Capítulo Treze
No instante seguinte, Virna bateu a porta. Quase cega de raiva, avançou pelo corredor... e estacou.
O salão não estava vazio!
Mas deveria. Uma incalculável multidão se reunira na feira. Era de se esperar que os moradores do castelo também estivessem lá. Afinal, gostavam de percorrer as barracas e pechinchar com os mercadores. Oh, se ao menos ela tivesse lançado um encantamento de invisibilidade ao sair dos aposentos do vice-rei! Contudo, faltaram-lhe tempo e serenidade.
Agora era tarde demais. E, para piorar sua já catastrófica situação, o barulho que fizera ao bater a porta atraíra a atenção de todos, que se voltaram em sua direção e a fitaram, boquiabertos.
Oh, querida lady Eloya murmurou, enquanto o rei Alfred erguia-se da cadeira de espaldar alto de Edon. Rashid tocou o braço e um silêncio pesado calou o burburinho. O rei segurou o braço de Venn ap Griffin para impedi-lo de desembainhar a adaga.
Deixe-me, alteza, eu lhe suplico o jovem príncipe bradou, desesperado. Eu lhe disse que chegaríamos tarde. Juro que matarei aquele miserável!
Você ficará quieto Alfred ripostou.
Virna engoliu em seco, procurando raciocinar. Tinha duas opções, naquele momento. Ir em frente, atirar-se aos pés do primo e suplicar sua proteção, ou retornar, engolindo o próprio orgulho, para junto de Edon. Claro que, se assim procedesse, permitiria ao viquingue humilhá-la pelo resto de sua vida.
Ciente de que pagaria um alto preço por qualquer das decisões, optou pelo rei. No passado, ele mostrara compreensão e solidariedade, por isso não acreditava que lhe fosse falhar agora.
Toda a agitação do salão parecia ter-se congelado, cristalizada no tempo e no espaço. Ninguém movia um músculo ou ousava proferir um som. Apenas os olhos fitavam-na com intensidade, como se indagassem o que a princesa faria em seguida.
Ela avançou pelo salão, os cabelos cobrindo-lhe o corpo, e ajoelhou-se diante do rei.
Majestade, perdoe-me. Nesse instante, coloco-me sob sua misericórdia.
Na verdade, naquele instante desejaria morrer. Seria grata à Senhora do Lago se Ela, em sua justificada ira, enviasse uma onda que a engolfasse e fizesse desaparecer do nada. Mas os deuses pareciam ignorá-la. Virna estava mais do que consciente da própria nudez, do odor inconfundível do ato amoroso em sua pele. Tomada por uma sensação de irrealidade, fantasiou que tudo não passava de um pesadelo, que logo despertaria à beira do lago, outra vez uma sacerdotisa casta e reverenciada. Enquanto isso não ocorria, porém, manteve os olhos presos no chão, incapaz de fitar o primo e, principalmente, o irmão.
Pelo amor de Deus, alguém me dê o meu manto Alfred ordenou, num tom de voz que não ocultava seu choque. Um servo surgiu com o manto real e, a um gesto do monarca, estendeu-o sobre os ombros da princesa.
Saiam todos! o brado de Alfred rompeu a imobilidade como num passe de mágica. Instantaneamente, toda a corte começou a mover-se ao mesmo tempo. Venn aproveitou a confusão para soltar-se das mãos do soldado que o escoltava. Tirou a adaga da bainha e correu para o quarto de Edon.
Nels! Alfred chamou, com um grito. Vá atrás do garoto! Amarre-o no mastro se ele lhe der trabalho. Virna ap Griffin, levante-se. Você teve a audácia de entrar neste salão nua como veio ao mundo. Erga-se agora e me conte o que pensa que anda fazendo neste condado! Não ordenei que fosse para Chester?
Mas, majestade... Virna fitou-o, aterrorizada.
Venn soltou um grito feroz ao ser capturado e desarmado. O bispo Nels pessoalmente aplicou-lhe uma chave de braço e arrastou-o para a escada.
Os guardas do rei e os de Edon impeliam os curiosos escada abaixo, atrás do bispo. Todavia, não conseguiam afastar as pessoas na velocidade desejada por Virna ou pelo rei.
Eu disse para você se levantar! Alfred rugiu.
Arquejando, ela obedeceu. Tremia dos pés à cabeça e jamais seus joelhos se haviam mostrado tão fracos. Então, obrigou-se a encarar o primo. Alfred era doze anos mais velho, mas passara metade da sua vida comandando exércitos. Ela nunca temera sua ira, mas agora sentia-se simplesmente apavorada. Desviou o olhar para a escada, umedeceu os lábios e, por fim, disse:
Alteza, perdoe-me, eu lhe suplico sua voz desapareceu na garganta quando ela viu a expressão furiosa no rosto de Alfred. Ela o havia constrangido tanto quanto a si mesma. Isto... não é o que parece... tartamudeou, sabendo que suas palavras não faziam sentido.
É o que, então? ele a interrompeu, erguendo uma sobrancelha. Que lamentável pantomima foi essa? Você a encenou só para me aborrecer?
Eu não encenei coisa alguma Virna apressou-se a retrucar. Dou-lhe minha palavra, Alfred. Eu nem sabia que você se encontrava aqui. Pensei que o castelo estivesse vazio, que todos tivessem ido à feira.
Com o barulho de quarenta pessoas neste salão? ele redargüiu, obviamente não acreditando nela. Bem, é possível, pois os ruídos que vocês faziam naquele quarto eram mil vezes mais altos.
Virna enrubesceu até a raiz dos cabelos.
Você chegou a muito tempo?
Alfred conteve o ímpeto de segurar-lhe os ombros e sacudi-la. O que ela pensava, que ele era um tolo? Cerrou os punhos e rosnou:
Cheguei ao meio-dia e fui recepcionado por um homem cego que me trouxe a este salão e me informou que você e o vice-rei estavam ocupados.
Abalada, Virna retrucou:
Por minha alma, primo, eu não sabia de nada disso... Nenhum som atravessou as pedras daquela parede.
Passos soaram atrás de Virna. Os argutos olhos azuis de Alfred desviaram-se naquela direção e pousaram em Edon. Virna virou-se para vê-lo e constatou que o noivo tivera o cuidado de comparecer perante o rei adequadamente trajado para a ocasião, exibindo até a túnica de vice-rei. Ressentida, ela fechou mais o manto de Alfred ao redor do corpo.
Edon cruzou o salão com firmeza. Diante do monarca de Wessex, pousou o joelho no chão e beijou-lhe a mão com digna solicitude.
Majestade, perdoe-me por não estar presente na sua chegada. Sua presença só era esperada amanhã.
O que demonstra falta de perspicácia. Afinal não foi você que me enviou o meu tutelado contando histórias sobre o viquingue que lhe violou a irmã? Não me venha com palavras corteses, Lobo. Levante-se e olhe para mim de homem para homem. Eu lhe ordenei desposar a princesa, não seduzi-la.
Você não tinha o direito de lhe ordenar que me desposasse! Virna protestou.
Tenho o direito de agir como julgar melhor! E não erga a voz para mim!
Edon lançou um olhar de advertência para ela.
Eu a preveni para não abrir aquela porta, princesa.
Não, você apenas me disse que eu seria muito infeliz se saísse do quarto e eu respondi que já era muito infeliz. Alfred, como pôde ordenar a um viquingue que me tomasse por esposa, conhecendo as tradições do meu povo? Por que fez isso?
Você é minha tutelada, Virna ap Griffin, e é meu direito dispor do seu futuro, e escolher-lhe o marido que eu considerar apropriado. Também lhe ordenei que fosse estudar na abadia de Loytcoyt, que providenciasse para que suas irmãs fossem batizadas e assistissem à missa todos os dias. Deixei bem claro que não toleraria mais superstições na floresta de Arden. E também fui enfático quando declarei que não deveria ensinar bruxarias àquelas meninas.
Meninas? Edon interferiu. Que meninas?
As três irmãs do príncipe herdeiro e de sua noiva, Warwick. Onde estão elas? Tenho o estranho palpite de que não se encontram na abadia de Loytcoyt, como deveriam. Estou errado, Virna?
Não, alteza.
Foi o que pensei. O desprazer de Alfred era evidente. Então, não cheguei aqui demasiado cedo. O casamento será celebrado depois de amanhã, Virna ap Griffin, e não tolerarei nenhuma tentativa de recusa. Não me desafie nem ponha em perigo o acordo de paz que assinei. É evidente que o conflito maior entre vocês resulta de uma ridícula luta pelo poder. O que é inadmissível, com tanta coisa em jogo! Vice-rei Edon, precisamos ter uma conversa muito franca. Você tem de aprender a controlar sua futura mulher, ou esse casamento não servirá para nada.
O rei fez uma pausa. Seus olhos voltaram-se para a prima, condenando-a pela situação vexatória.
Volte para seu boudoir e recomponha-se. Não se atreva a aparecer diante de mim com uma aparência incompatível com o seu título. O status de princesa, que você tanto preza, exige uma conduta muito mais digna do que a sua.
A vontade de reagir abandonara Virna. Tinha o coração em frangalhos, destroçado pela crueldade de Edon e pela incompreensão de Alfred. Ela teria sacrificado tudo o que lhe era mais caro na vida por amor, desde que o viquingue não ferisse seu auto-respeito. Só agora se dava conta de que o noivo recebera ordens de governar as terras dela. E haveria melhor maneira de cumprir essa ordem do que levar para a cama a filha mais velha do último rei de Leam?
Edon de Warwick jamais a amaria. Iria desposá-la apenas por razões políticas e econômicas. Nada no mundo real era como ela imaginara. O simples fato de não lhe servir um copo de água, aos olhos dele tornava-a imprestável e indigna da estima do todo-poderoso Lobo de Warwick.
Se alguém lhe cravasse uma adaga no peito, não a magoaria mais. Já não poderia voltar a ser sacerdotisa de Leam. Na verdade, Leam estava preste a desaparecer. Todo o seu povo seria sacrificado em benefício do acordo de paz entre os reis Alfred e Guthrum. Nem mesmo os deuses mostravam qualquer compaixão.
Os deuses estavam mortos.
Essa era uma verdade que, embora se recusasse a admitir, descobrira havia muito tempo.
Lady Eloya e suas servas foram enviadas para a casa de banho, a fim de cuidar da princesa. Virna, porém, não se deixou enganar pela solicitude das mulheres, sabia que a função delas era vigiá-la.
Gostaria de dizer a Alfred e a Edon que a vigilância era dispensável, pois seu orgulho a impediria de praticar qualquer tolice, além da que já praticara.
Franziu a testa ao entrar no banho. Habituada às águas frias do rio, a imersão na tina escaldante foi uma espécie de penitência que só com estoicismo poderia suportar.
Perdida em pensamentos sombrios, demorou para reparar na mulher que, envolta dos pés à cabeça num manto negro, observava-a de um dos cantos sem iluminação da sala de banho. Reprimindo um grito de espanto, olhou em torno para certificar-se de que era a única a enxergar a aparição.
" Virna, estamos todos reunidos no pátio" a voz soou em sua cabeça. " O que podemos fazer para ajudá-la?"
" Mãe Wren!" ela exclamou, em pensamento. "Não deviam ter vindo a Warwick. Alfred já chegou, e está furioso comigo. Temo pela segurança das meninas."
" Se você der a ordem, nós lutaremos."
" Não! Sofreríamos uma derrota humilhante! Eu os proíbo de pegar em armas. Voltem para a floresta."
" Sábia decisão" Wren aprovou antes de desaparecer.
Contudo, já era demasiado tarde para as jovens princesas de Leam. Suas gargantilhas de ouro haviam atraído a atenção de muita gente... inclusive a do rei Alfred, que ordenou aos guardas que as capturassem. Ele não sentia a menor inclinação de tratá-las com gentileza, pois, nos últimos tempos, a família real de Leam só lhe causava problemas.
Depois de mandar arrancar as gargantilhas, enviou-as imediatamente para Loytcoyt. Edon tentou dissuadir Alfred da idéia de afastar as princesas, oferecendo-se como guardião delas. O rei nem sequer considerou a proposta, já que Edon era tão pagão quanto a noiva.
Depois da partida abrupta das garotas, o rei comunicou a Venn e a Virna que suas irmãs dedicariam o resto de suas vidas a Cristo. Quando chegasse a hora do casamento, ele lhes escolheria os maridos.
Por fim, numa exasperada resolução, o rei Alfred de Wessex considerou dissolvida a casa real de Leam.
Segurando as gargantilhas das princesas, Alfred perscrutou a multidão reunida na colina de Warwick. Sondou o humor daquelas pessoas e pressentiu que aquela era a oportunidade de obter uma retumbante vitória moral. Usando os colares para atrair-lhes a atenção, Alfred conduziu-as às margens do rio Avon. Todos o seguiam, com exceção de alguns viquingues, que permaneciam leais a Embla Garganta de Prata. Ela e sua guarda aproveitaram o momento de comoção para escapar para os bosques abaixo da fortaleza e ninguém mais os viu no castelo aquele dia.
O sol afundava inexoravelmente no horizonte. Fora um longo e interminável dia. Contemplando as faces que o fitavam, expectantes, Alfred confirmou sua impressão de que aquela gente estava pronta para aceitar as mudanças.
Resolutamente, dirigiu-se ao povo. Sabia que a maioria estava ali apenas por curiosidade, para descobrir o que ele faria com as gargantilhas. Talvez até esperassem que o braço áqüeo de Branwyn se erguesse do rio e agarrasse as gargantilhas sagradas. Mas isso não ocorreria. Os colares afundariam no leito do rio, onde jazeriam para sempre, e as esperanças daquelas pessoas supersticiosas morreriam. Cabia a ele ofertar-lhes novos símbolos que compensassem a perda.
Com eloqüência, discursou sobre os mitos ancestrais, reduzindo-os a lendas e crendices de um reino que só existia na fantasia, o de Arthur e Merlin. Naquele exato instante de sua apaixonada locução, deixou negligentemente caírem as três gargantilhas nas águas do Avon. Como previra, nenhum milagre aconteceu. As jóias desapareceram sem deixar rastro.
Alfred usou a demonstração para proporcionar ao povo de Leam e aos viquingues pagãos um novo começo, o batismo, a vida eterna e a eterna salvação pela graça de Deus Todo-poderoso. Então, passou a palavra para o bispo Nels de Athelney.
O bispo palestrou sobre as batalhas que os celtas da Bretanha haviam enfrentado ao longo dos anos. Apesar de absorta, Virna percebeu que Venn se mostrava fascinado por aquelas palavras.
Nels de Athelney tinha o Dom de tocar o coração de celtas tão tristes e desesperançados como ela, bem como o dos viquingues atingidos pela adversidade e o dos oprimidos mercianos, que não pertenciam ao povo de Anglia, nem ao saxão ou ao celta, mas resultavam numa mistura bastarda de todos eles. Em sua comovente preleção, Nels transmutou os antigos deuses em santos do cristianismo.
Virna já ouvira a maior parte dos mais persuasivos argumentos e, por isso, não se impressionou ao ver sua amada Senhora do Lago transformada em Santa Brígida. Contudo, sabia que o bispo manipulava os anseios daquela gente. O culto das virgens continuaria, renascido sob os auspícios de uma santa, abençoada pela congregação como a Santa Mãe de Deus.
Os cristãos haviam assimilado tudo. Todas as celebrações pagãs agora assumiam um novo caráter nos rituais da Igreja de Cristo. Para se tornar cristão, era suficiente dizer "sim" ao Senhor e aceitar o batismo.
Depois de levar a multidão a um êxtase fervoroso, o bispo Nels convocou os padres da abadia de Evesham ali presentes para ajudá-lo a celebrar os batismos no rio Avon.
Para Virna, tudo aquilo parecia um pesadelo. A sensação de irrealidade não a abandonava.
O rei Alfred entrara na água até a cintura, atuando como padrinho de Edon, Venn e Virna.
O vice-rei de Warwick foi o primeiro, recebendo o nome de John. Venn foi batizado com o nome de Samuel. Sem esboçar reação, Virna deixou que lhe molhassem a cabeça. Tampouco protestou quando o rei Alfred chamou-a de Mary e presenteou-a com um crucifixo de ouro.
Alfred cumprimentou-os pela conversão, enquanto Virna enxugava os olhos. A correnteza ameaçava dobrar-lhe os joelhos, e um arrepio gelado a fazia tremer. O sol, embora já invisível, erguia raios sangrentos pelo céu, num ocaso cheio de fúria. Ela abriu os olhos e sentiu-se grata por constatar que o pior dia de sua vida enfim terminara.
Edon segurou-a pelo pulso e, calado, começou a puxá-la de volta para a margem. Virna trouxe os cabelos para a frente, colocando-os sobre a túnica molhada, para ocultar o relevo dos seios e a curva dos quadris.
Edon deteve-se na beira pantanosa do rio e arrancou a própria túnica. Resmungando, vestiu-a em Virna, empurrando-lhe os braços pelas mangas. Satisfeito, tornou a agarrar-lhe o pulso e marchou resolutamente para a colina de Warwick.
Encontraram a fortaleza inusitadamente silenciosa. Eloya e Rebeca levantaram os olhos de seus bordados e espantaram-se ao ver Edon e Virna encharcados até os ossos. Rashid, Theo e Eli estavam à janela, observadores impassíveis do espetáculo da conversão. Preferiam manter-se a distância, comprometidos com suas crenças pessoais.
Como se movido pelo desejo de exercer sua autoridade, Edon puxou Virna até os aposentos dele e fechou a porta.
A câmara estava praticamente às escuras, pois o sol já se pusera e ainda não haviam acendido as velas. Num relance, Virna constatou que as servas de Eloya tinham arrumado a cama, trocando os lençóis de linho.
Com gestos mecânicos, despiu a túnica de Edon e colocou-a no parapeito da janela para secá-la.
Então, afastou-se da janela e segurou a barra do vestido encharcado para despi-lo.
Pare Edon ordenou.
Minha roupa está molhada ela protestou.
Eu disse para você não se despir.
Virna soltou o vestido, que voltou a cobrir-lhe os tornozelos e pés. Como não sabia o que fazer com as mãos, deixou-as pendidas ao lado do corpo. Não preferiu uma palavra. Tampouco Edon.
Ele contemplou o contorno dos seios sob o tecido molhado, os quadris ondulantes, as coxas esguias e musculosas. Sentiu tamanha ternura e desejo que precisou respirar fundo para conter o impulso de lançar-se a seus pés e pedir-lhe perdão. Mas sabia que não tinha o direito de fazer isso. "Luta pelo poder", dissera Alfred. Sim, o rei tinha razão. Aquela mulher, sem se dar conta, dominava-o de modo intolerável. Não precisava sequer recorrer a feitiços, pois bastava um sorriso, um olhar, e o encantava. Contudo, ele era o vice-rei de Warwick, seu futuro marido e senhor. Se não domasse aquela fera agora, seria seu escravo para sempre. A contragosto, tirou o cinturão de couro e, ostensivamente, dobrou-o nas mãos.
Qual foi a última coisa que lhe disse antes de sair intempestivamente deste quarto, princesa?
Ela ergueu o queixo com altivez.
Que, se eu saísse nua, com ou sem feitiço, seria uma princesa muito, muito infeliz.
E você é?
Sim.
Ótimo. Já é um começo. Venha até aqui e ajoelhe-se ao lado da cama. Não é necessário erguer a saia.
O que acontecerá se eu me recusar?
Experimente e veja.
Sem se mover do lugar, ela tentou ganhar tempo.
Edon, eu não sabia que o rei estava no salão.
Não faz a menor diferença o que você sabia ou deixava de saber. O problema não é entre você e seu rei, mas entre nós dois. Eu serei obedecido e respeitado em minha casa.
Virna balançou a cabeça de leve. Aquele era o primeiro mandamento que aprendera na vida. Tantas vezes punira os irmãos por desafiá-la... Chegara a bater neles com um cinto, não muito diferente daquele que Edon segurava naquele momento. Venn e Gwyneth, mais desobedientes e teimosos, foram os que mais sofreram. Claro que não usava força, pois preferia morrer a machucá-los. Tratava-se apenas de um gesto simbólico, para lembrar-lhes que deviam "obedecer e respeitar" a princesa de Leam e sua casa.
Ao recordar esses detalhes da vida familiar, sentiu um aperto no coração. Estavam todos separados, agora, e a saudade que a oprimia era mais contundente do que uma dor física.
Edon rilhou os dentes ao ver a lágrima solitária que escorreu pelo rosto dela. Irritada com a própria fraqueza, Virna ergueu a mão e enxugou-a.
Muito bem, milorde murmurou, reassumindo uma postura altiva ao caminhar na direção da cama. Não suplicaria nem choraria diante dele. Importante ou não, o fato é que não irrompi naquele salão completamente despida com o intuito de embaraça-lo diante de sua corte e do rei Alfred.
O que pretendia, então, milady? Todos os seus atos proclamam que você jamais se deixará comandar por mim, mas que seguirá sempre seu orgulho e vaidade. Esta é a questão pendente entre nós dois. O motivo por que você não me deixou alternativas além de puni-la.
Virna cerrou os olhos. Detestava admitir, mas foram o orgulho e a vaidade que a levaram a sair do quarto. Queria provar a ele que nunca se submeteria a ninguém.
Estou habituada a ser a autoridade máxima em Leam. Hábitos assim não se perdem de um dia para o outro, por isto deve entender que ainda é muito difícil, para mim, curvar-me perante a vontade de outros.
Edon exasperou-se. Queria tomá-la nos braços e dizer-lhe que entendia, que sofria com seu sofrimento e que era seu aliado, não importava contra quem. Contudo, se o fizesse estaria perdido.
E veja só o que conseguiu com a sua teimosia! Percebe que, se houvesse obedecido às ordens do seu rei, suas irmãs não teriam sido sumariamente arrancadas de você hoje?
Virna engoliu em seco e sacudiu a cabeça.
Não sei.
Sim, você sabe, Virna Edon bradou. Por mais que lhe doesse, teria de ir até o fim. Seria implacável, se necessário, mas devolveria o conflito de uma vez por todas. Não brinque com as palavras, encare a realidade! Quem manda neste condado?
O rei, mas era seu dever proteger a casa real de Leam, para que nossa vida continuasse como antes. Em vez disso, ele não só doou as terras do meu povo para um viquingue como também prometeu batizar-me e dar-me em matrimônio. Os motivos que levam você a casar-se comigo são tão cruéis quanto os de Alfred.
Meus motivos sempre foram declarados com honestidade, Virna. Eu desejei Leam desde o primeiro instante em que pisei aqui.
Esse é o seu estilo... o estilo viquingue. Vocês vêem, cobiçam... e tomam, sem dedicar um segundo de seus pensamentos às pessoas que espoliam. Seu lema é "Tiremos dos outros antes que tirem de nós"! O seu povo podia ter convivido com o meu em paz e cooperação, mas isto não lhes daria o menor prazer não é mesmo?
Afrontado, Edon rebateu:
Milady, faço minhas as suas últimas palavras. Vocês podiam ter convivido e cooperado conosco na mais perfeita harmonia, mas preferiram tratar-nos como invasores e jamais tiveram outra intenção que não a de expulsar-nos! Vocês resistem às mudanças. Não importa que o mundo inteiro se esteja transformando, em Leam tudo permanecerá igual até o fim dos tempos. Até por que, desse modo, você continuaria sendo a "autoridade máxima" para a sua gente, sem ter de curvar-se perante ninguém, certo? Foi por isto que você instigou a rebelião e a desconfiança. E sacrificou o filho de minha irmã, sobrinho do meu rei, no seu ritual sangrento de Lughnasa.
É mentira! ela gritou.
Não é, não! Edon avançou em sua direção, furioso. Por que motivo você acha que dois reis tão diferentes mostrariam interesse pelas atividades de um pequeno e insignificante grupo de pagãos celtas?
Porque os dois cobiçam esta terra.
Não! ele bradou a plenos pulmões. Porque um deles, o recém-convertido, convenceu-se de que estavam insultando suas crenças neste lado da fronteira. Guthrum acredita que os rituais de você são demoníacos. Sacrifício humano é o mais aviltante dos rituais, porque a vida é tão sagrada quanto o próprio Deus que a criou!
Nós não tivemos nada a ver com a morte do vice-rei Harald Jorgensson! Virna insistiu com irada veemência. Quem nos acusou desse crime?
Isto é irrelevante, princesa. A questão é que o rei acredita que o seu povo continua praticando esses rituais antigos, e eu tenho certeza de que você ainda faz sacrifícios no lago da floresta de Arden.
Ora, você não tem certeza de coisa alguma ela ripostou.
Então, diga-me onde está a sua gargantilha neste momento.
Edon aguardou a resposta, convicto de que não haveria nenhuma. Um silêncio pesado, quase palpável, separou-os ainda mais. Virna abaixou a cabeça, derrotada. Então, ele mesmo respondeu:
No fundo do Lago Negro, porque você ofertou a sua jóia mais sagrada e preciosa em sacrifício à Senhora do Lago. Não foi?
Abalada, ela redargüiu com voz entrecortada.
Como sabe?
Edon suspirou ao ver suas suspeitas confirmadas. Que os céus os salvassem se Embla Garganta de Prata lograsse provar suas acusações em relação à morte de Harald. Ele seria obrigado a considerar todos os druidas e sacerdotisas culpados pelo assassinato do sobrinho.
Harald Jorgensson era meu parente, e, se você tiver qualquer ligação com o desaparecimento dele, pagará por isso.
Como pode ser tão tolo? Se investigasse em sua própria fortaleza, descobriria o que foi feito de seu sobrinho. Eu e meu povo somos inocentes!
Reze para que minhas investigações comprovem o que está afirmando, Virna ap Griffin. Meras insinuações de nada lhe adiantarão. Quanto a nós dois, comunico que nosso casamento será celebrado em Lammas, dentro de dois dias. Todas as terras e bens que, segundo você, pertenceriam a seu irmão passarão para mim, para administrá-los e deles dispor como julgar melhor.
Você terá de me carregar para o altar, viquingue. E aviso que essa não será uma tarefa simples.
Nem tanto quanto você prevê. Ele bateu na perna com o cinturão. De uma forma ou de outra, aprenderá a submeter-se à autoridade. Se a força for a única linguagem capaz de convencê-la, então terei de usá-la sem a menor piedade.
Se bater em mim, jamais o perdoarei.
Princesa, se não bater em você, eu não me perdoarei. A sua obstinação e os seus caprichos nos conduziram a este impasse. Creia-me, depois de uma pequena lição, no futuro você avaliará melhor as conseqüências dos seus atos.
Virna esgueirou-se e grudou as costas na parede, fitando-o na penumbra, a cabeça movendo-se de leve num gesto de negação. Seu coração batia descompassado, e ela repetia para si mesma "não, Edon, não faça isto", mas seu orgulho indomável a impedia de suplicar. Ela era a princesa de Leam, a sacerdotisa violada da Senhora do Lago.
Sabia dos castigos que ele atrairia para si ao levantar a mão contra ela, num desafio aos deuses. O bom senso a advertia que era sua obrigação avisá-lo do perigo. Contudo, a cerimônia do batismo a que ambos se haviam submetidos proclamara que os deuses pagãos não mais existiam. Nesse caso, por que perderia tempo com castigos que também não existiam mais?
Então, bata, viquingue. Vingue-se de mim e mostre quem é o mais poderoso de nós dois. Quanto mais cedo me bater, mais cedo me livrarei de você. E para sempre.
Seu raciocínio contém um grave erro, princesa. Você não se livrará de mim, pelo menos não antes do casamento. Com essas palavras, Edon ergueu a mão trêmula. Odiava a idéia de magoá-la, mas sua obstinada recusa a submeter-se à sua autoridade não lhe deixava alternativa.
