Capítulo Quinze

O rei Alfred e seus cavaleiros haviam saído para caçar. Os criados do castelo corriam de um lado para o outro, ocupados nos preparativos para o casamento do vice-rei.

Graças a isto, e também à sua nova condição de convertido ao cristianismo, Venn ap Griffin podia desfrutar de uma bem-vinda liberdade, perambulando pela fortaleza sem o desconforto de ser vigiado. Embora não passasse de um menino, em sua mente sentia-se um homem adulto e responsável pelo destino de sua família e de seu povo. Seu destino estava selado. Na noite seguinte, quando a sombra da terra eclipsasse a lua cheia de Lughnasa, seu espírito ingressaria no Outro Mundo, de onde teria permissão para retornar sob a forma que preferisse. Quanto a esse ponto, já decidira reencarnar como um gamo. O fundamental, porém, era que seu sacrifício traria a chuva tão almejada.

Ao contrário de sua irmã, apetecia-lhe cruzar os portões da fortaleza e se embrenhar na floresta. E foi exatamente isso o que fez naquele manhã. Desceu a colina e foi ao encontro de Selwyn e Stafford, que montavam guarda a uma distância segura.

 O que deseja de nós, milorde?  Selwyn indagou, depois de cumprimentá-lo.

 Capture Embla Garganta de Prata e prenda-a no calabouço do lago, até a chegada do rei Guthrum. Ele chegará aqui hoje à tarde.  Ele franziu a testa e acrescentou com evidente desprazer:  Para o casamento de Virna e do viquingue... amanhã, após a missa.

 Quais são seus planos, alteza?  foi a vez de Stafford inquirir.

 Pretendo negociar com Guthrum de Danelaw. Se ele convencer o rei Alfred a devolver minhas irmãs imediatamente, eu lhe entregarei Embla Garganta de Prata. Creia-me, o rei dos viquingues há de querê-la de volta. O que ela fez ao próprio marido, Harald Jorgensson, merece vingança.

 Você obteve a prova? Esteve na masmorra?  Selwyn espantou-se.

Aye. Depois que os reis aceitarem a minha proposta, eu mostrarei a lorde Edon onde seu sobrinho tem estado cativo todos esses meses.

 Refere-se ao lugar onde jazem seus ossos. Duvido que o vice-rei lhe agradeça por isto  Selwyn objetou. Não apoiaria um plano que arriscasse a vida do príncipe herdeiro em troca de nada.

Nay, ele ainda está vivo. Mas não por muito tempo.

 Então, por que não o tiramos de lá e o tornamos nosso refém? Harald seria mais valioso para a troca do que a esposa  Stafford sugeriu.

Venn refletiu por alguns instantes. Então, sacudiu a cabeça e ponderou:

 A masmorra fica embaixo do estábulo de Embla. Seriam necessários mais de três homens para resgatá-lo, principalmente no estado de debilidade em que se encontra.

 Mais um motivo para dar essa notícia ao vice-rei o quanto antes. Ele ficará mais do que grato.

O rapaz fez uma careta de desagrado.

 Não quero a gratidão do viquingue. Quanto mais Edon sofrer, melhor. Esse miserável desonrou Virna. Não, Wessex e Warwick têm de pagar. Como ousam coagir minha irmã a aceitar um casamento que contraria nossa tradição?

Selwyn e Stafford solidarizaram-se com o pequeno príncipe em sua raiva e ressentimento.

 Agora que não é mais virgem, Virna não tem escolha além de desposá-lo  Venn prosseguiu.  Ou se transformar numa bruxa, depois que eu me for, o que não condiz com seu temperamento e generosidade. Não, o Lobo de Warwick deve viver para protegê-la. Quanto a Leam, creio que Gwyneth poderá substituir Virna como princesa e sacerdotisa. Se tudo correr como espero, Alfred a devolverá para nós.

Stafford balançou a cabeça branca com gravidade, comovido com a grandeza e maturidade de um príncipe tão jovem.

 Você é o último filho de Leam e será reverenciado através dos séculos  declarou em tom solene.  Esses dinamarqueses desaparecerão da face da Terra, afogados no mar de sangue que eles mesmos estão provocando.

Venn concordou com veemência.

 O Deus único deles não é capaz de enviar a chuva. Apenas eu e Lugh podemos fazer isto. Pobre Alfred... mal sabia que presenteava nossos deuses ao lançar na água a gargantilha de minha irmã, antes do ritual do batismo.

Os dois guerreiros sorriam diante da ironia do destino. Por longos minutos, Venn descreveu os detalhes do seu plano. Embora tão novo, revelava-se um mestre na arte da estratégia.

Edon dormiu até tarde. Como precisava de repouso, após o que sofrera na véspera, Alfred o dispensara da caçada.

Bocejando, abriu os olhos e, imediatamente, foi assaltado pela idéia de que estava sozinho na cama, que Virna teria fugido durante a madrugada, envolta numa nuvem de fumaça.

Mas fora apenas um pesadelo. A princesa ainda dormia, deitada ao seu lado, linda e resplandecente em sua nudez.

Um desejo urgente de tomá-la nos braços, de sentir seu perfume, calor e maciez, acossou-o como uma ferroada dolorosa.

Ela parecia tão suave e inocente em seu sono, mas ele sabia estar diante de uma mulher extremamente perigosa. Não havia como negar, seus deuses pagãos a protegiam. O prazer que lhe proporcionava como amante era uma armadilha que poderia destruí-lo para sempre.

No entanto, amava-a como jamais amara ninguém, e iria desposá-la no dia seguinte.

Uma pontada na mão queimada tirou-o do devaneio e o obrigou a levantar-se para lavar o ferimento. Estava colocando uma nova bandagem quando Virna ronronou, sonolenta, e abriu os olhos.

 Oh, já deve ser tão tarde...  ela murmurou, sentando-se na cama.  Você precisa de ajuda com o curativo?

Nay, já terminei  Edon dispensou-lhe a ajuda com certa rudeza.  É melhor você se levantar. Temos uma longa caminhada até o lago.

Virna bocejou com preguiça.

 Não é tão longa assim, e podemos ir a cavalo.

Edon observou-a enquanto lavava o rosto na bacia.

 Iremos a pé  contradisse-a em tom que não admitia réplica. Afinal, quando ela aceitaria suas ordens? Quando desistiria de proferir a última palavras nas discussões?

Ele começou a vestir-se, percebendo que seus movimentos eram inusitadamente lentos. Uma estranha letargia dominava-o.

Uma imagem apavorante invadiu-lhe a memória, a de sair do próprio corpo e olhar para baixo, como um pássaro voejando pelo teto. Foi assustador ver a si mesmo estendido no chão, inerte, sem vida. Então, ela o segurou no colo e embalou como a uma criança e beijou-o, chorando, suplicando... declarando que o amava.

Que o amava! Se pudesse acreditar nisso... Mas ela estava histérica, e não se podia confiar nas palavras de uma mulher naquelas condições. Não, nos momentos que se seguiram ao raio, Virna não agira como de costume. Ficara apavorada, fizera e dissera tolices, nada mais.

Enquanto ele se entregava a reflexões sombrias, Virna remexia o baú em busca de roupas confortáveis para a jornada. Depois de selecionar um traje apropriado, vestiu-o, prendendo a bolsa com suas ervas e pedras sagradas. Em seguida, apanhou um pente de osso para desembaraçar e trançar os longos cabelos.

 Deixe-me fazer isso  ele propôs, aproximando-se dela. Prender uma cabeleira tão longa e farta não era uma tarefa das mais simples, e a mão dele doía. Ainda assim, experimentou um inefável prazer em tocar nas mechas sedosas. Depois que terminou, ele a fez virar-se e segurou-lhe o queixo.

Nenhum dos dois falou nada por longos instantes, limitando-se a fitar um ao outro, apaixonados e amedrontados.

Por fim, ela rompeu o silêncio.

 O que você quer de mim, Edon?

 Descobrir os seus limites.

 Como assim?

 Quero saber até onde você é capaz de ir para me obrigar a perder o controle. Ou será que os duelos para provar qual de nós dois é o mais forte já se acabaram?

Virna jogou a cabeça para trás, libertando o queixo da mão dele. Contudo, Edon não permitiu que ela afastasse o olhar.

 Warwick lhe pertence. Eu me declaro derrotada e, como tal, submeto-me à sua vontade.

Ele não se deixou convencer.

 Está sendo tão sincera agora quando naquele momento em que barganhou para salvar a vida de seu irmão. Cometi um grave erro ao não colocar você no lugar dele, no pelourinho.

 Desta vez, estou sendo sincera.

 Então, admite que aquelas lágrimas eram falsas? Você estava apenas manipulando os meus sentimentos.

 Não! Eu temia por meu irmão.

 Mas a sua promessa foi falsa.

 Não... embora eu realmente tivesse empenhado a minha palavra sem pensar. Nem me preocupei com o que sentiria depois que Venn estivesse fora de perigo. Ah, milorde, dediquei toda a minha vida à proteção da minha família e do meu povo. Mas, especialmente, do príncipe herdeiro.

 E o que fará de sua vida de agora em diante, milady?

Ela abaixou o olhar e murmurou:

 Eu gostaria de tentar viver do seu modo.

 Meu modo, como diz, inclui a adoção do cristianismo. Comprometi-me com a nova religião, pois jurei fidelidade ao Deus Todo-poderoso do rei Alfred. Eu não finjo, minha cara princesa. Não tenho a sua facilidade para jurar apenas da boca para fora. Amanhã, quando tomar os votos que ligarão meu destino ao seu, prestarei os juramentos de coração e os obedecerei enquanto viver. Confesso que conheço pouco os ensinamentos da Igreja de Cristo e não sei se serei um bom cristão. De uma única coisa tenho certeza, jamais voltarei atrás em minha palavra.

Virna franziu a testa, confusa, e mordeu o canto do lábio inferior, num gesto que repetia inconscientemente sempre que precisava refletir sobre um tema complexo. Edon já a vira fazer aquele trejeito várias vezes, e em todas se enternecera. Naquele momento, adoraria beijar aquele cantinho do lábio inferior. Mas nem de longe ousaria ceder à tentação.

 Também conheço muito pouco os ensinamentos cristãos, mas ouvi dizer que obrigam seus seguidores a contentar-se com apenas um cônjuge por toda a vida. O que fará de suas concubinas? Que destino lhes dará, se só terá permissão para dormir com uma mulher, sua esposa?

 Que concubinas? Acha mesmo que durmo com as esposas dos meus soldados e conselheiros? Eu já lhe disse que Rebeca é casada com Theo, o Grego. Quanto a lady Eloya, castelã de Warwick, é esposa de Rashid. As demais são suas servas. Você é a única que partilhou meu leito neste condado. E, com o casamento, será a única com quem farei amor enquanto viver. O que mais espera de mim?

 Eu não sei  ela replicou. Na verdade, desejava pedir seu amor, mas seria inútil.  Compreenda, tudo isso é muito novo para mim. Os costumes do meu povo são tão diferentes... os casais são livres para se unirem e se separarem conforme quiserem. Nós, celtas, podemos ter muitos defeitos, mas não somos hipócritas como os cristãos, que trocam juras falsas de amor e fidelidade eternos. Quando eu proferir esse voto, irei cumpri-lo até a morte.

 E eu também  Edon replicou com solenidade, antes de tocar-lhe os lábios com um beijo destituído de paixão, mas repleto de doçura.  Podemos ir agora?

Virna curvou-se numa mesura graciosa.

 Conforme ordena, milorde.

Durante o rápido desjejum, Edon mandou preparar uma sacola com guloseimas para fazerem uma refeição à beira do lago. Sua recente experiência na floresta de Arden lhe advertia que não chegariam lá antes do meio-dia.

Eles partiram logo em seguida, caminhando em marcha acelerada. Mesmo assim, um hora inteira se passou antes que deixassem para trás os campos, onde agricultores trabalhavam.

Momentos depois de cruzarem as águas pardacentas do Leam, embrenharam-se nas entranhas da floresta. Ali, as copas frondosas das árvores se juntavam, dificultando a entrada dos raios do sol. No chão, espalhavam-se samambaias luxuriosas e plantas silvestres que se desenvolviam com pouca luz. A despeito das sombras, a floresta estava terrivelmente quente.

Edon não avistou nenhuma trilha, mas a marcha regular de Virna convenceu-o de que ela conhecia o caminho como a palma da mão. De súbito, chegaram a uma fenda peculiar na terra, uma escarpa rochosa que sulcava o solo como se um gigante a houvesse cortado com seu machado. No topo da elevação, havia um grupo de sorveiras e sete pedras oblongas, dispostas na posição vertical. No sopé, os viscos eram abundantes.

Virna guiou-o para o desfiladeiro. Contudo, uma moita de roseiras bravas, alimentadas por um córrego límpido, interditava o caminho.

Edon ajoelhou-se diante do riacho para molhar o rosto de beber água.

 Nós estamos perdidos, Virna?

Ela agachou-se ao seu lado e também aproveitou para refrescar-se. Então, sorrindo, sacudiu a cabeça e apontou para uma pedra que se projetava para fora da touceira. Havia uma passagem estreita entre as roseiras bravas. Ele arregalou os olhos para a trilha e para a pedra, adivinhando que sob esta sem dúvida haveria uma alavanca e um fulcro.

 Não é muito larga, mas mãe Wren atravessa sem se espetar. Acha que conseguirá?

Aye  ele concordou, embora sua expressão traísse dúvida. Virou-se para o lado e se abaixou tendo concluído que teria de ir primeiro, enquanto ela cuidava do fulcro.  Como se entra aí?

 Ah, conheço um truque. Continue andando.

Virna manteve um olhar atento sobre ele, observando os espinhos que se grudavam em seus trajes e na mochila com as provisões. No momento em que Edon alcançou o outro lado, chegando a uma clareira no centro de um bosque de carvalhos, ela liberou o fulcro. A passagem se fechou às costas dele com uma farfalhada. Novamente, as folhas espinhosas formaram um muro impenetrável.

 Virna! Onde fica o outro mecanismo?

 Não há outro mecanismo. Espere aí!  ela gritou em resposta.  Eu o alcançarei antes que o sol suba acima da copa dos carvalhos.

Ao ouvir sua gargalhada, Edon tirou duas conclusões. A primeira era que ela não queria que ele conhecesse o caminho mais curto para o lago. A segunda era que a feiticeira se divertia às suas custas. Irritado, contemplou a copa das árvores e o céu. O sol estava ainda demasiado baixo. Sem outra alternativa, sentou-se e esperou, sentindo um tédio crescente à medida que o tempo passava.

Por fim, quando já perdia a esperança de algum dia voltar a vê-la, Virna apareceu perto de um dos carvalhos de maior porte. Tinha trocado de roupa e desfeito as tranças. Envolta numa túnica curta, exibia as pernas esguias e bem torneadas, bem como os braços macios e alvos. Uma coroa de violetas azuis circundava-lhe a cabeça.

 Peço-lhe que me perdoe, lorde Edon  ela desculpou-se, hesitante.  Eu desejava dar-lhe as boas-vindas à floresta de Arden do modo adequado.

Ainda zangado, ele pensou em replicar que não caminhara até ali para representar uma cena idílica com uma ninfa. Contudo, recolheu-se num silêncio carrancudo, enquanto se levantava para segui-la.

 Mas eu não me atrasei  Virna prosseguiu, ansiosa.  Veja, o sol está sobre as árvores e...  Calou-se abruptamente, ao ver sua expressão.  Eu o aborreci.

Tratava-se de uma afirmação, não de uma pergunta. Edon fitou-a e replicou:

 De modo algum. Digamos que me tenha confundido, e nós não viemos aqui para nos entretermos com jogos idiotas. Só concordei com esta jornada porque você me garantiu que obteria as respostas de que preciso.

 Está certo.

 Você é uma bruxa, Virna ap Griffin?

 Algumas pessoas acreditam que sou. Mas eu não vejo meus poderes como bruxaria. Na verdade, são apenas parte de um conhecimento muito antigo, que se perdeu há muito tempo. O que eu herdei é tão pouco... mas venha até o lago comigo. Será mais fácil você entender se eu lhe mostrar, em vez de tentar explicar. Você já ouviu as lendas do rei Arthur e de seu amigo Merlin?

 Já ouvi centenas de lendas, cada uma mais fantástica do que a outra. Qual delas gostaria de discutir?

 Nenhuma em particular.  Virna sacudiu os ombros.  Há quem afirme que Merlin nasceu com a capacidade de enxergar o interior do coração dos homens e predizer o futuro. As outras habilidades ele aprendeu ao longo da vida.

Edon estacou. Os carvalhos haviam rareado e o lago cintilava à sua frente. Sua superfície plácida jazia imóvel como um disco de prata polida. A visão o fez recuar dez anos. Parecia exatamente igual ao que vira naquela época, a não ser pelo fato de que o nível da água baixara muito.

 Pelo que me lembro, não mudou quase nada  murmurou, por fim.  Com uma diferença. Dez anos atrás, havia por aqui um templo antigo. Estava em ruínas quando o vi, mas pude perceber que fora um santuário muito bonito.

 Você se refere ao que chamamos de Cidadela de Vidro. Não consegue vê-la agora?

 Não. Essa tal Cidadela não era o palácio da Senhora do Lago, de acordo com as lendas?

 Sim era  Virna assentiu.  Reza a tradição que apenas os puros de coração conseguem enxergá-la. Você teve muita sorte. O rei Alfred também a viu.

 Ah, é?

 Ele tinha dezessete anos. Trouxeram-no aqui para curar-lhe uma enfermidade no ventre que o aflige até hoje.

 Isso é lenda?

 Não, é verdade. Eu estava presente e testemunhei todo o ritual, apesar de ser uma garotinha. Mas eu já sabia que Alfred sobreviveria para ser um grande rei. Se você lhe perguntar, ele mesmo lhe contará.

Edon suspirou, agastado.

 Se é assim, por que ele ainda sofre a mesma enfermidade? Você admite que os poderes de cura dos seus druidas não passam de mentiras?

Determinada a não perder a paciência, ela não se deixou abalar pela provocação.

 Não. Alfred recusou a cura. Era muito jovem e, além disso, começara a interessar-se pela nova religião. Na época, exercia a função de capitão do rei, seu irmão, o que constituía uma responsabilidade demasiado grande para um rapaz tão novo. O peso dessa responsabilidade o levou a adoecer. Nada do que comia lhe parava no estômago, puro nervosismo. Mesmo assim, por uma questão de fidelidade às suas novas crenças, decidiu não beber água regenerada do Leam. E não a bebe até hoje.

Edon não replicou. Contemplou a paisagem com indisfarçável admiração por alguns minutos, até perceber que Virna o observava intensamente.

 Por que me olha assim?

 Você não consegue mesmo vê-la?

 Ver o quê? Ah, a Cidadela... bem, vejo um lindo lago, mais bonito do que qualquer um da Dinamarca. Também vejo o céu azul sem nuvens, a floresta de carvalhos e uma clareira. Nada mais.

 Tem certeza?

 Será que eu devia estar apreciando torres de vidro no meio das águas?

 Não, Edon, não no meio do lago. Mas ali, perto do abrigo de caça do rei Offa.

 Não há nada lá  ele contradisse com firmeza.  A sua imaginação me intriga. Por que introduzir o rei Offa na história.

 Porque ele explica os laços de parentesco entre mim e Alfred. A mãe de Offa pertencia ao clã dos dragões brancos, o meu, e a filha dele se casou com um homem do clã dos dragões vermelhos, o de Alfred.

Edon sorriu e tocou-lhe de leve a ponta do nariz.

 Será que não há também ursos entre seus antepassados?

 Quem sabe? A partir de amanhã, haverá um lobo...

 Com certeza.  Edon tornou a fitar o lago. Tirou a mochila das costas e sentou-se na grama.  Acho que gostaria de morar aqui. É tão... calmo e belo. Será que conseguirei pescar algum peixe, com a água tão baixa?

Virna soltou uma sonora gargalhada.

 Não me diga que já está faminto!

 Eu estou sempre faminto... de várias formas.

Ignorando a malícia implícita em suas palavras, ela retirou uma caneca de dentro da mochila e comentou:

 Os peixes mordem a isca quando querem. De qualquer forma, jamais nos deixaram morrer de fome. Experimente beber desta água  ela propôs, indo até o córrego para encher a caneca.

Ao lhe entregar a caneca, deixou entornar um pouco na mão de Edon, molhando a bandagem que lhe protegia a queimadura.

 Oh, que desastrada! Receio que a sua atadura tenha ficado ensopada. É melhor tirá-la para deixar secar.

 Estou ficando desconfiado, sua bruxinha. Qual é o seu jogo, agora?

 Nenhum. Apenas cumpro a promessa de fornecer-lhe respostas  ela replicou, desenrolando a faixa. Quando terminou, arremessou-a na direção das árvores.

Espantado, Edon movimentou os dedos e contemplou a palma da mão.

 Maldição, você fez de novo!

 Fiz o quê?  Virna indagou com serenidade.

 Olhe a minha mão.

Mas Virna não precisava olhar.

 Eu lhe dei um pouco de água do Leam para beber. A sua queimadura sarou. Os ferimentos no peito também sararam, porque esta água realmente cura. Não é lenda, é fato.

 Fato? Preciso verificar isso a meu modo.

De inopino, ele a empurrou para dentro do lago.

Virna afundou como uma pedra. Instantes depois, ressurgiu, com os cabelos grudados no rosto, respirando com sofreguidão.

 Seu... viquingue idiota! Oh, eu devia transformá-lo num sapo, Edon de Warwick!

 Pois tente!  ele bradou, rindo.  Mas trate de se apressar, porque já estou quase tirando as botas.

 Edon! Por que está tirando a roupa?

 Esta sim é uma pergunta idiota...

 Não se atreva! Este é o lago sagrado e nenhum homem pode entrar aqui!

Zangada, Virna nadou vigorosamente na direção oposta à dele. Edon ainda lutava para descalçar as botas quando ela saiu da água, do outro lado. a túnica colara em seu corpo esbelto e ela parecia mais desejável do que nunca.

 Oh, você me deixa louca com tanta obstinação!  gritou, brandindo o punho cerrado em sua direção. Então, virou as costas e correu para longe.

De pé na beira do lago, Edon parou de rir e hesitou. Era como se, a qualquer momento, ele fosse mesmo transformar-se num sapo ou coisa pior.

Quando nada desse tipo aconteceu, jogou a cabeça para trás e riu da própria credulidade.