhe a autoridade e recusava-se a reconhecer sua importância. Afinal, ele já era um homem idoso, cheio de sabedoria e poder, o último dos druidas de Leam! E, se isso não bastasse, ainda havia o fato de ter o príncipe herdeiro nas mãos.

 Sei muito bem como invocar pragas e posso prová-lo.

 Ah, fique quieto, seu velho arrogante  mãe Wren tornou a provocá-lo.  Você teve treinamento de bardo, não de druida, e eu tenho idade bastante para saber a diferença. Mas, cuidado: ainda não atingi a senilidade e posso muito bem lançar um feitiço para transformá-lo num sapo-boi, se não parar de falar besteiras na frente das crianças!

 Agora ouça, sua megera  Tegwin sibilou, agitando as conchas e ossos do colar que lhe circundava o pescoço , eu sou o único druida deste clã há quase sessenta anos.

Zangada, Wren ergueu a mão, traçando no ar o mais poderoso dos sinais, o da cruz. Tegwin apressou-se a se esconder atrás de Selwyn, no caso de a velha bruxa realmente tentar transformá-lo em sapo. Todo o povo da floresta sabia que não havia feiticeira mais poderosa do que a que se convertia ao cristianismo.

 Nós precisamos de um plano  Anna ponderou com simplicidade.  Proponho que juntemos nossas cestas e nos reunamos no alto da colina. Juntos, poderemos distrair os viquingues e libertar o príncipe. Wren, você deve deixar suas novas crenças de lado e lançar um feitiço para soltá-lo do mastro.

 Em vez de encantamento, é melhor usarmos o ferro para cortar o ferro  Selwyn brandiu o machado com veemência. Contudo, já fazia dez anos que só usava o machado para cortar árvores.  Nosso príncipe não permanecerá cativo por muito tempo.

 Ah,  Wren exclamou, acolhendo a idéia de Anna.  É isso mesmo! Iremos juntos, todos nós. Anna, acorde as princesas. Temos de nos preparar. Primeiro, encontraremos Virna. Ela saberá exatamente o que devemos fazer.

O abade de Evesham, padre Bedwin, havia aprendido a duras penas que não podia relaxar a vigilância sobre a Fosse Way. Três vezes, os viquingues de Warwick haviam invadido a abadia. No último assalto, roubaram todo o estoque de vinho da adega.

Durante um ano inteiro, Bedwin, fora forçado a celebrar a missa com uma mistura intragável de água e uvas secas esmagadas, como substituto para o vinho tradicional.

Os pacientes padres não tinham escolha. Não existia vinho em nenhuma abadia do condado. Em razão da seca, não se encontrava mais nenhuma das mercadorias que dependiam da terra, fosse na Bretanha ou no continente.

Evesham, por sorte, possuía vinhedos próprios, plantados havia mais de um século. A despeito do calor implacável, que acabara com as demais plantações, as videiras floresciam como nunca, graças ao novo sistema de irrigação implantado, de forma que se esperava uma safra excelente.

Assim, era com orgulho que o padre Bedwin ouvia os rasgados elogios que o rei Alfred tecia, enquanto caminhavam, lado a lado, pelas alamedas.

 E como vão seus esforços para ensinar os fazendeiros a construir terraços e aquedutos?  o rei perguntou.

A curiosidade de Alfred não conhecia limites. Era um governante excepcional, preocupado em promover as artes e as letras. Sua biblioteca em Winchester rivalizava com a do Papa.

 Temos sido bem sucedidos no ensino de nossos métodos aos fazendeiros no norte e no sul do Avon, majestade  respondeu com humildade.  Meus irmãos têm percorrido as Midlands, mostrando ao povo o que e como devem fazer para irrigar as plantações.

 Devon e Dorset estão em boa situação, pois choveu lá duas vezes no mês passado  Alfred replicara.  Mas temo por Kent e Sussex, que não tiveram a mesma sorte.

 Estamos atravessando tempos difíceis, majestade. Tudo o que podemos fazer é rezar e esperar que a paz com os dinamarqueses continue. Ouvi dizer que também choveu no norte da Watling Street, perto de Lincoln.

Aye, ouvi o mesmo rumor, mas não obtive confirmação alguma do meu amigo rei Guthrum. Estou ansioso para conversar com ele em Warwick.

O padre Bedwin fitou-o com preocupação.

 Vossa majestade não se arriscaria indo pessoalmente a Warwick, pois não?

 Oh, sim, eu me arriscarei. Nós combinamos, Guthrum e eu, um encontro lá no dia de Lammas. Temos um casamento para arranjar e receio que seja necessária a combinação de nossas forças para convencer a noiva. Não houve mais problemas naquela região, houve?

Bedwin abriu os braços, num gesto de impotência.

 Não sou do tipo que gosta de reclamar dos vizinhos. O senhor sabe que somos saqueados tanto pelos pagãos da floresta de Arden quanto pelos viquingues da colina de Warwick. Nós procuramos defender-se dessa sombra que ameaça o cristianismo, mas, sinceramente, o último assalto foi terrível. Fomos avisados do ataque dos bárbaros, por isto não perdemos nenhum dos nossos irmãos, graças a Deus. Quanto ao vinho, todo o estoque se foi.

 Embla Garganta de Prata  o rei nomeou a líder do bando que aterrorizava todas as abadias do condado de Warwick.

 Que cruz difícil de carregar é esta guerreira.  Bedwin persignou-se, num esforço para perdoar a crueldade daquela mulher.

 Ela é um dos temas que Guthrum e eu debateremos, na nossa conferência. Padre Bedwin, tem alguma idéia do paradeiro do marido dela, Harald Jorgensson? Se tiver, peço-lhe que me conte logo, sem me poupar de detalhes, por mais escabrosos que sejam.

 Lamento, majestade, mas nada tenho a contar sobre o infeliz desaparecimento do vice-rei. Que tragédia para Warwick, perder um homem tão justo! O mesmo já não se pode dizer de sua esposa.

 Será verdade o que comentam por aí? Que ela responsabiliza todo o povo de Leam pelo assassinato do vice-rei?

Aye, milorde, mas sua fúria se estende a todos nós... um verdadeiro fardo.

O rei colheu uma uva e experimentou-a, distraído. Então, pigarreou e revelou:

 Guthrum e eu discutiremos o wergild devido pela vida do sobrinho do rei, entre outras coisas. Ele me escreveu ponderando que, em parte, a reação de Embla se justifica. De qualquer modo, concordamos em colocar um outro vice-rei no comando de Warwick. Nós o encarregamos de investigar o caso e de presidir eyres mensais. Trata-se do irmão mais moço de Guthrum, filho de Halfdan com sua última esposa, a princesa cristã Melisande da Irlanda. Seu nome é Edon. Você já se encontrou com o vice-rei?

 Não, majestade, não posso dizer que o encontrei. Mas ouvi rumores de que ele chegou a Warwick há uma semana, com uma comitiva digna de nota.

O rei virou-se, ao escutar o ruído de pés correndo por uma das alamedas que separam as parreiras. Um frei jovem e gorducho irrompeu no terraço, esbaforido.

 Majestade, senhor abade!  O religioso caiu de joelhos diante dele.  Um grupo de cavaleiros se aproxima, vindo do norte pela Fosse Way. Devo soar o alarme?

 Quantos cavaleiros?  o rei indagou, sem perder a serenidade.  Exibem bandeiras de guerra?

 Acho que são dez, majestade. Mas também vi guerreiros armados com espadas e escudos.

O rei ordenou à sua guarda pessoal que interceptasse o cortejo do lado de fora da muralha. Como resolvera visitar a abadia incógnito, levara consigo apenas vinte homens. Mas, sendo todos competentes e leais, enfrentariam qualquer conflito armado sem dificuldade.

 Toque o sino, abade, convocando seus irmãos dos campos mais distantes.

Era quase meio-dia, hora em que os padres trabalhavam espalhados pela propriedade, cuidando do dique que impedia a invasão das águas do Avon, nas épocas de cheia.

Sem demonstrar nenhuma preocupação, Alfred continuou a inspecionar o vinhedo enquanto os homens saíam para cumprir sua ordem. Voltaram pouco depois, trazendo junto dois cavaleiros. O rei imediatamente reconheceu um deles.

Tratava-se do bispo Nels de Athelney, um dos mais antigos e queridos amigos de Alfred. Os dois se abraçaram efusivamente.

 O que o traz a Evesham, Nels?  Alfred perguntou-lhe, sorrindo. Nels havia ficado do lado dele nos dias mais negros de seu reinado, quando seu reino resumia-se à pequena colina de Athelney.

O rei e o bispo eram tão diferentes entre si quanto o dia e a noite. Todavia, igualavam-se na capacidade de lutar com coragem e determinação, mesmo tendo aprendido a valorizar a paz acima de tudo.

 Problemas, o que mais poderia ser?  Nels soltou uma gargalhada.  Venho de Warwick , onde a vida deste garoto traquinas não vale a roupa que veste. Creio que uma bela surra o ajudaria a raciocinar direito, mas receio não ter o direito de aplicá-la eu mesmo. Então, trouxe-o para refugiar-se na abadia.

Alfred desviou o olhar para o rapazinho que Nels segurava com firmeza. Vislumbrou, por entre a túnica, uma tatuagem em sua pele. O bispo, como a maioria dos celtas, também tinha a pele tatuada.

 Refugiar-se?  zombou.  Como é o seu nome meu jovem?

Venn ergueu os olhos para o saxão, mantendo a mandíbula teimosamente cerrada. Sabia que não devia revelar sua identidade. Se o fizesse, Virna o mataria.

 Trate de falar, menino  Nels sacudiu-o.  Você está diante do rei Alfred, portanto demonstre respeito. Caso contrário, eu o levarei de volta para Warwick e deixarei que os dinamarqueses procedam como quiserem com você.

A expressão de Venn revelara surpresa. O saxão não estava trajado como um rei, mas sim como um humilde camponês. Seus cabelos dourados estavam presos atrás da nuca com uma tira de couro, e ele não usava coroa nem gargantilha, como seria de se esperar. Mas sua postura hierática não dava margem a dúvidas. Aquele homem era mesmo um rei.

 Majestade  Venn ajoelhou-se perante seu tutor legal.  Eu sou Venn ap Griffin, o príncipe herdeiro de Leam. Seu braço e sua espada são necessários em Warwick, pois os viquingues aprisionaram minha irmã na fortaleza. Temo que a princesa Virna tenha sido violada, forçada a uma aliança profana. O padre não pegaria em armas comigo, embora disponha de homens suficientes para auxiliar-me a libertar minha irmã.

Era um discurso e tanto para um garoto que mal dirigia a palavra ao bispo.

Alfred fitou Nels com ar de interrogação. O bispo sacudiu a cabeça, assombrado.

 Talvez seja melhor conversarmos em particular, Alfred. Será um pouco difícil explicar tudo. Príncipe herdeiro ou não, o garoto foi acusado de tentar envenenar toda a corte de Warwick. O vice-rei Edon ordenou-me que o escoltasse até você. Esse malandrinho e a irmã são feiticeiros.

Ao ouvir aquelas notícias, Alfred suspeitou que sua prima, Virna, estava utilizando seus truques para amedrontar os supersticiosos viquingues. O que contrariava seus planos de paz. Ocultando a ira, voltou-se para o abade.

 Meu bom padre, esse moleque me parece morto de fome. Você faria a caridade de levá-lo para o refeitório e alimentá-lo?

 Majestade, não desejo comer, mas sim lutar  Venn declarou com veemência.  Não há tempo. Temos de cavalgar de volta para Warwick.

Alfred fitou Venn ap Griffin com intensidade. Bastava-lhe um olhar para impor sua autoridade.

 Você ousa dar ordens a seu rei e tutor?

Nay, majestade, mas eu lhe imploro. Minha irmã está em perigo. O Lobo de Warwick irá devorá-la!

Contendo o riso, Alfred ripostou:

 O Lobo de Warwick não lhe causará nenhum mal. Virna ap Griffin desposará lorde Edon por ordem minha. Você, Venn de Leam, comparecerá a cerimônia, se eu concluir pela sua inocência no caso do envenenamento de Warwick. Agora, trate de acompanhar o abade e comer. Voltaremos a conversar depois que terminar a sua refeição e tomar um banho. Tenha um bom dia, rapaz.

Chocado, Venn arregalou os olhos. Virna casada! Nenhuma princesa de Leam tinha permissão para casar-se. O rei virou as costas e afastou-se na companhia do bispo. Venn crispou os punhos, tomado por um desespero impotente.

O padre agarrou-lhe o braço e forçou-o a levantar-se. Contra a vontade, Venn seguiu-o até o refeitório da abadia.