Oclumância
Close your eyes
Feel the ocean where passion lies
Silently the senses
Abandon all defences
- Nightwish "Sleepwalker"
-Peço tantas desculpas, Harry… Eu juro que não sabia… - sussurrou Ginny assustada.
Estava um dia quente e húmido, invulgar nesta altura do ano. Os alunos adensavam-se fora do castelo, junto ao lago da lula. A maioria conversava alegremente, aproveitando uma pausa bem merecida nos seus estudos. Havia também, quem dormitasse junto ao lago da lula gigante, de costas sobre a grama, a ouvir o barulho da água que caldeava junto à superfície.
- Eu sei que não fostes tu que me tentastes envenenar – apressou-se a dizer Harry, rezando para que o olhar de Snape não caísse junto dele justo na altura que conversava com a Ginny. - Alguém deve ter posto o veneno quando estavas distraída. Lembras-te de alguma coisa de invulgar?
- Nada. A Directora perguntou-me a mesma coisa. Se eu ao menos pudesse ajudar em mais alguma coisa… Era capaz de me sentir muito mais descansada.
- Oh! É fácil. Basta que inventes uma desculpa relativamente razoável para te teres estado a ausentar do dormitório à noite.
Ginny olhou-o de alto a baixo, desconfiada. Os seus olhos verdes varriam-no, e Harry jurou ler-lhe o desespero nas linhas do rosto. Até agora não tinha notado, mas Ginny também estava mais pálida e cansada que nunca.
- Não digas nada ao Ron, sabes como ele pode ser…
- E como é que achas que eu sei disso? O Ron tem-me atazanado o juízo toda a noite, interrogando-se do quê que deverias estar a fazer e se deveria mandar uma carta à tua mãe.
Inicialmente fora hilariante. O estado de paranóia de Ron apenas contribuirá para que Harry tivesse mais oportunidades de recolher-se na sua mente, pensando no seu último encontro com o Professor de Poções ou para poder olhá-lo com demora. Naquele estado Ron não notava em nada. O problema era quando estava com Hermione, a amiga era especialmente perspicaz.
Agora tudo o que Harry sentia era uma sensação de aborrecimento crescente que vinha a aumentar, e que contribuía para que tanto ele, como Hermione lançassem a Ron olhares mal-humorados. Será que o ruivo não tinha mais outro tema de conversa? Se continuasse a comportar-se daquela forma estúpida só serviria para afastar-se da sua namorada. E Harry não queria separar-se dos amigos.
- Não poço acreditar! Porque não me deixa ele em paz? – Ginny rangeu os dentes involuntariamente. Costumava fazer isso quando estava zangada. – Eu vou dizer-lhe das boas...
- Ele ainda à de reagir pior…
- E eu que me importo! – depois de uma breve exclamação fixou os olhos novamente em Harry. – Obrigada por me teres dito. Eu achei que as coisas entre nós estavam piores, desde… desde a batalha em Hogwarts. Nunca mais me dissestes nada e eu fiquei sem saber se de alguma forma me culpavas de alguma coisa. Mas eu agora julgo realmente ter entendido. O que aconteceu vai-me assombrar para sempre, deixando-me marcas na memória. Viver com isso é difícil e tudo o que nós passamos… é suficiente para algumas emoções resfriarem… Eu às vezes penso… - murmurou distraidamente, puxando uma cascata de fios acobreados da frente dos seus olhos.
- O quê? – exclamou Harry, mais bruscamente do que esperava. Snape marcava-o da soleira da entrada principal, e tanto isso como a conversa de Ginny, estavam-no a por nervoso. Não entendia o que ela queria dizer. Esperaria ela que voltassem a namorar? Ou era esta a sua forma de dizer que sentia pena dele?
- Se as coisas poderiam ter corrido de uma forma diferente…
Harry lançou-lhe um olhar chocado. Assim como Dumbledore, acreditara que o amor era uma arma imparável, capaz de desencadear acontecimentos fantásticos. Então porque não tinha sido suficiente? A única coisa que sabia era que estava contente da forma que as coisas estavam entre eles.
- Eu peço desculpas mas…
- Não me amas… Eu sei – comunicou-lhe Ginny com um breve sorriso. – Não me interpretes mal. Eu penso que as coisas estão boas da maneira que estão.
Harry suspirou inadvertidamente de alívio. Snape continuava a observá-lo atentamente. A sua figura alta e esguia arrastava uma densa escuridão, projectando-a nos fios entrelaçados de musgo denso, que amontoavam-se na soleira da porta.
- Eu não sei… Talvez.
Ginny pareceu inicialmente confusa, até perceber de quê que ele estava a falar.
- De qualquer forma quase que te vejo como uma irmã – não sabia se era isso que ela queria ouvir, mas era verdade. – Conheci-te deste os onze anos e…
Ginny surpreendeu-lhe quando abraçou-o energeticamente, pondo-se nas pontas dos pés para lhe sussurrar ao ouvido.
- Obrigada! Não é preciso me reconfortares. Tenho algo que gostava de te contar, mas ainda não me sinto preparada… Dá-me mais algum tempo.
Harry deu-lhe umas palmadinhas nos ombros instintivamente e depois deixou os seus braços suspensos no ar, o mais afastado possível das costas da Ginny, numa posição um tanto ridícula.
Conseguia ver os olhares dos outros estudantes cravados neles e isso ainda contribuiu para aumentar o seu nervosismo. Snape devia estar a vê-lo. Snape tinha que estar a vê-lo. E, embora sentisse que não tinha nada a dever a Snape, afastou-se o mais rápido que pode da ruiva. Foi preciso retorcer três passos para começar a sentir-se confortável.
No limiar da porta, os olhos de Snape lançavam-lhe adagas. Se o olhar pudesse matar com certeza que já estaria morto. Mas desde quando Snape não o olhava com hostilidade latente?
Voltou novamente parra junto de Ron, Hermione e Luna. Encontravam-se debaixo de um carvalho velho, cujo tronco torcido erguia-se no ar de forma que a sua copa lançasse uma sombra fresca e húmida sobre a terra por debaixo dos seus pés. Aqui deve ser um lugar perfeito para não sermos incomodados, pensou. Mas aparentemente estava enganado.
Alguns metros mais à sua frente, encontrava-se Draco com um grupo de amigos da sua casa. Riam-se à socapa enquanto apontavam um dedo mal disfarçado para ele. Harry julgou ver Pansy Parkinson a fazer uma perfeita imitação da Ginny, abraçando Blaise Zabini que lhe deu um empurrão mal-humorado. Todo o grupinho parou de rir assim que viu Harry aproximar-se.
- Então Potter, a tua namorada desculpou-te da tua traição com o Snape? – perguntou-lhe Draco afectadamente. Os seus olhos cinzentos, quase sempre frios, brilhavam de maliciosidade.
- Faz-me um favor e vai-te embora, Malfoy – insurgiu-se Harry.
- Ou então o quê? – sorriu cinicamente, tirando a sua varinha do seu bolso e apontando-a ao rosto de Harry. – Vais chamar a asquerosa da tua namorada para te defender? Talvez nem se importe de ser chamada suja. Ouvi dizer que a casa dos Weasley é mais suja do que qualquer Sangue de Lama.
- Antes viver num curral de porcos… - riu-se uma das raparigas de cabelos claros.
A aversão de Harry ia crescendo à medida que o tempo passava, ameaçando tombar por cima de qualquer pessoa que se aproximasse, como um vulcão em erupção. Harry salvara a vida àquele rapaz ingrato e mimado. Porque ele não podia ter ao menos a dignidade de deixar de o incomodar?
- O quê que tu chamastes à minha irmã? – gritou Ron enraivecido. – Vai para a merda. Tanto tu como os teus pais são uns cobardes.
- Não insultes os meus pais! Ou eu… – ameaçou Draco em voz baixa. Pressionava cada vez mais a varinha na garganta de Harry, esfolando a sua pele.
- Ou tu o quê? – completou Ron, sacando também da sua varinha.
- Hermione pôs a mão no ombro de Ron, tentando demovê-lo de fazer algo estúpido.
- Deixa-os em paz – pediu Hermione ferozmente. – ou eu vou chamar o Professor Snape.
Não. Tudo menos o Professor Snape… Talvez Snape tivesse razão e Harry tivesse um carácter como o do pai, demasiado temperamental. Sabia que não iria conseguir aguentar vê-lo defendendo Draco mesmo depois de tudo o que haviam passado à alguns dias… Queria recordar-se de Snape a chamar pelo seu nome. Apenas pelo seu nome. E a gemer rouco de prazer de encontro ao seu ouvido, aumentando as estocadas de encontro à próstata, perdendo o pouco controlo que lhe restava. Não queria-se lembrar da sua voz amarga e gelada escarnecendo dele, pedindo-lhe para se virar de costas para não ver a sua cara, humilhando-o e provocando-o.
Draco parecia adivinhar-lhe os pensamentos porque riu-se ainda mais, o que fez com que Harry ficasse ainda mais vermelho de raiva.
- Talvez devêssemos mesmo chamá-lo – escarneceu o Slytherin, atirando os seus cabelos loiros para traz. – Isso seria divertido…
Com um movimento brusco, Harry empurrou Malfoy de encontro ao tronco retorcido da árvore, fazendo com que este embatesse na sua superfície dura. Tudo aconteceu muito rapidamente. Harry tirou a sua varinha do bolso e gritou:
- Expelliarmus! – a varinha de Draco voou agilmente vindo parar à sua mão.- Boa, Harry! - elogiou Ron.
Sentia que fora graças aos seus treinos de Quidditch que os seus reflexos tinham-se tornado tão rápidos. Draco era uma rapaz leve mas nem por isso assim tão rápido. Também o confronto com o Voldemort e os seus Devoradores da Morte, não só o tinha causado audacioso, como lhe dera mais prática em feitiços de ataque do que alguma vez teria adquirido nas aulas de Defesa contra a Magia Negra. Sabia que se Snape tivesse a oportunidade de ouvir os seus pensamentos o chamaria imprudente, convencido e descontrolado mas não se importava. Nada lhe podia estragar o prazer de ver o seu inimigo desarmado e caído de joelhos sobre a relva.
- Foste de facto fantástico, mas é perigoso lançar-se feitiços de desarmar nos dias treze do oitavo mês – disse calmamente Luna. Os seus olhos vagos inspeccionavam a capa da revista a Voz Delirante. – Pelo menos é o que aqui está escrito. Caso contrário vais ter um dia de azar.
- Pior que este não pode ficar… - murmurou. O prazer de ver Draco indefeso veio dar lugar a uma onda de medo, que lhe atingiu o corpo como uma rachada de vento. E se Snape tivesse visto? Não queria desapontá-lo…
Hermione também parecia estar a lançar uma olhadela na direcção dos professores. Felizmente parecia que Snape tinha sido chamado pela Professora Babbling.
- Entrega-lhe a varinha, – pediu Hermione entrepondo-se entre eles. - se não vamos arranjar problemas…
Infelizmente para si, uma Auror de cabelos desalinhos já caminhava na sua direcção.
- Que se passa aqui? – perguntou-lhes, olhando de Harry para Draco. – Já são crescidos que seguem para andarem à luta. Devolve-lhe a varinha, Potter. Se não vou ter de informar a chefe da tua casa a este respeito.
Harry passou a varinha a Draco silenciosamente, lançando-lhe um olhar de desafio. Draco retribui-o com igual fervor.
- Foi o Draco que começou – insurgiu-se Ron. - Desarmou o Harry e atacou-o. Onde é que estavam vocês quando ele fez isso?
- Isso não é verdade! – mentiu Pansy . - Eu vi-o muito bem. Foi ele que atacou o Draco primeiro.
- Mentirosa! – berrou-lhe Hermione, surpreendendo Harry. Hermione nunca gostara de Pansy. A rapariga dos Slytherin fizera-lhe mais a vida negra do que a ele e ao Ron.
Harry sabia que a situação não abonava lá muito em seu favor. Era Draco que estava desarmado, com a roupa suja de terra seca e as mãos esfoladas.
- Ron, vamos embora – disse Harry. – Já tenho problemas que segue e não preciso de mais nenhum para acrescentar à lista.
Os quatro afastaram-se silenciosamente, embora Ron arrastasse os pés, lançando um olhar aos Slytherin de aviso. Zabini não parecia estar entre eles. Provavelmente tinha aproveitado a confusão para sair dali. Harry não podia culpá-lo. Embora fosse um Slytherin sempre fora apreciador de sossego. Eram raras as vezes que Harry tinha visto Zabini incomodar os estudantes da sua casa. A maior parte das vezes limitava-se a lançar sorrisos zombeteiros.
- Parece que os Aurors não tencionam sair de Hogwarts dentro em breve – comentou Hermione.
Era verdade. Harry tinha quase a certeza que estavam lá para ver se nada voltava a acontecer com ele, mas isso enervava-o. Nunca se tinham preocupado com a sua segurança assim tanto, quando Voldemort estava vivo. Tudo o que o Ministério se preocupava era em ter a certeza que não era culpado caso lhe acontecesse algum acidente.
- A mim não me parece. Falei ontem com o Whedon… – disse Ron casualmente.
- Quem é o Whedon? – apressou-se Hermione a perguntar imperturbavelmente. - Espero que não seja aquele jogador de Quidditch de novo.
Harry revirou os olhos chocado. O nome dele era Sheldon. Seria assim tão difícil de decorar?
- Não – negou Luna, sorrindo. – Whedon é um Auror. Ajudou-me ontem a encontrar os meus sapatos desaparecidos.
- É esse mesmo. Posso continuar? Ele disse-me que não iam ficar muito mais que uma semana. – continuou Ron. – O Gabinete de Defesa precisa deles para resolver outros problemas.
- Sim – concordou Harry, sentindo-se irritado. – Eles iriam ser muito mais úteis a procurar pelos Devoradores da Morte que ainda andam desaparecidos em vez de me guardar como cães de caça.
- Tens razão – anuiu Hermione, arquejando os lábios num leve sorriso. – Mesmo assim sentir-me-ia mais segura se já tivessem descoberto quem te tentou atacar…
- Se quiseres eu posso-te curar as tuas feridas, Harry – ofereceu-se Luna simpaticamente.
- Foi o filho da mãe do Draco que te magoou? – perguntou-lhe Ron, inspeccionando-lhe as feridas no seu pescoço com interesse.
- Que feridas? – perguntou Harry atarantado. A varinha de Draco não lhe exercera pressão suficiente para rasgar a pele.
E se fosse… Não. Eles não podiam estar a falar das mordidelas que Snape lhe deixara, cobrindo a pele do pescoço. Na altura interrogou-se se o Professor não as iria curar, para que ninguém desse por nada, e também para não ter de depara-se constantemente com a marca daquilo que acontecera. Mas Snape deixara-as como estavam, e Harry intimamente encheu-se de orgulho, pensando que se calhar isso significava mais alguma coisa. Talvez ele quisesse marcar-lhe como seu.
Porque não cobrira o pescoço?
- Ahh… Isso não é nada… - desculpou-se Harry mordazmente. Sabia que se tivesse um espelho à sua frente, seria capaz de ver nele reflectido a sua pele cor de leite coagulado.
Apressou-se a puxar as abas da blusa para cima.
- Parecia quase como… - disse Hermione procurando as palavras certas. De repente, parou atabalhoadamente e baixou os olhos corada. – Oh, nada. Esqueci-me do quê que eu ia dizer.
- Como é isso possível? Tu nunca te esqueces… - de repente Ron calou-se olhando de Hermione para Harry com um olhar especialmente perspicaz. – Ah… bom… Eu… Podias-nos ter dito que tinhas arranjado uma namorada… Quem é a sortuda? – tentou gracejar Ron, mas Harry podia ver claramente que a sua cara toda estava rubra, fazendo-lhe lembrar um tomate gigante.
- Quem disse que era uma namorada? – interrogou-se Luna, descobrindo momentaneamente os seus olhos da revista. Uma cortina de cabelos louros platinados afastaram-se da sua cara.
- O quê que…
- Eu não tenho namorada nenhuma – disse, cortando-lhe a frase. Isso na realidade não era mentira. - Não percebo do quê que estão a falar…
Fazer-se de desentendido seria o melhor. Não era a primeira vez que demonstrava uma confiança inabalável e um teimosismo descompassado em algum assunto. Tinha-o feito para convencer Ron, e sobretudo Hermione, acerca dos três Talismãs da Sorte e tinha resultado.
- Harry… - chamou Hermione, tentando parecer amável. Mas a verdade é que a sua voz, embora lhe tremesse na garganta inseguramente, suava-lhe demasiado dura a seus ouvidos. – Este tipo de comportamento não é permitido na escola… Onde é que… onde é que haviam de puder fazer este tipo de coisas? Os quartos são partilhados em grupo e se algum tipo de… comportamento pouco correcto fosse encontrado… a pessoa poderia de expulsa. Isso simplesmente é…
- Perverso? - completou Harry irado. A raiva emprestava-lhe um tom de desafio à voz. – E que tens tu a ver com isso? Não tens direito de me acusar desta forma. Alguma vez andei a censurar o teu comportamento ridículo com o Ron, quando lhe andavas a fazer ciúmes?
- Bem sabes que isso não é a mesma coisa…
- Então desculpa-me se não sou tão perfeito como tu – alvitrou ferozmente, numa expressão que abundava em raiva. Tudo o que sentira nos últimos tempos: sozinho, abandonado e desprezado, havia-se solidificado, formando um conjunto de palavras capazes de queimar.
- Vê como falas com a minha namorada! – cuspiu Ron. – Ela não tem culpa da forma como te comportastes. Só por teres derrotado o Quem-nós-sabemos isso não te dá o direito de te comportares como um idiota chapado.
- Então não se preocupem! Não vão ter de ouvir mais os meus disparates! – berrou atordoado.
Afastou-se o mais rápido que pode, sem olhar uma única vez para as pessoas em seu redor, mas não se conseguiu conter e girou sobre os calcanhares mais uma vez, fixando Hermione e Ron, que pareciam bastante atrapalhados. Os segundo que antecederam as palavras que seguiram cortaram-lhe o fôlego.
- Só gostava de ser capaz de vos confidenciar os meus problemas. Mas é impossível falar com vocês. Nunca o compreenderiam.
E era verdade. Nunca o compreenderiam ou aceitariam se soubessem aquilo que tinha passado com Snape.
Lembrava-se claramente da sua vida antes de vir para Hogwarts. Assim como Severus e Tom, era um dos rapazes perdidos. Chegara bastante escanzelado. Fascinado com tudo o que vinha à sua frente e tentando absorver com os seus olhos grandes a imensidão desde mundo novo. Não esperara arranjar nenhuns amigos. Na sua antiga escola ninguém falava com ele com medo de irritar o Dudley. Ali, toda a gente mirava-o admirado. Ao contrário do que Snape suponha Harry não gostava desta atenção especial. De facto deixava-o desconfortável. Não estava habituada a ser olhado daquela maneira e temia o pior. Mas nada de mal acontecera. As pessoas quase todas trataram-lhe bem e ele foi capaz de arranjar dois amigos especiais. Pela primeira vez tivera alguém para fazer de seu confidente e não se sentia mais só. Até o Draco e os seus rufias não lhe pareciam uma ameaça real.
Então, porque tivera de correr tudo mal? Como uma nuvem negra pairando sobre a terra, premeditando a chegada da chuva. Era como se um muro se tivesse erguido entre ele e os seus amigos. Agora percebia realmente o quanto diferente era deles.
Há actos ou pensamentos que são tabus. És capaz de os ignorar, rir deles com amigos ou até de sentir pena bem disfarçada de quem está naquela situação, mas está tudo bem enquanto não fores tu. Quando acontece contigo, sentes-te injustiçado, triste e realmente abandonado. Os teus amigos andam sobre a relva banhada de sol, mas dentro de ti o frio reina: real e inquebrável.
Subiu as escadarias de pedra apressadamente. Snape já não estava lá, e Harry deu-se por feliz por causa disso. Já bastava o pátio todo ter provavelmente ouvido os seus berros. Se o Mestre de Poções estivesse aqui, tornar-se-ia tudo pior. Snape era difícil de lidar, bastante complicado, e Harry queria melhorar o relacionamento deles. Se é que se podia chamar relacionamento aquilo que tinham. Era como subir uma montanha escarpada, que te deixa cansado e magoa as tuas mãos até cheirarem a sangue fresco. No entanto, era a única coisa que lhe restava agora. E Harry não queria sentir-se de novo sozinho. De facto, Snape era o único capaz de encher o buraco no seu peito, e se fosse necessário derrubar mil barreiras invisíveis, fá-lo-ia de bom grado.
Apenas abrandou o passo para descansar, quando já estava bastante afastado do pátio, e as suas pernas começavam a ceder ao cansaço iminente. Vagueava pelos corredores esguios, martelando a cabeça com pensamentos do sucedido. Tentou afastá-los rapidamente da sua cabeça. Não servia de nada ficar a remoer no assunto. Não ia fazer a dor desaparecer, era certo.
Passou inconscientemente o indicador direito pelas mordidelas do pescoço. Eram uma galeria de marcas salpicadas a vermelho debotado, espalhando-se inconscientemente pela pele lateral do pescoço. Conseguia vê-las claramente na sua cabeça, como quando chegara ao dormitório depois de ter transando com Snape, e olhara-se ao espelho fascinado.
- Harry! – chamou Neville, subindo as escadas do corredor a correr, atrás de si. - Ando à tua procura à imenso tempo.
- Se é por causa do que aconteceu no pátio com a Hermione e o Ron, garanto-te que não vou mudar de ideias – respondeu Harry resolutamente. O tempo para conversar entre ele e os seus amigos tinha acabado. Ainda sentia-se suficientemente zangado e mil pedidos de desculpa não bastariam para apazigua-lo.
Tanto quanto sabia Neville tinha estado em detenção com o Professor Flitwick. Na última aula de Encantamentos, Neville tinha enfeitiçado o chapéu do Professor para que lançasse chamas a qualquer pessoa que se aproximava.
-Oh, não! Passou-se algo de errado?
- Nada de importante – apressou-se a mentir Harry. – Então o quê que me querias dizer? A menos que tenhas andado a correr pelas escadas porque tinhas saudades minhas – brincou Harry brindando Neville com um sorriso fraco.
Tinha pena de não ter sido mais próximo de Neville nos anos anteriores. Quando conhecera Ron e Hermione achara que era a maior sorte que tivera no mundo, e eles eram simplesmente inseparáveis, a maior parte das vezes. Então, nunca tinham arranjado espaço para mais ninguém. De alguma forma, Harry sentia que três eram o número ideal e que cada um dos amigos completava os outros à sua forma. Agora que sentia que um espaço cada vez maior se entrepunha entre ele e os seus amigos não deixava de se sentir cada vez mais sozinho, e isso fazia-o ter mais pena de Neville. Bem podia ter sido muito mais amável com o rapaz depois de tudo o que tinha feito por ele. Era extremamente corajoso, embora desastrado, e sempre tivera dificuldades em arranjar amigos. Deixava Harry reconfortado saber que depois do último ano, Neville tinha-se libertado mais e agora tinha uma legião de amigos e fãs que o cercavam. Os acontecimentos do ano passado em Hogwarts tinham-nos unido. De certa forma isso deixava Harry um pouco triste. Desejara estar lá, para ajudá-los a todos, não numa busca utópica.
- Temo que não tenha notícias lá muito agradáveis, Harry… - disse Neville inseguramente. – O Snape deseja ver-te no seu gabinete. O quê que fizestes desta fez?
- Nada – desta vez não mentia. Não tinha, de facto, feito nada. – Ele disse mais alguma coisa?
- Apenas para tu te apresares, que não tinha tempo em excesso a perder contigo. Deves ter feito alguma coisa…
Snape não tinha visto o incidente no quintal, e mesmo que o tivesse visto não devia ser ele a castigá-lo. Não era Chefe da sua casa.
- A sério, não me lembro de nada – insistiu Harry. – Mas com Snape pode ser qualquer coisa.
Se apenas ele quisesse fazer sexo com ele como da última vez… Recordou a sensação da pele de Snape na sua, enquanto se movimentava dentro dele demoradamente.
- De qualquer forma mais vale não o deixar à espera. Se não o castigo vai ser ainda pior – continuou.
Despediu-se de Neville e dirigiu-se às masmorras. O caminho era escuro e sombrio. A única claridade provinha das tochas acesas, embebidas a óleo quente, que iluminavam o corredor com o seu cheiro a queimado. Projectavam patrões de sombras inversas no chão de pedra fria e havia alturas em que o seu rosto ficava completamente envolto em trevas, para logo voltar a imergir, iluminado por um brilho incandescente. Naquela zona do castelo, a claridade suave não penetrava pelas janelas, contribuindo para criar um ambiente pesado.
Bateu duas vezes na porta do gabinete do Mestre de Poções.
- Entra – a voz de Snape irrompeu monocordicamente, do outro lado da madeira da porta.
Harry abriu a porta nervosamente, evitando olhar Snape nos olhos. Fazia-o sentir-se desconfortável.
- Chamei-te aqui Potter, para discutirmos um assunto sério. Acredito que seja no melhor dos teus interesses que retomemos as aulas de Oclumância, que foram abandonadas no teu sexto ano.
- O quê!? – balbuciou estupidamente Harry.
Na realidade, estava à espera de quase tudo menos isso. Já não tinha aulas de Oclumância desde à dois anos. Tinham sido um completo desastre, acabando com Snape a enviar o seu stock completo de poções de encontro à sua cabeça, e com Harry a fugir o mais rápido que as suas pernas lhe deixavam.
- És surdo ou eu sou assim tão difícil de entenderes?
- Eu compreendi, senhor – Harry acrescento a última palavra num tom amargo. – Só não vejo qual a necessidade de continuar a ter Oclumância. O Voldemort já está morto e a minha cicatriz não arde à quase meio ano.
- Era de esperar isso vindo de ti. Na tua mente insípida, talvez tenhas julgado que a Oclumância só te teria uma utilidade, mas enganaste. Segundo me recordo, tencionas candidatar-te a um espaço no Ministério como Auror – Harry assentiu com a cabeça. – Bem, nesse caso não vejo como serias de muita utilidade sem saber bloquear a tua mente adequadamente. Muitos Auror hoje em dia acalentam a esperança, e com certa razão, que poderão chegar longe sem saber os feitiços mais complexos. Estes, muitas vezes, de facto chegam longe, mas também são os primeiros a ser torturados por Feiticeiros Negros. Quem não sabe Oclumância é uma presa rápida. Põem tanto a sua própria vida em risco como a dos seus colegas e a informação que transportam.
Snape devia saber tudo isso. Fora um espião para Dumbledore sem que o Voldemort alguma vez desconfiasse. Uma parte de Harry admirava-o por isso, mas isso não significasse que quisesse passar a maior parte do seu tempo livre a ser insultado e criticado por Snape. Seria uma tortura. Queria passar mais tempo com ele, mas preferia que fosse algum tempo de qualidade.
- Isso tudo parece muito interessante, mas não percebo porquê que tenciona perder tempo comigo. Não é segredo que não me queria dar aulas da última vez. O quê que mudou? A Directora sabe disso? – perguntou desconfiado
Snape demorou tempo a responder e Harry aproveitou para continuar:
- Não fazes isso porque te preocupas comigo – afirmou realisticamente.
Havia algo de errado. Algo que estava a ter dificuldade em compreender. Uma nuvem envolvia este assunto em penumbras.
O Mestre de Poções foi, aparentemente, obrigado a responder-lhe. Cuspiu as suas palavras com cuidado, como se tivesse andando sobre uma camada de gelo fina.
- Potter, deves recordar-te do nosso último encontro…
Harry corou, e julgou ver Snape lançar uma olhadela às marcas no seu pescoço. Que tinha isso a ver com Oclumência?
- Neste caso sabes tão bem quanto eu que se alguém ler as tuas memórias pode-nos enfiar em problemas. E eu não tenciono ser demitido por tua causa. O teu pai já me arranjou problemas que chegue, e eu não preciso que o filho faça o mesmo.
- Foram precisas duas pessoas para o que aconteceu naquele dia – Harry recusou-se a prenunciar a palavra "sexo" nesta frase. Naquele dia tinha estado especialmente desinibido, mas hoje sentia-se tímido e envergonhado.
- Senhor, Potter. Não sejas insolente. Vais-me tratar com respeito enquanto eu for teu professor. Entendido? Eu ainda sou capaz de contar. Não me paravas de perseguir, atormentando-me, até que eu te desse o que querias. Sempre fostes um rapaz mimado. Este tipo de comportamento, no entanto, não se pode repetir, e eu espero que, da tua parte, cumpras o que te peço. Se não vão haver consequências…
- Oh, sim, senhor – ironizou Harry, arriscando-se a olhar Snape nos olhos. O que o viu não o alegrou. Estavam mortos e frios, esculpidos num rosto de pedra. Nessas alturas Harry não reconhecia Snape. Não sabia quem ele era, nem o que acreditar. – É esperado que eu cumpra o que tu queres à risca. Mas porquê que o havia de fazer? Adoravas que tudo o que aconteceu fosse apenas uma ilusão… Não importa o quanto o negues, eu não vou desistir de ti.
- Obedecias-me melhor quando te encontravas inclinado de encontro à mesa, no meu escritório – gozou Snape. – Na altura, eras capaz de te vender por uma boa dose de sexo.
Não lhe ligou. Sabia que o professor fazia tudo o possível para o magoar, fazer-lhe retrair para dentro da sua concha e esquecê-lo. Queria vingar-se por ele o ter desafiado.
Snape agora olhava-o com ódio gelado. Casa centelha do seu corpo vibrava de desprezo aparente. Deixando Harry a sentir-se um pouco tonto.
O medo apoderava-se dele a pequenas doses, ao ver o olhar de predador no rosto do outro. Havia algo de sombrio, inumano, até, nele. Numa fracção de segundos, Snape empurrou-o de encontro á parede fria do escritório, mantendo-o preso. Não teve tempo de tentar gritar. Já a mão lhe cobria a boca e as garras, que apertavam-lhe a pele, imobilizavam-no entre a parede.
- Estou admirado com a tua coragem. Deixa-me perguntar… Como é que os teus amigos reagiriam ao ver como a sua celebridade preferida gemeu com as calças para baixo como se fosse um prostituto? Acredito que deixarias de ser o seu modelo. Tu, rapaz, não serves de exemplo para ninguém. És um metediço e farias melhor em aprender o teu lugar – Snape silvou, irado. A aversão evidente em casa palavra sua.
Naquelas alturas Harry compreendia que o Mestre de Poções era mesmo capaz de matar. Parecia assassino. Os seus olhos estavam estreitos, atentos a qualquer movimento seu.
Harry queria chorar, e gritar, mas tinha prometido que ia ser forte. Sem dar por si, o seu corpo começou a reagir aquela situação, duma forma inesperada. O autocontrolo estava-lhe a fugir de uma forma embaraçosa e por pouco conteve um gemido. Ao que parece o professor apercebeu-se, pois afastou-se dele rapidamente como se ele tivesse lepra. Talvez tivesse chorado mesmo ali, se não tivesse visto os olhos ficarem, por momentos, negros de desejo. Bom, Snape queria-o tanto como ele. Só se estava a fazer de duro.
- Eu aceito, se me contares o quê que a Professora McGonagall disse acerca de mim…
- Nada disso te diz respeito. A Directora disse-me a título de segredo. Se quisesse que tu o soubesses com certeza já te teria dito – a voz de Snape era como aço polido.
- Mas isso diz-me respeito. Não preciso que me ocultem coisas, já não sou uma criança.
- No entanto ainda te comportas como uma – trovejou. – Não te foi dito nada de forma a te proteger, Potter. Os teus pais não deram a vida por ti para tu a desperdiçares desnecessariamente. Isso tudo para ti é como uma brincadeira, mas previno-te: desta vez não vai ser assim. Não te vou ter a rastejar pelos corredores, enfiando-te em problemas, tudo para saciar a tua cede de curiosidade e para chamar a atenção.
Porquê que Snape ainda não tinha compreendido?
- Pouco me importa a fama.
Trocava-lhe de bom grado para poder ficar contigo…
- Era muito mais fácil para me poder defender se soubesse o quê que estava à espera, senhor.
- Bem, então se a fama já não te agrada, outro motivo para deixares o assunto connosco. O teu trabalho aqui é estudar. A guerra acabou, Potter – atirou-lhe as últimas palavras à cara como se quisesse chamar-lhe à realidade.
- Por favor. Se amavas realmente a minha mãe, diz-me a verdade. Tenho a certeza que era isso que ela queria – nunca falara da sua mãe a Snape. Inicialmente teria dado todo o ouro goblin do mundo para ficar a salvo deste pedaço de informação. Mais tarde tinha aceitado-o. No entanto, tinha-se tornado ainda pior. Pensar em Snape e na sua mãe dilacerava-lhe o coração. Nem podia ter a certeza que era isso que ela queria, mas acreditava.
Snape contornou a mesa do gabinete e foi-se por à sua frente.
- Como quiseres. Desde que depois de te contar possamos retomar as aulas de Oclumância – Harry acenou com a cabeça em concordância. – A Directora acredita que quem quer que te tenha atacado ainda se encontra em Hogwarts.
- Daí os Aurors. Para me defender… - murmurou estanciado.
- Não. Os Aurors estão aqui para a segurança de todos os alunos. Não és a sua única prioridade. Eles têm muito que se ocupar, certificando-se que mais nenhum ataque ocorra em Hogwarts sobre a sua alçada, a qualquer dos seus alunos. Depois da guerra ter terminado, Hogwarts foi visto como um lugar seguro para os alunos regressarem. O Ministério deseja mantê-lo desta forma. No entanto, os Aurors servem também para tua protecção, e dentro de umas semanas terão se ido embora. A partir daí eu encarregar-me-ei de velar pela tua segurança – quando Harry deixou que a boca lhe descaísse, formando um esgar de espanto e susto, Snape acrescentou:
- Não te preocupes, Potter. Estarás bem… protegido comigo – disse-o num tom de sarcasmo evidente, o que preocupou ainda mais Harry.
Não é que não soubesse que Snape o iria defender. Já o tinha feito muitas vezes antes. Era só que a perspectiva de tê-lo a persegui-lo sombriamente pelo castelo o deixava um pouco atarantado.
No entanto, Harry sentia que Snape não estava a ser inteiramente honesto com ele. Escondia-se por de trás de um véu de indiferença bem trabalhado, mas algo simplesmente não batia certo. Não acreditava que a Directora perdesse tanto tempo a falar com ele e só lhe tivesse dito isso.
- Porquê tu?! Quer dizer… o senhor…?
- Aparentemente a Directora julga que eu consegui um feito deveras louvável: evitar que te matasses a cada esquina do castelo. Embora tenha, por vezes, sido quase impossível, devido ao teu historial de descumprir as regras e intrometer-te onde não és chamado.
- Oh! – foi tudo o que Harry conseguiu dizer.
- Tira a tua varinha do bolso – ordenou Snape secamente. Olhou-o exasperado, ao ver que Harry detinha-se, indeciso. – Agora, Potter! Julgas que tenho o meu dia todo para dispensar contigo?
- Pensei que o senhor estaria interessado em começar noutro dia - Harry clareou a voz. Snape não tinha aulas?
- Quanto mais rápido, melhor. Agora tira a tua varinha.
Harry fez o que lhe foi dito e apressou-se a erguê-la na direcção do Professor.
- Tenta esvaziar a tua mente – preveniu-o Snape. - Qualquer sinal de emoção óbvia facilitará o meu acesso à tua mente, como já sabes. – Legilimens!
Numa fracção de segundos, Snape apontou-lhe a varinha. Harry tentou lançar-lhe um feitiço protector, mas não foi rápido o suficiente. Uma escuridão fechou-se em seu redor, impulsionando-o para as trevas. Tentou afastar o seu pensamento de quaisquer memórias, mas compreendeu que quanto mais tentava não pensar no assunto, mais imagens lhe apareciam na cabeça. As suas memórias rodopiavam em seu redor, como películas de um filme esquecido, ondulando levemente.
Sentia Snape dentro dele. Vasculhando, penetrando e analisando cada informação que se lhe apresentava. Era como se no meio desta penumbra anormal, mãos cobrissem-lhe o cérebro, frias e duras como uma adaga de mão bem trabalhada.
…
Hermione entregava-lhe a Poção Polissuco nas mãos trémulas e Ron lançava a Harry um olhar nervoso. Dirigiu-se a um dos cubículos da casa de banho e bebeu o mais rápido que pode, para evitar que as náuseas lhe subissem à boca. Podia atestar que a língua ainda lhe amargava. Esta ia ser a última vez que se disfarçava dos amigos de Draco. Nunca mais faria tal coisa. Quando saiu, no entanto, sentiu-se acalmar e por pouco não desatou a rir. Ron parecia tão ridículo quanto ele.
…
Dudley e os seus amigos persigam-no, estavam quase a chegar ao seu encalço. As lágrimas subiram-lhe aos olhos, mas sabia que tinha de ser mais rápido se queria chegar a casa sem uma colecção de nódoas negras a cobrirem-lhe o corpo. Correu e escondeu-se atrás de uma árvore nas redondezas e aguardou imóvel, ouvindo o barulho de passos a aproximarem-se.
…
O tio Vernon agarrou-lhe por um braço e empurrou-o na direcção da despensa por debaixo das escadas. Vociferava que tinha convidados, para ele se manter afastado se não, não receberia comida durante os próximos dias. Trancou-o à chave na despeça, mas Harry não se importou. Era minúscula. Não podia dar mais que quatro passo seguidos sem bater de encontro à cama. Mesmo assim não se importava. Era o seu quarto e cedo aprendera a não se sentir assustado por passar largos números de horas trancado no escuro. Em breve ia regressar a Hogwarts, e não ia estar sozinho.
…
- Não! – gritou atordoadamente, alheio à magia indomável que lhe penetrava cada vez mais a sua mente. Sabia a meia-noite, ao negrume da escuridão, a melancolia.
O Mestre de Poções, se quisesse, poderia ter entrado na sua mente sem deixar marcas da sua passagem. Estava a facilitar-lhe, a dar-lhe uma forma de se defender e expulsá-lo da sua mente. No entanto não conseguia. Uma corrente de emoções atravessava-lhe os pensamentos. Medo, desespero, coragem e desejo.
…
Os amigos abraçaram-lhe, aliviados por o ter de volta. Ainda sentia o cheiro metálico a sangue nas suas mãos. Hermione lançou-lhe um olhar de pena e ele soube, soube que não tinha de estar sozinho.
…
Voldemort parou à sua frente. Um olhar curioso, como um dum gato feral, atravessou-lhe o rosto de mármore, com fendas como narinas, e chegou-lhe às pupilas dilatadas. Tinha medo, tanto medo. Queria gritar. Correr, fugir dali. Mas tinha que ser forte. Não podia desiludir os seus amigos, nem Snape. O homem quase moribundo que lhe olhara com tanto amor, que nunca vira nos seus olhos, que nunca sentira por parte de mais ninguém.
…
De repente apercebeu-se que não se importava com a presença de Snape na sua mente. O seu primeiro instinto era proteger-se do invasor, mas agora queria que ele se recordasse também…
…
Harry explorou o pénis de Snape com a sua mão dextra. Sentia-se fascinado por o que via à sua frente. Uma coroa de pelos escuros cobrindo a base do pénis hirto. Era tão grande. Muito mais grande que o seu. Começou a movimentar a sua mão ao longo da superfície enquanto escutava atentamente os gemidos baixos do Professor. O seu coração bateu desordenado.
…
Os primeiros raios da alvorada espalhavam-se pelo céu. Harry sabia que não lhe restava muito mais tempo. Movimentou a sua mão por debaixo das suas cuecas, masturbando o pénis com movimentos rápidos. Tentou imaginar que era Snape que lhe acariciava suavemente, como no sonho que tivera na enfermaria.
Mãos…
Calor…
Prazer…
…
Snape saiu de dentro da sua mente bruscamente. Quando acordou, estava desajeitadamente sentado no chão do escritório, com a cabeça apoiada sobre a parede fria. Doía-lhe a nuca.
- Isso é tudo o que consegues fazer, Potter? Já passamos por isso antes. Precisas de te concentrar mais. Deixaste-me ler as tuas memórias – dardejou Snape. Encontrava-se na mesma posição de quando tinham começado.
- O quê que o senhor viu exactamente? – indagou Harry numa voz quebrada.
- A maioria. Se queres proteger as tuas memórias contra ataques indesejados tens de esvaziar a tua mente. Já te tinha dito antes que os tolos que utilizam o seu coração ao peito são as pressas mais fáceis.
- Eu não sou um tolo!
- A sério, Potter? – a voz de Snape era sardónica. – Ninguém diria pela forma como te comportas. De certo que há coisas que vêem na genética. Mas deixemo-nos disso, eu não tenho muito mais tempo a perder contigo – olhou para o relógio com uma caveira cor de prata, na parede. – Há quanto tempo os teus tios te negligenciam? Segundo me recordo, o Professor Dumbledore deixou-te aos seus encargos para que te prestassem o seu tempo.
Snape olhava-o demoradamente. Quase conseguia sentir o brilho escuro das lascas ónix, que retribuíam-lhe o olhar demoradamente, como se atravessassem-lhe a alma, deixando-o novamente despido. Pensou com saudades nos olhos de Dumbledore. Reluziam por de trás dos óculos em meia-lua ao contrário dos de Snape que irradiavam escuridão glacial.
- Dumbledore calculou, acho eu… mas o feitiço de protecção só funcionava se eu vivesse com eles. Mas podemos não falar mais disso?
Preferia antes ter ido morar para um orfanato.
Snape parecia lutar contra os seus próprios sentimentos, hesitando. Por fim, disse:
- Eles não tinham o direito de te maltratar, Potter. Nunca mais penses nisso – e tudo nele lembrava autoridade.
Harry sentiu-se mais seguro. Como podia Snape saber? A Oclumância não era exactamente a leitura da mente, como julgara à uns anos atrás.
- Sei que já não vives com eles, mas devias ter contado ao Director ou à Chefe da tua Casa na altura.
- Mas… -
- Não à espaço para "mas" aqui! Este tipo de comportamento não é aceite! Nenhum aluno deveria ter de passar por isso. Até tu, Potter! Se não lhe querias contar devias-me ter dito antes.
Ter-me-ias acreditado?
Snape pareceu ter decidido, finalmente, mudar de assunto.
- Se não queres falar deste assunto, porque não falamos antes das tuas outras memórias? O amor é uma fraqueza que deve ser evitada a todo o custo. Nunca te esqueças disto ou digas que não te aconselhei adequadamente.
- O Dumbledore acreditava que o amor era a maior força. Se não tivesse sido graças ao amor eu nunca teria sobrevivido à dezoito anos atrás.
Tinha sido graças ao amor que Snape mudara de lado. E graças ao amor… naquela noite em que Snape esvaía-se em sangue...Se não fosse o amor nunca o teria salvado a vida.
Corou ao mesmo tempo que sentiu-se desanimar. Percebia finalmente o porquê daquela sensação que lhe ameaçava sufocar o peito, das batidas apressadas do coração e da sensação electrificante que passava-lhe pelo corpo quando estava perto do Professor. Amava-o. Não sabia desde quanto. Provavelmente desde aquele mesmo dia na Batalha Final. Se não dissesse isso em voz alta, transformasse a sensação que sentia em palavras, iria sufocar. No entanto deixou-se ficar imóvel. A experiência que tivera com Snape anteriormente e as palavras duras que acabava de ouvir impediam-no de dizer o que quer que fosse.
Snape moveu-se à sua frente, remexendo no aglomerado de folhas que se encontrava espalhado pela sua secretária.
- O Professor Dumbledore sempre foi um grande defensor do "Poder do amor" – Snape esboçou um sorriso zombeteiro enquanto pronunciava as últimas palavras. No entanto, Harry não sorriu. -, mas foi graças à sua inteligência e dinamismo prático que conseguiu iludir o Senhor das Trevas. Não foi o seu grande amor que lhe ajudou nos seus planos, embora ele afirmasse ser grande conhecedor deste tipo de sentimentos, foi muito mais que isso – calou-se e levantou os olhos, novamente, na direcção de Harry. – Quero que apareças no meu gabinete Sexta-feira às seis horas em ponto. Não tenho paciência para as tuas faltas de pontualidade. Se queres que as nossas lições corram de acordo com planeado terás de te saber comportar. Vais precisar de treinar pelo menos uma vez ao dia e eu não admito que entres no meu gabinete sem seres autorizado e ponhas-te a remexer ou a espreitar para lugares que não devias. Estamos entendidos?
Harry percebeu que Snape se referia aquela vez que entrara dentro do Pensatório dele.
- Sim, senhor. Mesmo assim… - vacilou Harry, sem saber se devia deitar mais lanha para a fogueira, mas sabia que não podia ficar inteiramente calado. – eu continuo a achar que o amor não se deve subestimar. O que eu vi no Pensatório daquela vez, não me deixou orgulhoso, nem me deu vontade para rir. Levei-o muito a sério. Obrigada – agradeceu por último.
Saberia Snape a que se referia? Nunca ia esquecer a importância que Snape dera às memórias que vira dele com os seus tios. Nunca contara nada disso a ninguém, nem mesmo a Ron e Hermione no entanto tinha sido bom falar disso, nem que seja por momentos, com outra pessoa que era como ele, o compreendia. Snape quando era mais novo tinha um ar nervoso e mal alimentado. Daqueles ares que as crianças têm quando não são bem tratadas, e Harry sabia que os seus pais discutiam muito. Teria Snape acreditado alguma vez na força do amor quando os seus pais se odiavam, a mulher a qual amava preferia o seu inimigo e quando o futuro se apresentava escuro?
Para aquilo Harry não tinha resposta.
FIM
Deixem um review por favor. Se não tiverem tempo basta um smile.
N/A: Agradeço do fundo do meu coração às pessoas que comentaram.
Para quem quer saber, esta fanfiction TEM romance. No entanto, é necessário que as personagens estabeleçam mais contacto entre si. Estamos a falar de duas pessoas que sentem aversão forte um pelo outro. Mas não se preocupem. Snape é teimoso, e ainda se lembra de James (e não só) ao pensar em Harry, mas o tempo que vai passar com o rapaz vai provocar algumas alterações.
Eu sei que já disse isso da última vez. O próximo capítulo vai ser mais pequeno. Envolve Harry a descobrir um segredo acerca de um dos seus amigos.
