Coração Negro

Você não me conhece

Nunca irá, nunca irá

Eu estou fora do seu retrato

E o vidro está quebrando agora

Você não pode me ver

Nunca irá, nunca irá

E se você jamais ver

- Emilie Autumn "Epílogo: E se"

- Ele é tão arrogante como o seu pai. Mimado, medíocre, presunçoso, sempre a tentar fazer com que a atenção recaia sobre ele, sem qualquer senso de decoro. – As palavras foram cuspidas ao ar, venenosamente.

Snape caminhava em volta do escritório de McGonagall a passos largos. Claramente alguma coisa o incomodava profundamente. Parecia falar mais consigo mesmo do que com a moldura do antigo Director, fixo à parede do fundo da sala. Embora o seu corpo decompôs-se por debaixo da terra, consumido pelo tempo numa figura mirrada, a imagem no seu quadro ainda mantinha o aspecto saudável e forte que tivera em vida.

- Já há muito tempo que conheço a tua opinião acerca do Harry. Também sabes que julgo que vês apenas o que queres ver. Mas acredito que não tenhas cá vindo só com o propósito de criticá-lo – disse calmamente Dumbledore. Os olhos translúcidos, por debaixo das lentes com aros em forma de meia-lua, brilhavam com uma luz característica.

- De facto não – respondeu-lhe num tom de voz duro. – Não vou ocupar-lhe muito do seu tempo.

- Oh, não! Demora o tempo que quiseres. Não é como se tivesse mais algum lugar para onde ir. O tempo agora é dos vivos! – respondeu-lhe animadamente. Quem o visse não notaria qualquer apreensão pela sua morte. - Oferecia-te bolinhos de mel com chá de limão se pudesse, mas como vês, infelizmente não o posso fazer, e de qualquer forma nunca os realmente apreciastes. Também às vezes penso que não os apreciei como deve ser quando ainda estava vivo.

Se o antigo Director ficara admirado por ver o Professor de Poções aparecer num gabinete que já não era seu, para falar consigo, não o demonstrou.

- O Potter tem-me incomodado ultimamente mais do que o normal - disse num tom de voz cauteloso. – Persegue-me constantemente de uma forma pouco apropriada para um aluno, fazendo-me perder o meu tempo. Sempre foi um irresponsável, mas nunca antes se comportou desta forma irritante. Não me odeia como o fez durante todos esses anos. De facto julgo que até me tolera, demonstra comportamentos de… - hesitou. -… apreço por mim.

Dumbledore não conseguiu aguentar sem soltar um rol de risos, acordando o homem da moldura a seu lado.

- E é isso que te incomoda? – Snape lançou-lhe um olhar indecifrável em resposta. – Porque não lhe dás uma hipótese? É um rapaz calmo e encantador, se te permitisses a o conhecer melhor sem o julgares primeiro. Nunca soube o que era ter um pai ou uma mãe que se importassem realmente por ele. A Lily e o James – (Snape franziu o cenho como muitas vezes fazia à menção daquele nome) – eram pais extremosos, e ele a seu tempo ter-se-ia ligado a eles, não fosse o facto de terem morrido quando ainda era muito jovem. Por momentos teve o padrinho e talvez seja presunção minha, mas prefiro acreditar que também em mim encontrou uma figura de confiança e estima. No entanto, ambos partimos. Harry está habituado a perder as pessoas que mais ama e que lhe serviram como mentores. Precisa de alguém mais maturo em quem possa confiar. Tens a idade próxima do seu Pai, Severus.

- Quer que eu venha já assinar os papéis de adopção? – zombou Snape, impacientemente.

- Talvez quando o Harry era mais novo, se não houvesse o feitiço de amor da mãe a proteger a casa dos seus tios, tivesses, de facto, dado um bom pai para ele. – O choque podia-se ver claramente, cravado nas linhas finas do rosto do Mestre de Poções. – Tinhas acabado por gostar dele, é um bom rapaz. Mas isso não importa. O Harry já é crescido demais para isso. Não precisa da protecção de ninguém, sabe desenvencilhar-se sozinho bem de mais, como o próprio Voldemort acabou por descobrir. O que precisa é de alguém que lhe apoie, ensine a crescer mais forte, alguém na qual ele possa-se ligar.

- Muitos rapazes da sua idade passaram por muito. O Longbottom, por mais problemático que seja, não me persegue o dia todo.

- Tem a sua avó. Uma mulher muito amável, embora às vezes severa. O Harry não tem ninguém. Também viu as tuas memórias no pensatório, é possível que tenha simpatizado mais contigo depois de saber que trabalhavas contra o Voldemort. É uma coisa peculiar, que às vezes acontece, pessoas que não se tolerem antes de uma guerra, sintam-se mais unidos depois de tudo o que passaram. Todos nós procuramos alguém que tenha estado numa situação semelhante – confessou Dumbledore.

- Pois não vou ser eu a dar isso ao Potter. Se quiser, que venha procurar apoio psicológico, eu tenho o meu tempo ocupado que chegue a elaborar os exames de Poções. O rapaz nunca gostou de mim antes, há-de arranjar alguém com quem desperdiçar o seu tempo com os seus devaneios do costume. – Contemplou a parede, perdido em memórias só suas. De repente, pareceu despertar finalmente. - Agora tenho que ir. – Virou as costas aos quadros e dirigiu-se à porta.

- É uma pena. Tenho a certeza que isso ia deixar a Lily muito feliz. – Snape estancou.

- O Potter não me conhece, se me conhecesse realmente não ia perder o seu tempo comigo.

O quarto ficou, por momentos, envolto num silêncio confrangedor. Antes que Dumbledore voltasse a falar, já Snape fechara a porta.

000

O relógio rodou em silêncio até atingir a casa das dez e meia. Harry arrumou o seu material de Encantamentos, e arrastou-se com dificuldade pelos corredores a apinhar de gente, do castelo.

Assim era muito melhor. Reduzia a hipóteses de Snape abordá-lo cercado por tanto fluxo em movimento.

Não queria mais ver-lhe. Queria esquecer as palavras que eram sussurradas constantemente, na sua mente. "Nunca te vou amar." "Não és nada para mim." Por mais que tentasse, voltava-lhe a acudir à mente, uma e outra vez, num turbilhão fulgurante. Repetidas constantemente, tão altas que eram capazes de apagar o ruído das vozes em seu redor, como um mantra proferido religiosamente.

Sabia que não era amado pelo seu professor, não era um tolo. No entanto, convencera-se que o tempo era capaz de alterar quase tudo. Mas não isso. "Ainda me odeia. Como me poderia amar?" O seu coração sangrou, lascas de vidro cravavam-se nele. Foi com muita dificuldade que forçou-se a andar, sentindo o seu estômago remexer-se, fazendo com que o sabor da bílis lhe subisse à boca.

Não era mais do que uma concha vazia, onde se podia ouvir claramente o batimento de ecos passados. Quebrara-se no instante em que Snape proferira aquelas palavras duras, e não sabia se havia em si força de vontade para voltar a curar as feridas recentes. Tudo o que era capaz de sentir era um vazio estonteante, e um profundo cansaço. Um cansaço de tudo aquilo à sua volta. Ter de voltar a levantar-se todas as manhãs, caminhar pesadamente ao encontro dos seus colegas, e assistir a aulas e mais aulas infindáveis, enquanto o ponteiro do relógio parecia imobilizado por um feitiço qualquer. Tudo isso, enquanto Snape lhe observava com um olhar lúgubre e fastidioso, sem quais queres sinais de reconhecimento que algo fora do normal tinha-se realmente passado. O Professor era a prova viva da sua dor, não seria capaz de cicatrizar enquanto vivesse por debaixo do mesmo tecto dele, respirando o mesmo ar.

Já tinha percorrido toda a extensão do corredor, e preparava-se para subir as escadas, quando uma voz fria imobilizou-o onde estava.

- Potter, preciso de falar contigo por um momento. Acompanha-me ao meu escritório – pediu Snape, com a voz carregada de azedume.

Harry não se virou, não ousou fitar o homem atrás de si, com medo que caso se virasse tudo aquilo se tornasse mesmo real. Devia ter ouvido mal, talvez se ignorasse-o e continuasse em frente, tudo corresse bem. Apenas tinha que se diluir entre os restantes alunos. O Mestre de Poções não o ia atacar diante da escola inteira.

- Não me ignores quando estou a falar contigo. – As palavras agitaram-se, cortantes.

Tremeu involuntariamente. Se continuasse a andar… um passo de cada vez, tudo ia correr bem. Se fosse necessário correr, estava preparado, conhecia este castelo melhor do que a maioria dos alunos. Ia demorar muito tempo até conseguir suster o olhar do professor, mas nunca mais ia conseguir voltar a entrar naquele gabinete. Nem sequer ia voltar a pôr os olhos nas masmorras se a sua vida dependesse disso.

No final, foi Ron e Hermione que vieram em seu socorro. Estava tão perdido nos seus pensamentos que nem dera por eles.

- Está quase na hora das aulas de Adivinhação, e não podemos chegar atrasados ao exame de fim de ano. O Harry tem de nos ajudar a rever a matéria, senhor professor - explicou Ron, atrapalhadamente. Conseguia-se distinguir um leve tremor na sua voz.

- Acredito que o Potter tem língua, e sabe falar por si – respondeu com secura. - A matéria deve ser revista com antecedência, não quando faltam minutos para a aula começar. Já devias ter aprendido isso no primeiro ano, Weasley. Talvez te tivesse evitado reprovares nos exames de Poções do teu quinto ano.

- Por favor, senhor professor… - pediu Hermione. – Já passa da hora.

- Dez pontos a menos para os Gryffindor. Silêncio, Granger, ou acabas com uma detenção para o resto do ano. Duvido que faça bem às suas notas – declarou, os lábios torcendo-se num meio sorriso. – Desapareçam da minha vista, estou a falar com o Potter!.

Harry acordou, finalmente, à menção do seu nome. Talvez fosse um cobarde, e não merece-se, realmente, ter sido posto nos Gryffindor. Não achava que fosse capaz de enfrentar Snape tão cedo. Ainda. Quando a sua voz ecoava na sua cabeça. Lembrava-lhe daquilo que nunca poderia ter. Dos beijos plantados sobre a sua pele, dos gemidos murmurados, no arquejar e retroceder de dois corpos quentes que se fundem num só. O turbilhão de pensamentos complexos fazia-o ficar cada vez mais tenso.

Aproveitou que Snape cravava o seu olhar noutra pessoa que não ele, para correr dali para fora. Empurrou uma rapariga mais à sua frente, pedindo-lhe desculpa numa voz abafada, e subiu a escadaria de dois em dois, contornando um corredor pouco utilizado. Quando se encontrava suficientemente longe, avagarou o passo novamente. Passou-lhe pela cabeça tirar o manto da invisibilidade e tapar-se com ele. Envolto no tecido quente ia-se sentir mais protegido. No entanto não o fez. Não podia fugir para sempre, e quanto mais cedo aceitasse isso, melhor. Da próxima vez, tinha de lhe fazer frente. Bastava responder-lhe com uma voz tão glacial como a dele. Porque suava assim tão difícil?

Tudo não passava duma mentira, duma ilusão, atiçada pela sua mente demasiado imaginativa. Como fora burro, um idiota inocente. Acreditara que alguém finalmente o amara como ele era. Confundira a indiferença e o ódio com algo tão puro como o amor.

- Harry! – chamou Ron, correndo para alcança-lo, seguido duma Hermione preocupada. – Não acredito que o seboso do Snape te deixou realmente ir sem um castigo nem nada! Deve-se ter passado da cabeça. Não é mesmo dele. Hoje toda a gente disse que tem agido duma forma pior que o habitual, por isso pensei que ele ia mesmo desintegrar-te ali mesmo.

- Estás-te a sentir bem? – perguntou Hermione, lançando-lhe um olhar preocupado.

- Estou óptimo – mentiu.

- Não pareces bem… Tens os olhos cheios de olheiras e mal tocas-te na comida desde ontem. – Harry decidiu não perguntar como Hermione sabia o quê que ele comia ou deixava de comer. A amiga sempre fora demasiado atenta, e isso agora provava ser um incómodo. – Alguma coisa passa-se de errado, não tens sido o mesmo. Não é, Ron?

- A Hermione tem razão, pá. Este ano tens passado mais tempo a pensar do que outra coisa, e arranjas sempre desculpas para não falares connosco.

- Não consigo dormir, e quando durmo tenho pesadelos. Também não tenho fome. Como apenas o necessário para viver, isso deve ser o suficiente. – Ron e Hermione pareciam consternados. – Sei que não merecem que eu vos trate assim, eu devo-vos um pedido de desculpas. Não devia… não devia ter-vos dito aquelas coisas.

- Dissestes que não podias confiar em nós, mas porquê que não tentas? – pediu-lhe Hermione.

- Vocês não iam querer ouvir, acreditem.

- Tenta, Harry. Somos mais compreensivos do que parece. Não ia-mos julgar por causa de uma coisa sem importância, sabendo como aceitastes perfeitamente quando comecei a namorar com a Hermione.

- Isso é diferente. Já sabia que vocês iam começar a namorar, a questão era quando. Eu… Há alguém que eu amo – declarou intrepidamente. – Amo-a desde quase o início do ano, mas ela não gosta mesmo de mim. Disse-me que nunca me ia amar.

- Oh! – exclamaram em uníssono.

- Ela é que perde – disse Ron, sinceramente. – Há mais peixes no mar.

- Ron, como podes ser tão estúpido? O Harry ama-a mesmo muito, nota-se na forma que ele ficou depois de ser rejeitado. Achas que qualquer uma serve?

Ron encolheu-se, visivelmente perturbado.

- Não… a sério que não. Mas temos de saber quando desistir.

- Eu seu, Ron. Nunca tive realmente nenhuma hipótese. Tudo o que me resta é recordar os momentos passados e imaginar como podia ter sido – murmurou Harry, para os seus botões.

- Talvez exista algum motivo para ela estar tão chateada. Falas como se encontrassem regularmente, isso explica os teus desaparecimentos súbitos. Se já se conhecem há algum tempo, talvez já suspeitasse das tuas intenções. No entanto, nunca te pôs fora – disse Hermione. Caminhava no seu encalço, com uma cortina de cabelos cor de avelã a esvoaçar, como uma nuvem.

- Todos vocês viram como fiquei depois de tomar a Poção do Amor – respondeu, acabrunhadamente. – Umas amigas suas contaram tudo a ela, e o resto vocês já devem ter adivinhado. - Alguém uma vez lhe dissera que era muito mais fácil mentir quando se acrescentava um pouco de veracidade, para facilitar a autenticação da história.

Um ínfimo pedaço da sua mente, que começava a manifestar-se com cada vez mais força, sentia-se bem em contar este tipo de mentiras. Queria poder falar com os seus amigos sobre os seus sentimentos, mas também sentia que esta era a única forma de o fazer. Era como se fossem quase reais. Havia uma certa liberdade em poder soltar-se desta forma. Estava farto de restringir-se. Talvez Snape conseguisse fazer isso com a maior das facilidades, sem deixar transparecer a mínima hesitação, no entanto, Harry sempre tinha prezado a honestidade.

- Então devem ser ciúmes – riu-se Ron. – Nem sei porque estás assim tão preocupado. Se fosse eu, ia falar com ela. Essa rapariga não te pode culpar só por uma coisa que não querias fazer.

- Eu acho que ela perdoou-me. Foi mais tarde… ela disse-me que não me amava. Pode-mos não falar mais disso? – pediu Harry, o coração apertando-se cada vez mais no peito ao recordar-se mais uma e outra vez das palavras de Snape. Ressaltavam nos seus ouvidos. Talvez esta história fosse demasiado verídica...

- Se tu o dizes… - Hermione analisava-o ao pormenor, procurando com os olhos o que não poda encontrar nas palavras.

Harry desviou o olhar. Fazendo os possíveis para transparecer indiferença. Não queria falar mais daquilo. Pelo menos, enquanto o coração não sarasse.

Balbuciou uma desculpa fraca e partiu apressadamente. Os amigos ficaram a observa-lo preocupados, enquanto se afastava. Esperava que esta conversa não fosse o suficiente para empurrar Hermione em direcção da verdade.

O resto das aulas desenrolaram-se lentamente. O ponteiro arrastava-se com dificuldade e foram muitas as vezes que a sua concentração ameaçou fugir para longe. Harry estava demasiado desatento, e se não fosse Hermione a chamá-lo à realidade, teria perdido mais pontos pela sua casa.

Eram poucas as alturas em que conseguia dormir. Normalmente durante o dia, quando estava cercado de vozes alegres. Nessas alturas, a luz conseguia afastar facilmente os fantasmas do passado. A dada altura, adormeceu por cima dos pergaminhos de Transfigurações, e recebeu uma reprimenda severa. Nada disso lhe interessava. Podiam tirar-lhe os pontos todos da sua casa, e perder todos os jogos de Quidditch. Tudo isso pareciam preocupações menores comparado com Snape.

- Que disciplina temos agora? – perguntou a Hermione.

- Poções com o Professor Snape. – O estômago de Harry agitou-se vertiginosamente.

- O quê!? Tinha-me esquecido.

Poções… decididamente o dia não podia ficar pior. Gostava de ter tido tempo para prepara-se de alguma forma. Estava numa pilha de nervos. Era demasiado cedo para deparar-se com Snape. Não ia ser capaz de suster o seu olhar desafiador, nem responder aos seus insultos. Era capaz de dizer, ou fazer alguma coisa que se arrependesse, e acabar por fazer com que fosse finalmente expulso.

Caminhou ao lado de Hermione para os calaboiços. Desta vez a sorte parecia estar do seu lado. Esperaram quinze minutos e nada de Snape. Alguma coisa mesmo séria devia ter feito o Professor desistir de lhes atormentar a vida. Só não conseguiu perceber porquê que ninguém apareceu para lhes dizer alguma coisa.

Quando chegou a hora de jantarem, Harry lançou uma olhadela rápida na direcção da mesa dos Professores. A cadeira do Mestre de Poções estava desocupada, e ninguém parecia dar por isso. O resto dos Professores conversava alegremente, a uma distância grande o suficiente para tornar as palavras irreconhecíveis.

- Harry, não vais comer? – O menino remexia nas ameixas salteadas sem muito apetite. Estavam demasiado cozidas e insonsas. Toda a espécie de comida sabia-lhe horrivelmente desde hoje de manhã. Brincou com um garfo por uns momentos, tentando reprimir um vómito. A boca do estômago andava às rodas, e tinha de lutar constantemente com as pálpebras para não as fechar.

- Não tenho fome. Já notaram? O Snape ainda não apareceu – disse Harry, tentando-se convencer que não estava realmente preocupado.

- É verdade! Que se terá passado? – entreolhou-se Ron. – Espero que o seboso tenha sofrido um acidente grave e não volte a dar aulas no próximo mês. Seria um alívio.

- Um alívio? Sabes quanta matéria ia-mos perder com isso? Logo agora que estamos na época dos exames… Deve ter sido algo muito grave para ele não ter ido dar a aula – queixou-se Hermione. Ron revirou os olhos exasperadamente, como costumava fazer tantas vezes quando Hermione se comportava desta forma. Desta vez, no entanto, Harry não lhe retribuiu a expressão.

Ninguém parecia preocupar-se com o professor. Se fosse há uns anos a trás, Harry teria pensado o mesmo. Contudo, isso não lhe atenuou a raiva. Fechou as mãos em punho automaticamente, por debaixo da mesa, para tentar evitar dizer algo que arrepende-se.

- Snape salvou-me a vida várias vezes, por mais maldoso que algumas vezes seja não o odeio. – Os amigos trocaram olhares inquietados.

- Vá lá Harry! Isso é o bastardo do Snape que estamos a falar. Nunca ninguém ia sentir a sua falta mesmo que ele…

- Que ele o quê? – disparou a frase com fúria a vibra-lhe na voz.

Ron remexeu-se desconfortavelmente na cadeira, tentando esconder o choque e embaraço que sentia ao ouvir aquelas palavras proferidas com demasiada raiva.

- Nada… Não entendo o que se passa contigo. Agora, sem mais nem menos, tornou-se proibido dizer mal do Snape! Nunca tivestes problemas com isso quando andávamos no sexto ano – disse Ron.

Harry não voltou a olhar para os amigos até bem mais tarde. Limitou-se a brincar com a comida, imaginando o que teria acontecido para o Snape faltar. Tinha a garganta demasiado seca e a cabeça a martelar-lhe desconfortavelmente. Ron, por sua vez, afagava as penas lustrosas de Pidgeot que tentava comer do seu prato quase vazio.

- Está quieto! – A coruja debicou um pedaço de arroz do seu prato.

- Ron, pensava que tinhas cancelado as assinaturas do Profeta Diário – disse-lhe Hermione num tom reprovador. – Só dizem disparates.

- E cancelei, mas eles continuam-me a enviar. – Ron agarrou no jornal e voltou as folhas rapidamente com um ar entediado. – Olhem! Aqui diz que vários Devoradores da Morte que ainda estavam fugidos foram capturados esta tarde. Diz também que alguns membros da antiga Ordem da Fénix participaram na captura.

Harry queria abrir a boca, mas a voz morreu-lhe na garganta.

- Isso deve explicar porquê que o Snape faltou à última aula – disse Hermione calmamente.

- Alguém se magoou? – perguntou Harry. O sangue fugiu-lhe do rosto.

- Ainda não se sabe nada. – Ron fechou o jornal e virou-se novamente para a sua refeição. – Já provaram as…

- Que se passa, Harry? – interrompeu Hermione, visivelmente preocupada. – Estás tão pálido e ainda não tocastes na comida.

Harry aproveitou a deixa.

- Não me sinto bem, vou à enfermaria pedir para que a Madame Pomfrey me dê alguma coisa para tomar. – Levantou-se da cadeira rapidamente, e abandonou o Salão.

Só no corredor é que conseguiu pensar com mais clareza. O Professor podia estar ferido ou até mesmo morto. Um arrepio gelado cobriu-lhe os ossos. Não. Já tinha visto Snape a lutar inúmeras vezes. Era um dos melhores mágicos que alguma vez conhecera. Não se ia deixar ferir tão facilmente. "Os acidentes acontecem…", pensou.

Respirou fundo várias vezes até acalmar-se. Recusava-se a entrar em pânico antes de saber o que se passava. Era incrível como bastava poucas palavras para varrer a raiva e o ressentimento acumulados desde ontem.

Seguiu os longos corredores, passando por uma estátua de uma feiticeira imóvel e desceu umas escadas estreitas de basalto polido, de dois em dois degraus. Quando chegou à frente da porta do gabinete do Professor, vacilou, com o coração a galopar ferozmente no seu peito.

Bateu à porta, mas ninguém respondeu.

- Professor, abre a porta, por favor! Li o artigo no Profeta Diário sobre a captura de vários Devoradores da Morte. - Não disse mais nada. Se Snape tivesse realmente lá teria entendido o que ele queria dizer.

Aguardou uns instantes, e quando se preparava para se ir embora, ouviu uma voz emergir do outro lado da porta.

- Vai-te embora, Potter!

- Por favor! – implorou. – Não vou sair daqui até me abrires a porta. Nem que seja preciso ficar cá a noite inteira. Preciso de falar consigo.

- Entra e senta-te – assentiu, passados uns segundos. – Antes que chames a atenção do castelo inteiro.

Harry rodou a maçaneta da porta e entrou, sentindo-se invadir por uma espessa penumbra. Localizou com dificuldade o vulto sombrio do Professor, no outro canto da sala, junto à lareira apagada.

- Queria saber se estavas… - Estacou petrificado, sentindo o seu coração morrer-lhe no peito.

- Tão eloquente como sempre, Potter. Posso saber o que tencionas-me dizer? – perguntou Snape, sem dar tempo para que pudesse responder. – Desobedeceste-me insolentemente quando te pedi para que me acompanhasses ao meu gabinete e em menos de um dia apareces fora da minha porta, importunando-me com a tua presença. Isso tudo é uma espécie de brincadeira ridícula para ti? Ou julgas que sempre que te apetece podes aparecer por aqui, que os outros estão à tua disposição? – rosnou Snape.

Harry, no entanto, não ouviu quase nada do que lhe foi dito. O menino não parava de olhar, boquiaberto, para o vulto à sua frente.

As vestes de Snape estavam manchadas de vermelho. Poças de sangue quase seco alagavam-lhe a frente das vestes de viagem, contrastando com o fundo do tecido negro. Um pouco a baixo do seu olho esquerdo, um corte fino descia até ao canto dos seus lábios, brotando gotas de sangue da cor de rubis que formavam uma linha quase recta.

O sangue gelou-lhe.

- Estás magoado. – Deixou que todos os sentimentos que passavam-lhe pela cabeça estampassem-se directamente no seu rosto. Queria que Snape soubesse o quanto se preocupava por ele.

- A maioria do sangue pertence a Devoradores da Morte menos afortunado que eu. Dois deles morreram a meu pés, lutando para manter alguma espécie de controlo sobre os seus berros, que lhes desse um pouco de dignidade. Mas não existe dignidade alguma quando se morre – alvitrou Snape. Olhava por de trás da sua cortina de cabelos escorridos, com um olhar entediado.

Harry não se sentou como o professor lhe mandou. Deixou-se ficar estático a pouco metros de distância. Podia ter perdido Snape para sempre. Talvez um dia abrisse aquele maldito jornal para encontrar a sua morte anunciada na coluna de óbitos, ou talvez até mesmo na primeira página. Snape tinha ganhado grande reputação depois da Batalha Final.

- A culpa não é tua.

- Que dissestes, Potter?

A culpa não é sua – repetiu mais alto. – Eram Devoradores da Morte fugidos e perigosos, uma ameaça para a comunidade de feiticeiros. Haviam de matar alguém se não tivessem sido capturados ou mortos. Não se considera assassinato quando se mata em defesa própria.

- E tu por acaso já matastes alguém?

- Eu… não… Mas se eu tivesse de o fazer…

- Palavras não valem absolutamente nada. Toda a gente é capaz de as dizer. Nunca tivestes de experimentar sujar as tuas mãos a sério. Os outros fizeram-no quase sempre por ti. - Snape esboçou um meio sorriso ferino, imóvel como uma gárgula. - Se o tivesses feito, ias saber que a primeira morte é sempre a que custa mais, a certa altura todos os cadáveres se tornam iguais. Não se deve temer os mortos, mas os vivos.

O homem à sua frente era capaz de ser sempre indelicado e maldoso, por isso não lhe fez caso. Hoje pelo menos não. Depois de ler o artigo no Profeta Diário não pensara noutra coisa senão no homem à sua frente. Desta vez não o ia perder.

Transbordava de confiança absoluta e isso desviasse transparecer claramente pois Snape decidiu deixar de o atormentar. Embora uma parte dele parecesse sentir prazer em tentar provar algo que Harry não compreendia ao certo.

- Mesmo assim a culpa não é tua – insistiu Harry. –

- Já matei muitas pessoa antes destes – respondeu, numa voz de aço cortante. - Muitos deles eram pessoas inocentes. Alguns imploraram para que eu não lhes torturasse mais, ajoelharam-se e rastejaram aos meus pés. É impressionante como uma pessoa é capaz de pôr de lado os seus valores depois de algum sangue derramado.

- Mas… -balbuciou.

- Não me interrompas enquanto falo! Torturei e matei em nome do Senhor das Trevas. Nalguns casos, até matei crianças. Era seu servo. Bastava que ele me pedisse para que eu lhe obedecesse de bom grado.

Harry sentia-se como se tivesse a caminhar sobre gelo quebradiço. Qualquer movimento brusco era capaz de lhe deitar a baixo. Naquele estado, o homem à sua frente era mais um animal selvagem que uma pessoa.

As palavras eram aterrorizantes, rasgavam o ar como um punhal, mas vinham do seu coração, e Harry à muito que queria ouvi-lo falar acerca de si, mesmo que num tom desapaixonado. Prometeu a si mesmo que não ia fugir aterrorizado. Ia ouvir tudo o que ele tinha para lhe dizer e provar que era de confiança.

Caminhou alguns passos até ficar a apenas uns centímetros de distância. Era capaz de sentir o cheiro a Poções acabadas de fazer aderindo à sua pele. Queria descansar a sua cabeça sobre os seus ombros angulosos. Sabia que iam encaixar perfeitamente, como se pertencesse realmente aí. Podia esconder o seu rosto, apertando-o de encontro à pele macia.

- Isso tudo foi à muito tempo. Antes de te juntares a Dumbledore.

Snape torceu o seu rosto no que devia ser um sorriso amargo.

- Se fosse necessário voltar a fazê-lo não hesitaria. O que vale algumas vidas em proveito de um ganho próprio? Dumbledore foi a única pessoa que me vi obrigado a matar. Odiei-o desde aquele momento em que me pediu para o fazer. Quando estava de joelhos, implorando para que lhe matasse, pensei que não ia sentir nada para além de desprezo evidente. Mas até a amargura passou naquele momento e eu não senti nada. Matar torna-se sempre fácil com o tempo. É um caminho negro e sinuoso.

Snape nunca falava com ele daquela forma tão aberta. Sabia que estava a ser egoísta, no entanto sentiu-se ser invadido por uma alegria súbita.

- Eras capaz de me matar sem hesitar, também?

Snape penteou os seus cabelos com a ponta dos dedos, traçando um trajecto imaginário. À medida que o toque se prolongava, a respiração de Harry foi-se tornando muito mais forte, enquanto o sangue nos pulsos se acelerava. Daquela distância, conseguia ver claramente os olhos do professor incendiarem-se, um rubor pouco comum afluiu-lhe às bocejas outrora cor de mármore.

Harry também corou perante aquela cena. Estaria Snape tão nervoso como ele?

O Mestre de Poções parou de lhe acariciar o cabelo pardo, e pareceu finalmente recuperar o dom da fala.

- Não. Principalmente em alturas como esta, quando estás demasiado vulnerável – murmurou, as palavras fugindo-lhe a custo. Afastou rapidamente os olhos negros do rosto do rapaz à sua frente.

Harry não sabia o que responder. Também sabia que Snape ia mudar de assunto sem demora. Não era pessoa para se abrir daquela forma e palavras como estas não iam cair em torrentes. Por isso, guardou-as na sua memória, como um tesouro encontrado no fundo do mar.

- Ninguém tem algum motivo de te acusar. Fizestes o que era necessário. Quantas pessoas diriam o mesmo? Já tive a pensar, e eu mesmo, não sei se seria capaz de fazer o que fizestes. Fizeste mais para pôr fim a esta guerra que a maioria das pessoas, e todos nós estamos-te gratos.

- Procuras sempre o bem até onde não existe.

- Eu sei… sei que tens um abismo de negrume dentro dei ti. Que ele te provoca e engole-te por inteiro. Senti o mesmo quando o Voldemort entrou dentro de mim – disse com um olhar desafiador, à espera que Snape o contestasse. - Mas sei que também à bondade nas profundezas do teu coração. A mesma bondade que te impele a não matar mais gente.

- Qualquer pessoa é capaz disso. Não é nada de especial.

- Talvez, mas eu aceito-te como és. E para mim vais ser sempre especial. Não sou um rapaz inocente, sempre soube que eras assim e não me importo mesmo. Se és vazio, posso-te encher, se és mau, poderei ser bom por ti. Não quero uma cópia minha nem de ninguém qualquer. Gosto de ti porque és único – desabafou Harry, concentrando-se num ponto fixo no chão. Tinha medo que Snape julgasse que era uma criança, ou pior, ri-se dele. No entanto, Snape não fez uma coisa nem outra. Deixou-se ficar calado, à medida que uma espessa camada de silêncio se erguia entre eles.

Snape era um abismo de profundezas negras, e naquele momento, julgou estar tão perto de o sentir por inteiro. Talvez até estivesse cego de amor, sentia a imensidão das trevas lá em baixo a chamar pelo seu nome, e decidiu que naquele momento, era capaz de mergulhar nelas.

Afastou-se lentamente da atmosfera pesada em redor do professor e caminhou em direcção aos armários com Poções, procurando uma poção de cura. Por fim, localizou-a na prateleira de cima.

Regressou em pouco tempo, com o frasco aninhado nas suas mãos. Molhou as pontas dos dedos no conteúdo, com cuidado para não deixar derramar nada, e pincelou lentamente o rosto de Snape, onde o corte descia até aos cantos dos seus lábios. Não sabia se estava ferido em mais alguma parte do corpo, mas um calor marejou-lhe o rosto, ao pensar na ideia de perguntá-lo. Imaginou-se a passar o líquido pela barriga da sua perna, acariciando levemente com o indicador.

- És um herói – mudou de assunto. – Se eu tivesse um filho chamava-o Severus.

Apercebeu-se que o ar ficou de repente muito mais frio. Snape também parecia tenso demais. As suas pupilas escureceram e estreitaram-se perigosamente. Quando voltou a falar, fê-lo numa voz destituída de sentimentos.

- És demasiado irresponsável para isso. Tens dezoito anos e já pensas em ter um filho? Talvez com alguém do teu clube de fãs ou com a rapariga Weasley… - Snape afastou-se de Harry e dirigiu-se até ao pé da secretária.

Harry faria qualquer coisa para tirar estas palavras. Não era isso que queria dizer. Era suposto que fosse um elogio, não uma insinuação que não queria estar com Snape a tempo inteiro, que queria procurar uma mulher e ter filhos. Nada disso lhe importava, e mesmo que importasse, feiticeiros do mesmo género podiam sempre adoptar.

- Não era isso que queria dizer – apressou-se a corrigir Harry. – Eu disse "se" tivesse um filho. Não tenho qualquer interesse em ter um. Sou ainda demasiado novo e gosto demasiado de estar contigo… se quisesses podíamos ainda adoptar… - balbuciou, tentando desesperadamente convencer Snape. Não queria ter uma discussão. Queria que tudo batesse certo desta vez. Mas porque tinha de enfiar sempre a pata na poça?

- Adoptar uma criança, Potter? – Snape carregou o sobrolho, os olhos brilhando de malícia. Ergueu os cantos da boca, rasgando-os levemente num sorriso sarcástico. – Não sabia que tinhas estes tipos de pensamentos emocionantes. Eras capaz de comover a escola inteira, embora receio que a Directora não iria gostar de ouvir este tipo de discurso.

As bocejas de Harry inflamaram-se automaticamente, mas o rapaz não teve tempo de responder. O professor olhava, agora, para as suas prateleiras recheadas de poções como se fosse a primeira vez que as visse.

- Como sabias que a Agrimonia tinha propriedades curativas que contribuem para estancar feridas? Nascestes com a mesma falta de talento a Poções do que o teu amado pai. Nunca pensei estar vivo para presenciar esse momento. Pensei que nada que te tinha ensinado tinha permanecido na tua cabeça dura por mais de uns minutos.

- Eu decidi aprender para termos mais alguma coisa em comum. Pensei que esta vez talvez te conseguisse impressionar… Sobre a Agrimonia em particular, li num livro da biblioteca, ontem à noite.

- Que comovedor, mas por mais surpreendente que possa parecer, é preciso muito mais que isso para me impressionares. Até um aluno do primeiro ano conhece as propriedades da Agrimonia. Ias saber disso se tivesses prestado atenção às minhas aulas. Ontem à noite pensei que tinhas afirmado não ter qualquer interesse em voltar a encontrar-te comigo. No entanto, li-as livros para me tentares impressionar.

Harry corou ainda mais. Era como se os olhos de Snape perfurassem-no e engolissem-no inteiro, expondo a sua mente nua ao contacto com a dele. Por debaixo de todas as camadas de raiva e insegurança, de alguma forma absurda, sempre acalentara a esperança que as palavras de Snape fossem mentiras, tentativas de Snape de magoá-lo e afastá-lo antes que ele lhe fizesse o mesmo. Havia inclusivo imaginado remediar o que fora dito com uma carta de amor.

- Não tenho culpa de não conseguir concentrar-me contigo à minha frente.

- Tentando ser irónico, Potter? – retorquiu numa voz seca.

- Estou a falar a sério.

As mãos do Mestre de Poções tiraram a capa de viagem e penduraram-na por cima do sofá em frente à lareira. Algum sangue conseguiu-se infiltrar para o tecido da blusa de dentro, salpicando-a de um carmesim desbotado, mas a maioria tinha manchado apenas a capa que trazia consigo.

- Quanto ao incidente de ontem…

- Não é preciso dizeres mais nada. Já passou – disse Harry.

Não ia forçar Snape a dizer meias verdades tão cedo. Por agora, contentava-se em usufruir o máximo possível da sua companhia, da sua voz rouca capaz de tornar as suas cuecas demasiado apertadas. Entendeu que agora não era a altura, e tinha medo de perde-lo, pedindo-lhe por mais do que ele era capaz de dar. Por agora até uma palavra proferida de uma forma descuidadamente branda era suficiente. O homem era demasiado complicado. Dizia palavras frias e indiferentes ao mundo inteiro, mas para ele guardava muito mais que isso. Apatia, ódio, possessão e talvez algo mais, interligadas num novelo poderoso.

- Nesse caso, sugiro que saias daqui. Tenho de tomar duche e mudar para algo mais apresentável.

- Tu estás sempre apresentável, mesmo coberto de sangue – brincou Harry, alegremente. – Se quisesses eu podia ficar…

- Será que te devo ensinar também a definição de "sai daqui"?

- Eu sei bem o que quer dizer… eu só… Esquece. Não é nada. – "Eu podia ajudar-te a tomar banho." Que ideia ridícula, não queria tornar Snape raivosos novamente. As suas palavras eram capazes de incendiar tudo em seu redor, mesmo ditas duma forma tão fria.

- Fora daqui, Potter! Não tenho o meu tempo todo para perder contigo. A hora de recolher está quase a chegar e eu detestaria ter de te tirar mais pontos à tua casa – replicou Snape, sorumbático.

Harry agarrou na sacola com pressa para sair dali, sem se aperceber que o feixo estava parcialmente aberto. O conteúdo tombou no chão estrondosamente, e Harry apresou-se a despejar tudo novamente no malão, antes que Snape ataque-se-lhe com comentários indelicados. Infelizmente não foi suficientemente rápido.

- Sempre fostes demasiado descuidado para teu próprio bem.

- Não é nada… Já tenho tudo aqui. – Apressou-se a caminhar em direcção da porta e quando já ia a sair, retorquiu, baixo o suficiente para que ninguém que passasse pelos corredores o ouvisse:

- Obrigada.

Só conseguiu mesmo respirar com tranquilidade quando caminhava nos corredores. Era incrível como uma brisa leve ocupara tão rapidamente o lugar de uma tempestade. O seu coração ainda ontem tinha sido quebrado em mil pedaços, e já hoje batia novamente recuperado, ao ritmo do seu professor.

FIM

Deixem um review, por favor, se não tiverem tempo basta um smiley.

Dark – Obrigada pelos comentários, procurei pela música que sugeristes e ouvi-a. Tive a pensar e talvez a use mais para a frente. O próximo capítulo começa mesmo a seguir a esse e Harry vai precisar da ajuda de Snape. Sim, em parte, essa é a minha desculpa para pô-los juntos no mesmo quarto.