Capítulo Dezessete

Edon, Virna, Venn e Rig apressaram-se a escapar do inferno que os rodeava. O fogo se alastrava pelo bosque, apossando-se de cada árvore com uma voracidade diabólica. Os quatro eram perseguidos de perto por labaredas fantásticas, que muitas vezes lançavam faíscas bem à frente, obstruindo a passagem. Ainda assim, a floresta era a única rota de fuga possível.

Em desespero, eles desmontaram e entraram no leito do Avon, guiando os cavalos pelas águas barrentas.

Quando por fim, chegaram a fortaleza, o eclipse já havia terminado. Nuvens tempestuosas se haviam adensado sobre a colina de Warwick. Sobre a floresta de Arden, onde já havia mais de doze focos de incêndio, uma fantasmagórica luz avermelhada iluminava o céu. Cinzas, fagulhas e fumaça empestavam o ar.

Edon não compreendia por que, a despeito dos relâmpagos que se sucediam, a chuva relutava em cair. Enquanto apeava, lançou um olhar preocupado ao horizonte. O foco de incêndio mais próximo estava a léguas de distância, a oeste. O vento rugia, e só Deus poderia dizer que outras tragédias ainda estariam por ocorrer.

Apreensivo, ordenou aos homens da guarda para se manterem vigilantes e informarem-no imediatamente se o vento mudasse de direção. Rig apanhou os embornais da água milagrosa e, pendurando-os no ombro, acompanhou Edon, Virna e Venn.

O príncipe herdeiro, que se mantivera calado e soturno, rompeu o mutismo assim que entraram no castelo.

 Nós estamos todos perdidos, viquingue.

 Estamos, é?  Edon redargüiu.  Por quê?

 Porque jamais choverá outra vez.

 Jamais?  Edon ergueu uma sobrancelha, não escondendo o ceticismo.

 Jamais  Venn repetiu com desgosto.  Virna explique a ele.

Edon removeu os embornais do ombro de Rig.

 As explicações podem esperar. Rig, coloque dois dos melhores homens da guarda junto deste menino. Que eles não o percam de vista um segundo sequer, por motivo algum. Agora, vamos levar essa água para cima.

Os dois reis e o bispo oravam ajoelhados diante do leito de Harald. O rosto outrora bonito do vice-rei, agora envelhecido e vincado pelo sofrimento, não mais se contorcia de dor e agonia, refletindo uma profunda paz. Todos rezavam por sua alma. Inúmeras velas bruxuleavam no aposento, saturando o ar com o cheiro de cera de abelha.

Outro trovão ensurdecedor ribombou pela colina de Warwick. E o mais esplêndido fenômeno da natureza finalmente aconteceu. A chuva começou a cair. Gotas fortes e grossas tamborilaram no parapeito das janelas. A rajada de vento seguinte trouxe o doce perfume de terra molhada.

Certo de ter chegado demasiado tarde, Edon apressou-se a cerrar as janelas. Ao longe, o fogo consumia o bosque com um apetite demoníaco. Aparentemente, a chuva não era suficiente para detê-lo.

 Tio... Edon?  uma voz débil chamou-o.  Deixe-as abertas. Fiquei tempo demais entre os mortos, agora quero ver o céu.

 Harald! Você está vivo!  Edon virou-se, surpreso.

O enfermo ergueu a mão pálida em sua direção.

Aye. Aproxime-se, ainda estou muito fraco para falar alto. Guthrum me contou que você aceitou o Senhor.

Ajoelhando-se junto da cama, Edon segurou a mão do sobrinho. Seu melhor e mais querido amigo de infância não era mais que pele e ossos. Mas seus olhos brilhavam sob a luz das velas. Sem dúvida, o espírito estava bem vivo e forte dentro do corpo.

 Onde está Embla?

 Presa na floresta de Arden, onde há um incêndio de grandes proporções. Não pude fazer nada para salvá-la  Edon resumiu. Não desejava revelar-lhe nenhum detalhe além do mínimo necessário.

Harald suspirou e cerrou os olhos.

 Tio Guthrum, conte a ele.

O rei de Danelaw pigarreou, assumindo uma postura solene.

 Edon, há quase dois anos, Harald acompanhou-me a Wedmore como meu herdeiro. Foi lá, sob a tutela do bispo Nels, que nós dois reconhecemos nossa fé e fomos batizados. Nosso sobrinho sabia que Embla era contra a conversão, mas acreditou que ela acabaria desistindo de seus costumes pagãos.  Guthrum abriu os braços.  Eu desconfiei dela desde o início... mas, sem provas, fiquei de mãos atadas.

 Vocês devem perdoá-la  o vice-rei disse com firmeza.  Minha esposa me julgou fraco por adotar a nova religião, por perdoar cada uma das ofensas que ela me dirigiu. E tentou despertar demônios dentro de mim, mas fracassou. Estou vivo porque nunca perdi minha fé em Deus e em seu generoso auxílio.

Edon lançou um olhar a Rig e fez sinal para que Virna entrasse. Entregou um embornal à noiva, fitando-a com intensidade. Virna, porém, hesitou. Não sabia ao certo como proceder. Então, passou o bornal para as mãos do bispo Nels, pedindo-lhe que benzesse seu conteúdo.

Naquele instante, sentia-se reconciliada com a Igreja de Cristo. Nenhum sentimento de revolta ou desconfiança podia abrigar-se em seu coração, onde havia apenas uma alegria sem limites e uma imensa gratidão pelo noivo, por ter salvado a vida de seu irmão. Graças à coragem e à irreverência daquele viquingue, Venn escapara de uma morte prematura e desnecessária. Seu amado lhe dera a oportunidade de reunir a família novamente. Um novo começo aguardava seu povo.

Depois que os três embornais foram benzidos pelo bispo, as ataduras de Harald foram removidas, expondo as chagas que lhe recobriam o corpo. Rashid molhou-as todas com a água benta e encheu uma caneca para que o enfermo pudesse beber.

Milorde estará de pé muito em breve  Rashid assegurou a Harald.  Só precisa criar um pouco de carne para revestir os ossos  brincou.

 Mal posso esperar, pois o irmão Bedwin, de Evesham, tem bastante trabalho para mim. Pretendo voltar para a abadia, tio Guthrum. É o único lugar no mundo onde me sinto completamente em harmonia. Agora que Edon está de volta, Warwick não precisa mais de mim. Estou livre para devotar o resto de minha vida ao serviço de Deus.

Era bem tarde. Os habitantes do castelo já se haviam recolhido e tudo era silencioso.

Virna, porém, ainda estava acordada. De pé diante da janela, observava agradecida a chuva que não parava de cair.

 Ah, eu adoraria sair e brincar na chuva como uma criança  ela suspirou, estendendo as mãos para fora.  Cheguei a pensar que nunca mais veria esse magnífico espetáculo...

Edon franziu a testa, enlaçando-a pelas costas.

 Você é uma mulher tola. Se fosse brincar lá fora, um raio poderia atingi-la. E eu não agüento mais nem me lembrar dos estragos que os relâmpagos fizeram, neste últimos dias.

Virna sorriu.

 Você é que é um tolo, Lobo de Warwick. Desafiar os velhos deuses é um risco muito maior do que enfrentar os raios.

 Não pretendo discutir as suas crenças, Virna. Mas não vou esconder que estou feliz por ter impedido aquele traidor de matar o príncipe herdeiro. Seu irmão foi iludido. Os motivos de Tegwin para sacrificá-lo nada tinham de sagrado, Embla o havia subornado. Ela sabia dos direitos de Venn em relação a estas terras e preferiu tirá-lo de seu caminho. Como tentou fazer com Harald. Thorulf deu uma busca em seus aposentos e descobriu uma quantidade fabulosa de ouro e prata que Embla vinha roubando há muito tempo.

 Não entendo por que se voltou contra o próprio marido. O vice-rei era um homem bonito e viril.

 É verdade  Edon concordou.  Mas ela não gostou nem um pouco quando meu sobrinho começou a pagar dízimo para a Igreja. Embla sentiu-se roubada, pois queria todo o lucro do condado trancado a sete chaves em seus cofres particulares.

 Então, foi a ambição que a levou a cometer tantas atrocidades?

Aye.  Edon apoiou o queixo em seus cabelos, apertando-a mais contra o corpo.  Na verdade, acredito que ela pretendesse matar-me também. Thorulf encontrou outra sacola com raízes venenosas, idêntica à bolsa que ela alegou pertencer a Venn.

 Ela podia ter-nos envenenado a todos!  Virna exclamou, acomodando as curvas de seu corpo ao dele.

 É o que teria acontecido, não fosse o episódio envolvendo o príncipe. Venn nos salvou a vida.

 Você e Venn... tiveram muita sorte hoje. Foi um milagre aquele raio tê-los poupado, quando matou tantos outros.

 Não foi milagre, minha querida. Eu simplesmente evitei erguer a espada, para não atrair o raio. Mas Tegwin brandiu a adaga no ar... e foi atingido. Ah, eu aprendi a lição! Quando ao druida e seus comparsas, atrevo-me a afirmar que tiveram o que mereciam. Ele ia matar seu irmão, Virna. Isto não a enfurece.

Uma sombra perpassou pelo semblante dela.

Aye. Eu jamais aprovei esse sacrifício, mas as velhas lendas causaram um grande impacto sobre a mente impressionável de Venn. Que garoto não sonha com um destino heróico? Principalmente se ele for o último rei de uma dinastia. Além disso, a falta de chuva e a ameaça de fome para o nosso povo eram fatos concretos, contra os quais eu não podia lutar.

 Tegwin se aproveitou da retidão de caráter e dos sonhos de Venn para manipulá-lo  Edon concluiu.  Quanto a Embla, não me agrada ter de ir buscar seu corpo no templo do lago. Todavia, é preciso dar-lhe um enterro decente. Harald não se contentaria com menos.

 Mas por que você? Não pode mandar outra pessoa?  Virna alarmou-se.

 Veremos. Talvez Rig possa cuidar disso  Edon murmurou, impelindo-a a virar-se. Fitou-a nos olhos com ternura por um instante, antes de beijá-la. O desejo de possuí-la ali mesmo fazia seu corpo latejar. Contudo, sabia que Virna estava esgotada física e emocionalmente. Aprendera a respeitar aquela mulher, a mais linda e sábia de todas. Assim, refreou seus impulsos e limitou-se a acarinhá-la com doçura ao colocá-la na cama, para dormir.

Depois, saiu para sua ronda habitual com Rig.

Apesar da chuva, caminharam até a Fosse Way e retornaram pela margem do rio. O nível do Avon subia rapidamente, mas sem oferecer perigo de inundação. Ao que tudo indicava, o aguaceiro finalmente apagara o incêndio da floresta.

Rig comprometeu-se a reunir uma patrulha para procurar o templo onde Embla Garganta de Prata fora aprisionada. Tanto ele quanto Edon preferiam, embora não o dissessem, que a tarefa resultasse no resgate de seu corpo para o enterro. Contudo, sabiam que ela talvez tivesse escapado do fogo, protegida no interior da cova.

A madrugada já avançava quando Edon finalmente se estendeu na cama, ao lado da adormecida Virna.