Capítulo Dezesseis
O rei Alfred subiu para a sela do cavalo que um soldado lhe trouxe, regozijando-se com o resultado da caçada. O exercício físico, o suspense da perseguição ao urso selvagem, o sucesso em capturá-lo, tudo contribuía para uma melhora sensível do seu humor.
Haveria uma grande festa de Lammas em Warwick. O fato de o condado inteiro, incluindo viquingues e celtas, ter-se convertido era digno de uma grandiosa celebração.
O melhor homem do vice-rei, Rig de Sunderland, esporeou sua montaria para alcançar o do rei.
Vossa majestade já está pronto para retornar à fortaleza?
Aye. Alfred sorriu, parecendo muito mais jovem do que seus trinta e dois anos duramente vividos. Nós nos saímos muito bem hoje, Rig. Lorde Edon ficará contente com as caças que levaremos para enriquecer-lhe a mesa na festa de amanhã.
A floresta de Arden é o verdadeiro paraíso dos caçadores, alteza. Só lamento não chover... os cavalos sofrerão com a falta de aveia e...
Rig calou-se, interrompido por um gesto de Alfred. Os dois aguçaram os ouvidos e prestaram atenção. Não se encontravam longe da Fosse Way, onde não era incomum que os viajantes fossem assaltados pelos malfeitores que viviam escondidos no bosque. Eles trocaram um olhar de entendimento e galoparam até a estrada. A guarda do rei seguiu-os de perto.
Desembocaram na clareira onde o carvalho do rei Offa reinava absoluto, estendendo sua sombra até a metade da estrada. Debaixo da árvore, viram um viquingue grunhindo como um louco.
O que está acontecendo, homem? Alfred interpelou-o com um brado.
Oh, esse é Eric, o Sem Língua, majestade Rig informou quando ambos desmontaram, junto do carvalho. Desde o dia em que foi atingido na cabeça por um machado, há alguns anos, perdeu a fala e ficou meio fraco das idéias. Acalme-se, rapaz.
Assustando-se ao ver o general de Edon, Eric juntou as mãos num gesto de submissão e começou a choramingar como criança.
Para com isso! Você é um homem feito, não aja como se fosse um bebê! Rig repreendeu-o. Por que está chorando? O que aconteceu?
O mudo desatou a fazer gestos aflitos com as mãos, apontando o cavalo de Embla e simulando uma luta.
Você entendeu alguma coisa? Alfred indagou.
Parece que ele e sua senhora, Embla Garganta de Prata, foram atacados. Foi isso, Eric?
Eric balançou a cabeça com vigor e passou os dedos pelos ombros e braços antes de indicar um símbolo celta entalhado no tronco da velha árvore.
O que está querendo dizer? Vocês foram atacados por guerreiros pintados? Ah, celtas. Compreendi. Ainda existem alguns guerreiros celtas. Eu mesmo vi um ou dois por aí. Eles não cortam os cabelos, mas raspam o alto da cabeça, o resto é preso numa trança comprida. E têm o corpo coberto de tatuagens, como animais que Eric está tentando descrever. O importante da história é que eles levaram Embla Garganta de Prata.
Alfred pensou que aquela era uma excelente notícia, mas não ousou tecer comentários em voz alta, não seria cristão. Em vez disso, ordenou que Eric montasse um cavalo e os seguisse de volta à fortaleza.
Quando chegaram a Warwick, o servo disparou para a ala ocupada por Embla, desembainhou a espada e sentou-se diante da porta, gemendo e chorando, aparentemente sofrendo muito com a perda.
O que faremos em relação a esse ataque, Rig? Alfred indagou.
Eu posso mandar alguns homens para vasculhar a floresta, mas vossa alteza sabe que será inútil. Quando alguém se perde em Arden, dificilmente é encontrado. Será melhor consultarmos lorde Edon. Afinal, Embla é parente dele.
Pois me parece que devemos chamar Venn ap Griffin. Ele deveria passar o dia estudando catecismo com o bispo Nels. Quero saber se meu tutelado dispõe de guerreiros pintados à sua espera no bosque o rei afirmou resolutamente.
Rig obedeceu à ordem sem perda de tempo. O bispo assegurou que o garoto havia passado a manhã inteira dentro do castelo, em sua companhia, aplicando-se com diligência ao estudo das Sagradas Escrituras. Venn, por seu turno, garantiu nada saber acerca de malfeitores.
Contudo, o interrogatório foi interrompido pela chegada do rei Guthrum, um dia antes do esperado. Venn ficou contente com isso, inclusive porque as lições da Bíblia foram suspensas, já que o bispo Nels correra para receber o rei de Danelaw, dando-lhe efusivas boas-vindas.
Agora, só restava a Venn esperar por Edon. O garoto se manteria em alerta até o momento certo de negociar com o rei.
Mal entraram na fortaleza, Virna e Edon foram informados da captura de Embla Garganta de Prata e da chegada do rei Guthrum, bem como de sua insatisfação com o ocorrido. Virna percebeu que se tratava de eufemismo. Guthrum estava lívido de raiva quando o encontraram no salão.
Sabe o que esse malandrinho fez? o rei interpelou o irmão, lançando-lhe um olhar furioso. Ora, como você pode abrigar uma víbora dentro de sua casa? Explique-se, Edon, ou serei obrigado a arrancar-lhe a cabeça dos ombros e exibi-la naquele maldito pátio!
Por que está gritando desse jeito, irmão? Oh, também estou feliz em vê-lo Edon replicou com sarcasmo. Retirou a mão da cintura de Virna e avançou pelo salão para confrontar-se com o rei.
Implacável em sua ira, Guthrum segurava o príncipe herdeiro pelo pescoço e sacudia-o com exasperação.
Este patife, que tomou os votos do cristianismo ainda ontem, acabou de cochichar em meu ouvido que pretende fazer um pacto demoníaco comigo!
Edon relanceou os olhos pelo rosto vermelho do menino.
Que tipo de pacto o garoto lhe propôs?
Harald Jorgensson em troca de suas três irmãs virgens! Guthrum trovejou.
O quê?! Alfred deu um salto para frente. Até aquele momento, não sabia o que seu tutelado dissera ao rei de Danelaw.
Harald Jorgensson! Edon enrijeceu-se, lançando um olhar a Virna para adverti-la a permanecer em silêncio. O que sabe sobre o nosso sobrinho, rapaz?
Venn levou as mãos ao pescoço, tentando afrouxar o garrote.
Por Cristo, Ezequiel, solte-o para que possa falar! Alfred bradou, chamando Guthrum pelo nome de batismo.
A contragosto, ele libertou o príncipe, que quase desabou no chão, tossindo e esfregando a garganta machucada.
Agora, fale! ordenaram os dois reis.
Nay ele replicou com voz rouca. Não antes que me dêem sua palavra de que devolverão minhas irmãs.
E por que eu faria isso? Alfred desafiou-o.
Porque... caso contrário, não mostrarei ao rei Guthrum onde seu sobrinho tem estado aprisionado nos últimos meses.
Você ousa chantagear-me? O monarca dinamarquês, prestes a atingir o paroxismo da fúria, pespegou-lhe um safanão que o derrubou de joelhos.
Espere! Se matarem o menino, jamais saberão do paradeiro de Harald Edon interveio, colocando-se entre o irmão e o futuro cunhado. Creio que estão demasiado nervosos para lidar com o problema. Se me permitirem, eu mesmo interrogarei o príncipe. Agora, tenham a bondade de aguardar no salão inferior.
Contrafeitos e não muito convencidos, os dois desceram. Quando se viu a sós com Venn, Edon estudou-lhe o silêncio por alguns instantes. O rapaz parecia apavorado, o que não era de se estranhar. Mas, assim como a irmã, ele mostrava um temperamento inflexível.
O clã ap Griffin, como começava a perceber, jamais aprendera a arte da diplomacia. O que explicava por que se reduzira a uma família de órfãos.
Agindo com propositada calma, Edon mandou servir água ao cunhado. Depois que este bebeu com sofreguidão, iniciou o interrogatório.
Agora, suponha que você me conte o que está havendo, Venn ap Griffin sugeriu em tom sereno.
Venn fitou a irmã com intensidade.
Eu encontrei o vice-rei ontem à noite.
Onde?
No lugar onde todos sabíamos que ele estava. Na masmorra de Embla Garganta de Prata.
Edon engoliu em seco.
Não existe masmorra alguma em Warwick.
Existe, sim, e eu sei onde fica. Seu sobrinho ainda não está morto, Edon Halfdansson. Ainda não...
Então, sugiro que me leve até lá sem demora, já que, pelo que posso inferir, Harald não viverá por muito tempo. E eu não poderei falar em seu favor se meu sobrinho morrer.
O tom de Edon era irretorquível. Venn pestanejou hesitante.
Minhas irmãs...
Sim?
Quero que elas voltem para Leam Venn declarou, agora com firmeza. Ou para Warwick, como você chama esta colina. Se elas devem submeter-se ao batismo, como eu, então diga aos reis para convocarem os tutores. Prometa-me que as meninas ficarão com Virna.
Eu levarei a sua petição a Guthrum e a Alfred. É só o que posso prometer. Agora, leve-me à masmorra.
Ainda não. Venn sacudiu a cabeça com obstinação. Primeiro, dê-me sua palavra de que você cuidará pessoalmente da educação e da segurança delas e que, quando chegar a hora, arranjará maridos à altura de sua posição. Não admito que sejam maltratadas ou que sofram abusos.
Por que eu? As jovens princesas têm um irmão dedicado, que desempenharia esse dever melhor do que ninguém.
Porque é possível que eu não esteja aqui para cuidar delas Venn revelou com simplicidade.
Havia algo de assustador no tom fatalista de alguém tão jovem, mas Edon não dispunha de tempo para se preocupar com isso, naquele momento.
Muito bem, se é a minha palavra que deseja, você a tem, Venn ap Griffin. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que suas irmãs sejam bem criadas e encaminhadas, e declaro-me responsável por suas vidas até o dia da minha morte.
Em angustiado silêncio, Virna testemunhou o pacto e o aperto de mãos que o selou. Por mais que almejasse, sabia que não devia interferir. O tempo de Venn se estava escoando, e não ignorava o motivo. Se o eclipse da lua acontecesse em Lughnasa, como Tegwin previra, o jovem príncipe consentiria em ser sacrificado. Precocemente amadurecido, ele tentava deixar tudo resolvido antes de partir para o Outro Mundo.
Triste e impotente, ela se retirou para a sala onde as mulheres costuravam e esperou. As damas bordavam, caladas. Rebeca permaneceu junto da janela, de onde avistava o pátio.
As horas transcorreram com exasperante lentidão, até que, por fim, a lua cheia despontou no céu, assemelhando-se a uma bola cor de sangue.
A lua está muito estranha... O que será que significa essa tonalidade vermelha? Rebeca indagou ao marido, o vidente cego.
Há coisas muito mais estranhas acontecendo por aqui, para você se perturbar com a cor da lua Theo replicou, começando a contornar a borda do cálice com o dedo, produzindo o característico som agudo e musical.
Lady Rebeca voltou a concentrar-se na janela. Se Theo havia descoberto alguma coisa com seu oráculo, aparentemente resolvera guardar para si mesmo.
Oh, vejam! ela exclamou, de súbito, apontando para o pátio. Os homens estão saindo do estábulo de Embla Garganta de Prata. Lorde Edon e Rig carregam uma liteira. Rashid, creio que precisarão de sua ajuda dentro em breve.
O vice-rei Harald, debilitado e ferido, foi levado à casa de banho, onde os servos o lavaram e enxugaram com toalhas macias. Só depois o conduziram para o interior do castelo. O rei Guthrum comoveu-se com a magreza doentia e com as chagas do corpo de seu sobrinho.
Rashid empregou todos os seus conhecimentos médicos para tratar dos ferimentos inflamados, aplicando-lhes linimentos e bálsamos, enquanto lady Eloya lhe preparava um caldo quente e nutritivo. Com solicitude maternal, ela levava a tigela até seus lábios, mas a sopa lhe escorria pelo canto da boca.
Harald estava tão fraco que todos temiam que ele não sobrevivesse àquela noite. Assim, o bispo de Nels foi convocado para ministrar-lhe a extrema unção.
Enquanto isto, Edon e o rei Alfred conferenciavam no salão inferior. Venn finalmente conseguira ficar em companhia da irmã. Sentaram-se juntos à janela, perscrutando o céu.
Eu preciso ir, Vivi ele rompeu o silêncio. A lua cheia de Lughnasa brilha sobre nós.
Virna não desviou o olhar para o irmão de imediato, mas segurou sua mão com carinho.
Não vá. Deixe a lua passar e fique comigo.
Você sabe que não posso. É o meu dever. Tegwin me contou que a terra já secou além do que é capaz de suportar. O povo de Leam morrerá de fome se eu não invocar a chuva.
Nay, nós sobreviveremos. Os padres de Evesham descobriram um meio de usar a água do rio para regar as plantações.
Mas os rios também estão morrendo. Não há alternativa, Vivi. Quando o inverno chegar e não houver comida, o povo começará a morrer. Eu sou o escolhido, devo partir.
O menino soltou a mão de Virna e levantou-se. Então, olhou em torno para certificar-se de que estavam a sós e acrescentou:
Procure-me na floresta de Arden, irmã. Se a vir, eu lhe darei um sinal. Você saberá que sou eu, vindo do Outro Mundo, quando encontrar um gamo com doze chifres pontudos, um para cada ano de minha vida neste ciclo. Adeus.
Virna enterrou as unhas nas palmas das mãos para não gritar. Ela, que fora sacerdotisa, deveria regozijar-se com o cumprimento do ritual sagrado. Venn ap Griffin, o último menino-rei, oferecia-se de bom grado em sacrifício. Nenhum monarca poderia mostrar um amor maior pelo seu povo.
Uma hora depois, Edon entrou na sala e encontrou-a no mesmo lugar, contemplando o céu com desalento. Sentando-se a seu lado, afagou-lhe o rosto e indagou:
Será que a água do seu córrego pode ser transportada? Temo que Harald não passe desta noite.
Virna inspirou com força. Uma coisa era curar uma pequena queimadura ou um corte superficial bebendo a água diretamente do rio. Outra, era trazer a água diretamente do rio. Outra, era trazer a água até o castelo, para salvar a vida já tão debilitada pelos maus tratos e pela tortura. Não tinha certeza de que Branwyn poderia salvar o sobrinho de Guthrum de Danelaw.
Você quer trazer a água do Leam para Warwick?
Aye. É o único modo, já que Harald não tem condições de enfrentar a jornada até lá. Acha que funcionará, Virna?
Nada nos impede de tentar.
Então, vamos. Não há tempo a perder Edon replicou, resoluto. Levantou-se e chamou Rig, a quem ordenou que selasse os cavalos e os acompanhasse.
A lua já chegava ao meio de céu quando saíram da fortaleza. Não foi difícil atravessar a floresta, pois Virna guiou os viquingues através de atalhos que só ela conhecia. Sempre galopando, passaram pelo carvalho do rei Offa.
Apenas uma vez Edon olhou para o céu, notando que o eclipse da lua havia começado. Rig persignou-se.
Virna, sempre optando pelo caminho mais curto, preferiu atravessar o rio. Assim, chegaram ao lago em pouco tempo.
Edon e Rig apearam e, ajoelhando-se junto do córrego, começaram a encher os embornais de pele de ganso com a água curativa. Virna continuou em seu cavalo, fitando um ponto além do lago.
Então, um grito cortou o ar.
Edon largou o odre e desembainhou a espada, correndo para a margem do lago. A água, mais negra do que a fuligem produzida pela forja de um ferreiro, jazia imóvel e agourenta. Não avistou ninguém contra quem pudesse lutar ou que precisasse de seu socorro.
Então, voltou para o córrego e terminou de encher o bornal. Nuvens ameaçadoras começaram a reunir-se com rapidez sobre o bosque de carvalhos. Um vento súbito agitou os galhos das árvores e zuniu enraivecido.
Outra vez, um grito inumano lhes feriu os ouvidos. Edon identificou-o como pertencendo a uma mulher, uma mulher aterrorizada. Agora, conseguira localizar a direção do grito, vinha do outro lado do lago, perto da cabana de caça do rei Offa. Pulando para a sela de Titan, chamou Rig.
Não, espere! Virna objetou, despertando do transe. Receava que ele acabasse por interferir na vontade dos deuses.
"É apenas uma ilusão, provocada pelo reflexo da luz na escuridão absoluta da floresta", Edon pensou ao distinguir o templo com nitidez. Desmontou do lado de fora, junto a uma rampa comprida que conduzia ao coração da vasta estrutura de vidro e pedra.
Não sabia explicar por que não enxergara a Cidadela, naquela tarde. Chegara a afirmar que não existia templo algum. E lá estava ele, sólido, embora de contornos delicados, e real. Mas em escombros.
Sua torre vítrea elevava-se seis metros, acima do lago, entre dois carvalhos. Os lados arredondados formavam um anfiteatro semicircular. Exatamente no centro, havia um altar construído de cintilante obsidiana. No altar, apenas um caldeirão de ferro.
Um terceiro grito vibrou no ar. Edon sentiu a pele arrepiar-se com violência. Olhou em torno, procurando um possível inimigo.
Mas não havia ninguém, nenhum guardião que o impedisse de subir a rampa.
Rig chegou e, desmontando com um salto, subiu atrás do vice-rei. No topo, depararam-se com uma cova descomunal, refulgindo no aterrorizante negrume. Toda a superfície de seu interior era lisa e escorregadia, deliberadamente iluminada pelo bruxulear de uma imensa fogueira.
As paredes escarpadas eram solidamente espelhadas. Se houvesse luz, Edon sabia que contemplaria a si mesmo. Não era de espantar que, pela manhã, tivesse avistado apenas as árvores, refletidas no espelho!
E então ele a viu.
No fundo da cova, Embla Garganta de Prata tentava inutilmente escalar a parede.
Socorro! ela gritou. Odin, Freya, Loki eu imploro que me mandem ajuda! Ayeiaaaaa!
Embla não dispunha de armas para enfrentar o terror com que se defrontava. Esmurrava a própria imagem na parede, no mais absoluto desespero, lutando contra demônios invisíveis.
Não havia druidas, nem guerreiros, ninguém que testemunhasse aquele sofrimento.
Tegwin! Eu sei que você está aí, seu bastardo! Tire-me daqui! Eu lhe paguei uma elevada quantia para matar o garoto! Tegwin, onde você está? Eu o matarei por isto!
Rig segurou o braço de Edon, depois que os dois embainharam as espadas. O último raio prateado esvaneceu-se, o eclipse total atingira sua culminância.
Ela enlouqueceu Rig comentou, pouco à vontade.
Embla continuou discutindo com as trevas. Desafiou o marido, Harald, para uma última luta e declarou que arrancaria sua cabeça de cima do pescoço.
Creio que será melhor deixá-la aí, por enquanto Edon replicou com tranqüilidade. É melhor concluirmos a tarefa que nos trouxe ao lago. Harald deve viver para que haja justiça. Voltaremos amanhã com cordas para tirá-la daí.
Rig assentiu e ambos voltaram para o lago. Edon espantou-se por não encontrar Virna onde a deixara. Esquadrinhou em torno e, por fim, descobriu-a na outra extremidade, caminhando pela água.
Virna! bradou.
Com o recrudescimento da ventania, as águas já não se mostravam serenas. Ao invés, agitavam-se em ondas turbulentas que se chocavam contra as margens. Edon levou um banho, como se o lago o desafiasse a mergulhar novamente.
Longe, muito longe, Virna parecia flutuar na tempestade. Era como se andasse por sobre as ondas, por obra de algum poderoso feitiço.
Um medo desmesurado afetou o ritmo do coração de Edon. Não havia lógica ou razão que explicasse aquele fenômeno. Sem dúvida seus olhos o enganavam. Ninguém seria capaz de caminhar sobre a água, isto seria um milagre!
Virna!!! tornou a chamar, fechando as mãos em concha ao redor da boca.
Como não obtivesse resposta, ele não hesitou mais e entrou no lago, indiferente ao perigo. No primeiro momento afundou, mas a onda o trouxe de volta a superfície... onde seus pés se firmaram sobre uma pedra. E mais outra, e outra... e ele caminhava sobre a água, como Virna.
De repente, Edon percebeu o que não conseguira perceber antes. A rampa de pedra do templo passava pelo lago até chegar às moitas de espinheiros, como uma espécie de trilha! Sentindo-se um completo idiota, correu atrás da noiva, suas passadas tão seguras como se pisasse em terra firme.
Alcançou-a na margem oposta, e agarrou-lhe os braços para que não lhe escapasse.
Aonde você vai?
Lá ela apontou para uma clareira no centro dos carvalhos dispostos em círculo, iluminada por tochas.
Edon distinguiu doze gamos gigantescos, caminhado sobre as pernas traseiras, e percebeu que eram homens fantasiados. Pantomimeiros, nada mais.
No centro do círculo havia um ancião com as vestes de druida. Sua barba chegava até a barriga. De cada lado do druida perfilavam-se dois velhos guerreiros celtas. Edon reconheceu um deles, Selwyn, cujo torso tatuado ele admirara nos portões de Warwick.
O que está acontecendo aqui? indagou a Virna num sussurro. Então, lembrou-se de Rig e olhou em torno. O fiel capitão contornava o lago, trazendo os cavalos.
Virna suspirou, entristecida, ao observar o ritual. Seu irmão subiu numa plataforma de pedra, seminu. A tatuagem em seu ombro destacava-se na brancura da pele despida. Em seu pescoço, ostentava a gargantilha mais magnificente que Edon já vira.
O druida ergueu as mãos em prece e, solenemente, removeu o colar de ouro do pescoço do príncipe herdeiro. Em seu lugar, amarrou uma corda fina, um garrote sob o qual colocou um pedaço polido de madeira.
A descrição que Embla Garganta de Prata fizera do sacrifício de Lughnasa assomou-lhe à memória com assustadora clareza. Engoliu em seco, certo de saber com detalhes o que iria acontecer.
Em nome de Deus, por que estão fazendo isso?
Eles estão sacrificando o sangue real de Venn para o poder e misericórdia dos deuses. Ele nos trará chuva Virna cochichou. Então, fechou a boca com as mãos e rompeu num pranto silencioso.
É uma barbaridade! Edon esbravejou. E uma tolice também! Qualquer idiota pode ver que começará a chover a qualquer instante. Olhe esta tempestade! Isto é uma obscenidade, uma abominação... o menino foi batizado ontem.
Esquecendo a própria dor, Virna pousou os dedos em seus lábios, tentando calá-lo.
Não interfira, Edon, eu lhe rogo. Não provoque os deuses, eles não lhe poupariam a vida uma segunda vez.
Com mil demônios! É claro que vou impedir esse assassinato.
Antes que Virna conseguisse impedi-lo, disparou para a clareira. Venn erguia uma cesta de grãos para o céu. Nesse momento, um raio cortou as nuvens e um cheiro de chuva invadiu o ar. Os carvalhos agitaram-se com veemência, quando o príncipe ofertou as primeiras frutas. Um trovão ribombou com tanta violência que encobriu as preces da oferenda.
Os homens vestidos de gamo começaram a cantar e a bater os pés no chão.
Parem com essa abominação! Edon bradou em seu costumeiro tom autoritário. Venn ap Griffin, desça desse altar imediatamente.
Lorde Edon! Venn exclamou, atônito.
O encantamento promovido por Tegwin rompeu-se.
Como ousa, viquingue! o druida vociferou. Amarrem-no e joguem-no na cova, ao lado daquela megera!
Não! Venn interveio. Deixe-o em paz!
Estou feliz que tenha dito isso, garoto Edon avançou pela clareira e agarrou o pulso fino do príncipe, puxando-o para o chão. Caso contrário, você teria problemas ao regressar para Warwick.
Amarrem-no, eu disse! Tegwin insistiu. Stafford e Selwyn hesitaram, sem saber a quem deviam obedecer.
Não! Venn colocou seu corpo magro de criança na frente do de Edon, para protegê-lo. Ouçam-me! Lorde Edon deve viver para cuidar de minhas irmãs!
Não seja tolo, menino! o druida replicou com desdém. Esse viquingue nada pode fazer nesta vida e na próxima. Matem-no, estou mandando!
Stafford ergueu a sobrancelha branca, consternado. Até ali, a cerimônia não seguira com fidelidade os ritos prescritos. Conhecia aquele ritual desde quando tinha a idade do príncipe. A oferenda, por exemplo, não fora arrumada da maneira certa. Pior, Tegwin engrolara as palavras de qualquer jeito e não concluíra os dizeres sagrados em nenhum momento. Ele estava velho, agora, mais velho do que qualquer outro filho de Leam, mas sua memória mantinha-se clara e aguçada.
O que estão esperando? Matem-no!
Edon agarrou Venn com o braço esquerdo e bradou a espada com o direito.
Pois eu gostaria de ver qualquer um de vocês tentar!
Nenhum dos homens moveu um músculo.
Eu o conheço bem, seu farsante Edon prosseguiu, dirigindo-se a Tegwin. Você é tão druida quanto eu. Associou-se a Embla Garganta de Prata desde o começo. Ela lhe pagou para matar este menino. E você ousa encenar esta pantomima, querendo assassinar o príncipe? Que blasfêmia!
Não lhe dêem ouvidos! Esse viquingue miserável está mentindo! Acabem com ele de uma vez! Tegwin rebateu.
Venn, acredite em mim. Esse patife insistiu nesse ritual porque deseja matá-lo, só por isso. Embla o subornou.
Mas, milorde...
Ensandecido, o druida pulou para o altar de sacrifício e ergueu os braços.
Venha a mim, Taranis, mostre sua fúria! invocou em altos brados, agitando uma adaga no ar. Tire a vida do viquingue!
Ouviu-se um estalido. No segundo seguinte, um raio despencou do céu com tanta força que todos foram atirados ao chão. A terra tremeu por vários segundos. Sob o rugido de uma ensurdecedora trovoada, Edon se levantou... e deparou uma cena infernal.
Ainda brandindo a adaga, Tegwin contorceu-se como se dançasse, os cabelos e as roupas em chamas, e tombou morto. Um a um, os homens fantasiados de gamo também caíram mortos, o fogo consumindo-lhes os trajes.
O pesadelo tornou-se mais macabro quando as copas das árvores começaram a incendiar-se.
Arrastando Venn até a irmã, Edon gritou:
O Deus Todo-poderoso se manifestou, garoto! E ordenou que nos afastemos daqui agora mesmo!
