Delirium

I could not look back, you'd gone away from me
I felt my heartache, I was afraid of following you
when I was looking the shadows of the wall
I started running into the night to find the truth in me

- X Japan " Kurenai"

- Mata – sibilou Voldemort, numa voz clara e aguda, erguendo a sua varinha no alto.

A gaiola mágica, suspensa sobre a cabeça de Snape, caiu prendendo-lhe os braços por entre as suas grades. A serpente atacou, mordendo-lhe o pescoço, deixando rasto de sangue vivo a começar a inundar os orifícios.

Voldemort saiu da sala sem olhar para trás, com Nagini a flutuar dentro da esfera enfeitiçada, deixando par trás o cheiro à morte iminente.

Harry sentiu a sua cabeça a latejar. Abriu os olhos, soltando o manto da invisibilidade. Com um feitiço simples, afastou o caixote que obstruía a passagem secreta, no Salgueiro Zurzidor.

- Harry, não! – implorou Hermione desesperada. – Pode ser perigoso.

Mas Harry não lhe deu ouvidos. Aproximou-se, hesitante, de Snape. Não sabia ao certo porque sentia-se no impulso de o fazer ou como se sentia ao observar o corpo quase imóvel à sua frente. Snape tentava, a muito custo, estancar a ferida, com os dedos pressionados sobre esta. O sangue gotejava em camadas, escorrendo pelo peito abaixo, empapando o seu manto negro. As mãos tremiam-lhe perigosamente e parecia que a maioria do sangue tinha-lhe fugido do rosto, deixando-o cor de alabastro, mais parecido com um morto.

Ajoelhou-se a seu lado. O professor, ao vê-lo a seu lado, agarrou-lhe as túnicas, puxando-o de encontro a ele. Quando estava dobrado sobre o seu corpo inerte, ocultando o rosto cujo os cabelos caiam-lhe afastados do semblante, deixando-o desprotegido, sussurrou inaudivelmente:

- Apanha-a… Apanha-a…

Do seu corpo saiu um fumo prateado e embora Harry soubesse ao certo aquilo que era, não sabia o que fazer. Por sorte Hermione enviou-lhe um pequeno frasco, por debaixo do manto da invisibilidade que a ocultava. Encheu-o com a substância que pairava em seu redor e quando já estava cheio, guardou-o no seu bolso.

- Olha… para… mim…

Os olhos verdes vivos pousaram nos olhos escuros de Snape. Pareciam dois poços sem fundo, prontos a absorvê-lo, engolindo-o inteiro. Embora o seu rosto se mantivesse inexpressivo, como uma máscara cadavérica, os seus olhos traiam-lhe, demonstrando tanta paixão que se Harry não o tivesse visto, com os seus dois olhos, não o teria acreditado.

Nunca tinha sido olhado daquela forma por ninguém, muito menos por Snape. Os tios nunca lhe demonstrado o mínimo de afecto e mesmo em Hogwarts… Não. Nem Cho Chang nem Ginny o tinham olhado desta forma, como se o quisesse devorar por inteiro e não houvesses nada no mundo mais importante para além dele mesmo. Sentia-se necessário.

De repente a verdade caiu-lhe à sua frente. Não queria que Snape morresse. Não queria ser deixado, sentindo-se vazio de novo. Os seus olhos ficaram manchados de lágrimas que teimavam em escorrer-lhe pelo rosto. Tinha a certeza que Snape era capaz de ver claramente as suas lágrimas. A mão que o agarrava escorregou lentamente pelo seu manto, caindo a seu lado. Lentamente o rosto ficou sem expressão, vazio e uma luz apagou-se dos seus olhos.

Harry levou os dedos ao coração, medindo-lhe o batimento cardíaco. Estava fraco mais ainda estava vivo.

- Levem-no à enfermaria. Ele está ainda vivo.

- Mas Harry… - disse Hermione tentando chamar-lhe à razão. – O Professor Snape é um Devorador da Morte. Ele não é um dos nossos…

- Por favor, levem-no à informaria – implorou Harry, ignorando o comentário de Hermione.

- Não acredito no que estás a dizer. – brandiu Ron, sentindo-se injuriado. - O Fred está morto por causa dele e dos seus amiguinhos e agora é suposto salvarmos-lhe a vida, como boas pessoas que somos? Acorda, meu! Muitas mais pessoas vão morrer nesta batalha. Antes eles que nós.

- Tu não entendes – respondeu Harry calmamente. E era verdade, Ron não entendia. – Preciso dele vivo… é muito importante!

E de certa forma era verdade. Precisava dele vivo. Não sabia porquê que o defendia, mas vê-lo ali deitado, cheio de vulnerabilidade, causavam-lhe tanta pena. E havia algo mais… Algo que não queria pensar agora… Não quando estava tão perto de compreender como derrotar Voldemort.

Só agora apercebeu-se que ainda tinha restos do seu sangue manchando-lhe as mãos. Tentou-os limpar desajeitadamente de encontro ao manto, mas isso só serviu para deixar uma mancha de cor viva, que fez com que o seu coração se apertasse ainda mais de encontro ao seu peito.

- Então explica-me. Nós estamos também nisso contigo.

- Não, Ron! – entreviu Hermione, olhando de relance para a figura de Snape, deitada de encontro ao chão frio. – Não temos tempo. Vamos levá-lo Harry, mas queremos saber para onde vais…

- Preciso de ver as memórias dele. Se me as deu é porque deve ter algo de muita importância que o justificasse. Por favor, façam isso por mim. Encontramo-nos na Sala Comum dentro de meia hora.

-Hermione balançou a cabeça em concordância.

- Por favor não faças nada estúpido…

Harry saiu, de volta para a claridade dos campos que circundavam o colégio. Fechou os olhos, expirando o ar puro e evitando a todo o custo os vómitos que ameaçavam-lhe escapar pela boca.

Quando os abriu, não estava mais no mesmo lugar. Estava antes na mesma cama que Snape. Os seus corpos nus moviam-se em sinfonia, carregados de prazer. Enlaçou as mãos em volta do pescoço de Snape, aproximando-o o mais possível. Cobriu os seus lábios dançando lentamente com sôfrego. As mãos abeis do professor desciam ao longo das suas costas suadas. Por momentos pensou estar a sonhar. Tinha que ser um sonho. No entanto, tudo parecia tão real, tão verdadeiro. Foi arrancado dos seus pensamentos quando senti-o algo dentro dele, licitando gemidos de prazer da sua parte.

- Aaahh… Snape… mais…

Mal conseguia reconhecer a sua própria voz. Estava roca de desejo, possuída por um sentimento que era incapaz de interpretar. As feridas de ontem já tinham sido curadas. Tudo o que sabia existir era ele e Snape, confundindo-se num só, tornando-se uno.

Os braços de Snape estavam em seu redor, explorando com pormenor o seu corpo, puxando-o forçosamente de encontro a si, ao seu calor, cobrindo-o cada vez mais de beijos. O seu rosto suave sussurrava-lhe palavras de encorajamento ao ouvido, deixando o bafo quente fazer-lhe cócegas à pele, causando uma estranha impressão de quem está fora da sua mente, preso apenas ao prazer carnal.

Naquele momento, viu o brilho da lareira a crepitar, reflectindo na parede duas sombras em movimentos conexos ao longo da sua superfície. Moveu os seus olhos em direcção a Snape, que parecia adivinhar-lhe o que se passava na mente.

- As sombras podem ter várias formas, Potter… - ele disse o seu nome quase num sussurro, como se o temesse pronunciá-lo em voz alta.

O problema é conseguir ver para além das aparências…

Um clarão ofuscou-lhe a vista. Desta vez, estava nos quarteirões de Hogwarts e uma pilha de corpos amontoava-se pelos campos verdes lançando um cheiro nauseabundo a sangue seco e carne fresca. Podia ouvir claramente berros soltados por feiticeiros a elevarem-se por cima do barulho de expulsões e uma coluna de nevoeiro a descer dos céus cobrindo o campo de uma névoa expeça.

- Harry!

Alguns minutos passaram-se, enquanto observava este cenário devastador, sentindo-se paralisado pelo medo. Se ao menos tivesse uma varinha consigo… Um feixe de luz cortou o ar, incendiando o carvalho atrás de si de um vermelho intenso. Tudo o que podia pensar era em correr, fugir deste lugar desolado.

- Harry!

Transpôs o relvado, que pegava agora, também fogo e correu, procurando com os olhos, por entre a neblina, o limiar da Floresta Proibida. Sentia-se a ficar cada vez mais cansado, os seus passos abrandando, até que tropeçou e caiu dentro do lago.

- Harry!

A água fria e turva inundava-lhe os pulmões, encharcando-o até aos ossos. Fez os possíveis para se manter à tona. Não era lá muito bom nadador, os Dursley nunca o tinha levado à praia, mas aprendera alguma coisa no Torneio dos Três Feiticeiros.

Mãos frias e hirsutas como pedras agarravam-lhe pelas pernas e pelos ombros, obrigando-o a engolir mais água. Não eram os tentáculos escorregadios e húmidos do Polvo Gigante, pareciam mais humanas.

- Socorro! – implorou, mas o pedido morreu-lhe nos lábios ao engolir uma grande poção de água doce. Bracejava e gritava, tentando-se livrar das mãos que o puxavam para o fundo do mar, sufocando-o.

Uma mão cor de alabastro, vinda algures da superfície, agarrou-lhe o pulso e puxou-o para fora das águas geladas de Outono.

A silhueta escura de Snape encontrava-se à sua frente, com a varinha erguida na sua mão direita. Queria abraça-lo, sentindo o seu cheiro almiscarado bem perto de si, beijar-lhe a boca fria e gritar-lhe palavras que nunca lhe tinha confessado antes mas mudou de ideias ao ver o olhar cravado em pedra dura que Snape ostentava. Os orifícios escuros como a noite, colados a um rosto macilento, coberto por um gorro de cabelos negros, nunca antes pareceram-lhe tão sardónico, frios e destituídos de emoção. Tremeu involuntariamente, tentando manter-se empoleirado sobre os seu pés.

- Avada Kedavra! – soletrou Snape e um jacto de luz prateada atingiu-o no peito, fazendo-o cair para trás.

Imóvel .

Frio.

Morto.

Acordou sobressaltado sentindo um berro escapar-lhe dos lábios. Estava na enfermaria, coberto por um espesso cobertor de lã que causava-lhe demasiado calor. Tentou puxá-lo para trás mas alguém agarrou-lhe pelos ombros e obrigou-o a deitar-se de novo.

Por uns segundos, deixou-se ficar imóvel a olhar pela janela fora. Lá fora choviam folhas recortadas em forma de estrelas, de um vermelho intenso, velhas e encarquilhadas. O sol escondia-se atrás de densas camadas de nuvens cor de algodão e chegava-lhe até si o cheiro a chuva. Uma tempestade antecipava-se, mas não se importava, tinha imenso calor e só queria sair dali.

Obrigou-se a focar no rosto da figura à sua frente. De início era apenas um borrão disforme de encontro à luz do sol mas cedo conseguiu distinguir uns vislumbres de olhos azuis vítreos e cristalinos que o olhavam com bondade.

Um pensamento ridículo passou-lhe pela cabeça. Seria Dumbledore? De volta do mundo dos mortos com palavras confortantes e sorrisos apaziguadores. Mas Dumbledore partira, deixara-lhe para trás, com Voldemort para lidar sozinho e uma estúpida varinha capaz de defrontar a morte.

A cabeça enublada parecia pesar-lhe sobre os ombros. Andava à roda perigosamente, causando-lhe pontadas acutilantes que lhe atingiam a fronte como se tivesse sido atingido por um cabo de uma espada ou por um Cruciatus.

- Descansa. Queres que eu venha chamar a Madame Pomfrey? – cantarolou Luna numa voz etérea.

Ao ver o ar preocupado de Harry apressou-se a responder.

-Oh, não te preocupes… Que eu saiba ela não te ouviu chamar o nome de Snape e se o ouviu não deve ter dado muita importância…

- CHAMAR O NOME DE SNAPE?! Eu não chamei o nome dele.

-Acalma-te Harry! – pediu baixinho. – Descansa que eu não digo a ninguém, embora ache o teu gosto para homens um tanto extravagante… - divagou calmamente, ignorando intencionalmente o olhar embasbacado de Harry, que voltou a deitar a cabeça dolorida sobre a almofada.

- O quê que estás para aí a dizer? Sabes muito bem que isso não é verdade. Pensei que não gostasses de ler os disparates do Profeta Diário – respondeu reprovadoramente Harry, olhando-a de esguelha.

- Não é preciso mentires, de qualquer forma já o tinha adivinhado. Estás a ver… um dos entrevistados do meu pai um dia disse que estavas apaixonado por uma descendente do Conde Drácula mas eu bem sabia que não era verdade… De qualquer forma dá-se para notar na tua cara, passas a maior parte do tempo no Salão Grande a lançar-lhe olhares disfarçados e desde que tens estado inconsciente não paras de chamar o seu nome.

- E mais alguém ouviu isso? – perguntou cuidadosamente, esquecendo-se de negar a verdade.

- Que eu saiba apenas a Ginny. Bem, já provastes os…

- A GINNY? – interrompeu-lhe Harry sem saber se ouvira bem. O coração martelava-lhe agora no peito com mais força que nunca, enquanto fazia os possíveis para controlar o tom da sua voz. Em princípio pareciam estar sozinhos, o resto da enfermaria descansava calmamente num sossego tranquilizador, embora não pudesse ter realmente a certeza, temia que a Madame Pomfrey lhe ouvisse.

- Sim, até saiu um pouco apressada…

- Eu viu-o antes de cair, Luna. O seu rosto ficou cravado na minha mente, lembro-me de ele erguer a varinha e…

Não se lembrava de mais nada. Apenas de um feixe de luz ofuscante. Teria sido por causa disso que sonhara com Snape junto ao lago? O seu subconsciente devia se recordar implicitamente da última coisa que vira.

Ouviu a porta da enfermaria a ser aberta com um baque e, logo de seguida, a Madame Pomfrey apareceu, encostando-se à cabeceira da sua cama.

Aparentemente a cabeça não era a única coisa que lhe doía. Os ossos dos braços e das pernas ardiam-lhe, marcados por grandes hematomas que já perdiam a sua cor arroxeada. Botões de sangue seco encrostado formavam uma pequena linha que escorria intrepidamente pelo seu pulso esquerdo, contornando-o.

- Miss Lovegood, devia-me ter avisado que o Potter já tinha acordado. Deixo-nos a sós e avise o resto dos seus amigos que nada de visitas até à sua condição ter melhorado.

- Sim, senhora.

Madame Pomfrey afastou-se, para logo voltar a reaparecer com uma caneca transparente a transbordar de um líquido verde viscoso.

- Bebe tudo até ao fim, por favor.

Harry obedeceu-a, bebendo vagarosamente para tentar evitar que as náuseas lhe subissem à boca, graças ao sabor desagradável da poção verde.

- Como é que te sentes?

- Já tive dias piores …

- Nada de gracejos, estou a falar a sério. Fostes gravemente ferido, fico contente que tenhas sido tão resistente – disse Madame Pomfrey enquanto lhe levantava o braço esquerdo para o inspeccionar. – Dói-te?

Harry fez os possíveis para suster um grito.

- Bastante – respondeu honestamente. Não servia de nada ser corajoso agora, não iria dar em nada. Certamente não o tinha sido enquanto Snape lhe quebrara o coração na semana passada. Ou teria sido à duas semanas? Tinha perdido o rasto dos dias enquanto tivera inconsciente. Pensou em perguntar a Madame Pomfrey que dia era hoje mas acabou por se esquecer quando ela lhe pressionou outro ponto do corpo mais doloroso.

- Dei uma pomada para a ferida no teu pulso, mas de resto mais vale deixá-las cicatrizar por si. Uma Poção teria sido mais eficaz, mas já tens andado a tomar demasiadas e eu temi… que tivesses efeitos secundários – justificou-se Madame Pomfrey, continuando a inspeccionar o resto do corpo de Harry, parando apenas para lhe perguntar se doía muito.

Tentou ser verídico mas a certa altura já não era capaz de saber se lhe doía mais o braço ou a perna. Estaria Voldemort a rir-se? Ele que era bem capaz de apreciar um cenário mórbido com este…

Enquanto estava perdido nos seus devaneios, a porta abriu-se de rompante e o vulto de Ron, Hermione e Neville surgiram ao pé do limiar da porta de entrada, olhando ansiosamente tanto para Harry como para Madame Pomfrey, temendo que ela os mandasse embora. Hermione foi a primeira a quebrar o silêncio.

- Oh! Nem posso acreditar que estejas melhor! – gritou, saltando para abraçar-lhe de encontro ao seu peito.

Ron e Neville seguiram-lhe os passos, claramente felizes por encontrá-lo de boa saúde, mas a Madame Pomfrey interveio, pondo-se entre eles e a cama de Harry.

- Que pensam que estão aqui a fazer? Podiam bem ser a Directora que não vos dei autorização para cá entrarem. Estão a incomodar o meu doente.

- Por favor, deixe-os ficar… - implorou Harry. – Tenho muitas coisas a perguntar-lhes e não me sinto assim tão mal.

- Só durante alguns minutos, depois disso vão ter de sair. Vou deixar-vos um pouco de tempo a sós para puderem conversar em paz, mas nada de abraços – mandou olhando de soslaio para Hermione. – Não sei se o Senhor Potter aguentaria mais um que fosse.

- Peço desculpas se te magoei… pensei… quer dizer, pensamos que não ias acordar. Se soubesses todo o tipo de rumores que corriam pelo castelo e ninguém nos dizia se era verdade ou não. Passaram-se tantos dias… - disse Hermione, mas foi interrompida por Harry. Dias? À quanto tempo estava a dormir?

- Quantos dias é que se passaram? – perguntou, assustado.

- Oh, não sabes? Estas a dormir à cinco dias, a Madame Pomfrey apenas disse-nos que tinha-te dado alguma coisa para descansares mas como o teu estado não melhorava pá, pensamos mesmo que ias desta para melhor. – respondeu-lhe Ron agradavelmente surpreso. Parecia estar prestes a deixar escapar um enorme número de informação. - Mas seria ridículo, não é? Sobreviver ao Quem-nós-sabemos para morrer por causa de um jogo de Quidditch – Ron riu-se alegremente, piscando-lhe o olho mesmo em frente à sua cama, para que a Hermione não desse por isso.

- Oh, Ron! – insurgiu-se Hermione escandalizada. – Juro que às vezes és impossível.

- Mas afinal ganhamos o jogo, não foi? – perguntou Harry esperançado, interrompendo-lhe a conversa. Às vezes era muito difícil quando os teus melhores amigos namoravam um com o outro.

- Sim – acenou Neville afirmativamente. – Não que tenha servido de muito. O pessoal nem teve tempo de festejar depois do que aconteceu…

- Não me lembro de muita coisa… Só de estar a cair e da varinha do Snape levantada na minha direcção…

- Alguém atacou-te, mas não fomos capazes de distinguir quem foi no meio da confusão toda. Como sabes, havia alguns pais que tinham pedido para assistir ao primeiro jogo de Quidditch dos seus filhos desde a morte do Voldemort.

- Então julgas que foi um dos pais dos Slytherin? – perguntou-lhe. Fazia bastante sentido, agora que pensava nisso. Devia haver alguns adeptos não oficiais do Voldemort que ainda andavam por ai, embora fosse difícil acreditar que algum deles fosse tão longe ao ponto de tentar matá-lo.

- Eu não disse isso… mas é possível. De qualquer forma se o Professor Snape não te tivesse salvo a vida…

- O SNAPE!? – berrou Harry pela terceira vez consecutiva neste dia, que se pudesse lembrar… Hoje tornara-se oficialmente num dos dias mais estranhos da sua vida. Ainda tinha que lidar com a Ginny e agora, quem sabe, ter de dizer obrigada ao Snape depois de tudo o que este lhe fizera. Lindo, o dia não podia correr pior. – Como foi que isso aconteceu?

- Bem pensei que o filho da mãe do Sape era capaz de te deixar morrer para que os Gryffindor perdessem, mas ele foi mesmo muito rápido a invocar um feitiço de defesa. Se não tivesse sido ele provavelmente estarias morto. – disse Ron, mas ao aperceber-se do olhar assustado de Harry, como se o facto de ter sido salvo lhe doesse mais do que mil quedas consecutivas, apressou-se a responder: - Provavelmente ele só fez isso como estava-te a dever a sua vida. Se não tivesse sido por causa de ti nunca o teríamos levado para a enfermaria. Presumo que ele ao menos tenha um mínimo de coração.

- Mas o Snape já salvou a vida do Harry antes, sem ter motivo nenhum – contrapôs Hermione discretamente. – Não percebo porquê que desta vez havia de ser diferente. – Foi mais rápido do que qualquer professor nas bancadas.

- Eu tive a pensar… - disse Neville em voz clara. Era a primeira vez que falava desde algum tempo, parecia estar demasiado envolto nos seus próprios pensamentos. – E se fosse o Snape a te ter atacado em primeiro lugar?

- Para depois o ter salvado a seguir? – ironizou Hermione.

Harry sabia muito bem que Neville gostava ainda menos do Snape do que ele próprio, depois de ele lhe ter humilhado quando fizeram sexo oral. Passara a vida a tremer nas suas aulas, com um fio de suor a escorrer-lhe pela testa e Harry podia jurar que conseguia ouvir o seu coração da fila da frente. Neville podia ter sido muito corajoso no último ano mas a verdade era que Snape continuava a atormentá-lo mais do que um bando de Devoradores da Morte, embora Harry bem vise que fazia os possíveis para o disfarçar.

- Podia ser um plano para que ninguém desconfiasse dele, já que te salvou a vida… – justificou-se Neville, a ideia que se formava na sua mente dava-lhe mas força à voz inicialmente incerta. – Podia aproveitar-se duma altura que tivesses sozinho para atacar-te a sério e ali ninguém seria capaz de suspeitar dele. Afinal de contas o Snape é o único Devorador da Morte nesta escola.

- Mas o Snape já não…

- Devorador da Morte uma vez, Devorador da Morte para sempre. De qualquer forma, como podemos exactamente confiar nele? As memórias que tu vistes só mostravam-no a discutir os seus planos com o Dumbledore, mas todos nós já sabemos que como espião duplo isso era o que ele devia fazer. O que ele não te mostrou foi as memórias dele e do Vol… Voldemo…rt… - Neville deixou as suas últimas palavras fugirem-lhe da boca como uma torrente de água, embora balbuciasse.

- Eu sei, Neville. Existe algo pessoal que eu vi acerca do seu passado… - desta vez era Harry que hesitava, sem saber o que dizer ao certo. Demasiado era quebrar a promessa não verbal de nada dizer a ninguém, menos podia correr o risco que os amigos nunca mais esquecessem o assunto. Fora diante do Ministério dizer que confiava no Snape e isso saíra em seu favor, não queria que as pessoas voltassem a desconfiar. Primeiro o artigo no Profeta Diário e agora isso…

- Não podes estar a por os teus…

- Sentimentos? – Harry quebrou-lhe a palavra com uma rajada. – Que sentimentos tenho ao certo por ele? Não é como se nos déssemos lá muito bem. Não éramos propriamente camaradas… Ou estás a contar com o artigo no Profeta Diário?

- Desculpa, não estava a falar disso. É que só… nunca nos dissestes o que vistes no Pensatório.

- O Neville tem um pouco de razão nisso… Tenho de concordar que acho isto tudo muito estranho…

- Não há nada de estranho – bufou Hermione exasperada. – É tudo uma teoria da conspiração. Foi o Snape que enviou a corça que vimos na floresta, não foi? Porque nos havia de mostrar onde estava a espada?

- A Hermione tem razão. – concordou Harry.

- É melhor não falarmos mais nisso… - disse Hermione, temendo que Harry fosse acrescentar mais lenha na fogueira.

Olhou fixamente para cada um dos seus convidados, que se abeirava em redor da sua cama. Depois de discutir um pouco a cabeça começar a latejar cada vez mais, exprimindo-lhe o cérebro.

- É melhor irem andando. Não acredito que a Madame Pomfrey fique muito contente se voltar e ainda cá estiverem.

- Tens razão, vou deixar aqui o presente da Ginny, já que ela não teve tempo para vir. – Ron apressou-se a colocar um embrulho rectangular em cima da cómoda. Estava cheia de um mar de embrulhos coloridos, ramos de flores e envelopes perfumados, que engoliam a madeira e se amontoavam uns em cima dos outros.

Gostava de alguma vez poder confiar a Ron o que acontecera com Snape, mas isso era impossível. Uma vez que tecia um juízo de valor acerca de alguém, Ron dificilmente mudava de opinião, a menos que lhe provassem directamente o contrário. E o Ron odiava Snape do fundo do coração. Talvez nem tanto como o Neville, mas o suficiente para encher uma sala cheia de rancor condicionado.

Não gostava da forma como Snape fazia o seu coração agitares de prazer, como se tivesse em brasas. Se ao menos fosse outra pessoa… Outra pessoa qualquer, que não o odiado Mestre de Poções, poderia tentar lidar com isso de outro jeito. Mas era Snape de quem se tratava. Capaz de humilhá-lo com palavras depreciativas e insultuosas, capaz de rebaixá-lo com o seu sorriso torto na cara. Snape que fora um Devorador da Morte, capaz de guardar rancor e ódio sempre prestes a entrar em ebulição. Rira-se dele com escárnio, humilhara-o tantas vezes diante dos seus colegas. Maldição! Porque achara que seria diferente durante o sexo? Se calhar só o pedira para lhe tocar como forma de humilhá-lo mais tarde, quebrá-lo de uma forma inimaginável, deixar-lhe uma marca profunda como uma espécie de vingança pelo que o seu pai lhe tinha feito no passado. Porque tinha ele de ser tão complicado? Era incapaz de ler-lhe as linhas do rosto, continuava tão fechado como quando o vira a falar com Voldemort pela última vez, a máscara solidificada numa expressão glacial. Se calhar esta era a única forma que conhecia de se proteger do mundo exterior. Tinha resultado até agora, não tinha?

Mas a questão principal era: será que ele vale assim tanto a pena? Sabia que se tentasse se aproximar novamente de Snape seria empurrado com mais força, como um muro de aço difícil de transpor. Ele iria certamente rebaixá-lo, tentando-o afastar dele. Era assim que Snape agia. Magoava para se defender. Não sabia se depois do que acontecera tinha muita perseverança.

No entanto, não importava o quanto se tentava convencer, a imagem pálida de Snape veio-lhe à cabeça. Tinha a boca mais deliciosa que alguma vez vira e isso só lhe fazia lembrar que nunca a tinha saboreado. Era uma fina linha, curva e descorada que às vezes se erguia formando um sorriso cínico. Era uma das suas marcas. Ninguém lhe comparava e Harry sabia que não importava o quanto procurasse, estaria sempre sozinho sem ele. Necessitava de sentir-lhe o toque sobre a pele, o hálito quente e demorado.

Snape era uma das pessoas mais inteligentes que alguma vez conhecera. Sabia agir correctamente em todas as situações sem nunca perder a calma e, embora apreciador da Magia Negra, era capaz de atacar vários feiticeiros ao mesmo tempo e desembaraçar-se deles, como fizera para fugir do castelo no último ano. Sempre estivera do lado deles e de alguma forma fora capaz de viver com o facto que nunca seria visto como um herói propriamente dito. Deixara que se efectuasse castigos corporais enquanto fora Director e nenhum ano fora tanto manchado de terror e medo como quando mandara. Quase ninguém fora capaz de desafiá-lo.

Nos próximos dias não teve muito que fazer. Inicialmente achava aquela liberdade toda agradável e passava grande parte do tempo a dormir, descansando a cabeça. A Madame Pomfrey dissera-lhe que o delirium provinha das doses altas de medicamente que precisava de tomar. Felizmente não era atormentado por visões de qualquer tipo e assim que as doses forma reduzidas começou a sentir-se mais fortalecido. Os membros já não lhe doíam tanto como nos últimos dias e era capaz de mexer os braços sem sentir muitas dores, mas fora aconselhado a ficar na enfermaria mais alguns dias e a maior parte do tempo era simplesmente aborrecido.

Desembrulhou cuidadosamente o presente de Ginny, não se lembrara de tocar nele até este instante. Se ela tivesse muito zangada não mandaria um presente, não era verdade? Pelo menos esperava acreditar que sim.

Era uma caixa cara de Doce dos Duques, embora nada demasiado imaginativo, como previra. Tirou um caramelo envolto em creme de leite e experimentou trincá-lo. Já tinha provado de uns assim, mas a verdade é que não se lembrava de serem assim tão doces. Foi-os comendo um a um enquanto lia as cartas deixadas para ele. A maioria era de raparigas que pareciam querer atirar-se a ele. "Sou a tua maior fã", "Não consigo viver sem ti" ou "Por favor fica melhor, da tua admiradora anónima". Apreciava muito mais um simples "Desejo-te as melhoras" mas para o Escolhido até isso parecia demasiado vulgar.

Fantasiara que Snape escrevera uma destas cartas e ao pensar que talvez lhe pertencessem um remoinho agitou-se na sua barriga. De repente já não pareciam cartas tão vulgares de amor e isso deu-lhe ânimo por alguns segundos até acordar para o facto que Snape nunca lhe escreveria uma carta desta nem mesmo se morresse e voltasse à vida.

Como desejava ter uma vida simplesmente normal? Era pedir muito que as pessoas lhe olhassem com outra pessoa qualquer. Os Dursley nunca lhe tinha dado uma importância lá muito especial, por isso ainda até hoje se admirava quando as pessoas passavam por ele varrendo demoradamente o olhar pela cicatriz.

Passados um minutos as pálpebras começaram-lhe a ficarem pesar, fechando-se quase instantaneamente. Sentiu a sua cabeça a flutuar num espaço branco. Como era agradável ver-se livre de qualquer preocupações… Se ao menos conseguisse forçar os seus olhos a abrirem-se, por um momento, para perscrutar quem tinha acabado de entrar na enfermaria…

Conseguia ouvir claramente o som de algo a retinir por uns minutos e uma mão a tocar-lhe no corpo, como se o tivesse a inspeccioná-lo, enquanto a cama começava a ranger. Inesperadamente, alguém beijou-lhe na boca, demorando-se longamente. Os lábios de encontro as seus eram quentes e húmidos e dançavam de uma forma estranhamente sensual, provocando-lhe uma comichão entre as pernas. Beijavam-lhe forçosamente, como se a sua vida dependesse disso, agredindo-lhe a boca entreaberta.

Gemeu e uma língua aproveitou-se para entrar dentro da sua boca, fazendo-lhe engolir um líquido quente e amargo. Tentou cuspir, mas os lábios da outra pessoa apertavam-lhe os seus. A língua inspeccionava-lhe a boca, deslizando pelos seus dentes demoradamente, atacando-os revoltosamente.

Forçou-se a abrir os olhos, que insistiam em não querer cooperar consigo neste momento. Ele, com dificuldade, foi capaz de captar o vulto sisudo de Snape, por entre as suas vestes de negro, inclinado sobre a sua cama, com os lábios uns centímetros afastados dos seus. Uma pequena linha de saliva escorregadia atravessava-lhe a boca, ligando-se à de Snape, que parecia mais rosada do que o normal.

Corou instantaneamente e tentou pronunciar algumas palavras sem sentido. O ar parecia ter-se tornado mais pesado em seu redor e foi-se obrigado a fechar os olhos novamente, escutando a sua respiração irregular. Sabia que se Snape olhasse muito bem por debaixo do cobertor fino seria capaz de reconhecer a sua erecção latente.

- Descansa – comandou Snape, em tom de voz autoritário. Levantou-se novamente da cama que rangeu teimosamente mas, antes que se pudesse afastar, foi agarrado pelo braço suavemente.

- Por favor, fica.

E Snape ficou, ou pelo menos era isso que Harry pensava, pois foi novamente assolado por sonhos de sombras negras dançando de encontro à parede. Sabia que tinha de fugir dali, para muito longe. Só não sabia para onde.

FIM

Deixem um review por favor. Se não tiverem tempo basta um smile.

N/A: Peço desculpas por ter demorado tanto tempo mas o meu computador avariou-se. Tencionava, despachar-me bastante rápido porque até acho que o capítulo a seguir vai ser muito mais interessante mas o maldito do computador desmotivou-me um pouco. De qualquer forma espero que gostem. Obrigada pelos comentários.