Capítulo Dezoito
Ainda chovia quando o dia do casamento amanheceu.
Edon e Rig preferiram dispensar a patrulha e irem em busca de Embla Garganta de Prata sozinhos. Puseram-se a caminho logo depois que o sol raiou, num golpe feroz.
O rio Leam corria pelo bosque, outra vez caudaloso. O que resultou extremamente benéfico, pois a correnteza estava tão forte que lhes abreviou a jornada através da floresta. A cerca viva já não existia, nem a maioria das árvores de grande porte.
As ruínas do velho templo continuavam visíveis, naquela manhã. Uma densa camada de cinzas escuras se depositara sobre a torre espelhada e espalhava-se pela rampa de pedra. Vários metros de água se haviam acumulado no fundo da cova onde Edon vira Embla lutar contra inimigos ocultos.
Não havia ninguém dentro da cova.
Não estou gostando disso Rig comentou quando manobraram os cavalos para a floresta. Se ela sobreviveu, sabe-se lá onde estará agora.
Supondo que Embla conseguiu sair daquele buraco Edon ponderou , o mais provável é que tenha perecido no meio do bosque em chamas. Seu raciocínio tinha fundamento. A destruição estendia-se léguas e léguas em todas as direções. Devemos dar graças a Deus por esta chuva. Sem ela, o vale inteiro agora estaria destruído.
Os dois continuaram a busca, embora o aguaceiro pesado prejudicasse a tarefa.
Creio que amanhã não será demasiado tarde para enviarmos alguns homens a fim de enterrar os mortos na floresta.
Aye Edon concordou. Assobiou para Sarina, que veio postar-se a seu lado. Voltaremos para Warwick. Preciso avaliar a extensão do incêndio antes do casamento.
Quando por fim chegaram à fortaleza, depararam-se com uma surpresa. Um grupo de soldados do rei Alfred havia trazido as três princesas de Leam para assistirem à cerimônia nupcial da irmã. Uma freira idosa servia-lhes de dama de companhia. Seu nome era Wren. Edon ficou muito surpreso ao descobrir que a matriarca de Leam era agora uma das religiosas de Loytcoyt.
A chuva começou a amainar, animando todo o povo do condado a caminhar até o castelo de Warwick. Ninguém queria perder a grande missa de Lammas, que celebrava o 1° de agosto. Muito menos a cerimônia de casamento, que contaria com a presença de dois reis. Viquingues e mercianos enchiam as estradas, levando seus melhores animais e suas primeiras frutas para que o bispo os abençoasse.
Pouco antes do meio-dia, a tempestade reduziu-se a um mero chuvisco. Com isso, a missa poderia ser celebrada ao ar livre, como planejara o bispo Nels.
Edon tomou seu lugar perto do altar. Rig e Maynard postaram-se do seu lado. Flanqueando-os estavam Rashid, Eli e Thorulf, todos solenes em seus trajes nativos mais luxuosos. Como se percebesse que algo importante ocorreria em breve, Sarina perambulava de um lado para o outro, cheirando os convidados inquisitivamente. Por fim, colocou-se do lado do dono e agitou a cauda em sinal de aprovação quando a procissão nupcial emergiu da entrada principal do castelo.
Venn ap Griffin fizera questão de encabeçar o séquito, portando o grande crucifixo do bispo. Atrás dele vinham as damas de honra, as três princesinhas, carregando pequenas cestas abarrotadas de flores do campo, que eram atiradas ao chão para formar um verdadeiro tapete para a noiva, que seguia por último.
O odor de terra úmida e o das flores misturava-se ao aroma de mirra do incenso que o bispo agitava no altar, abençoando todas as pessoas ali reunidas. Mas, para Edon, nada podia ofuscar o mais suave e doce dos perfumes, o da linda mulher ao seu lado.
Vestida de veludo e seda azuis, os cabelos cor de fogo enrolados em uma miríade de tranças que lhe coroavam a cabeça, presas com um delicado diadema de filigrana, Virna não estava bela, ela era a própria beleza personificada.
Os animais e frutas foram benzidos logo após a missa.
Então, o bispo fez um sinal para que os noivos se aproximassem e impôs as mãos sobre suas cabeças, rezando. Edon jurou amar, honrar e cuidar de Virna para sempre e colocou um anel de ouro galês em seu dedo, declarando:
Com este anel, eu a desposo.
Virna hesitou um momento quando chegou a sua vez de recitar os votos na cerimônia cristã. Pelos ritos antigos, o sacerdote faria um pequeno corte na mão dela e na de Edon e as uniria de forma a misturar o sangue dos dois. Então, sacudiu a cabeça quase imperceptivelmente, lembrando-se de que, pelos ritos antigos, ela jamais se casaria.
Resoluta, virou-se para Eloya, sua madrinha, que lhe entregou o anel destinado ao noivo.
Eu, Virna ap Griffin, aceito você, Edon, filho de Halfdan, como meu esposo legítimo, para amá-lo, obedecer-lhe e honrá-lo até que a morte nos separe. No momento em que colocava o anel no dedo de Edon, um raio de sol rompeu as nuvens, iluminando o casal e o altar. Com este anel, eu o desposo concluiu.
Assim, sendo, eu os declaro marido e mulher. O que Deus uniu, que nenhum homem separe. O bispo Nels ergueu as mãos. Milorde, já pode beijar a noiva.
Edon tomou-a nos braços e beijou-a com todo o ardor. Nenhum dos dois prestou atenção às comemorações do povo, que gritava entusiasmados "urras" e atirava os chapéus ao alto. Naquele instante, só existia o beijo com que selavam sua união eterna.
As festividades tiveram início logo em seguida e avançaram pela tarde até a noite, a despeito da chuva que voltou a cair.
A fogueira não foi acesa, mas ninguém pareceu dar pela falta do velho costume. Todos comeram, beberam e dançaram com uma alegria que havia muito não experimentavam.
No interior do castelo, sentados à mesa, os reis, as damas e cavaleiros também celebravam.
A despeito de seus doze anos, Venn ap Griffin entusiasmou-se com a qualidade do vinho da adega do cunhado e consumiu várias taças.
Um brinde aos noivos! ele propôs pela terceira vez, com a voz enrolada, provocando um olhar de censura de Virna. Querida irmã, quero comunicar-lhe que tomei uma decisão.
E que decisão é esta, irmãozinho?
Comunico também que não aceito um "não" como resposta!
Oh, Edon, ele está embriagado! Virna queixou-se baixinho para o marido.
Tenha paciência. Este garoto já sofreu muito, deixe-o divertir-se um pouco. E todo homem tem que se embriagar ao menos uma vez na vida. Faz parte do crescimento.
Bem, irmão, que decisão é essa, afinal, para a qual eu não devo dizer "não"? Virna indagou.
Eu já me resolvi e não ligo nem um pouco se você desaprovar. Ou mesmo se proibir. O rei Alfred me autorizou. Então, é isto. Eu vou.
Venn fez meia-volta e caiu sentado no chão. Edon apressou-se a ajudá-lo a levantar-se.
Largue-me! o menino protestou. Eu não estou bêbado e posso cuidar de mim muito bem. Pobre da minha irmã, que terá que viver com esse viquingue até o último de seus dias.
Rig também se aproximou para amparar o cunhado do vice-rei.
Obrigada, Rig Virna agradeceu. Venn, pare com esse espetáculo e conte de uma vez o que decidiu. Você vai aonde, para fazer o quê?
O jovem príncipe debateu-se para escapar das mãos de Edon e de Rig e acabou caindo por sobre o ombro de Virna.
Já chega, Venn Edon repreendeu-o. Trate de se comportar ou Rig o levará para os seus aposentos!
Eu não disse que esse viquingue é difícil de suportar? ele replicou em voz alta, para todos. Então, cochichou no ouvido da irmã: Eu vou para Roma com o bispo Nels.
Você o quê?! Virna sobressaltou-se.
Edon tocou de leve o braço da esposa, num gesto que dizia "Acalme-se", e interveio:
O que é que o bispo Nels fará com um malandrinho pagão como você em Roma?
Afrontado com a pergunta do cunhado, Venn fitou-o com altivez e retrucou:
Ora essa, ele me apresentará ao Papa e à Cúria, e me deixará estudar o Testamento. Alfred disse que posso ir. Por favor, Vivi, diga que sim. Ele voltou a parecer o menino de sempre. Dou-lhe minha palavra de que voltarei... se bem que, quando isso acontecer, eu já serei um padre. Então, posso ir?
Virna, que passara a vida inteira cuidando e se preocupando com os irmãos, não sabia o que responder. Novamente, sentiu a necessidade de apertá-lo nos braços, de protegê-lo contra todos os perigos do mundo. Mas sabia que isso não era mais possível. Venn estava crescendo, precisava deixá-lo procurar seu próprio caminho, liberto do seu zelo excessivo.
Ergueu os olhos para o marido, buscando-lhe o apoio. A expressão de Edon era solene quando ele balançou a cabeça de leve, num sinal afirmativo.
Roma fica muito longe daqui, não é? ela indagou.
Aye Venn confirmou. Mas tenho tanto que aprender! Quero conhecer outros países, como o seu viquingue fez. Mais do que isso, quero estudar. Ler todos os livros que puder, ter lições com todos os professores que se dispuserem a me dar aulas. Roma é o centro do mundo, Vivi. Humildemente, imploro-lhe que me deixe ir.
Está bem ela aquiesceu.
Venn recuou, espantado.
Então... concorda? Mal posso acreditar! Você jamais permitiu que eu me afastasse, desde a morte de papai!
Só então Virna se deu conta do erro que cometera. Era sua luta para defender Leam dos invasores, perdera de vista o que realmente lhe importava, o homem em que seu irmão se transformaria.
Você pode ir para Roma com o bispo Nels.
Os dois irmãos se abraçaram, enquanto os dois reis erguiam as taças num brinde.
Agora, rapaz, trate de ir curar a bebedeira Edon aconselhou-o.
Venn, feliz, despediu-se de todos e retirou-se.
Não acha que já é hora de nós também nos recolhermos, cara esposa?
Virna sorriu.
Pensei que nunca fosse perguntar.
Marido e mulher deram-se as mãos e começaram a andar rumo à escada. Os comensais riram e fizeram comentários engraçados, alguns até obscenos.
Indiferentes à reação provocada, Edon e Virna entraram em seus aposentos.
Você está feliz, Virna? ele indagou, abraçando-a.
Mais do que imaginei que um dia viria a ser. Pena que eu também tenha bebido demais. Acho que estou um pouco tonta.
Nem pense em inventar desculpas para esquivar-se de seus deveres!
Deveres?! Quer dizer... dos meus direitos?
Edon soltou uma gargalhada.
Eu bebi pouco... para não lhe dar motivos para reclamar.
Entre beijos e carícias, ele principiou a despi-la.
Edon...
Hum?
Você hoje jurou amar-me.
E daí?
Como foi capaz de jurar, se não pode cumprir?
Não posso cumprir?
Você precisaria amar-me, para cumprir o juramento.
Mas eu a amo!
Ama? Você me deseja, os reis lhe ordenaram casar-se comigo. A união é vital para a consolidação da paz neste condado. Mas, amor...
Edon segurou o rosto dela e fitou-a com uma expressão tão terna que não dava margem a quaisquer dúvidas.
Virna de Warwick, eu a amo como jamais amei ninguém em toda a minha vida. Você é a mulher que Deus criou para mim, minha esposa e companheira para sempre!
Ela colou os lábios nos dele com sofreguidão.
Mas você também jurou... Edon murmurou, desprendendo-se.
Como pode duvidar dos meus sentimentos? Abri mão dos meus deuses por amor a você...
Eu sei... ouvi tudo quando... você julgou que eu estava morto. Sei que foi sincera ele revelou, segurando-a no colo. Levou-a para o leito, embora ainda não se sentissem prontos para a consumação do casamento.
A cerimônia de hoje... foi muito bonita ela comentou, hesitante.
Mas... faltou alguma coisa, não é? Creio que somos cristãos há muito pouco tempo... entre nós, os viquingues, há um costume que talvez pareça bárbaro, entenda, nós somos um povo guerreiro. Você concordaria...
Em celebrar um ritual? Virna sorriu. Era exatamente o que estava pensando. É claro, meu querido.
Tomando-lhe a mão, ele desembainhou a adaga e fez uma incisão pouco abaixo do polegar. Em seguida, precedeu do mesmo modo com a própria mão. Então, encostaram os cortes um no outro.
Pelo sangue que corre em minhas veias, juro protegê-la. Com a união de nosso sangue, nossos espíritos se tornaram um só e nossos corpos pertencem um ao outro, minha mulher, minha esposa, meu amor. Depois de recitar essas palavras, ele se curvou e beijou-a ainda uma vez, o desejo explodindo com toda a força.
Oh, Edon, como eu te amo...
Muito comovente, meus caros pombinhos interveio uma voz áspera.
Embla Garganta de Prata esgueirara-se pela porta sem ser notada e, agora, aproximava-se da cama.
Por Odin, não posso mais tolerar essa cena odiosa! Largue essa bruxa, vice-rei Edon, e levante as mãos. Você dois! O jogo acabou. Agora, sou eu quem dá as ordens. Podem considerar-se mortos.
