O Coração Não Mente II

We test, we form, we fear, we tilt
We strive, we fall, we want, we kill
And we hail, and we doubt
And with all waisted
We heal, and we call
We atone kneeled here
And will stray fortified
In a windfall

- Azam Ali "Forty One Ways"

Quando Snape abriu a porta da sala de aula, todos os olhares prenderam-se neles. Pelo modo como alguns alunos estavam levantados era óbvio que já tinham desistido de esperar pelo professor, acalentado a esperança que ele fosse faltar de novo.

Harry viu os amigos mirarem-no de boca aberta, com ar de quem queriam-lhe interrogar. Sentiu-se aliviado por não o puderem incomodar, naquela hora, com um número infinito de perguntas pelas quais não podia realmente responder sem ter que mentir.

- Sentem-se – ordenou Snape com a voz profundamente e arrastada de sempre. – Julgo que não vos dei autorização para saírem dos vossos lugares.

- Mas professor… já tinham passado quinze minutos… - sussurrou Parvati.

- Cale-se! – sibilou Snape. – Dez pontos a menos para os Gryffindor por falar sem ter sido solicitada. – Até alguém vos avisar que eu não estava disponível para dar aulas têm de esperar, caso contrário apanham uma falta colectiva e a Directora irá saber do ocorrido. Se já me fiz entender abram o livro na página 113.

A contragosto, tiraram os livros das malas. Tudo isso era muito injusto, o rosto dos seus colegas era bem capaz de deixar transparecer o que pensavam disso. Só ele não importava-se, mesmo assim não deixava de achar incrível como Snape era capaz de censurar os seus colegas quando a culpa de chegarem atrasados era obviamente deles. Gostava de ser capaz de reagir sempre com tanta tranquilidade como Snape em circunstâncias como aquelas. Não era tão mal como Ron que corava até às orelhas e gaguejava sempre que mentia ou encobria alguma coisa, mesmo assim, era capaz de jurar que os seus olhos tornavam-se mais nervosos do que era habitual.

Era o único em pé e já algumas pessoas olhavam para ele duma forma estranha, por isso apressou-se a sentar no seu lugar do costume, mesmo em frente à secretária do professor.

Só agora tinha começado a invejar aquela posição. Dali nada lhe passava despercebido. Conseguia ver o cabelo escorregadio e escuro do professor a roçar no seu rosto, os seus lábios finos a afastarem-se levemente, e aquele corpo encoberto por demasiada roupa, que no entanto não era capaz de afastar o fascínio que sentia ao tê-lo tão perto. Qualquer traço daquela distância não lhe passava despercebido. No entanto, havia algo que nem mesmo os seus colegas mais desatentos deixavam escapar.

Snape tinha a primeira fileira de botões da blusa descaracteristicamente desabotoados, e o seu manto, que costumava estar impecavelmente direito, estava agora todo amarrotado na ponta das mangas.

Dois pares de olhos negros cravaram-se nele mesmo a tempo de o ver suprimir um sorriso. Harry sabia que naquele preciso momento, o professor tentava remexer na sua mente, por isso concentrou-se no pedaço do pescoço exposto numa tentativa de fazê-lo entender.

E resultou.

Merlin! Haviam inclusivo, marcas avermelhadas na pele cor de mármore que Harry nem se lembrava de as ter lá deixado. Mas naquele curto período de tempo tudo tornara-se vontade, desejo e prazer. Não restara espaço para pensar ou avaliar como aquilo poderia afectá-los realmente. Felizmente ele encontrava-se completamente apresentável ou as pessoas podiam começar a somar dois e dois, e por mais egoísta que parecesse ser, não queria que o tempo especial reservado para só eles os dois, acabasse duma forma abrupta, ou pior que eles fossem expulsos do colégio. Afinal de contas tudo isso era contra as regras. Talvez Snape culpasse-lhe por isso mais tarde, já era capaz de o sentir a escorrer, como água entre os seus dedos.

Corou involuntariamente ao ver os dedos longos de Snape debaterem-se com os botões da blusa. Hermione, a seu lado, lançava-lhe um olhar desconfiado, enquanto Ron tentava abafar os risos que insistiam em subir-lhe à boca com as costas da mão, sem dar pelo olhar que a namorada lançava a Harry. Desviou bruscamente os olhos, colando-os no tampo da secretária.

Durante o período inteiro das aulas, recusou-se teimosamente a levantá-los, a não ser quando era absolutamente necessário. Não era capaz de compreender completamente aquela sensação que só aquele homem era capaz de provocar-lhe.

O Mestre de Poções continuou o resto das aulas como se nada se tivesse passado. Foram tirados pontos aos Gryffindor, como sempre, e Ron foi repreendido pelo menos duas vezes, mas Snape nada disse a Harry, o que o deixou de certa forma apreensivo. No fim das aulas fez as suas rondas em volta das secretárias dos alunos, não perdendo a oportunidade de criticar o seu conteúdo. Só Harry passou praticamente despercebido. Consegui-o sentir a presença do vulto escuro atrás de si, abatendo-se sobre ele e devorando-lhe por inteiro, era capaz de recordar quase todas as vezes que encontrara-se naquela mesma posição. Sem dar por isso, prendeu a respiração.

- Bom para variar, Potter – sussurrou Snape, os seus lábios praticamente beijando as madeixas do seu cabelo. - No entanto podias adicionar mais um par de caudas de lagarto vermelho, para tornar a poção mais sólida.

Quando Harry atreveu-se a respirar novamente e a levantar a cabeça, já Snape deslizara entre as secretárias, com o seu manto negro a rasgar o ar.

- A aula acabou – declarou monotonamente. – Deixem os fracos com as vossas poções devidamente etiquetados em cima da minha secretária.

Apesar de Harry estar na fila da frente foi um dos alunos que se demorou mais, lutando com a mala demasiado cheia. Não tivera tempo de arrumar os livros como devia ser hoje de manhã, com tudo o que tinha acontecido.

- Harry, já estás pronto? – perguntou-lhe Ron, apressado por deixar os calaboiços o mais rápido possível e aproveitar os poucos minutos que restavam-lhe para descansar ao sol.

Provavelmente os amigos queriam saber tudo o que tinha passado ontem, a ideia de contar-lhes que abraçara Snape ternamente, e que ele por sua vez pegara-lhe ao colo e levara-o para a sua própria cama para fazerem sexo lentamente, duma forma tão terna e suave já de si só dava-lhe vontade de evitá-los durante um mês inteiro.

Poisou o fraco com a sua poção acabada de fazer sobre o tampo da mesa da secretária, a mesma secretária na qual debruçara-se, não há muito tempo atrás, com o professor a penetrá-lo com estocadas rápidas e fortes.

Corou involuntariamente ao sentir os dedos da mão de Snape estenderem-se para pegarem o seu frasco, acariciando-lhe levemente no processo. Ultimamente parecia não conseguir parar de corar sempre que estava na sua presença.

Os seus olhos cruzaram-se, e por momentos fugazes, teve quase a certeza que Snape era bem capaz de captar a sua essência por inteiro, capturando-a até que só a ele lhe pertencesse. Poderia mais alguém ser tão belo à sua forma? Só ele era capaz de pôr-lhe no estado que se encontrava por tão pouco. O coração saltando-lhe do peito desengonçadamente, e as chamas queimavam-lhe as suas entranhas, aquecendo o sangue das suas veias até inflamarem-nas de emoções mal escondidas. Tremeu involuntariamente.

- Harry. – A voz de Hermione foi como um balde de água fria que fez-lhe despertar para a realidade. Afastou o olhar e caminhou em direcção aos seus colegas.

A voz lenta e arrastada de Snape atravessou a sala, tão fria como o seu dono aparentava ser.

- Potter, não te esqueças de ir ter ao meu gabinete depois de as tuas aulas acabarem, não vou tolerar quaisquer atrasos desnecessários.

- Sim, senhor – respondeu.

Iria mais rápido se soubesse haver alguma promessa escondida por detrás daquelas palavras, mas não detectou nada fora do normal.

Suspirou e saiu da sala de aula com os amigos atrás de si. Hermione estava mais desconfiada do que nunca, se perguntassem-lhe como sabia, não podia responder ao certo. No entanto conhecia a amiga há tempo que chegue para sabê-lo. Talvez fosse mesmo necessário contar uma versão resumida daquilo que se passara ontem. Sem informações que chegue, a ideia que um aluno podia ter desaparecido por uma noite inteira, mesmo a seguir do jantar na qual saíra disparado depois de saber que o professor podia estar ferido, para só voltar a aparecer no dia seguinte, atrasado para sua primeira aula, e acompanhado por Snape, parecia fora do vulgar. E também haviam as marcas no pescoço, a misteriosa rapariga dos Slytherin, já para não falar dos olhares estranhos e dos rubores.

Felizmente não teve de suster um interrogatório pela qual ainda estava mal preparado. Como tinha-lhes dito, ainda tinha de completar a detenção com a Professora Miller, o que se estava a provar ser um grande desafio. Já terminara de lavar todas as casas de banho e pendurar a maioria dos efeitos para o Natal, manualmente, mas ainda haviam uns efeitos adicionais que precisavam de ser elaborados para o baile de Yulle. Tudo isso só por ter descumprido as horas do recolher obrigatório, e ter sido encontrado na Floresta Proibido. Desde aquele dia já tinha voltado à Floresta Proibida fora de horas, mas suspeitava que a Directora perdoara-lhe tendo em conta que estava sobre o efeito de uma maldição imperdoável. Snape de certeza que não tinha apelado em seu favor.


O resto do dia alargou-se demoradamente entre horas preenchidas de aulas e intervalos passados em detenções entediantes. Finalmente, foi um alívio quando a última aula chegou ao fim. Contudo, sabia que desta vez tinha de dizer algo aos seus amigos.

Quando entraram num corredor mais afastado, Ron foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- O quê que se passou ontem? Nunca vi a Miller tão zangada na sua vida.

Harru contou-lhes tudo. Os amigos aguardaram em silêncio sem fazer qualquer interrupção. Apenas quando Harry disse-lhes que tinha de passar a dormir nos aposentos do professor, tendo o cuidado para dizê-lo num tom de voz o mais casual possível, Ron exclamou, surpreendido:

- Pensava que iam-te castigar severamente quando não aparecestes na torre, mas não estava à espera disso. Preferia ter de dormir com os Slytherin do que com o seboso do Snape. Aposto que ele não vai perder a oportunidade para te torturar.

- A mim tudo isso parece-me muito estranho. Quando o Sirius fugiu de Azkaban continuastes a dormir no teu dormitório mesmo depois dele ter entrado na torre dos Gryffindor. O quê que tem de tão diferente desta vez? – A amiga cravou os seus olhos cor de mel no seu rosto, pensativamente.

- Não sei… Que diferença faz? O Snape nunca me vai dizer nada mesmo que eu o tente convencer – disse Harry, abertamente. - A mim parece-me que depois de eu ter derrotado o Voldemort de repente toda a gente começa a interessar-se pelo meu bem-estar – suspirou – gostava muito mais de como era dantes.

- Tens de prometer-me que não vais fazer nenhum disparate – replicou Hermione, seriamente.

- Hermione, o Harry sabe o que fazer. De qualquer forma como esperas que ele se enfie em problemas com o Snape a segui-lo para todo o lado? Vistes como ele o olhava nas aulas de poções? - argumentou Ron, enquanto afastava-se dum aluno escanzelado que devia pertencer ao primeiro ano.

O coração de Harry apertou-se duramente de encontro ao seu peito. Respirou fundo e tentou não soar demasiado importado quando perguntou:

- Como é que ele olhava para mim? Não notei nada de diferente, mas pode ser que ele sinta-se com mais vontade de manter os seus olhos em mim depois de tudo o que aconteceu – tentou justificar-se.

- Não era desta forma, não sei explicar. Era como… se não houvesse mais ninguém na sala para além de ti… Era muito estranho – respondeu Ron. – De qualquer forma não sei como podes estar tão calmo sabendo que vais ter de passar tantas horas com o Snape. A mim mais me parece uma detenção prolongada.

- O Snape não é assim tão mal – objectou Harry, arrependendo-se antes de acabar a frase ao ver o olhar que os amigos o lançavam. Parecia ter sido há muito tempo atrás quando ainda pensava em Snape como um incómodo e um perigo.

- Estás louco? É o ranhoso de quem estamos a falar.

Não é correcto chamar-lhe isso depois da ajuda que nos deu. Se não fosse por ele talvez não tivesse-mos conseguido derrotar o Voldemort – retorquiu, sentindo a sua voz queimar de ácido.

- Ele deu uma pequena ajuda, e daí? Como sabemos que não está a exagerar para ficar com os louros todos?

- Ron, não vamos começar outra vez com isso – interveio Hermione. Depois, virou-se para Harry. – Desde que estejas feliz nós também estamos. Parece-me que estás com melhor aspecto desde ontem. Estavas tão magro e parecia que não comias decentemente há uns bons dias.

Harry virou-lhe a cara com medo que ela lesse-lhe o que se passava no seu pensamento. Ali estavam os seus amigos, preocupados com a sua segurança. enquanto tudo o que dizia não passavam de meias verdades e segredos. Não queria acabar sentindo que não podia confiar em ninguém, mas lá bem dentro de si, sabia que havia limites para a aceitação dos seus amigos. Se conta-se-lhes tudo estava a arriscar o emprego de Snape, e por mais que amasse os amigos não era capaz de prejudicar Snape daquela forma.

- Então Harry… - disse Ron tentando mudar de assunto. – E que tal jogarmos uma partida de Splash explosivo? Há muito tempo que nem sequer falamos e a Hermione é péssima a jogar – acrescentou, lançando um sorriso para Hermione, que nem se dignou a responder.

Finalmente tinha a oportunidade de passar algum tempo com os seus amigos e ser ele próprio, sem receios nem preocupações. Era bom ter Snape a seu lado, mas não queria dispensar os seus amigos por nada deste mundo. Sem eles nunca teria conseguido sair do Ministério da Magia vivo, no seu quinto ano.

- Não posso. – Sentiu-se mal ao dizer isso. – O Snape pediu-me expressamente para ir ter com ele depois das aulas acabarem. E eu não quero vê-lo mais zangado do que o necessário.

- Estás sempre ocupado – queixou-se Ron, aborrecido.

Ginny apareceu a correr no meio do corredor, e acenou na sua direcção, parando apenas para recuperar o fôlego.

- Harry, a Professora Miller precisa da tua ajuda para acabarmos de enfeitar o castelo.

- Ainda?

Aquele castigo estava a alongar-se desde há três semanas e Harry desconfiava que a professora não tinha alunos suficientes para ajudar-lhe a enfeitar o castelo todo, por isso tinha que recorrer aos alunos sobre a forma de castigo. Agora tinha saudades dos castigos de Snape, nem os dele costumavam durar tanto tempo, e por mais aborrecido que às vezes fosse preencher pergaminhos, às vezes ambos encontravam outras formas de punição bem mais interessantes.

- Felizmente não falta muito mais. Se quiseres posso tentar cobrir a tua ausência, mas a Miller não vai ficar lá muito contente.

- Não é preciso – suspirou Harry. Snape havia de compreender, não era realmente sua culpa.

Despediu-se dos amigos rapidamente, prometendo a si mesmo que havia de arranjar mais tempo para passar com eles, obrigando-se a esquecer do facto que tinha feito uma promessa interna semelhante a esta no que dizia respeito a Snape e que ainda não a tinha comprido. Nem era provável que pudesse cumpri-la tão cedo por culpa da Miller.

Quando ele e Ginny chegaram ao patamar de cima da escada rolante, repleta de degraus de pedra, Harry conseguiu reconhecer a voz de Snape a discutir com Miller, num tom de voz que era capaz de se fazer ouvir claramente há distância.

- O Potter ainda tem o seu castigo para cumprir, Snape. Não admito que tentes-me ensinar a gerir os meus alunos da forma mais adequada. Depois de acabar com ele podes levá-lo como quiseres.

- Se achas que perder tempo a enfeitar o castelo com laços coloridos é mais importante do que treinar os alunos para os exames que se aproximam… - cortou Snape, maldosamente. – O Potter precisa de mais estudo se quiser passar nos meus exames e tu sabes que a Directora é desta opinião.

Harry sabia que a referência à directora não tinha nada a ver com disciplinas mas sim com o incidente que tinha acontecido ontem à noite com ele. Miller, como chefe da sua casa, devia estar dentro do assunto daquilo que se tinha passado, no entanto não deu amostras de ceder tão facilmente.

- Julgas que o Potter não está em segurança comigo, no meio destes alunos todos? – sussurrou tão baixo que praticamente nenhum som saiu dos seus lábios. Foi preciso Harry estar praticamente colado a Miller para conseguir discernir o que tinha sido dito.

Finalmente, ambos pareceram dar-se conta da sua presença. Miller voltou-se na sua direcção e Snape cravou os seus dois poços fundos nos seus, absorvendo o redemoinho que passava-lhe pela mente.

- Este vai ser o último dia em que o Potter vai cumprir o teu castigo. A partir daí, estará completamente a meu encargo – disse num tom de voz desapaixonado.

Depois disso, Snape foi-se embora sem dizer mais nada. Miller resmungou entre dentes palavras que não foi capaz de ouvir, e ele não teve remédio se não retomar ao seu trabalho. Alguns alunos olhavam-lhe admirados, como se ele fosse um animal exótico, estava habituado a este tipo de comportamento, por isso não prestou realmente atenção. Dentro em breve provavelmente a escola inteira saberia do ocorrido. De qualquer forma, Miller provavelmente não o ia obrigar a o manter no castigo durante demasiado tempo.

Estava errado.

Faltavam poucos minutos para a hora de recolher e Harry ainda tinha que ir buscar alguns manuais que o Dobby deixara ficar para trás na torre dos Gryffindor. Demorou mais do que o esperado a achar tudo, Ron tinha levado o seu manual de Transfiguração emprestado e o manual de História da Magia tinha desaparecido completamente. Foi preciso bastante tempo para encontrar tudo e sair da sala comum a correr.

Tudo estava a correr contra o planeado. A esta hora Snape provavelmente devia estar furioso com a sua ausência, e seria incapaz de perder a oportunidade de tirar pontos pelo seu atraso. Porque não podia tudo correr bem uma vez na vida? Só queria passar tempo com Snape, ouvir a sua voz melodiosa sibilar no seu ouvido, áspera e ao mesmo tempo suave como o roçar duma pena.

Não tinha o manto da invisibilidade consigo, por isso teve que apreçar-se. Contornou uma esquina rapidamente, os pés mal tocando no chão para tentar abafar o som dos seus próprios passos, até que ouviu um barulho leve de passos atrás de si. Virou-se instantaneamente na sua direcção, e tentou perscrutar no meio do escuro.

Uma pequena sombra projectava-se até quase tocar nos seus sapatos, lambida pelo reflexo das chamas que os archotes desenhavam no chão. Ficou por momentos a olhar para Mrs. Norris. A gata retribuía-lhe o olhar com os seus grandes olhos em chamas. Uma pelagem escura e seca esticada sobre os seus ossos proeminentes cobria-lhe o corpo.

O barulho que tinha ouvido não podia ter sido feito pela gata. Era demasiado leve e sossegada para que fosse facilmente ouvida. E Harry sabia que isso devia significar apenas uma coisa: o odioso felino devia ter chamado Filch. Que espécie de comunicação tinham, nunca fora capaz de descobrir, no entanto toda a gente sabia que onde Mrs. Norris estava Filch não tardava a aparecer.

"Logo no dia em que não posso servir-me da minha capa…", pensou. Virou por um corredor à esquerda, sentindo a gata a seguir-lhe atrás de si, e escondeu-se atrás duma estátua dum cavaleiro montado num Pégaso.

- Vai-te embora, gata estúpida! – murmurou, sentindo-se cada vez mais aflito.

Tudo isso era, de alguma forma, reminiscente. Já tinha dezoito anos, mesmo assim continuava a deambular pelo castelo à noite, esquivando-se de Filch e duma lista infindável de castigos, percorrendo passagens secretas que só poucos antes dele tinham experimentado, e quase todos estavam mortos. James, Sirius, Lupin… e até mesmo Voldemort. Só ele, e talvez Gorge, tinham restado com todos aqueles segredos incontáveis. Outros viriam depois descobrir o que fora apagado pelas areias do tempo.

Barulhos de passos ecoaram no corredor de pedra. Apertou o seu corpo de encontro à estátua fria e deixou-se ficar imóvel. No silêncio da noite até um ténue barulho podia ser facilmente ouvido.

- Minha doçura! – exclamou a voz rouca de Filch – É outra vez o maldito do poltergeist a tramar das suas ou algum daqueles alunos pestilentos a descumprir as regras?

A gata não respondeu, mas nem precisava. Bastava Filch caminhar mais uns passos para encontrá-lo escondido atrás da estátua. A ideia apenas contribuiu para aumentar-lhe o temor, que encontrava uma forma de sair do seu imaginário, para contorcer as suas entranhas e amarrá-las num nó grosso e apertado. Fechou instintivamente os olhos e susteve a respiração em antecipação.

- Que se passa, Filch? – Ao ouvir aquela voz arrastada, Harry ficou paralisado automaticamente, sentindo-se incapaz de deixar o ar fluir pela sua boca até os seus pulmões queimarem-lhe, pedindo por mais ar. Snape. O mais provável é que tivesse ido à sua procura.

- Senhor professor, venha ver aquilo que encontrei. Um dos estudantes voltou a sair do seu dormitório à noite. Desde do início deste ano nenhum teve o descaramento de tentar sair dos seus dormitórios. Se a Directora autorizasse tortura…

Snape deixou que um estranho silêncio prolongasse-se em seu redor, até que por fim, perguntou rispidamente:

- O quê que dissestes?

As sombras adensavam-se, alheias à protecção que proporcionavam-lhe. Harry atreveu-se a inclinar-se levemente de forma a puder espreitar pela estátua. Era desconfortante estar encoberto no meio do escuro, sem nem ao menos poder distinguir os vultos que falavam. Havia qualquer coisa de incomum em Snape, e Harry queria averiguar servindo-se dos seus olhos.

- Que os castigos corporais…

- Não essa parte. O que estavas a dizer antes.

- Que isso nunca aconteceu este ano.

Por momentos, Snape pareceu demonstrar uma atenção fora do vulgar, mas abandonou-a rapidamente, começando a varrer o corredor em busca da sua presença. Escolheu-se ainda mais de encontro há estátua, sem dar importância à dor provocada pelos seus membros atrofiados, que chicoteava-lhe as pernas e as costas.

O Mestre de Poções deixou-se ficar quieto, novamente, durante alguns segundos, por fim disse:

- Vai-te embora, eu trato disso.

- Mas Senhor, o meu trabalho…

Snape cortou-lhe as palavras rispidamente. – Sei muito bem qual é o teu trabalho – retorquiu desapaixonadamente. - Volta para os teus aposentos.

Filch devia ter cumprido o que Snape dissera-lhe, pois Harry era capaz de ouvir os seus passos a afastarem-se relutantemente. A gata demorou mais alguns segundos, fixando-o atentamente duma forma desconcertante, sem compreender porquê que o dono deixara escapar uma presa tão óbvia. Por fim, também ela foi-se embora, a correr agilmente à procura do funcionário.

A sensação de alívio não demorou muito tempo. Uma mão forte agarrou-lhe pelo pulso e arrastou-o para fora do seu esconderijo, em direcção às luzes dos archotes. Sentiu-se estranhamente vulnerável, com os olhos a lacrimejarem perante aquela luz toda.

- Olá… - cumprimentou Harry, desconfortavelmente preso pelo braço.

- Potter- chamou-lhe Snape, como que a provar o gosto do seu nome de encontro à sua língua. – Eu disse-te que tinhas de estar no meu gabinete depois das aulas terminarem. Não estou a perder o meu tempo contigo para que morras.

- Mas…

- Tinhas detenção, no entanto devias ter ido ter comigo depois de acabar. Precisas sempre de arranjar uma forma de descumprir as regras – disse, com a boca rasgada num esgar maldoso. -, mas comigo não vai ser assim Potter, previno-te que vou fazer com que cumpras o protocolo duma forma ou de outra. Nunca é tarde para aprenderes uma lição. Talvez se o teu querido pai tivesse tido professores mais exigentes, ainda tivesse ido a tempo.

Harry tentou soltar o seu braço do aperto de Snape, mas tudo o que conseguiu foi fazer com que ele piora-se.

Não. Snape era como uma rosa, bela mas com espinhos capaz de cortar. Não podia deixar que ele provocasse-lhe daquela forma. O professor era muito volátil, e estava sempre a pô-lo à prova, cuspindo palavras de ódio só com o propósito de humilhá-lo e testá-lo. Retaliar era isso que ele acreditava, e esperava, mas ele não ia fazê-lo. Apesar de amar o seu pai, era capaz de compreender o rancor que ele guardava por ele, depois de todos aqueles anos de solidão e maltrato. Iria aceitar Snape, a lâmina afiada e o quadro pintado em traços de intimidade. Ambos os lados eram Snape, aquele que ele mais queria.

- A Professora Miller só me deixou sair a esta hora.

Snape revirou os olhos e franziu o sobrecenho, o semblante carregado.

- Agora? Depois da hora de recolher?

- ... Há quinze minutos, mas tinha coisas para ir buscar ao dormitório – acrescentou Harry, negando-se a deixar dominar pelo medo.

- Nesse caso devias ter ido durante os intervalos.

Snape arrastou-o pelos corredores, conduzindo-o até às escadas que davam para as masmorras, sem nunca largar-lhe por um momento, como se tivesse medo que ele fugisse.

- Bem… eu estive todos os intervalos em detenção e…

- Basta! Vais fazer como eu ordenar-te! – rosnou depreciativamente.

Snape estacou, e Harry, incapaz de travar a tempo, esbarrou com o corpo do homem mais alto, segurando-se no seu tronco firme em busca de apoio. Embaraçado, escondeu a cabeça de encontro ao seu peito, inspirando o seu cheiro peculiar a poções acabadas de fazer, à medida que brincava com o tecido da roupa, fazendo trajectos circulares com a ponta dos dedos numa tentativa de afastar a sua mente de caminhos demasiado perigosos.

- Desculpa… - murmurou Harry apressadamente, levantando a cabeça para olhar para o rosto magro do professor.

Snape estendeu a sua mão automaticamente para Harry, afastando umas madeixas de cabelo rebeldes que insistiam em cair para a frente dos seus olhos.

- Não faz mal… - admitiu quase silenciosamente. – Vamos, Potter. – Afastou-se rapidamente, como se tivesse queimado ao tocar na sua pele, e Harry seguiu ainda com o seu coração a palpitar apressadamente, algo que acontecia frequentemente ultimamente, sempre que entrava em contacto com ele.

Quando chegaram ao escritório, Snape disse:

- Não te quero ver mais ao pé dela.

Harry não soube o que responder a isso, e por momentos olhou-o atrapalhadamente. Snape devia tê-lo visto acompanhado de Ginny, na detenção. No entanto não havia qualquer motivo perfeitamente razoável para pedir-lhe uma coisa destas. Ele tinha o direito de falar com quem quisesse, a sua vida já tinha sido controlada durante muito tempo por outras pessoas, algumas delas com melhores intenções do que Snape. Tinha dezoito anos, não tinha?

- Ginny?

- Ela e qualquer pessoa – retorquiu seriamente. - Preciso que me entendas o quão perigoso é andares fora da sala de aula sem seres supervisionado. Julguei que, mesmo sabendo o quanto indomável e imprevisível eras, seria capaz de controlar-te adequadamente, mas agora duvido. Por isso mesmo preciso que sejas capaz de entender por ti mesmo.

- Porquê que te importas tanto? – perguntou Harry, mais venenosamente do que tencionara. – Sempre soube tomar conta de mim todos esses anos, agora não é diferente. Quando o Voldemort matou-me, na Floresta Proibida, tive mais medo do que alguma vez na minha vida – confessou -, mas quando voltei, mesmo quando lutei com o Voldemort, não fui capaz de encontrar uma gota de medo que restasse-me. Foi horrível, demorei muito tempo a esquecer esta sensação, e a única coisa que fez-me continuar foi saber que tu estavas ferido, mas vivo. Se podias recuperar, pensei, então eu também podia. Não sou tão pretensioso que finja que depois disso nunca mais senti medo, senti-o na Floresta Proibida, mas não vou deixar que ele controle-me como daquela vez. Ninguém pode ser tão mal como Voldemort.

- És dotado para o melodramatismo excessivo e para as teorias de grandiosidade. A culpa é do Dumbledore por ter-te alimentado estas ideias de importância fantasiosa – cuspiu impiedosamente. - Não morrestes, ficastes apenas momentaneamente inconsciente devido aos efeitos do Avada Kedavra – corrigiu Snape monocordicamente. - Apenas o Senhor da Morte foi capaz de prolongar a sua vida através de magias ocultas a ponto de tornar-se quase imortal, e até ele foi capaz de morrer. Servis-te o teu propósito demasiado bem, mas não te iludas, se não fosses o verdadeiro dono do Pau da Morte nunca o terias derrotado.

- Talvez não tenha morrido, mas também não estava vivo – retorquiu Harry, ignorando o resto.

Não importava o que dissessem-lhe, sabia que não tinha sido um sonho. A estação de comboios pareceu-lhe demasia real, e tudo o que o antigo Director o dissera era mais do que o seu subconsciente falando consigo mesmo.

O Mestre de Poções não respondeu-lhe nada, limitou-se a caminhar até ao quarto adjacente e a voltar com um livro de capa dura entre os dedos. Posou-o suavemente nos braços do sofá, que ficava virado para a lareira, e abriu um dos armários coladas à parede, retirando uma garrava de Uísque do Fogo e um copo de cristal transparente na qual verteu o seu conteúdo. Era da cor de diamantes embebidos em sangue, quentes como fogo líquido entornado pela garganta a baixo. Harry ainda lembrava-se da sensação de ardor causada pelo álcool, uma vez que Bill fizera um brinde em memória de Moody quando ainda faltavam alguns dias para Harry atingir a maioridade.

Observou Snape a beber o líquido enquanto olhava, hipnotizado, para as labaredas de fogo, a única fonte de calor naquela sala.

- Ainda é cedo – sentenciou Harry. – Podíamos conversar um pouco.

Obrigou-se a manter o seu tom de voz calmo e reflectido, sem dar amostras de nervosismo.

- Não incomodes-me, Potter. Se queres fazer algo de útil com o teu tempo, para variar, sugiro que aproveites para pôr a matéria em dia.

Harry suspirou inadvertidamente, sem deixar que as palavras duras como pedras magoassem-lhe, e sentou-se na cadeira em frente à secretária de Snape, determinado em fazer tudo adequadamente para que ainda restasse tempo mais tarde. Pela sua experiencia, contrariar Snape era um antídoto pior que o veneno. Nunca levava a lado nenhum, e de qualquer forma, o homem sempre ganhava os jogos que jogava.

Começou a estudar, contrariado, mas era difícil concentrar-se adequadamente com Snape ali tão perto, ao alcance da sua voz. Eventualmente, conseguiu arrastar a sua cabeça na direcção das letras à sua frente, acabar de ler as últimas páginas do capítulo de Poções e começar com outra disciplina.

Já tinham passados vinte e poucos minutos quando a voz de Snape redobrou no silêncio.

- O Qilin é encontrado nos países da Ásia de leste. Sobretudo na China, Coreia, Japão e Vietname - Harry conteve-se para não dar um salto, ao aperceber-se que o professor estava mesmo atrás de si, curvado sobre a sua cadeira, com os lábios a uns centímetros do seu lóbulo esquerdo.

- Certo…

Snape sentou-se à sua frente na secretária, abandonando o livro e o copo vazio do outro lado da sala, e ocupou-se a corrigir exames de Poções. Do antigo ângulo em que estava, não era capaz de ver adequadamente a sua figura esguia. Agora, a menos dum metro de distância, tudo fazia-lhe lembrar o professor. Não era capaz de concentrar-se em mais nada para além do calor doce do corpo à sua frente, que parecia-lhe querer atrair na sua direcção. Tudo não passava da sua imaginação. O corpo de Snape era perpetuamente gelado, à secção das alturas em que ligava-se ao seu, e à semelhança dum objecto, ele mesmo era capaz de transmitir-lhe o seu próprio calor a ele. Gostava de pensar que era capaz de passar-lhe muito mais do que meras sensações corporais, mas não sabia se era verdade.

Afastou os olhos do manual, determinado a manter uma conversa civilizada com Snape nem que seja por dez minutos, e reparou que ele escrevinhava habilmente, com o movimento directo do punho, cruzes a vermelho sobre as perguntas do teste. O enunciado tinha o nome do Neville, e Harry sentiu-se secretamente contente por não ser o seu.

- Espero que o meu teste não seja tão mal… - disse inadvertidamente em voz alta.

Snape levantou os olhos da papelada.

- Sempre a julgares-te superior aos outros, os comuns dos mortais.

- Não era isso que eu queria dizer – recomeçou, vacilando. Decidiu-se a mudar de assunto. Era sempre tão difícil fazer Snape baixar todas as suas reservas.

- Sabes porquê que o Neville decidiu voltar este ano? – perguntou.

- O Lomgbottom voltou a pedido da sua avô, devido ao ano passado ter sido demasiado turbulento. Como não estavas para fazer figura, o teu amigo viu-se na responsabilidade de fazer estragos e causar problemas, sem dúvida em tua memória. Passou os últimos messes escondido do pessoal docente – disse Snape, a sua voz um sopro de gelo.

- Dois dos professores eram Devoradores da Morte – proferiu Harry após um momento, esquecendo-se de mencionar que os alunos também julgavam que ele estava do lado de Voldemort. - Estavas à espera que os alunos não fizessem nada?

- Esperava que agissem responsavelmente – respondeu Snape calmamente. – Deixar mensagens na parede e comportarem-se mal apenas serviu para pior a situação. Os alunos devem saber quando não lhes compete interferir.

- O Neville deu esperança aos outros alunos. Disse-me que ser torturado e ter de se esconder na Sala das Necessidades foi um pequeno preço a pagar. Eu chamo a isso coragem.

- Ser corajoso nem sempre é o mesmo que ser sensato.

De repente, uma ideia formou-se na sua cabeça.

- Sabias que os alunos escondiam-se na Sala das Necessidades? – perguntou Harry, sabendo a resposta antes que ele a desse. Snape fora capaz de deduzir várias vezes que Harry deambulava à noite pelos corredores vazios do castelo, com o manto invisível, e também desconfiara da passagem secreta que Harry utilizou uma vez para visitar às escondidas Hogmead, já para não falar do Mapa Salteador.

- Inicialmente não – confessou Snape, posando a pena no tinteiro. - No entanto, vários alunos eram comummente encontrados numa determinada zona do castelo, e acabei por assumir que serviam-se da Sala das Necessidades para se esconder.

Sentiu uma pontada de pena e remorsos pelo homem à sua frente. Tinha protegido os alunos o melhor que pudera, escondendo a informação que não necessitava de relatar, manipulando Voldemort inteligentemente, servindo-se de toda a extensão do tabuleiro de xadrez, para fazer mover as suas peças com antecipação. Harry gostava de tê-lo visto jogar contra Dumbledore.

Continuava a ser um dos professores mais detestado da escola tudo porque lutara sempre por de trás duma máscara. Deviam haver mais pessoas que recordassem o seu nome com admiração, assim como ele fazia. Não era só útil agarrar numa varinha e lutar, os alunos do último ano que ficaram para trás foram corajosos em o fazer, mas Snape já lutava aquela batalha, assim como ele, há muito tempo. Desde que a sua mãe recusara-se a sair da frente do seu berço, onde um bebé chorava, pressentindo o cheiro a morte que precedia Voldemort, como uma nuvem negra a pairar no ar.

- E tu Potter? Porquê que voltastes? – perguntou Snape, sem nunca retirar os seus olhos do rosto à sua frente, como se o quisesse ler, até ao mais ínfimo recanto que pudesse-lhe estar vedado.

- A Hermione insistiu comigo e com o Ron que se queríamos ser Aurors verdadeiros deveríamos completar os nossos estudos – disse sinceramente, mas ao ver Snape premir os lábios até formar uma linha fina em sinal de desaprovação evidente, não pode deixar de acrescentar: - E também havia algo que eu queria provar…

- A sério? – disse Snape secamente, sem demonstrar quais queres sinais de interesso.

- Depois de ficares ferido… eu soube que estavas a recuperar, e que ias voltar a dar aulas de poções, então julguei… que depois de tudo o que aconteceu havia a hipótese de nós pudesse-mos começar a dar bem. Havia muita coisa acerca de ti que eu não podia fingir que compreendia completamente, mas também penso que depois de ver as tuas memórias fui capaz de entender-te melhor. É estranho, não é? – Snape franziu o cenho, no entanto, não disse nada. – Como às vezes é preciso alguém estar à beira da morte para percebermos o quanto gostávamos desta pessoas e quanto tempo desperdiçamos.

- Não esperava outra coisa de ti, Potter. Nunca me parecestes ser o tipo de pessoa que fosse capaz de compreender que a escola serve para estudar – replicou Snape geladamente.

- Pelo menos sou sincero com os meus sentimentos! – alvitrou, ofendido.

Snape fulminou-o instantaneamente, do outro lado da secretária, pegando novamente na pena para recomeçar a corrigir os testes.

Aquilo não estava a correr como desejara, mesmo assim decidiu não desistir. Havia uma linha que não podia atravessar, sobe pena de ver Snape soltar a sua raiva perante ele. Nos últimos messes começara a ser capaz de reconhecer os sinais óbvios de quando estava quase a ultrapassar o seu limite. A tenção muscular, a flexão do maxilar inferior e a expressão do seu rosto que tornava-se mais vazia que nunca serviam como avisos prévios.

Passado uns minutos, começou:

- Snape… podia servir-me duma bebida.

- Uísque do Fogo? – perguntou ironicamente.

Detestava como ele era capaz de deturpar todas as suas palavras e ainda assim não deixava de amar cada som que a sua voz arrastada emitia. Se tivessem-lhe perguntado há alguns anos diria que era irritante, hoje não conseguia parar de corar, a garganta tornando-se mais seca. Engoliu com dificuldade.

- Sim, já sou maior de idade.

- Impressionante! Nunca tinha notado que não estava a dormir com um menor – zombou sem o mais pequeno vestígio de calor na sua voz. – Terei de te fazer ler as regras do protocolo?

Tentou conter as palavras que foram-lhe à mente sem muito resultado. Uma chama brotou no seu coração, fazendo-lhe dobrar os dedos sobre a superfície de madeira da sua varinha, que encontrava-se dentro do bolso das calças.

- Nunca me parecestes muito importado com as regras quando me fodestes – vociferou.

- Chega! Não te dei autorização para falares assim comigo. – bradou Snape perigosamente. Aquele era o tipo de olhar que lançava a alguém quando queria pôr termo a uma conversa, e geralmente resultava. A maioria das pessoas sentiam-se demasiado intimidadas para retorquir. – Estou ocupado e não tenho tempo a perder contigo, continua a estudar.

Demorou uns minutos a lutar contra os seu instinto de amaldiçoá-lo, e voltou-se a sentar na cadeira, contrariado, ao aperceber-se que estava de pé.

Tinha feito figura de parvo, Snape não tinha a menor intenção de interagir com ele nem que fosse por apenas uns minutos. Pensou se ele seria um inconveniente para ele, pelo menos o professor agia como tal. Como em tudo, servira-se dele para ter sexo e ignorava-o quando não necessitava de mais. Talvez um dia até fartasse-se dele e dos seus argumentos constantes. Era tão difícil agradá-lo completamente, para ser sincero não sabia o quê que ele queria, nem gostava da ideia de ser moldado como um metal até atingir uma forma apreciável. No entanto, sabia que estava a ser injusto, o professor nunca prometera-lhe nada, desde o início sempre fora apenas sexo e nada mais. Ao pensar nisso o seu coração apertou-se de encontro ao peito até deixá-lo com dificuldade em respirar.

- Posso ao menos fazer uma última pergunta? – Harry quebrou o silêncio.

- Desde que sejas rápido – respondeu Snape, agora indiferentemente, sem tirar os seus olhos dos exames à sua frente.

- Estamos quase no Natal e eu gostava de saber o quê que estás interessado em receber.

Os lábios de Snape crisparam involuntariamente num esgar ameaçador, era a única parte do seu rosto que não se encontrava inexpressiva. Harry apressou-se a acrescentar:

- Eu sei que não é costume dos alunos oferecer prendas aos professores, mesmo assim salvaste-me a vida vezes que eu não posso contar, por isso eu sinto que seria injusto se eu não te desse nada.

Não era de todo a verdade, mas sabia o quanto ele era teimoso. Se fizesse o presente passar por apenas um sinal de gratidão talvez conseguisse convence-lo a aceitá-lo, e com o tempo podia acabar por familiarizar-se com aqueles pequenos sinais de apreciação. Dumbledore dera-lhe o manto da invisibilidade, embora tivesse a devolvê-lo mais do que a dá-lo, também era considerado um presente.

- Eu não tenho qualquer interesso em celebrar um feriado ridículo nem a ter de devolver presentes indesejados, por isso prefiro que não me dêem nada.

- Oh! – exclamou desanimado. Magoava mais do que ele queria acreditar, ainda assim não ia desistir. "Vou fazer-te desejar-me", pensou.


- Potter! – chamou Snape, a voz distante ressoando através das camadas finas do seu subconsciente. Remexeu-se, tentando afastar para longe o som daquela voz, que era semelhante a vidro frio a cortar-lhe a pele, ameaçando demolir a sua coluna de sonhos, como cartas de um baralho precariamente emparelhadas, tremendo ao vento. - Elucida-me, estudar no teu vocabulário quer dizer dormir? - perguntou num tom sarcástico.

Focou os olhos no homem à sua frente, reprimindo um bochecho. O relógio indicava que tinha passado menos de meia hora desde que adormecera.

- Cada vez mais passar a noite nos teus aposentos faz-me lembrar um castigo – alvitrou Harry, à procura de desculpas.

- Eu disse-te que eu não ia facilitar-te a vida o tempo que passasses cá. Isso não é a casa de nenhum dos teus amigos. Precisas de aprender disciplina adequadamente.

Harry achava que toda a sua infância passada na casa dos seus tios não passara de um exercício de disciplina e auto-controlo. Era deprimente que embora o professor já tivesse admitido que ele não era assim tão parecido com o pai, comportava-se como se achasse que ele era incapaz de cumprir as regras básicas. Que culpa tinha ele de haver sempre bons motivos para descumpri-las? Como quando a Câmara dos Segredos fora aberta ou quando o Hagrid necessitava mesmo dele. De qualquer forma, só havia uma ordem que dava-lhe vontade de obedecer incondicionalmente.

Corou involuntariamente, reprimindo os seus pensamentos que caminhavam em direcções perigosas. Hoje não era uma boa altura para ficar excitado. Snape estava a menos dum metro de distância, e era capaz de entrar dentro da sua mente tão rápido como uma porta destrancada, aberta a visitas.

- Levanta-te – ordenou rispidamente. – Vamos treinar Oclumância.

Obedeceu sem hesitar, consciente do quanto queria agradar Snape, deixando-se ficar imóvel, a uns passos de distância. Snape tirou a sua varinha para fora do bolso e fê-la deslizar suavemente entre os seus dedos, apontando-a na sua direcção.

Já praticavam Oclumância há algumas semanas, e Harry tinha vindo a melhorar, ainda que lentamente. Mesmo assim nunca fora capaz de aparar completamente as intrusões do professor, que cortavam a sua mente em pequenos pedaços, devorando a informação mais preciosa, e expondo memórias que preferia que ficassem enterradas. Era um livro aberto, todas as memórias que esforçava-se para enterrar nas profundezas do seu subconsciente flutuavam ao de cima. Expor-se daquela forma só podia ser comparável à sensação de estar nú e ser invadido por o olhar penetrante.

- Quando eu contar até três – avisou Snape. – Um… dois… três… Legilimens!

Tudo aconteceu rápido demais, não dando tempo para ele amuralhar devidamente a sua mente. Toda a luz, reflectida pelas chamas da lareira, evaporou-se em seu redor, a escuridão ocupando-se do seu lugar, estendendo-se até fora do seu campo de visão.

Um rapaz, envolto num clamor de vozes quentes e risos, que erguiam-se bem lá no alto, obrigava-se a sorrir para os seus colegas que olhavam-no com respeito, e afastava-se o mais que a sua boa educação o permitia, tentando esconder o desespero que ameaçava explodir para fora de si. Tinha de caminhar, não podia parar de caminhar. Já não faltava muito, mais uns passos e podia chegar à enfermaria. Snape era resistente, quase imortal, ele não ia permitir que morresse. Ainda assim, sabia, nas profundezas do seu ser, que não havia nada que pudesse fazer. Quantas pessoas vira a morrer, à sua frente, sem as poder salvar? Quantas pessoas, os tentáculos da morte chegara bruscamente, e roubara de si, no auge da sua vida?

Não…

Estava perdido dentro de si mesmo, retraído num labirinto de memórias amargas que devoravam-no por inteiro. Queria esconder-se fora dali, onde pode-se ser sem sentir dor.

Não…

Mãos exploravam-no, violavam por inteiro a sua privacidade, o seu direito a ser único e intrínseco, sem ter de suportar olhos que analisavam os seus mais ínfimos recantos.

Não…

Tremeu, incapaz de suportar aquela sensação por muito mais tempo. Esquecera-se à muito de quem estava à sua frente, e se em tempos achara cansativo a resistência a invasões deste género, agora achava insuportável a ideia de permanecer quieto, aceitando que vasculhassem nas suas recordações. Agarrou instintivamente na sua varinha, agindo sobre a influência do instinto e apontou-a em frente, na direcção onde julgou que o intruso devia estar.

- Legilimens!

Finalmente os tentáculos que premiam a sua mente deram-lhe descanso, escorregando para for do seu alcance, a sensação de pressão quase asfixiante sendo substituídas por uma sensação de controlo absoluto.

Imagens nítidas apareceram diante de si num vaivém recorrente, eram sinais daquilo que tinha tornado Snape no homem que era. Fotografias guardadas num armário empoeirado, aparentemente esquecidas sem nunca poderem se desvanecer completamente. Porque esquecer é uma bênção que poucos alcançam.

Absorveu-as ansiosamente, mas nenhuma deu-lhe tanto prazer como a última…

Snape introduziu a mão dentro das cuecas. Minutos passaram-se desde que o Potter saíra daquela sala, no entanto, sentia a sua ausência como se anos se tivessem passado. Era incapaz de esquecê-lo, e isso atormentava-o mais do que era capaz de admitir.

Em breve, o seu pénis já se tinha tornado animado, enquanto os seus dedos massajavam vigorosamente a sua superfície dura, uma parte de si que não se atrevera a tocar há já algum tempo. Mas ainda assim não era capaz de esquecê-lo, algumas batalhas podiam ter sido ganhas, mas a guerra tinha sido perdida. Quando uma cabeça era cortada, outra erguia-se, tamanho era o seu desejo por tê-lo ali, a seu lado. Nos seus sonhos, a mão que lhe tocava já não era mais fria, os seus dedos também não eram tão longos nem brancos, pertenciam a uma pessoa inteiramente diferente. Pertenciam ao Potter.

- Potter – grunhiu, evocando o nome que prometera nunca pronunciar em voz alta numa situação como aquela.

"Que se passava comigo?" Como queria dilacerar aquele rapaz intrometido, afastá-lo de tal forma que ele não pudesse encontrar o caminho de regresso até ele.

Todas as portas antes abertas, fecharam-se à sua frente. Esbarrou de encontro a uma forte barreira e viu-se obrigado a abandonar a sua mente.

Alguns segundos passaram-se, Harry lutou para normalizar a respiração e para pôr-se de pé, apercebendo-se que tinha caído de joelhos, os pés doíam-lhe levemente de ter estado naquela posição desconfortável.

- Eu não sabia que tu também pensavas em mim enquanto tocavas-te… - Conteve-se antes que começa-se a saltar animadamente, embora não tivesse conseguido suprimir um sorriso que assomou-lhe os lábios, iluminando todo o seu rosto.

- Proíbo-te de continuares esta conversa! – avisou Snape.

Onde antes uma janela estivera fechada, bloqueando a entrada da luz, agora havia claridade, que alargava a sua capacidade de compreensão, expondo uma parte de Snape que ele não conhecia.

- Se eu soubesse antes…

- Não digas mais nada! – O sangue tinha fugido do rosto de Snape, deixando-o mais pálido que nunca.

Finalmente, Harry percebeu o quanto Snape se sentia desconfortável nesta situação. Por isso, e para não atear mais a sua raiva, decidiu progredir com cautela. Era engraçado como a ideia de saber, activamente, o quanto Snape o desejava, era capaz de o deixar tonto de euforia, enquanto empurrava o Mestre de Poções para um estado de raiva e inibição.

Ia dar-lhe uma parte de si como um presente de confiança, decidiu. Uma parte grande o suficiente para fazer com que o seu coração, congelado há muito, derretesse-se.

- Não me vou calar – disse Harry suavemente. – Vais ouvir-me, Severus, ou então vais ter de me pedir para sair. – Snape tremeu ao ouvi-lo pronunciar o seu primeiro nome. – Eu não posso continuar desta forma, escondendo o que sinto por ti, como se fosse algo de errado. Eu… compreendo que não me aceites, mas ainda assim… quero que saibas que eu amo-te – confessou Harry, fazendo os possíveis para não desviar o olhar.

-Poupa-me as tuas declarações de amor! Amar-me é um erro, Potter. Podes ser expulso se vir-se a descobrir que temos qualquer tipo de relacionamento para além do de professor aluno. Se queres perder o teu tempo com tais sentimentos infrutíferos gasta-os ao menos em alguém do teu clube de fãs, tenho a certeza que há tolos mais do que suficiente para fazerem uma fila só para passar algum tempo com o Escolhido – trovejou Snape geladamente. A sua voz densa e arrastada só se tinha elevado ligeiramente, em sinal de aborrecimento. No entanto, era mais do que suficiente para fazerem-no parecer intimidador.

As palavras dilaceravam-lhe o coração, ainda assim não fez caso. Não ia deixar que ele o magoasse. Sabia que percorria gelo quebradiço, e que precisava de agir o mais calmamente possível se não desejava que a sua raiva aumentasse.

- O amor não escolhe quem, e mesmo que escolhesse-se eu escolhia-te a ti. Porquê que julgas que eu salvei-te a vida quando tinhas sido ferido pela Nagini? O Ron e a Hermione disseram-me para deixar-te morrer, eras o nosso inimigo e tinhas morto o Dumbledore, mesmo assim eu não fui capaz de fazê-lo. Eu sei que sabes lidar com as situações bem sozinho, mas eu preocupo-me muito contigo. – Aproximou-se de Snape como quem aproxima-se dum animal feroz, e com suavidade pegou-lhe nas mãos, o seu calor apagando os sinais de frio. – Se aceitasses-me podias-me ensinar muita coisa, - sussurrou, – e eu podia mostrar-te como amar.

- E tu pensas que eu importo-me com o teu amor, Potter? Talvez algum dia ainda sejas capaz de me ensinar algo de relevante, mas terás que trabalhar para isso. – As veias na sua têmpora pulsavam. – Obviamente que julgas ser capaz de exercer fascínio sobre todas as pessoas que encontras. Receio desiludir-te, – humilhou-o, com a ponta dum sorriso zombeteiro a crescer-lhe nos lábios - mas não passas dum rapaz mimado, com a auto-estima demasiado elevada, e com um gosto fora do normal para arranjar problemas. - Com um movimento brusco, Snape afastou a suas mãos das suas e distanciou-se rapidamente, até estar no canto da sala diametralmente oposto.

Harry respirou fundo e deixou que as palavras de Snape fluíssem pela sua mente e atingissem-no. Era forte, não ia ser umas palavras duras que iam fazer com que as suas convicções desmoronassem. Snape queria fazê-lo retrair para dentro de si, para longe de toda aquela tempestade, e por mais que a ideia fosse tentadora, sabia também que se agarra-se demasiado a todas aquelas sensações de tristeza e inadequabilidade, era capaz de perder. E o amor que sentia por ele fazia-o desejar lutar com cada vez mais força.

- Se não me amas então porquê que salvastes-me a vida, transportastes-me nos teus braços, e deixastes-me dormir na tua cama? Ou é suposto que eu acredite que… - Tirou os óculos e limpou-os, enquanto tentava decifrar o rumo das suas palavras. – Esquece.

A sala de repente tornou-se bem mais quente. O ar quase que resplandecia com a energia obscura de Snape, circundando em seu redor e ocupando-se de cada recanto. Tudo ali sabia a depressão e raiva.

A animal selvagem em Snape saiu cá para fora.

- Só serves para seres fodido, Potter… - rosnou, as suas palavras derramando veneno. – Desconfio que tu próprio já te tenhas apercebido. Passas o dia colado a mim, pedindo por mais, como um cão abandonado. Não quero que fiques sobre a ilusões quanto a isso, serves-me enquanto eu o desejar, quando eu aborrecer-me de ti terás de te afastar de mim, ou eu vou fazer-te pagares por isso – Snape provocou-lhe.

Os seus olhos tornaram-se marejados de lágrimas, ainda assim conteve-se perante o olhar impassível de Snape.

- Então olha-me nos olhos e diz-me que não me amas – demandou Harry.

Aguardou alguns minutos, o estômago contraído de forma dolorosa. Quando os lábios de Snape se comprimiram-se num esgar medonho, e os olhos dilaceraram-lhe perigosamente, como alfinetes fixados dolorosamente, fez os possíveis para não parecer assustado. Eram as únicas partes do rosto que demonstravam emoção. Parecia que os restos dos seus traços expressivos tinham sido apagados com uma borracha.

Mais do que uma vez parecia evidente que Snape ia dizer alguma coisa. Chegou mesmo a abrir os lábios, mas voltou a fechá-los rapidamente. Harry susteve o olhar sem o desfiar, enfrentando-o o mais que podia, há sua forma teimosa. Não era capaz de aguentar impassível na ignorância, sem saber o quê que ele realmente sentia por si. Quanto mais cedo soubesse mais tempo tinha para passar com ele, ou para sarar as suas feridas, se fosse confirmado os seus temores.

Com uma rapidez impressionante, Snape lançou a sua capaz negra sobre os ombros e afastou-se, o tecido a girar numa espiral de sombras negras. A porta bateu tão devagar que quase podia não ter dado por ela, mesmo assim foi capaz de sentir a dor que acompanhou o silêncio introduzido na sala.

Harry limpou as lágrimas e deixou que um pequeno sorriso soltasse-se dos seus lábios. Snape não lhe tinha respondido, e isso só podia querer dizer uma coisa.

Não importava quantas vezes caísse, sabia que conseguia voltar a pôr-se de pé. Porque, ao contrário do que Snape acreditava, o amor tornava-o mais forte.

FIM

Por favor, deixem um comentário.

Peço desculpas por todo o tempo que demorei para publicar este capítulo, espero que o próximo seja mais rápido (e mais pequeno). Não tenho muito tempo que me resta, por isso vou ser breve. Obrigada pelos comentários e favoritos. No próximo capítulo Snape vai tentar evitar ser sincero e Harry, não querendo pôr demasiada pressão nele, acaba por fingir que está bem com isso… No capítulo a seguir a este vamos finalmente saber se Snape ama ou não o Harry… (Eu sei que estou a adiantar-me um pouco, mas gosto de deixar-vos um pouco na expectativa.)