Capítulo Dezenove

Edon libertou a esposa do abraço e, cautelosamente, ajudou-a a levantar-se. A mulher que os ameaçava das sombras estava armada. Portava um arco galês, uma flecha farpada e mirava com mortal precisão o coração de Virna. Ele não tinha razões para duvidar da habilidade de Embla com a arma, principalmente numa distância tão curta.

 Muito bem  Embla aprovou em tom enganosamente suave, avançando com cuidado para a área iluminada do quarto.  Coloque a sua adaga no chão, Edon, devagar. Qualquer movimento mais abrupto pode induzir-me a lançar essa flecha em sua querida esposa. A flecha... está envenenada, como deve ter deduzido... depois de examinar o conteúdo da minha bolsa. E a morte que ela provoca, eu lhe garanto, é lenta e dolorosa.

 O que você quer?  Edon interpelou-a, afastando-se disfarçadamente da cama para ganhar espaço de manobra.  Como escapou daquela cova?

 Então, foi você que eu vi ontem, atormentando-me?  Embla atirou a cabeça para trás, para remover dos olhos uma mecha de cabelo. Mesmo na penumbra romântica das velas, era possível perceber, por seu aspecto desgrenhado, que ela fora ao inferno e regressara. Seus cabelos e roupas estavam chamuscados e havia lama grudada em sua pele.  Você foi lá para tripudiar de mim? Receio que tenha sido precipitado. Seu idiota, acabou levando meu devotado Eric direto até mim.

Ela se enrijeceu ao ver Edon segurar o braço da esposa. Ato contínuo, disparou a flecha, que cruzou o aposento e aterrissou no espaldar de uma cadeira atrás de Edon. Virna gritou quando o marido a puxou com força, tirando-a da trajetória da seta envenenada e colocando-se como um escudo à sua frente.

Eric, o Sem Língua, emergiu da escuridão e agarrou-a, arrancando-a da proteção do marido. O gigante cobriu-lhe a boca com a mão, impedindo-a de emitir qualquer som de alarme.

 Bom garoto, Eric!  Embla aplaudiu-o, rindo. Colocou outra flecha no arco e ordenou:  Fique onde está, Lobo de Warwick! Não seja covarde! Sua mulher não será a primeira a morrer. Começarei por você.

 Por quê?, Embla? O que faz pensar que, matando-nos, conseguirá o que quer?  Edon empertigou-se, sem olhar na direção de Virna. Ouvira o ruído metálico de uma lâmina ao ser desembainhada e adivinhava que o silencioso gigante encostara a espada no pescoço de Virna, ameaçando-a  E o que é que você quer, sobrinha? Os reis jamais a deixarão escapar impune.

Aye, esta é uma assustadora verdade, não?  Embla redargüiu com a voz enrouquecida pela fumaça.  Então, não sabe o que desejo? Ora, você chegou, colheu os frutos do meu trabalho, apossou-se da riqueza do condado  as minas, a pedreira, tudo. E arruinou meus planos. Conseguiu até matar aquele maldito druida que me servia melhor do que o próprio Asgart, que, aliás, você também assassinou. Faz idéia da quantidade de ouro que extrai do fundo do rio Leam, "querido" tio?

Edon riu com dureza.

 Não a vejo usar nenhum jóia.

 Usar? Que espécie de imbecil acha que sou? Mandei fundir tudo em barras. Assim que toda a água do Leam fosse drenada, eu poderia colher todas as moedas e jóias de ouro, as gargantilhas de todos os reis e princesas de Leam desde que os sanguinários celtas começaram a praticar sacrifícios humanos, mil anos atrás. Eu mal havia começado o trabalho de drenagem quando essa bruxa se instalou na cabana de Offa, na celebração de Beltane, e jogou seu povo contra mim.

Edon a fitou.

 Então, por que não recolheu o seu ouro e fugiu de Warwick? Por que voltou? Agora, jamais sairá daqui com vida.

 Ao contrário, você será a minha garantia de fugir desta fortaleza, bem viva! Todas as minhas de barras de ouro estão escondidas nas paredes deste seu castelo. Eric, pare de maravilhar-se com os seios dessa mulher e amarre-a. Faça o seu trabalho! Depois, amarre as mãos do vice-rei atrás das costas e prenda um garrote em seu pescoço.

Virna sentiu o coração bater num ritmo ensandecido. Temia por Edon, pois Embla não o deixaria viver. O viquingue empurrou-a para o lado e empunhou a adaga.

Então, Virna deu pela presença de Harald Jorgensson na soleira da porta do quarto dele. Nesse mesmo instante, Sarina avançou pelo corredor, emitindo um uivo amedrontador.

Eric sobressaltou-se, alarmada. Sem perder tempo, Virna agarrou-lhe a mão e cravou os dentes em sua palma. Antes que ele se refizesse do espanto enfiou os dedos em seus olhos. Gemendo, o gigante golpeou-a com o outro punho.

Edon ouviu a escaramuça às suas costas. Havia deixado todas as armas, escudo, espadas, lanças e machados de guerra sobre a mesa, atrás de Embla.

Ela percebeu a direção de seu olhar e deu um passo para o lado, de costas para a porta onde Harald acabara de chegar, uma pálida aparição, observando a cena.

 Faça isso, Harald!  Edon gritou.  Agora, Sarina!

Embla girou nos calcanhares.

Nay, Embla, largue esse arco!  Harald ordenou com voz áspera.  Seu reinado de terror chegou ao fim.

Sarina deteve-se diante da viquingue, uivando ameaçadoramente. Embla desviou a mira do arco para a loba. O marido deu um salto em sua direção e sua mão fraca agarrou o braço que empunhava o arco. Uma flecha envenenada sibilou no ar e cravou-se na grossa porta de madeira. Embla gritou quando a mandíbula de Sarina fechou-se em seu pulso.

Então, tudo se precipitou. Edon correu para apanhar a espada e, gritando num frenesi selvagem, partiu para cima do homem que atormentava sua mulher. Rig, Maynard e Thorulf irromperam no quarto e cercaram Embla, embora Sarina ainda a mantivesse presa nos dentes. Edon atingiu o ombro de Eric com a espada no momento em que este erguia o braço para golpear Virna novamente. Ao descer, o braço do gigantesco viquingue atingiu e derrubou Embla. A loba, então, largou-lhe o pulso e tratou de arrancar-lhe a gargantilha de prata, ferindo e fazendo sangrar seu pescoço. Rig e os dois outros procuravam convencer Sarina a soltar a presa.

Eric apanhou a adaga e voltou-se para Edon.

 Não!  Virna bradou, pulando sobre as costas dele, fazendo-o cambalear.

Dessa vez, Edon rasgou-lhe o ventre com a ponta da lâmina. Soltou a espada e apressou-se a erguer a esposa no colo para tirá-la dali.

Eric tombou sobre a crescente poça do próprio sangue.

 Basta, Sarina!  Harald ajoelhou-se, tentando afastar a loba do pescoço de Embla, que se debatia com toda a força.

Virna enlaçou o pescoço do marido.

 Oh, meu amor, quase o perdi novamente!

Edon permitiu que ela lhe cobrisse o rosto com dezenas de beijos aflitos.

 Edon, ordene ao seu cachorro que pare!

Rig, Thorulf e Maynard continuavam tentando inutilmente deter o animal.

À moi, Sarina! Aqui, vamos!  ele comandou, depois de certificar-se de que Virna não sofrera qualquer ferimento sério.

A loba ganiu selvagemente ainda um momento e então obedeceu. Caminhou docilmente até seu dono e cheirou-lhe as mãos, buscando sua aprovação.

 Muito bom, Sarina!  Edon afagou-lhe a cabeça, acalmando-a.  Agora, sente-se.

Como Virna ainda tremesse, ele aconchegou-a nos braços e beijou-lhe os lábios lívidos.

 Esse foi um divertimento que eu dispensaria em nossa noite de núpcias.

Ela esboçou um sorriso pálido ao ouvir o gracejo. Mas Rig, Maynard e Thorulf se entreolharam, assumindo a culpa por não terem sido capazes de impedir a invasão de Embla.

Ultrapassando os limites de sua resistência, Harald caiu ao lado da esposa. Rashid entrou correndo para acudir os dois. Embla levou a mão ao pescoço e horrorizou-se ao ver a quantidade de sangue que brotava de seus ferimentos.

 Maldição, mulher  Harald esbravejou.  Você nunca desiste, não é?  Voltando-se para os outros:  Mandem buscar um padre!

Um som estrangulado escapou da boca de Embla.

Virna virou-se, abalada pela visão de tanto sangue e horror, e deparou-se com Venn e o bispo Nels, que assomavam à porta.

 O que aconteceu?  Venn correu para a irmã, crivando-a de perguntas.

Os soldados haviam formado uma sólida barreira entre o vice-rei Harald, Embla e Edon. O rei Guthrum aproximou-se do irmão e pousou uma mão em seu ombro.

 Saiam do quarto!  o rei comandou.  Edon, leve sua esposa para longe deste espetáculo macabro. Eu cuidarei de tudo aqui.

 Você está bem?  Edon perguntou a Virna, entrando no aposento que ocupariam naquela noite.

Lady Eloya havia providenciado água e roupas limpas para o casal, bem como uma jarra de vinho para acalmá-los.

 Ainda me assusta pensar que aquela megera quase o matou.

Edon franziu a testa.

 Isto não é verdade. Ela quis matar-me, mas jamais conseguiria. Nem em um milhão de anos.

Virna caminhou até ele e segurou-lhe as mãos.

 Não suportaria perdê-lo, meu amor.

 Eu sei. Contudo...  Edon suspirou.  Está ma hora de acertarmos alguns pontos definitivamente. Eu sou o marido e você, a mulher. Assim sendo, cabe a mim cuidar de sua proteção. E eu posso fazer isto. Sou um guerreiro treinado e habilidoso. Por que não confia em mim?

 Eu confio, mas...

 Não. Você se acostumou a ser a autoridade máxima, como me disse uma vez. Agora, a autoridade máxima sou eu, com todas as responsabilidades decorrentes. Não sou feiticeiro, mas conto com a minha força e minha inteligência. Até agora, isso foi o bastante e não tenho razões para supor que daqui em diante será diferente. Mas preciso que confie nas minhas decisões e me obedeça.

 Você tem razão. Creio que me senti responsável por você como me senti a vida inteira em relação aos meus irmãos.

 Ótimo. E nunca mais morda a mão nem pule nas costas de um adversário meu. Certo?

 Certo.

 Sem bruxarias?

 Juro por Deus.

Edon encheu duas taças de vinho e ergueu um brinde para celebrar o acordo. Depois de beberem, ele pousou as taças sobre uma mesa e, tomando-a nos braços, colocou uma mão em concha no seio de Virna.

 Agora, meu amor, quanto à nossa noite de núpcias...  ele murmurou, sem ocultar o desejo que latejava em seu corpo.

 Creio que já está mais do que não hora...  Virna concluiu, arrancando a túnica do marido.