Capítulo Quatorze

Inopinadamente, um relâmpago cintilou no ar. Breve como uma batida de coração, o raio brilhante ziguezagueou através da janela, atingiu o cinturão na mão de Edon e explodiu nos gonzos de ferro da porta, incendiando o carvalho maciço.

Edon, arremessado contra a parede, desabou no chão. O cinturão incandescente jazia não muito distante de onde ele caíra. Virna encolheu-se num canto do quarto, protegendo os ouvidos do bramido ensurdecedor do trovão, fazendo todo o prédio tremer nos alicerces.

Cega e engasgada pela fumaça, ela foi acossada por um pensamento irreverente: "Se este é um sinal dos deuses, é demasiado débil e tardio. O mal já fora consumado hora antes... pelo rei de Wessex... não pelo Lobo de Warwick!"

No outro lado da câmara, Edon continuava inerte, os cabelos completamente eriçados.

Pela abertura da porta queimada, Eli irrompeu, gritando:

 Lorde Edon!  Então, avistou o vice-rei no chão, o cinturão flamejante ao seu lado, e a princesa tremendo num canto.  Fogo, fogo! Ajudem!

O servo apressou-se a apanhar a ânfora de cima da mesinha e jogar a água nas chamas, sem obter grande sucesso.

De algum modo conseguindo romper a letargia que a paralisara, Virna correu para a outra extremidade, onde Rashid acabara de estender Edon, ainda desacordado. Seus olhos entreabertos estavam vítreos. Enquanto vários criados arrancavam o que sobrara da porta, Rashid esfregava as têmporas de seu senhor com água. Contudo Edon não dava sinais de vida.

 Edon!  Virna murmurou. Um medo irracional a assaltava. O homem que amava parecia morto. Os deuses haviam provado uma vez mais que uma sacerdotisa não podia impunemente entregar-se ao amor carnal.  Edon!

Aflita, ergueu os olhos para Rashid. O persa fitou-a com desolação.

 Não posso fazer mais nada, princesa. Ele se foi.

 Não!  ela gritou, empurrando-o.  Não se atreva a repetir isto! Edon, Edon!  Desesperada, abraçou-lhe a cabeça e afagou-lhe o rosto, sacudindo-o de leve como se embalasse uma criança, numa ânsia imponente de trazê-lo de volta à vida.  Edon meu querido!

 Princesa  Rashid chamou-a com suavidade, tentando afastá-la do vice-rei.

 Não, deixe-me!  Ela aconchegou-o ainda mais, beijando-lhe o rosto, banhando-o com suas lágrimas.  Edon, por favor, não me abandone agora. Eu perdi tudo, só me restou você! Eu o amo tanto, não me abandone, por favor...

O corpo ainda quente do vice-rei jazia inerte em seu colo. Sua cabeça rolara para trás, a mandíbula estava caída, os lábios azulados, repuxados, lábios que a haviam beijado com a mais voluptuosa paixão. Por todos os deuses e também por Cristo, ela o amava! Como poderia viver sem ele?

Rashid lançou um olhar consternado para Rig e Eli. E os três, homens leais e devotados ao Lobo de Warwick, recuaram e viraram-se de costas para que a princesa chorasse sua perda com privacidade.

Lady Eloya abriu caminho por entre a pequena multidão que se acotovelava no corredor e entrou no aposento. Curvou-se sobre Virna e acarinhou-lhe os cabelos. Então, afastou-se, mal contendo o pranto, para levar a infeliz notícia a Theo e Rebeca.

Virna ouviu os gemidos do vento que percorria o castelo como um espírito ensandecido. Cerrou os olhos e imaginou-se no templo da Cidadela de Vidro. Em sua fantasia, deteve-se diante do altar de pedra e rogou à Senhora do Lago que a socorresse naquele momento de terror e desespero.

De súbito, uma visão formou-se diante de seus olhos fechados. Viu Tegwin diante do altar mais alto, com os braços erguidos, invocando todos os demônios do Outro Mundo por meio de um cântico muito antigo, na verdade, uma poderosa maldição. Conjurava-os para que viessem através do vento e consumassem sua vingança contra os inimigos de Leam.

 "Tegwin, não!"  gritou interiormente.  "Não, eu o proíbo, em nome da Deusa! Branwyn, eu lhe suplico, detenha-o! Devolva Edon a mim! Este homem me pertence, eu o escolhi. Eu o amo! Devolva-o a mim, por todos os deuses!"

Indiferente aos olhares perplexos que a observavam, Virna ergueu as mãos, formando uma espécie de círculo protetor. O vento parou de rugir.

Edon respirou.

Virna envolveu-o novamente nos braços, acalentando-o com uma suave melodia. Ele estava vivo. O Lobo de Warwick não morrera.

Rashid e Rig foram os primeiros a perceber o milagre. Rig caiu de joelhos e orou fervorosamente, enquanto Rashid chamou Eli para ajudá-lo a remover o vice-rei do chão. Com cuidado, tiraram-no do abraço de Virna e o deitaram na cama, cobrindo-o com um cobertor.

Esquecida das próprias roupas ainda úmidas, Virna apressou-se a se estender ao lado dele, afagando-lhe o rosto com infinita doçura. Ali permaneceu até a chegada do rei Alfred e seus padres.

 Venha comigo, princesa  lady Eloya instou.  O perigo já passou. Milorde ficará bem, agora. Rashid o protegerá... e eu a protegerei. Venha comigo, minha criança.

Com habilidade, Eloya evitou um confronto entre Virna e Alfred.

Levando-a para seus aposentos, ordenou às aias que trouxessem água quente, toalhas e roupas para a princesa.

Ainda abalada com os últimos acontecimentos, Rebeca andou de um lado para o outro durante alguns minutos. Por fim, parou diante da janela e perscrutou o céu.

 Há nuvens bens altas no norte  lady Eloya comentou.  Com todos aqueles raios, trovões e vento, não caiu uma gota de chuva. Talvez agora, quem sabe...

 Não  Virna sacudiu a cabeça.  A tempestade acabou. Não choverá em Warwick, não haveria chuva antes que seu irmão molhasse a terra com seu sangue. A sorte estava lançada. Ela fora uma tola ao duvidar do poder dos deuses. Mil vezes tola, por questionar sua existência.

 Como sabe?  Rebeca inquiriu, atônita.

 Apenas sei.

Thomas, o bebê de Rebeca, acordou naquele instante, chorando a plenos pulmões.

 Oh, pobrezinho, deve estar faminto.  A mãe voou para junto da cesta.

 Virna, você gostaria de segurá-lo um pouco?  Eloya sugeriu.

 Oh, sim!  ela exclamou, aconchegando o mesmo no colo como fizera com Edon. Imediatamente, ele parou de chorar e estendeu as mãozinhas para segurar-lhe os cabelos.

Virna brincou com a criança, sentindo-se em paz pela primeira vez em muito tempo. Reconciliara-se com seus deuses e estes lhe trouxeram Edon de volta. Sim, ela sentiria saudade de seus irmãos, mas sabia que um dia os teria de volta. Alfred acabaria por demonstrar sua sensibilidade e senso de justiça.

Depois que a princesa devolveu o bebê para a mãe, que se dirigiu aos próprios aposentos para amamentá-lo. Eloya mostrou-lhe um lindo vestido de veludo e seda.

 Agora, milady, deve trajar-se de acordo com sua posição. Afinal, em breve será a mulher do vice-rei de Warwick.

Virna sorriu.

 Mas esse traje é demasiado luxuoso para usá-lo hoje.

 Com certeza. Esta é a sua veste nupcial. Nem está pronto ainda, mas Rebeca e eu conseguiremos terminá-lo em tempo para a cerimônia.

 Oh, não sei como agradecer-lhe...  Virna murmurou, comovida.

 Princesa...  Eloya hesitou.  Sugiro que não contrarie o rei de Wessex, ao menos enquanto for nosso hóspede. Por que não usa o crucifixo que sua majestade lhe deu? Fica muito bonito em você.

 A despeito de tudo o que Alfred me fez hoje, tenho de admitir que é um bom rei  Virna replicou, mirando-se no espelho que Eloya estendera diante dela.

 Tem razão. Ouso até afirmar que seus motivos são bastantes justos. Claro, ele é um ser humano falível como todos. Milady, ele ordenou a Edon que... batesse em você?

Virna refletiu por alguns instantes sobre a questão. Então, devolvendo o espelho, sacudiu a cabeça com firmeza.

 Não, lady Eloya. Conheço meu primo. Como rei, Alfred é quase sempre excessivamente humano. Por maior que fosse o rigor com que ele se sentisse obrigado a tratar-me, jamais chegaria a esse ponto. Não, a surra foi idéia de Edon, uma péssima idéia, para me mostrar quem é que manda aqui. Não aprovo essa atitude do vice-rei, mas eu também cometi um erro ao tentar assumir o comando. É uma tolice brigarmos pelo poder, quando há tanta coisa em jogo.

Eloya fitou-a nos olhos e leu, no olhar quase dourado, uma vontade férrea temperada com a mais profunda ternura. Aquela jovem sem dúvida tinha condições de ser uma rainha, e teria esse direito. Alfred era um homem de sorte, pois a sacerdotisa de Leam não teria dificuldades em ordenar aos deuses que o fulminassem com um raio.

 Não, eu não poderia fazer isso, Eloya  Virna declarou em tom categórico, em resposta ao pensamento da amiga.  Só tenho a capacidade de interceder. Nem sempre os deuses me atendem. Podemos ir agora?

Surpresa com aquela inesperada demonstração de telepatia, Eloya aquiesceu.

 Se quiser, milady.

 Preciso ver meu noivo.

O vice-rei estava sentado à extremidade da mesa, numa cadeira de espaldar baixo, a outra fora cedida a Alfred. Seu rosto ainda se mostrava pálido e abatido. Rig levantou-se imediatamente para ceder o lugar a Virna.

 Arranje uma almofada para a princesa  Edon ordenou ao servo.

 Com que então, você ainda se dispõe a mimá-la com tantos cuidados?  Alfred indagou-lhe.

 É claro que sim. Ela se tornará minha esposa depois de amanhã. Passaremos o resto de nossas vidas juntos.

Um vivo rubor tingiu as faces de Virna quando ele sussurrou em seu ouvida, segurando-lhe a mão.

 Pensei que você jamais viria ao meu encontro.

 Mas vim. E, no corredor, ouvi os homens elogiando o desempenho do vice-rei, que fez a princesa gritar tão alto e com tanto prazer, esta manhã.

Foi a vez de Edon corar.

 Há muitas coisas pelas quais devo pedir o seu perdão...

 Você pode pedi-lo mais tarde.

Alfred voltou-se para lady Eloya, introduzindo-a na conversação.

 O que achou daquele estranho raio de hoje, milady? Já havia visto alguma coisa assim em seu país?

 Quem já presenciou uma tempestade no deserto sabe que não existe nada pior  ela respondeu com diplomacia.  Contudo, concordo que a natureza hoje se excedeu. Vossa alteza sabia que chegamos a supor que lorde Edon havia morrido?

Alfred relanceou os olhos para o vice-rei.

 A julgar pelo aspecto dele, creio que tiveram motivos para pensar assim  retrucou. Todavia, agradou-lhe perceber que tanto Edon quanto Virna ostentavam os crucifixos que lhes presenteara. Talvez fosse mesmo possível domar a selvagem prima, afinal de contas.  Você também pensou que estivesse morto, lorde Edon?

 Não, é claro que não  Edon repeliu a idéia.  Embora me sinta um tanto... estranho. E meu peito dói, na altura do coração.

 E quanto a você, prima Mary?  o rei dirigiu-se a Virna, chamando-a pelo nome de batismo.  Não foi atingida pelo raio que quebrou a pedra sobre a janela?

 Quebrou a pedra?  Ela virou-se para Edon, espantada.

 Não foi bem assim  o vice-rei contradisse.  Eu havia percebido uma grande rachadura nessa pedra quando inspecionei o castelo pela primeira vez. Chamei os pedreiros e eles colocaram uma barra de ferro no topo de lintel antes de colocarem o caixilho da janela. Como não ignoram, o ferro atrai os raios.

 Do mesmo modo que a magnetita?  Virna indagou.

 Exatamente. O princípio é o mesmo.

 Bem, a altitude desta colina sem dúvida deve ter contribuído  Alfred ponderou.  Talvez vocês devessem construir um castelo no vale e deixar este aqui apenas como defesa. Seria mais seguro.

Edon sorriu, contrafeito.

 Refletirei sobre a sua sugestão, majestade.

 Cuidado com a próxima tempestade  advertiu Venn ap Griffin, do outro lado da mesa.

Virna engoliu em seco. Edon percebeu sua reação e indagou ao príncipe herdeiro:

 O que disse?

 Meu irmão sugeriu que você se prepare antes que haja outra tempestade  ela respondeu em lugar de Venn, lançando-lhe um olhar carregado de significação.

O rapaz encolheu os ombros de leve. Nels de Athelney cochichou algo em seu ouvido. Edon sentiu os cabelos se eriçarem, como ocorrera antes da queda do raio. Não prestara atenção, na hora, mas agora seria impossível ignorar a sensação.

 Se um garoto tem idade suficiente para sentar-se à mesa junto com os homens, então tem idade para responder sozinho, princesa.

 Perdoe-me, milorde, mas Venn quase não domina o seu idioma  ela explicou, soando pouco convincente.  Às vezes, ele diz uma coisa quando queria dizer outra.

 Entendo. O interessante é que ele não falou no meu idioma, mas no seu  Edon replicou, franzindo a testa, incapaz de afastar os olhos do olhar cor de âmbar de sua noiva. Não conseguia discernir o que ela queria dele, mesmo sabendo que o irmão passara do limite. Novamente, seu ouvido zumbiu e os cabelos se eriçaram. Se estivessem numa batalha, juraria que alguém tentava atacá-lo pelas costas. Instintivamente, olhou por sobre o ombro, esperando ver Embla Garganta de Prata prestes a golpeá-lo com uma adaga.

"Isso é ridículo", pensou. Pouco à vontade, estendeu a mão para a taça e sorveu um gole de vinho.

Os dois eram feiticeiros, tanto o príncipe quanto a princesa. Claro que não teriam poder suficiente para controlar os elementos. A obstinação com que Virna protegia o irmão o aborrecia, mas não era isso o que o incomodava tanto naquele momento. Era algo que ela dissera muito tempo antes... alguma coisa sobre os deuses protegerem os príncipes de Leam. Se ao menos conseguisse lembrar...

Para afugentar esses pensamentos, chamou Rig e inquiriu em voz baixa:

 Onde está Embla?

 Embriagando-se em seus aposentos  ele respondeu.

 Você a está mantendo sob estrita vigilância, conforme ordenei?

Aye, milorde. Sua sobrinha não sai do castelo sem que acompanhemos cada um de seus passos  o general lhe assegurou.

 Ótimo. Mantenham esse esquema  Edon comandou, alisando a bandagem que envolvia sua mão queimada. Os acontecimentos daquela tarde haviam sido realmente insólitos. Um raio o atingira. Seria possível que Virna tivesse recorrido à bruxaria para detê-lo?

Virna virou-se para ele, fitou-o direto nos olhos e sussurrou:

 Eu não invoquei o raio. Não podia nem desejava feri-lo.

Edon não teve dúvidas de que ela lera seu pensamento.

 Então, quem fez isso? E como fez?

Ela sacudiu a cabeça, desalentada. Se lhe contasse que Tegwin praticamente o matara e que a Senhora do Lago, atendendo o seus rogos, trouxe-o de volta ao mundo dos vivos, ele decerto não acreditaria. Mas, se acreditasse, sua fúria não teria limites.

 Eu não sei. Estou cansada e confusa. Talvez amanhã eu possa dar-lhe as respostas que procura.

"Como? Por meio de feitiçaria? Como posso controlar uma mulher capaz de impedir que minha mão se erga contra ela?", Edon questionou-se, desesperado. Como desposaria uma protegida dos deuses?

 Por que precisa "controlar" numa mulher? Para que bater nela? Por que não a ama, simplesmente?  Virna tornou a sussurrar.

 Não seja infantil!  o vice-rei exclamou num fio de voz.

Ela não queria provocar uma nova briga diante do rei e, assim, calou-se. Com gestos distraídos, começou a brincar com o crucifixo que pendia de seu pescoço. Edon, porém, parecia pouco inclinado a adiar a discussão sobre o tema que o angustiava.

 Como você encontrará as respostas para as minhas perguntas?

 Venha comigo ao lago sagrado. Eu lhe mostrarei alguns dos meus poderes.

 Muito bem  ele assentiu, sentindo-se vulnerável e irritado. Até aquele momento, jamais acreditara em poderes dessa natureza, e não iria mudar de opinião agora. Recusava-se a temer a própria noiva. Se cedesse, o medo envenenaria o amor que lhe dedicava.  Iremos ao lago amanhã. Agora, deixe-me comer em paz.

Virna endereçou-lhe um olhar repleto de tristeza.

 Talvez meus ancestrais fossem sábios ao proibirem que a princesa e sacerdotisa de Leam se casasse...

Edon não queria dar crédito a tabus, tradições e superstições. Tudo não passava de crendices de um povo ignorante. Em silêncio, concentrou-se em devorar o guisado que lhe fora servido por uma das aias. Só alguns minutos mais tarde dignou-se a replicar:

 Não existe fenômeno, por mais misterioso que pareça, que a lógica e a razão não expliquem.

Virna não retrucou. Ela o amava, mas tudo estava errado. O Lobo de Warwick a desposaria num igreja cristã. Se os deuses pagãos se enfurecessem, o que seria deles?

Com muito esforço, conteve uma gargalhada histérica. Ela se casaria com Edon, desafiando os deuses a tentarem detê-la. Depois de ver o seu corpo inanimado, por nada no mundo iria perdê-lo outra vez. O raio teria de atingi-la também, para impedir o casamento. Sim, ela abandonaria Leam e seu povo para seguir o vice-rei de Warwick. A menos que morresse antes.

 Minha casa é organizada  ele declarou, depois de sorver mais um gole de vinho.  Aqui impera a ordem, pois todos seguem as regras e cumprem seu dever. O seu é prover o meu conforto e gerar meus filhos.

Virna sorriu, imaginando uma garotinha de cabelos negros e olhos azuis, uma cópia fiel do pai. Naquele momento, soube que eles teriam duas meninas antes que o príncipe herdeiro nascesse.

 E filhas?  perguntou com suavidade.

Aye, muitas delas. Mas não as criarei para se tornarem feiticeiras ou qualquer coisa do gênero. Serão princesas normais, moças dóceis que não manipularão seus maridos por meio de bruxaria. Por Odin, devo ter bebido demais. Estou falando como um idiota. Vá dormir, Virna. Preciso conversar com o rei sobre assuntos que não interessam às mulheres.

 Como queira, milorde  Virna baixou os olhos, numa paródia de submissão.  Eu o deixarei livre para suas importantes conversas "masculinas".

Edon agarrou-lhe o pulso quando ela começava a erguer-se.

 Não zombe de mim, mulher.

 Animal  Virna rebateu sem ardor. Então, puxou o braço e levantou-se. Lady Eloya e Rebeca retiraram-se junto com ela.

Venn ap Griffin pediu licença para ir até a latrina. Aquela era a única forma de escapar do salão e tentar falar com a irmã em particular. O bispo seguia-o por toda a parte como uma sombra. Com passos sorrateiros, desceu a escada e embrenhou-se no pátio. Tinha certeza de que Virna viria ao seu encontro, que reconheceria seu sinal, um assobio que imitava o canto da cotovia.

As damas se haviam reunido no corredor, tagarelando, antes de seguirem para seus aposentos. Virna conversava com Eloya quando ouviu o assobio. Vinha do lado de fora do castelo, provavelmente do pátio.

Lady Eloya, não creio que conseguiria dormir agora. A noite está tão abafada, seria agradável dar uma volta lá fora...

 Excelente idéia. Rebeca, por que não vamos caminhar um pouco com a princesa?

Animadas, as duas damas seguiram-na pela escada. Ao chegar ao pátio, Virna aguçou o ouvido. Escutou o falso canto novamente e constatou que vinha da ala onde ficavam os aposentos de Embla Garganta de Prata.

Ao seu redor, as amigas continuavam a conversar.

 Foi impressão minha ou havia uma atmosfera estranha durante a ceia?  Rebeca indagou.

 Não, minha querida, não foi impressão  Eloya respondeu.  É que ninguém contou ao rei o que realmente ocorreu com lorde Edon. Sua majestade pensou que o vice-rei estava apenas um pouco abatido.

 Então, aconteceu mesmo um milagre?  Rebeca redargüiu.

 O rei diria que sim, se conhecesse os fatos... e não fosse um cristão tão fanático.

 Oh, que calor. Se pudéssemos refrescar-nos com a água deste poço... Que pena que se estragou no dia em que chegamos.

 Vocês precisam cavar outro  Virna interveio.

 Onde?  Eloya indagou com simplicidade. Não ignorava que sua senhora possuía dons especiais e, longe de se amedrontar, sentia-se fascinada.

Para Virna, a questão era elementar. Sem hesitação, andou dez passos e estacou. Tornou a ouvir o assobio, agora muito mais próximo. Não havia dúvida de que Venn a chamava. Não podia vê-lo, mas ele estava ali. Aprendera com ela a abrigar-se nas sombras para permanecer invisível.

 Aqui  mostrou à amiga.

 Espere, não saia daí  Eloya pediu, abaixando-se para apanhar algumas pedras do chão. Então, correu para junto de Virna e marcou o lugar.  A que profundidade acha que a água está?

 Oh, não muita. Uns três metros, no máximo.

 Você é brilhante!  Eloya abraçou-a com efusividade.  Os homens julgam saber tudo, mas estão enganados. Eu indicarei a Maynard a localização do nosso novo poço.

Embla Garganta de Prata saiu para o pátio a tempo de ver as três mulheres caminhando de volta para o castelo. Cruzando os braços, refletiu sobre a inutilidade das duas estrangeiras. Ambas eram habilidosas com agulhas, mas costuravam trajes pouco prático para os guerreiros. Sua única vaidade eram as roupas que, além de confortáveis para lutar, realçavam as formas de seu corpo forte e roliço. Ela era o alvo da cobiça de todos os viquingues de Warwick até aquelas mulheres chegarem e roubarem as atenções.

Com ar de escárnio, virou-se para Eric, o Sem Língua, e indagou:

 Qual das estrangeiras você quer levar para o seu leito? A mais velha ou a jovem mãe?

Eric sorriu e fez o gesto de embalar um bebê.

 Ora, ora, você tem bom gosto. Procure-me quando o dia raiar e eu deixarei que você prepare a minha tina na casa de banho. Cuidarei para que você possa admirar a sua amada... despida como veio ao mundo.

Eric balançou a cabeça com entusiasmada veemência antes de se afastar. Embla entrou em seu estábulo, acendeu uma tocha e empurrou um alçapão camuflado debaixo de um monte de feno. Então, desceu pela passagem e desembocou num porão, onde havia uma pesada porta coberta de teias de aranha. Abriu-a e desceu por uma escada tosca e escorregadia.

Venn se manteve absolutamente imóvel até a luz da tocha de Embla desaparecer, bruxuleando pelas paredes úmidas da caverna. Invisível, ele a seguiu até o interior do estábulo e a viu abrir o alçapão. Seu coração ameaçou sair pela boca quando percebeu que ela abria uma porta no porão. Instintivamente, sabia do que se tratava... era a entrada da masmorra. Todos os escravos comentavam sua existência, mas ninguém sabia informar sua localização. Dizia-se que Harald Jorgensson estava aprisionado ali.

Venn vislumbrou a possibilidade de obter uma grande vitória, na verdade, a maior de todas. Alfred o recompensaria regiamente se ele descobrisse o paradeiro do sobrinho do rei Guthrum. Se achasse os ossos do vice-rei Harald em Warwick, provaria de uma vez por todas que nenhum filho de Leam tivera a menor participação em sua morte. Desse modo, Virna poderia cobrar o wergild que lhe era devido. E talvez nem precisasse desposar o viquingue.

Por alguns instantes, sentiu-se dividido entre encontrar Virna e seguir Embla. Por fim, decidiu que era melhor agir. A irmã poderia esperar. Cuidadosamente abriu a porta e começou a descer degrau por degrau.

Na escada que conduzia à porta principal do castelo, Virna estacou. Onde Venn se teria escondido? Por que não assobiara de novo? Preocupada, lançou um olhar hesitante a Eloya e Rebeca e, levando a mão ao pescoço, exclamou:

 Minha gargantilha! Eu a perdi!

 Não perdeu, não  Rebeca contradisse, apontando para o colar em sua garganta.

 Quero dizer, o meu crucifixo. Acho que caiu perto do poço. Preciso encontrá-lo, ou o rei ficará ofendido...

 Nós a ajudaremos a procurar...  Eloya voltou da porta.

 Não é necessário. É só um instante. Podem entrar, eu irei em seguida. Creio que sei exatamente onde caiu.

Os portões da fortaleza estavam fechados. Havia o dobro de guardas montando sentinela, porque o rei estava em palácio. Eloya sabia que nada de grave poderia ocorrer.

 Então, vá. Se alguém perguntar, direi que você... foi à casa de banho.

 Eu não vou demorar  Virna prometeu.

Então, correu pelo pátio, esperando que o irmão saísse das sombras agora que estava sozinha. Perto do poço, parou e assobiou, imitando o canto da cotovia. Não houve resposta. Afastou-se na direção da ala onde ficavam os aposentos de Embla. Aparentemente, Venn também não se escondera ali.

Todos os seus instintos a advertiam para afastar-se daquela ala, de onde emanavam ondas malévolas como nuvens de enxofre.

Os guardas do portão avistaram-na e dois deles começaram a caminhar em sua direção. Virna observou-os com atenção, para verificar se os conhecia. Um deles era Maynard, capitão de Edon.

 O que faz aqui fora sozinha, princesa?  Maynard indagou-lhe, aproximando-se.

 Eu... perdi o crucifixo que meu primo me deu de presente  ela explicou, esforçando-se para não gaguejar. Detestava mentir e receava não se sair muito bem.  Então, vi luz nos aposentos de Embla...

 Não é aconselhável andar por esta ala, alteza. Venha, eu a ajudarei a procurar. Com esta tocha, será mais fácil.

Virna apertou o crucifixo na mão.

 Obrigada. Acho que o perdi junto ao poço.

Maynard escoltou-a até lá. Então, ela abaixou-se, remexeu numa moita de capim e bradou:

 Aqui está! Eu sabia que tinha de ser por aqui!

Levantou-se, exibindo a cruz na palma aberta.

 Tem uma visão excelente, milady, parabéns. Agora, venha comigo  ele lhe ofereceu o braço cavalheirescamente.  Eu a levarei de volta para o castelo.

Virna pousou a mão em seu braço, agradecida. Não olhou para a ala negra, pois não queria ver o mal que o rondava. Se Venn tivesse o mínimo de bom senso, também evitaria aquele lugar.