Nos Teus Braços
Com tanto medo de sonhar
A história está se repetindo
Monstros gritando, estou sangrando
Eu estou perdendo a luz dentro de mim
Volte para mim
Porque só você pode me salvar
-Don't leave me behind "We Are The Fallen"
"Teria tudo aquilo sido um sonho?" Até aí tinha sido um cego, servindo-se das suas mãos para tactear a pele do homem que amava, do olfacto para cheirar o odor almiscarado a poções acabadas de fazer, do paladar para provar o seu sabor único. Apurar os seus outros sentidos fora a alternativa. E mesmo isso tinha-lhe sido negado muitas vezes, quando Snape impedia que ele tocasse-lhe como só um amante faria. Só hoje tinha-lhe sido apresentado uma oportunidade de ver para além desses jogos de penumbras. No muro tão bem construído havia ranhuras, lascas finas que lhe mostraram imagens oscilantes, no entanto perfeitamente verdadeiras. Uma parte levemente exposta daquele homem.
Sabia que exagerava, naquelas ocasiões era bem capaz disso. Deixava-se levar pelo ânimo leve e qualquer demonstração mínima de afecto, qualquer palavra dita com mais brandura, era suficiente para fazer o seu coração derramar uma sensação de calor atroz pelo seu corpo todo.
Afogara e voltara à vida com o sabor do seu sal ainda na boca, não sabia se podia voltar a ser como era antes de tudo aquilo começar, nem sabia se o queria. Jogando Xadrez de Feiticeiros e falando sobre Quidditch o tempo todo, fingindo não ter preocupação alguma na vida, enquanto não deixava de pensar em Voldemort e no seu próximo passo. Havia trabalhos de casa a cumprir a toda a hora e Hermione passava o tempo todo aborrecendo-lhe para ver se os cumpria. Até agora isso era a única coisa que não se tinha alterado naquele mar de incertezas. Havia demasiados trabalhos para fazer e todos eles tinham sido deixados para outra hora. Só que desta vez, Hermione apenas lançava-lhe olhares preocupados em vez de o criticar abertamente. Mesmo assim prometeu que ia tentar ser mais paciente com eles.
Subiu as fileiras das escadarias que iam dar até ao Dormitório dos Gryffindor e parou em frente ao retrato da Dama Gorda. Estava a dormir silenciosamente dentro da sua moldura. Em vez de acordar-lhe, Harry desceu novamente as escadarias, as suas pernas traiçoeiras obrigando-o a caminhar noutra direcção.
"Que havia consigo?" Há alguns minutos, uma voz sussurrava-lhe, compelindo-o a seguir noutra direcção. Tentava afastar o som das suas palavras tentadoras da sua cabeça, mas não importava o que fizesse, voltavam a ecoar, redobradas em força. A sua vontade estava presa a aguilhões de aço, e era como se os seus próprios pés caminhassem por si. Parecia sonâmbulo.
Um pensamento assustador passou-lhe pela cabeça. Se alguma coisa lhe acontece-se, ninguém daria por si. Snape estava bem longe e cada passo que dava aumentava a distância entre eles.
A muito custo, tentou lembrar-se de alguma coisa fora do vulgar. Havia uma luz ofuscante e depois… nada. "Porque não se tinha lembrado dela até agora?" Só podia ter sido enfeitiçado. Os sintomas eram claros.
Saiu para a obscuridade da noite, o frio arranhando-lhe a pele exposta. Não trazia consigo nenhum casaco a cobrir-lhe o corpo e teve de encolher-se para tentar afastar-se das temperaturas baixas enquanto enfiava as suas mãos geladas nos bolsos das calças.
Os pés arrastaram-lhe caminho a baixo, pela ladeira de neve batida. Obrigou-se a prosseguir lentamente, arrastando as suas pernas atrás de si, num esforço para as demover de andar. Daquele lugar era capaz de ver um manto de esmalte branco estender-se até ao horizonte.
Lá no alto, a lua parecia uma lasca fina de prata. Uma fatia de luar ténue incidia numa porção de terreno, banhando-a levemente de luz.
Tudo ali era tão frio. O seu bafo formava uma nuvem embaciada mesmo em frente aos seus olhos. Engoliu automaticamente uma porção de ar frio, que lhe deixou a garganta a queimar.
Sabia para onde os seus pés o guiavam. Caminhava em direcção à Floresta Proibida pelo flanco direito, o lado oposto à cabana de Hagrid. Naquela noite de quarto minguante, era improvável que o guarda-florestal fosse capaz de lhe perscrutar no escuro. E o mais certo era que tivesse a dormir naquele momento. Nem os latidos do Fang quebravam o silêncio da noite.
Um braço de árvores prolongava-se até onde se encontrava, passou por ele emaranhando-se no interior da floresta. O rugir do vento embrenhava-se nos ramos secos e despidos das árvores. Pingentes de cristais eram a única coisa que se formava naqueles dedos ossudos e retorcidos.
Não. Tinha de se concentrar. Quem quer que o tivesse atraído para aqui esperava encontrá-lo vulnerável, pronto a cair numa armadilha. Mas não ia ser isso que ia acontecer. Tinha de fazer como Snape lhe ensinara. Concentrar-se numa pequena imagem até esquecer tudo o resto e deixar a mente fluir e libertar-se de preocupações. Focou-se na sua própria imagem a caminhar em direcção ao seu quarto de dormir vezes sem conta. Cada vez que a imagem tornava-se menos viva, carregava o pensamento até que voltasse a aparecer diante dos seus olhos.
Finalmente, parou alguns metros mais à frente, decidido a voltar para trás. Quando se preparava para virar, ouviu uma voz sussurrar:
- Avada Kedavra!
Um feixe de luz cegante irrompeu das sombras, fazendo-se acompanhar de um som líquido que Harry já ouvira tantas vezes antes acompanhar este feitiço, precedendo um corpo a tombar no chão. As imagens da sua mãe acudiu-lhe à mente. De braços abertos numa tentativa de proteger o bebé no berço. "O Harry não! O Harry não!". Mas desta vez o feitiço passou miraculosamente a seu lado, sem lhe atingir.
Naquela noite, sentia com mais força a presença da sua mãe protegendo de qualquer mal. Claro que tudo não passava da sua mente pregando partidas, não havia ninguém ali, estava sozinho e quase morreu com o mesmo feitiço que matou os seus pais. Quantas vezes tinha fugido, incólume, àquele feitiço? Outros mais corajosos e fortes tinham morrido por ele. E talvez o dia chegasse que ele também tivesse de perecer. Mas hoje não seria este dia.
Enviou-se para trás de um tronco de árvore grosso o suficiente para cobrir o seu corpo todo, e deixou-se lá ficar, ouvindo o batimento do seu coração descompassado. Não podia deixar-se ficar ali por muito tempo, somente quieto. Seja quem for que estava ali, iria atacar novamente. Levantou a varinha e apontou na direcção de um ponto traçado na sua mente.
- Expelliarmus! – berrou Harry, decidido a ser o próximo a atacar. Inclinou-se para o lado a fim de lançar o feitiço sem que este fizesse ricochete com os troncos. A luz dourada que irrompera da ponta da sua varinha perdeu-se no meio da noite. Ninguém aparou o feitiço. Não podia saber se tinha realmente atingido o seu alvo, mas o mais provável era que tivesse falhado. Lançara-o na mesma direcção que o Avada Kedavra, no entanto fora uma estimativa muito arriscada. Seja quem for que o atacara estava demasiado longe para lançar feitiços próprios e isso salvara-lhe a vida.
As mãos do medo, frias e geladas, sufocavam-lhe a garganta. Decidido a sair dali o mais rápido possível, Harry correu na diagonal com a varinha apertada entre os seus dedos. Seguia a direcção mais obstruída por arbustos e ramos selvagens. Seria mais fácil esconder-se ali. Era um lugar suficientemente abafado para ocultá-lo, nem que seja parcialmente, de olhos indesejados.
- Lumos Maxima! – Uma bola de luz pouco maior que a palma de uma mão começou a flutuar ao longe, iluminando a floresta em seu redor. Era maior que um feitiço simples de iluminar, mesmo assim os seus raios não tinham um alcance assim tão grande que chegassem a tocar em Harry. No entanto, aproximava-se como se tivesse vida própria, flutuando na sua direcção ao longo do caminho íngreme, encurtando cada vez mais o espaço entre eles. O feitiço "Lumus Maxima" era capaz de durar por bastantes minutos, dependendo do talento do feiticeiro a lançá-lo. E Harry temia que um feiticeiro suficientemente bom o perseguisse.
Os ramos despidos das árvores chicotearam-lhe o rosto, uma tira de sangue manchando-o, e raízes retorcidas agarraram-lhe os pés, fazendo-o desequilibrar e embater de encontro ao chão, com os braços postos à frente numa tentativa de aparar a queda. O solo, demasiado inclinado e escorregadiço devido à neve, piorou as coisas ainda mais. Quando Harry tentava-se pôr de pé, escorregou novamente e rolou alguns metros até embater numa árvore.
A cabeça andava à roda e não era capaz de ver um palmo à frente do seu nariz. Estendeu as mãos, apalpando em vão o escuro, numa tentativa de encontrar os seus óculos que deviam ter-se quebrado naquela confusão. Não pareciam estar em parte nenhuma. Não era capaz de ver muito mais do que pontos negros no escuro e borrões disformes, mas seria capaz de localizar uma bola de luz facilmente. Estava tudo muito escuro sombrio, e o feitiço luminosos ou definhara ou dirigira-se noutra direcção.
"Porquê que havia sempre alguém a tentar matá-lo?" Não importava o quanto se convencesse que tudo ia correr bem agora que o Quem-nós-sabemos estava morto, a sua vida continuava a não passar de um ciclo vicioso de perigos atrás de perigos. Seria capaz de aceitar uma parte disso, afinal queria ser um Auror, mas esperava ter de salvar outras pessoas e não a si mesmo constantemente.
Deixou-se ficar sentado no chão gelado, desgostoso e desanimado consigo mesmo, sentindo as suas roupas encharcadas até aos ossos aderirem à sua pele. Apertou com força os braços em volta do seu corpo tentando aquecer-se, e imaginou que eram outras as mãos que lhe apertavam. Nada disso foi capaz de o apaziguar.
Imaginou os seus amigos naquele momento, deitados nas suas camas quentes e fofas, separados dele pela distância física e psicológica que ele próprio provocara, quando começara a passar demasiado tempo perdido dentro da sua mente. Antes, as conversas e risos simpáticos enchiam-lhe o dia. Não era capaz de compreender o Mestre de Poções e todo o seu pessimismo. Havia tanto para viver… Então quando perdera realmente o interesse? Agora falar demasiado com eles tinha-se tornado um incómodo e um fardo. Tudo isso tinha sido imposto numa tentativa de camuflar o seu segredo. Quando ter-se-ia tornado fácil, quase banal esconder assim tanto dos seus amigos? Seria o preço a pagar por desejar demasiado? Tudo aquilo era muito injusto. Tinha o direito de amar e formar amizades. Uma coisa não devia impedir a outra. Mesmo assim… Dumbledore e Snape também sofreram por amor e o quê que aquilo lhes tinha dado? Uma vida cheia de segredos e suspeitas.
Um longo período de tempo passou-se sem que se decidisse a mexer. O feiticeiro que o atacava podia voltar a qualquer momento e o melhor era evitar que a atenção recaísse sobre ele.
Um leve ruído dum manto a roçagar e um som de passos sobre a neve chamaram a atenção de Harry. Sacou da varinha e apontou-a na direcção do ruído, tentando fazer os possíveis para manter a sua respiração tranquilizada.
O Mestre de Poções emergiu das penumbras e caminhou apressadamente na sua direcção, olhando em redor com a varinha em punho.
- Onde está ele? – perguntou, um pouco mais alto que um sussurro.
- Naquela direcção – apontou Harry fazendo os possíveis para não tremer. – Mas isso já foi há algum tempo.
Snape atravessou a espessa camada de neve em passadas largas, e um pensamento estúpido acudiu-lhe à cabeça. Não queria que Snape deixasse-lhe sozinho novamente. Apertou os lábios para que nenhuma palavra traiçoeira lhe escapasse da boca. Felizmente que Snape não veio muito longe. Voltou quase imediatamente e ajoelhou-se a seu lado.
- O quê que se passou, Potter? Enfiado em alhadas novamente… Parece que não posso tirar os meus olhos de cima de ti nem que seja por um momento.
- Alguém lançou-me a maldição Imperio e obrigou-me a caminhar até à floresta. Não sei quem foi, não consegui ver o seu rosto, deve-me ter atacado pelas costas. Consegui resistir e tentei regressar quando alguém lançou-me um Avada Kedavra e perseguiu-me. Seja quem for deve ter perdido o meu rasto.
Snape deixou-se ficar silencioso por momentos, por fim, respondeu:
- Não precisas-te de preocupar, estou aqui para te proteger e quem te tentou atacar já não se encontra aqui fora.
- O quê que queres dizer com isso? – Levantou a cabeça admirado.
- Já disse que não precisas de te preocupar. – O vulto à sua frente levou a mão ao que parecia ser o seu bolso e pegou em alguma coisa pequena e transparente. - Oculus Reparo. – Estendeu a Harry os seus óculos como novos.
- Obrigada… - sussurrou quase inaudivelmente. – Ninguém se preocupa realmente comigo. A esta hora o Ron e a Hermione devem estar a dormir sem dar por nada. A Directora disse-me que tudo tinha acabado mas eu interrogo-me se alguma vez vai acabar. – Fez um esforço para conter a amargura na sua voz. – Há sempre alguém a tentar matar-me, isso sem dúvida vai deixar os jornais contentes, saber que a arma de guerra do mundo da feitiçaria ainda não vai ter descanso. Sem dúvida que vai haver muitas pessoas admiradas, quem sabe até aumente o número de pessoas a perseguirem-me constantemente e a derramar poções do amor para a minha comida. Não é como se alguém a sério importe-se. Para os meus amigos mais valia que eu estivesse morto. Só sou suficientemente valioso quando tenho que matar algum Lorde das Trevas. – Uma torrente de emoções fugiu-lhe dos seus lábios sem que desse por isso. Tinha que desabafar e aliviar esta dor do peito.
- Exageras como sempre. Os teus amigos estão preocupados pelo teu desaparecimento. Foram eles que alertaram a chefe da vossa casa. – Harry não se mexeu, parecia inalterado com o que Snape acabara de dizer. As palavras fugiam-lhe rapidamente da sua cabeça sem que pudesse agarrar no seu verdadeiro significado. - Se conseguistes aguentar com a fama até agora sem que ela subisse… demasiado à tua cabeça – vinculou o demasiado – acredito que possas aguentar mais uns anos.
- Que alívio – mentiu Harry.
Snape passos os braços em torno de Harry, apertando o seu corpo de encontro ao seu num abraço tenso. O manto da capa do Professor, quente e escuro, cobriu-lhe o corpo frio, e Harry descobriu que era demasiado difícil não se inclinar mais na sua direcção. Encostou as bocejas demasiado avermelhadas, contente de ninguém as poder ver, ao tecido fino das vestes, inspirando o cheiro a poções acabadas de fazer. Enchiam-lhe de recordações gostosas. Poisou as mãos no tronco à sua frente e pensou como seria lamber cada pedaço da pele pálida.
- Não precisas demais ninguém, Potter. Tens-me a mim e isso deve ser suficiente. Nada de mal te vai acontecer. Eu estou aqui para te proteger. – Ouviu as palavras escorregaram suavemente como veludo.
- Nem tu realmente te preocupas comigo. Tu apenas me proteges por causa da minha mãe. Eu mesmo ouvi-te dizê-lo quando vi as tuas memórias no Pensatório. Tudo isso não passa duma espécie de dever que julgas ter para com ela – disse em voz quebrada, a sua angústia fugindo-lhe dos lábios. – Mas já me ajudastes mais do que chega, não quero exigir demasiado de ti, seria injusto.
Os olhos do Mestre de Poções escureceram.
- Exigir? – A voz de Snape vibrou, cortando o ar em pequenos pedaços. De repente, parecia que a temperatura tinha descido mais alguns graus.
Os braços em seu redor tornaram-se mais tenso, como um punho de ferro.
– Julguei que eras mais esperto do que isso. – Havia veneno na sua voz. - Mas já devia saber como és capaz de saltas para conclusões desproporcionais e inventadas da tua própria cabeça, tornando-te por vezes irracional e cego. Esta será a última vez que te vou responder a isso, espero que uma vez na vida sejas capaz de me ouvir. Ninguém tem o poder de me obrigar a fazer aquilo que eu não queira. Só um tolo podia julgar isso. Protegi-te e vou proteger-te as vezes que seja necessário desde que não estejas em segurança. Faço isso para teu próprio bem, não seria… rentabilizador deixar-te morrer agora que te tens tornado menos inútil. Seria um desperdício.
Harry ignorou os insultos e focou-se nas palavras que pairavam implícitas. Estava quase a habituar-se aquela língua que antes parecia-lhe estranha aos seus ouvidos. Agora, facilmente captou o que acreditava ser a verdadeira natureza daquela conversa.
Sorriu para si mesmo.
- Desculpa. Eu sei que preocupas-te comigo, é só… - respirou profundamente antes de continuar – … Eu podia fazer tanta coisa por ti se me deixasses mostrar... – disse Harry, ternamente.
Snape pegou-lhe no queixo e afagou-lhe com cuidado, puxando-o para cima para que pudesse captar toda a extensão dos seus olhos. Harry retribuiu o olhar de volta sem se importar, podia olhá-lo nos olhos e mergulhar neles eternamente, sem ter que se preocupar com mais nada no mundo.
Tocou levemente na bainha da blusa do professor e fez os seus dedos deslizarem até às suas calças, onde era capaz de sentir o pénis duro pressionado de encontro ao tecido fino. Massajou-o levemente, fazendo com que Snape solta-se um gemido abafado.
Viu os seus olhos afoguearam.
- Potter, se me continuares a tocar eu não vou conseguir manter o meu controlo, e sabes que aqui não é o lugar adequado para este tipo de acções. Sempre fostes demasiado imprudente – rouquejou Snape, penetrando-o com os seus olhos escuros.
Harry tirou relutantemente as mãos das calças e Snape agarrou-as bruscamente, atraindo-o de encontro ao seu corpo.
Lambeu os lábios e foi comprazer, que se apercebeu que os dois poços escuros sem fim analisavam-no com interesse crescente.
- Pára ou vou lançar-te ao chão e penetrar-te durante a noite toda até a tua respiração tornar-se em berros. Aí vou prender-te a mim para sempre e quebrar-te as asas para não fugires para nenhum lado.
- Porquê que não o fazes?
- Não me provoques, Potter. Queres mais do que deves – bufou Snape.
Encostado ao material sedoso da blusa do professor, com a capa caindo em seu redor, foi capaz de sentir algo duro no bolso das calças, a magoar-lhe as pernas. Desceu os olhos naquela direcção e viu as dobras de um pergaminho velho, enroscado no bolso.
- Folhas de pergaminho? – perguntou sem querer em voz alto.
Snape tirou-as para fora das calças e Harry ficou a olhar para elas, como um menino de cinco anos apanhado a fazer algo que não devia. Mesmo sabendo que teoricamente não tinha feito nada de mal, por isso não devia ter medo.
- O teu mapa. Esqueceste-te dele no meu escritório – clarificou Snape. Usei-o para certificar-me que tinhas ido para o dormitório da tua casa como acordado. Não me surpreendeu muito saber que de facto estavas muito mais longe. Sempre tivestes um talento para desobedecer às regras, mas desta vez não vi nenhum motivo para estares ali, a esta hora. Deduzi, por isso, que podias ter sido trazido para aqui contra tua vontade, através duma maldição Imperius potente. Por esta altura os teus amigos já tinham alertado a Miller que estava à tua procura. Tive dificuldade em convence-la a voltar para o castelo e mandar o Filch perder o seu tempo com o maldito poltergeist ou outra insignificância qualquer.
- É difícil de acreditar que ela te tenha ouvido. Por esta altura já alertou o castelo inteiro do meu desaparecimento. – Tremeu involuntariamente. Com medo de ter de suportar todos aqueles olhares postos nele. Não queria ter de repetir a história novamente no mesmo dia. As memórias ainda estavam pintadas a fresco na sua mente.
Era verdade que agora que tivera tempo para se calmar, sentia vergonha de ter ficado tão assustado e comportando-se como uma criança. Snape não ia querer um rapaz que precisava sempre da ajuda de outros para se defender. Da próxima vez, ia lidar melhor com a situação, se necessário. Ia fazer o professor ter orgulho dele.
- Ela pode ser a chefe da tua casa mas ainda sabe que a tua segurança ficou a meus cuidados de acordo com Directora. E não é o seu desejo que ela interfira impertinentemente nas minhas incumbências – respondeu, mantendo o tom de voz calmo, no entanto vibrava de uma irritação espessa.
Harry agora tinha a certeza que Miller não tinha aceitado as ordens de Snape de bom grado. No entanto sentiu-se grato. Era capaz de dar tudo para regressar ao castelo tranquilamente, sem ter e se preocupar com nada. "Nada não…", pensou. O coração tornou-se apertado à medida que tentáculos invisíveis rastejavam pelo seu corpo, provocando-lhe um frio tremendo, como se um balde de água tivesse-o encharcado.
- Vistes alguém no mapa? – atreveu-se a perguntar.
- Nada que não devesse estar lá.
- Que queres tu dizer?
- Estás seguro comigo. Não precisas de te preocupar com isso por agora – retorquiu Snape, tentando finalizar a conversa.
- Se tem a ver com a minha vida julgo que me diz respeito – insistiu. Estava farto de mentiras e segredos, deixavam-no ainda mais inseguro.
- Não vi nada de relevante, Potter – respondeu sorumbaticamente. Não havia nada no seu rosto que indicasse que estava a mentir. No entanto, aquele era um Mestre das Ilusões, experienciado a enganar o Voldemort. "Se querer mesmo que eu não saiba nunca o saberei." Decidiu acreditar nele por agora. Afinal de contas porque o mentiria?
- Fico contente pelo mapa não se ter perdido – respondeu Harry, simplesmente. – Detestaria ter de ficar sem ele.
- Eu vou ter de o apreender. Este tipo de objectos não são permitidos segundo o regulamento da escola. Sabes muito bem disso. Já chega de o utilizares para fazeres brincadeiras estúpidas e desobedeceres às regras. Espero que te preocupes a sério com a tua segurança. Andar em passagens secretas e salas que não devias só vai aumentar o risco de seres atacado novamente, e eu não vou estar aqui para te proteger sempre. Não vou admitir mais comportamentos irresponsáveis e incompetentes da tua parte – trovejou enfadado.
Havia algumas batalhas que não podia ganhar. Por agora ia deixar este assunto passar, pelo menos até a ameaça também passar, e Snape estiver de bom humor, se é que alguma vez ele estava de bom humor.
O Mestre de Poções, à sua frente, levantou-se do chão erguendo Harry atrás de si só com um braço. Mal foi privado do calor do outro corpo, sentiu o frio a retornar ao seu corpo, engolindo os seus ossos e mordendo a sua pele até ficar roxa. Deixou-se ficar agarrado ao seu manto em busca de calor, com pingentes de neve a formarem-se nos nós dos seus dedos. O professor também tinha neve em camadas grossas a mesclar o seu manto, e naquele momento o seu rosto estava mais gelado que nunca.
- Temos de voltar para o castelo.
- Preferia não ter de voltar para o meu dormitório e ter de suportar toda aquela gente a fazer-me mais perguntas.
- Farto da fama? – Os lábios semi-congelados crisparam-se num meio sorriso torto. - Por agora, vais ficar no meu gabinete enquanto eu for falar com a Directora. Estarás lá mais protegido e é melhor deixares isso que aconteceu entre poucas pessoas. Contar a um grupo pouco restrito equivale a contar à escola inteira. E armaste-te em herói e contares uma história ridícula na qual defrontastes um feiticeiro mais poderoso do que tu e acabastes novamente vivo não te vai ajudar em nada.
- Não tinha tenção de contar nenhuma mentira – respondeu honestamente.
FIM
Deixem um review, por favor, se não tiverem tempo basta um smiley.
A/N: Não se preocupem que eu não demorei este tempo todo escrevendo um capítulo tão pequeno. O capítulo de facto era grande por isso tive que o dividir em duas partes. Publico a segunda parte dentro de uns dias para vos dar algum tempo de intervalo.
Ana- Obrigada por teres-te dado ao trabalho de deixar um comentário. Fico contente de estares gostando, é a minha primeira fic por isso ainda tenho muito que aprender.
A fic é em português de portugal. Por exemplo, a Sala Precisa na tradução torna-se (ou virou como acho que seria dito em brasileiro) Sala das Necessidades e a Penseira aqui vai aparecer como Pensatório. Os nomes ficam tal e qual aos em Inglês e a forma de escrita é ligeiramente diferente com os "se" aparecendo depois da frase seguidos dum traço em vez de antes como costumo ver no brasil. Mas de resto, for uma letra ou outra ou alguma palavra não é muito diferente. Estou um pouco habituada a ler em brasileiro sendo assim não me complica muito mais realmente existe poucos escritores de portugal por isso deve ser mais difícil de compreender.
Gosto muito de "A Lenda". Ainda estou no início, mas tenciono apanhar as atualizações.
Ms Rickman– Obrigada e espero que gostes deste também. Próxima parte vais esquentar mais um pouco. O Harry não vai sair tão cedo das dos aposentos do Snape.
