Capítulo Doze
Era o dia da feira de Warwick.
Embora tivesse acordado completamente refeita, Virna sentia-se exaurida por ter feito amor com Edon repetidas vezes ao longo da manhã. Contudo, não se queixava, afinal, o prazer que experimentava em seus braços valia qualquer cansaço. Tomada por agradável lassidão, permaneceu deitada, ouvindo rumores do castelo, já em plena atividade. Haviam aberto os portões da fortaleza, por onde entrava uma infinidade de carroças, numa movimentação incessante e ruidosa.
Perdendo a esperança de voltar a dormir, decidiu abandonar a cama. Banhou-se rapidamente e já vestira a túnica quando lady Eloya entrou, trazendo-lhe um traje limpo para vestir, e insistiu em pentear-lhe os cabelos. Virna não teve como recusar.
Não tardou para que diversos criados invadissem o aposento para trocar a roupa de cama e esfregar o chão. Eloya, então, sugeriu irem ao salão, onde o desjejum já estava servido. Virna percebeu, de súbito, o quanto se sentia faminta. Sobre a mesa , uma variedade de pães, queijos, bolos e frutas, bem como um jarro de vinho, aguardavam-na. Sem se fazer de rogada, devorou a refeição e só depois saiu para o pátio. Ninguém parecia vigiá-la, levando-a a crer que era livre para locomover-se à vontade. Talvez pudesse até mesmo escapar da fortaleza e correr ao encontro de suas irmãs, no abrigo de caça perto do Lago Negro.
Contudo, fugir de Warwick era a última coisa que desejaria fazer. O que aconteceria a Venn se ela saísse do castelo sem a permissão do vice-rei? E Edon lhe daria permissão se lhe contasse sobre as três irmãs que deixara na floresta de Arden?
E, mais importante que tudo, onde estaria Venn? De imediato, lembrou que Edon pedira ao bispo que o levasse para Evesham assim que amanhecesse. Concluindo ser aquele o paradeiro do irmão, ela sossegou e começou a perambular por entre as barracas alegremente decoradas, em que os mercadores exibiam suas variadas mercadorias.
Parou diante da barraca do ourives, fascinada com a delicadeza de seu trabalho. Dividindo o espaço, encontrou Jacó, o mais talentoso lapidador de diamantes da região, que a abordou:
Milady, ainda ontem o rei Alfred comprou seis pedras desta, para a esposa e as filhas, em Worcester.
É mesmo? Ela surpreendeu-se ao saber que seu parente estava tão perto de Warwick.
Aye. Ele esteve caçando em Malverne. Por que também não fica com uma, princesa?
Virna segurou o diamante, encantada com seu brilho e pureza.
É linda, Jacó. Talvez eu possa despertar o interesse das damas da corte do vice-rei para o seu trabalho.
É verdade que há uma judia na corte? Eu sou o casamenteiro da minha tribo. Se ela precisar dos meus préstimos...
Aye, o nome dela é Rebeca de Hebron, mas já é casada.
Que pena. E quanto à princesa? É verdade que em breve se casará, como andam dizendo por aí?
Quando ouviu isto? Virna espantou-se.
Dias atrás, em Loytcoyt. Aceite meus cumprimentos... e esta pedra como presente de casamento.
Não posso aceitar um presente tão valioso, Jacó, e você sabe disso. Virna recolocou a pedra sobre a mão do mercador. Ele não era seu vassalo e não lhe devia dízimo. O ourives, por outro lado, era-o. O artesão, que prestara a máxima atenção à conversa, aproximou-se, fitando-a com tal intensidade que chegava quase a ser rude.
Mas, afinal, é verdade que vai casar-se, milady? Vai quebrar a nossa tradição e tomar um marido? Onde está a gargantilha que fizemos para a senhora?
Casualmente passando por ali naquele instante, Edon não pôde deixar de ouvir o interrogatório e de notar que Virna, inconscientemente, tocou o pescoço desnudo. Ela não tinha obrigação de dar explicações a ninguém. Indignado, acercou-se da noiva e colocou a mão em seu ombro, num gesto possessivo.
A gargantilha da princesa não era bem feita e machucava sua pele delicada. Mostre-me alguma que seja realmente de qualidade.
O ourives fitou-o, embaraçado. Não havia em seu mostruário jóia superior às gargantilhas manufaturadas especialmente para as princesas de Leam. Contudo, apanhou uma bandeja forrada de veludo com quatro gargantilhas em exposição. Apenas uma delas era trançada com fio de ouro triplo e nove voltas, como se exigia para as jóias da casa real de Leam. Tratava-se de uma peça de rara beleza, que cintilava sob o sol da manhã.
Virna prendeu a respiração quando ele examinou o colar com atenção. Apenas um dia antes, teria considerado aquele ouro adequado para ofertar a Branwyn, a Senhora do Lago. Mas, apenas um dia antes, ela era virgem e apta a agir em nome da Deusa perante seu povo. Agora, tudo mudara. O peso do pecado tingiu de rubro suas faces. Não conseguiu encarar Edon nem os artesãos.
Excelente trabalho o vice-rei cumprimentou o ourives. Mas não gosto do fecho. Você tem fecho com uma miniatura de cabeça de lobo?
Sem dúvida, milorde.
Então, mostre-me.
O ourives apressou-se a exibir uma coleção ampla e variada. Edon escolheu uma delicada peça de ouro, cravejada de diamantes. Então, ordenou ao ourives que trocasse o fecho por aquele. Depois de pronto, colocou o colar em volta do pescoço dela.
Oh, não, Edon, você não deve ela protestou, começando a tirá-la. Todavia, ele segurou-lhe as mãos, impedindo o gesto.
Fique quieta, Virna silenciou-a com certa rudeza. Então, ergueu-lhe o queixo e admirou o efeito da jóia em seu colo alvo. Creio que está à altura de milady. Também preciso de anéis para ela e para mim. Um par combinando. Gosto daquele com barras entrelaçadas.
Edon selecionou um par de braceletes nupciais celtas, uma verdadeira tradição entre o povo dela usado pelos casais que se uniam por amor.
Como quiser, milorde. O ourives curvou-se e mediu-lhes os dedos e pulsos antes que eles se dirigissem a uma outra barraca.
Depois que se afastaram, Edon indagou a Virna:
Eu também gostaria de saber que fim deu a sua gargantilha, milady. Theo havia adivinhado o que acontecera, mas a razão permanecia um mistério. Por que ela fizera algo tão drástico? A curiosidade o consumia. Esta que comprei não é tão bonita e valiosa quanto aquela, mas, pelo que percebi, seu povo espera vê-la adequadamente adornada. Nunca vi tantos homens dirigirem olhares tão ultrajados a uma mulher. Que simbolismo é esse que desconheço?
Virna tocou o colar em seu pescoço.
Obrigada pelo presente, milorde. Cuidarei para que seja reembolsado dessa despesa.
O motivo que a levara a desfazer-se da gargantilha sagrada só dizia respeito a ela e à Deusa. Contudo, não se havia dado conta do quanto o colar era importante para o seus súditos. E, ao que tudo indicava, eles pensavam que fora o lorde viquingue que a privara de seu distintivo de honra e a violentara como os guerreiros faziam com as mulheres das aldeias que invadiam.
No entanto, não havia nada que pudesse refrear o falatório até o dia de Lughnasa. Edon também teria de esperar até lá para obter a resposta almejada. Se lhe revelasse a verdade, ele tentaria intervir no destino de Venn.
A notícia do casamento cobria seu povo de vergonha. A Senhora do Lago não permitia que suas sacerdotisas se deitassem com um homem. Todas as que desobedeciam foram relegadas ao ostracismo e banidas da comunidade. Algumas se haviam tornado bruxas poderosas e temidas. Morgana le Fey fora a mais famosa delas.
Não me insulte pagando por um presente meu Edon retrucou com severidade. Venha, vamos olhar os artigos daquele mercador de tecidos. Você precisará de trajes adequados para a corte de Warwick. Eloya e Rebeca poderão costurar as roupas novas em pouco tempo.
Você está me cobrindo de presentes como se faz com uma concubina? Pagando-me pelos serviços prestados em seu leito?
Edon estacou. Apertou-lhe o braço com força, lançando-lhe um olhar fulminante.
O que foi que disse?
O que ela dissera não podia ser repetido. Certamente, não em voz alta, para tornar mais claro o significado inequívoco daquelas palavras. Edon sabia exatamente o que tinha ouvido, e por isso mostrava-se lívido, quase apoplético. Sentiu faltar-lhe o ar. Seria possível que ela ainda não entendera que se tornaria sua esposa? Um marido tinha o direito de dormir com sua mulher e o dever de lhe dar presentes.
Virna puxou o braço, onde os dedos dele haviam deixado marcas vermelhas. Contudo, não discutiria com ele em público. Envergonhada, ergueu a barra do vestido que Eloya lhe emprestara e fugiu dele antes que qualquer dos dois fizesse algo de que se arrependesse mais tarde.
Enquanto se esquivava por entre a multidão, escutou-o gritar-lhe o nome e soube que ele não desistiria de segui-la. Uma questão de honra ficara pendente entre ambos.
Mas, para Virna, já não havia o que resolver. Traíra seus súditos e os cobrira de vergonha apenas para regozijar-se com os prazeres carnais oferecidos pelo Lobo de Warwick.
Agora, adquiria perfeita consciência do que fizera... e por quê.
Desesperada, subiu até o alto da pequena elevação, de onde avistou o lago sagrado, cujas águas milagrosas constituíam a única fonte de purificação e do consolo espiritual de que tanto necessitava.
Não importava que a Senhora do Lago se recusasse a responder à sua invocação. A Deusa devia ter adivinhado que sua sacerdotisa não era imune à sedução de um vice-rei viquingue.
O grupo de pantomimeiros chegou pouco antes do meio-dia. Dentro da paliçada, formou-se uma grande platéia para assistir ao espetáculo. Rig não imaginava de onde viera toda aquela gente. Nem desconfiara que a feira do condado lhe causaria tanto dissabor.
Lorde Edon estava de péssimo humor, tão selvagemente furioso quanto ao animal a que era comparado. Como um perigoso predador, rondava pela multidão, caçando a princesa desaparecida. E os moradores do castelo, claro, ressentiam-se com esse furor.
Virna se havia desvanecido no ar. Ele mesmo vira com os próprios olhos, o momento em que a princesa de Leam simplesmente evaporou-se, envolta numa repentina bruma. Num minuto, lá estava ela no topo da colina e, no seguinte, já não havia mais ninguém.
E Rig não fora o único a presenciar aquele ato de feitiçaria. Thorulf e Maynard, incumbidos por Edon de encontrá-la, também testemunharam. Eles a tinham cercado e estavam prestes a segurá-la quando um vento súbito levantou a poeira do chão e jogou-a em seus olhos, cegando-os por uma fração de segundo. O bastante para que ela sumisse sem deixar rastro.
Edon abriu caminho à força para chegar até seu general. Não acreditava em bruxaria, e tinha certeza de que a princesa se encontrava por ali, escondida em algum recanto.
Ninguém a viu atravessar os portões resmungou. Confiava nos guardas de Maynard que montavam guarda na entrada. Eram homens confiáveis, que não tinham o hábito de beber. Se lhe garantiam que a princesa não saíra, então, ela ainda estava no interior da fortaleza. Já vasculharam tudo?
Aye Rig assentiu.
Prossigam as buscas. Não parem até encontrá-la.
O que o vice-rei faria com ela quando a achasse era a questão. Edon entrou no castelo, esquadrinhando cada canto. Assim que o viram entrar no salão, Eloya e Rebeca largaram os bordados e recolheram-se em seus aposentos.
Exasperado, Edon serviu-se de uma taça de vinho, sorvendo-o com um único gole.
E então? inquiriu, voltando-se para o cego Theo, que estivera consultando seu oráculo.
Ela não deseja ser encontrada, milorde o vidente revelou.
Por que não? ele perguntou, no limite da ira. Por que Virna fugira? Quando voltaria? E se nunca mais voltasse?
Milorde deve considerar este período de afastamento como um intervalo necessário para lamber as feridas Theo aconselhou. Alguém ofendeu a princesa. Seus status está em jogo e ela se encontra num angustiante conflito. Contudo, milady reaparecerá antes que a noite caia.
Edon resmungou. Desejava-a em seus braços naquele exato instante!
Resolveu, então, embebedar-se para suportar a espera angustiante. Estendeu o braço e tornou a encher a taça, agora até a borda.
Não é hora de se embriagar. Há visitantes perguntando por milorde no portão Theo anunciou, os olhos cegos contemplando o invisível.
Pois eu não me importo nem um pouco com visitas no portão. O pátio já está superlotado de gente que eu não convidei.
Nesse caso, devo ir saudá-los em seu lugar?
Sim, faça isso Edon deixou-se cair numa cadeira almofadada, bebericando outra dose de vinho. Naquele momento, a única coisa realmente importante era Virna. E isso era inédito na vida do vice-rei.
Virna não precisou de auxílio de um vidente para saber o instante exato em que Edon entrou no castelo. E ouviu cada palavra do diálogo entre ele e Theo. Por sua vez, Theo não precisou do oráculo para descobrir seu paradeiro. Tanto ele quanto as damas sabiam que ela se encontrava nos aposentos de Edon, tentando controlar o pranto.
Aquelas lágrimas a humilhavam mais do que poderia suportar publicamente. Jamais perdera o controle, no exercício de suas funções de sacerdotisa e princesa. Como mulher, porém, descobria-se frágil e incapaz de suportar seus sofrimentos. Quando ouviu Edon entrar, enxugou o rosto com gestos rápidos e determinados. Estava decidida a não mais chorar pelo que acontecera. Acontecera e pronto, não tinha como voltar no tempo e apagar a última noite. Se de fato falhara como sacerdotisa, se descumprira o desejo da Deusa, só lhe restava esperar que a divindade a perdoasse.
Além disso, já era tempo de refletir sobre a nova condição. Na era mais a princesa de Leam, repositório dos sonhos, esperanças e orações de seu povo. Era uma mulher como qualquer outra, livre para aceitar o homem que havia escolhido. Portanto, não devia permitir que a fizessem sentir-se envergonhada.
Tocou a gargantilha e ergueu o queixo. Se parasse de se culpar, os demais tenderiam a imitá-la. Tendo resolvido isto, alisou a saia do belo vestido verde de Eloya, guardou o lenço na manga e foi ao encontro do vice-rei.
Encontrou-o levando a taça aos lábios. Concentrado na tarefa de embriagar-se, ele não a viu. No segundo preciso em que encostava o cálice na boca, algo estranho ocorreu, o cálice caiu de sua mão, sujando-lhe a túnica de vinho. Ainda sem se dar conta da presença de Virna, Edon tornou a encher a taça, mas esta caiu novamente. Enfurecido e confuso, arremessou a taça sobre a mesa e derrubou o jarro, derramando todo o seu conteúdo.
Só nesse instante ele a avistou, parada na soleira da porta.
Por Odin, você é uma bruxa!
Virna recuou um passo quando ele avançou em sua direção. Suas mãos fortes agarraram-lhe a cintura, puxando-a para si num abraço esmagador. Ele desceu a boca sobre a dela num beijo que traduzia tanta necessidade e urgência que abalou-a até a alma.
Deliberadamente, Virna mergulhou os dedos na cabeleira negra e entreabriu os lábios, aceitando a invasão de sua língua, igualando-se a ele em fervor e avidez.
Edon beijou-a com aspereza, sofreguidão e desespero, traindo o sentimento de perda e abandono que experimentara quando ela desapareceu. Era muito fácil iludir um homem enraivecido, lançar um feitiço para confundi-lo e deixá-lo vagando em círculos, perdido e incoerente. Virna, porém, não queria aproveitar-se dessa vantagem sobre ele. Seu coração derretia-se sob seu olhar feroz e possessivo. Não havia poção mágica ou escudo que pudesse protegê-la contra a arrebatadora paixão que o viquingue despertara.
Edon agarrou-lhe os cabelos e puxou-os para trás, forçando-a a erguer a cabeça para fitá-lo.
Não se atreva a usar de feitiçaria contra mim, milady! bradou.
Em vez de replicar, ela preferiu enlaçar-lhe a nuca e colar a boca na dele, beijando-o com a mesma ânsia exasperada.
De súbito, ele a ergueu e, curvando-a sobre o ombro, marchou para o quarto. Com agilidade, entrou e bateu a porta às suas costas, enquanto a recolocava no chão.
Virna abriu o vestido e deixou-o deslizar até os pés. Com impaciência, ele rasgou-lhe o corpete e, ajoelhando-se, deitou a cabeça nos seios dela. Virna afagou-lhe os cabelos e entreabriu as pernas para que ele pudesse tocá-la em seu recanto mais íntimo. Queria que ele a enlouquecesse com suas carícias, para exorcizar os fantasmas e demônios que a assombravam. Edon era real... era a vida e o amor. Era o homem capaz de rir dos deuses e afugentar o medo.
Não havia mais como negar. Amava Edon Halfdansson, o vice-rei viquingue, líder dos seus mais ferozes inimigos. Por ele, sacrificaria a própria vida. Pertencia-lhe de corpo, coração e alma.
Edon... sussurrou quando ele se ergueu e abraçou seu corpo agora inteiramente despido. Sentia-se feliz e completa junto daquele homem. E felicidade era algo que jamais fizera parte de sua vida inteiramente devotada ao deveres.
Fizeram amor ali mesmo, de pé. E outra vez, no chão. E mais uma, sobre o leito. O tempo não importava, nem sequer existia. Virna experimentava uma estranha sensação de pertinência. Eram perfeitos e criados um para o outro. O mundo e seus problemas ficariam para depois.
Quando, por fim, quedaram-se exaustos lado a lado, na cama, Edon indagou:
Em que está pensando, mulher?
Num movimento lasso, ela virou-se para ele e aninhou a cabeça em seu ombro.
Que ficarei ao lado do vice-rei viquingue por toda a eternidade.
Será um prazer escoltá-la através do infinito, milady ele replicou, sorrindo. Tomado por nova onda de desejo, afagou-lhe o ventre e desceu a mão pelas coxas esguias.
Edon, outra vez?
Por que não? Embora saiba que minha fome por você é insaciável, não tenho escolha senão tentar saciá-la...
Mas e se chegar alguém?
Terá de esperar. Você ainda me quer, Virna?
Se eu quero? Preciso de você como preciso do ar...
Comovido, beijou-a com uma doçura repleta de malícia.
Tive um idéia. Venha para cima de mim. Quero ensinar-lhe uma outra forma de fazer amor.
A paixão tornava Virna a melhor das alunas. Nos minutos seguintes, galopou sobre Edon como se fosse a mais experiente das amantes. Sim, gostava daquela posição, de sentir que se entregava, mas, ao mesmo tempo, detinha o controle sobre as emoções dele.
É isso, minha princesa ele a estimulava. Que Odin me ajude! brincou.
Virna sentia-se cavalgar sob o luar, com o vento em seus cabelos. De súbito, mais uma vez tudo desapareceu e ela flutuou numa nuvem de êxtase. E caiu na terra, deitado sobre ele.
Edon, eu estou absolutamente exausta... murmurou, sem fôlego.
Minha princesa, descanse um pouco... porque estou apenas começando.
Começo a crer que jamais sairei deste quarto.
Não sairá mesmo. Agora, você é prisioneira do meu desejo...
O sorriso quase infantil de Edon provocou-lhe uma intensa ternura. Como era lindo aquele rosto trigueiro, capaz de expressar tanta autoridade... e sensualidade.
Não permita que tanto poder lhe vire a cabeça... provocou-o, saindo de cima dele.
Ele riu e abraçou-a, beijando-lhe a ponta do nariz.
Muito obrigado, milady. Estes momentos foram maravilhosos.
Momentos? Apenas momentos? ela ecoou, sentindo um calafrio.
Edon saiu da cama, foi até a janela e perscrutou o céu. O sol brilhava, implacável. Já eram quase três horas da tarde e o calor continuava insuportável.
Estou com sede, Virna. Levante-se e providencie um copo de água para mim.
Está zombando de mim, viquingue ela resmungou, apavorada. Ainda não se refizera do comentário dele... como se fazer amor com ela fosse apenas um divertimento, uma forma de "passar momentos maravilhosos"!
Indignada, não moveu um músculo.
E então, mulher, você vai ou não buscar um copo de água para mim? ele insistiu.
Virna dardejou-lhe um olhar ultrajado.
Só sairei desta cama para ver meu irmão.
Oh, claro. Ele riu. Você pretende levantar-se daí e partir para Evesham a fim de ver seu irmão, é isso? Ouça, você já o estragou com tantos mimos. Está na hora de afastar esse menino da barra da sua saia, se quiser vê-lo tornar-se homem, um dia. O que aconteceu com aquela bela frase, como era mesmo, "ficarei ao seu lado por toda a eternidade"?
Não foi bem isso.
Foi o que quis dizer. E não se esqueça de que todos na corte a escutaram jurar que satisfaria todas as minhas vontades. Como também escutaram seus gemidos e gritos de prazer há pouco, minha cara princesa.
As faces de Virna tingiram-se de vermelho vivo. O rubor espalhou-se pelo colo e pelos seios. Edon calou-se e tornou a esquadrinhar o céu. Quando voltou a fitá-la, seus olhos não escondiam que o desejo novamente se apossara dele.
Não se atreva a tocar-me ela o advertiu. Não sou uma boneca de carne feita para você dar vazão à sua inesgotável luxúria.
Você não disse que também me quer? ele provocou, aproximando-se e colocando a mão em concha em seu seio.
Ela engoliu em seco, chocada. Desvencilhou-se e rolou para o lado, procurando as roupas com os olhos. Edon acompanhou a direção de seu olhar e, abaixando-se, apanhou o vestido verde.
Dê-me o vestido ela pediu.
Que utilidade esse traje teria para alguém que afirmou jamais deixar este quarto? Eu lhe pedi um copo de água e você negou, alegando que só sairia daqui para ver seu irmão, o que é impossível. Se quer mesmo o vestido, tente tirá-lo de mim antes que o jogue pela janela.
Virna mordeu o canto do lábio inferior, começando a tremer.
Por que está sendo tão cruel comigo?
Ao contrário, jamais fui tão generoso com uma pessoa tão pouco prestativa.
Não é verdade.
É, sim ele insistiu.
Então, vá em frente. Jogue a roupa lá embaixo. Talvez alguma pobre mulher que não tenha nada para usar possa aproveitá-la. O que me importa? E o que o leva a pensar que eu preciso vestir alguma coisa, viquingue? Basta-me lançar um feitiço e poderei caminhar tranqüilamente pelo pátio sem que ninguém me veja.
Edon arremessou o traje, sem se dar ao trabalho de verificar se caíra pela janela ou não.
Se abrir aquela porta e sair por aí nua, com ou sem feitiço, você será uma princesa muito, muito infeliz.
Virna sacudiu a cabeça, cobrindo o corpo com as longas madeixas.
Viquingue, o que lhe dá tanta certeza de que eu já não sou uma princesa muito infeliz?
Diante do olhar perplexo de Edon, ela abriu a porta e saiu.
