O Baile de Yule

Hoje eu quero você
Amanhã já não sei o que quero
Se nosso caso é prazer, te espero
Hoje eu quero você
Amanhã já não sei o que quero
Se nosso caso é prazer, te espero,
Te espero...

- D'Black "Revolta"

As nuvens navegavam pelo céu, encobrindo parcialmente as estrelas. Apenas breves traços delineares e um brilho ofuscante provavam que a lua se encontrava ali, cativa por de traz das manchas cinzentas dispersas e pluriformes.

À medida que o tempo passava, olhar para o céu cada vez tornava-lhe mais melancólico, memórias flutuavam ao de cima, algo que queria a todo o custo afundar e enterrar dentro de si. Ainda assim deixou-se remexer por momentos no passado, algo que só os fracos perdiam o seu tempo em fazer. Devia ser do Vinho Verde, o sabor era doce na sua garganta e o luar ajudava a reflectir a cor de esmeralda. Imagens dum par de olhos fizeram-se acompanhar daquele pensamento, fazendo-o tremer involuntariamente. Obrigou-se a arrancar-se daquele torpor que tinha tomado conta dos seus membros adormecidos, e estendeu as mãos para fechar a janela.

Tudo aquilo era culpa do Potter. Excessivamente obstinado e com a ideia que tinha sempre razão, não importava o quanto fosse posto à prova. Lembrava-se perfeitamente daquela sua voz entoada de forma demasiado suave, fazendo-se acompanhar por palavras que ele nunca acreditou que fossem-no afectar daquela maneira, muito menos vindas de alguém como ele. Foram capazes de passar pela sua armadura de aço e de alguma forma permanecer demoradamente na sua mente, abrindo novas portas, com possibilidades que só serviriam para prejudicá-lo ainda mais.

Sentiu-se cada vez mais irritado. Tinha acreditado que o álcool era uma forma de bênção, uma cura provisória encontrada no esquecimento, mas tudo isso tinha provado ser uma mentira. Quanto mais bebera mais recordara, e quanto mais recordara mais quisera esquecer.

Não ia deixar que o Potter o magoasse como Lilly. Quantos anos a tinha amado? Soubera desde o princípio que ela não sentia nada por ele, quando ainda era um rapazinho escanzelado que utilizava um casaco que chegava-lhe até aos joelhos, e não se importara naquela altura. Tinha sido naquele dia do seu décimo quinto aniversário, quando ela lhe presenteara com um beijo ao lado dos lábios, que despertara em si o desejo de a ter como mais que amigos. A semente tão bem plantada há alguns anos atrás crescera e germinara para logo a seguir ser destruída e espezinhada, antes de puder dar frutos. Havia vezes que pensava se não se tivesse perdido em feitiços de magia negra, afastando-se tanto dela que um dia, sem dar por isso, encontravam-se de lados diferentes da margem dum rio, tudo pudesse ter corrido de forma diferente. Claro está que tudo isso era absurdo. Se pudesse alterar o passado neste sentido não o faria, não por ela, não por ninguém…

- Potter! – praguejou, ignorando a sua cabeça que girava à roda. Levantou-se, com passos demasiado cambaleantes, e dirigiu-se há porta do escritório.

O rapaz tinha saído há vinte minutos, prometendo voltar dentro em breve. Era demasiado arriscado deixá-lo deambular pelo castelo, mesmo que fosse ainda cedo e tivesse na presença dos seus amigos.

Às vezes, imaginava-o morto, a sua imagem sempre tão decidida limpa da sua mente, à medida que o seu corpo se decompunha, trancado num caixão de madeira. Outras vezes sonhava com alguém a tirar-lhe a vida, e com ela o sofrimento que ele lhe causava, sem sentir os mais pequenos remorsos. Mas só a ideia de perdê-lo daquela forma era capaz de deixar-lhe num estado de melancolia absoluta.

A porta abriu-se antes que pudesse fazer alguma coisa e o Potter emergiu do outro lado, tentado fazer os possíveis para recuperar o fôlego. Via-se que tinha andado a correr, estava corado, com a respiração entrecortada, e o casaco a escorregar-lhe pelos ombros magros.

Vasculhou a mente do rapaz em busca de informação. A imagem da Weasley apareceu diante de si, forte e poderosa com o cabelo em fogo revolto. O Potter acenava-lhe enquanto ela sorria, os lábios soltando-se de forma descontraída, mas julgou detectar um certo nervosismo escondido em cada movimento seu.

Porque tinha ela de fazer parte das suas memórias? Encaixar-se na sua cabeça de forma tão óbvia e tão completa, como se não houvesse outro lugar melhor para estar se não ali, fazendo a sua presença sentir-se.

Era inútil discutir consigo mesmo.

- Potter, preciso de falar contigo – disse quase mecanicamente. Cobrindo com uma máscara quais queres sinais de emoções.

- Estou ocupado – redarguiu Harry. – Podíamos falar depois? – pediu apressadamente, evitando prolongar o seu contacto visual por muito mais tempo do que fosse necessário.

Desde a sua última confissão que o Potter tinha decidido manter uma distância segura em relação a ele. Mantendo o seu tom de voz o mais polido possível, sem contudo apresentar sinais do calor de que estava habituado. Uma máscara diferente da sua, mas nem por isso deixava de ser uma máscara.

Deitou um olhar ao envelope que ele trazia consigo. Achava-se selado e o nome do remetente estava oculto pelos dedos que cobriam a maioria do envelope. Mesmo que não o estivesse, estava tão escuro que não julgava ser capaz de o ler, principalmente agora em que as cortinas tinham sido puxadas de forma a cobrir o vidro da janela, e a luz das velas não passava de um fio ténue, alheio à escuridão que o circundava.

Deixou o rapaz ir sem lhe perguntar mais nada. Caminhava descontraidamente nos seus aposentos. Mesmo no meio de todo aquele escuro já era capaz de orientar-se tão bem como ele.

O tempo de interrogatórios ainda não tinha chegado. Afastou-se e decidiu voltar a encher o copo com mais vinho.


Harry caminhou entre os seus amigos, alheio às suas conversas e absorto nos seus próprios pensamentos. Desde a altura em que confessara o seu amor por Snape, tinha decidido manter uma certa distância cordial, decidido afastar a dor do seu coração e a dar mais espaço a Snape para pensar. Não queria perdê-lo, nem ia desistir de lutar, mas sabia melhor do que ninguém que não podia obrigar Snape a dizer nem verdades nem mentiras.

- Harry, nunca nos dissestes com quem ias ao baile de Inverno – disse Ron, parando para olhar o amigo.

- Eu não vou ir ao baile – disse, distraidamente.

A última coisa que queria era perder o seu tempo com festas. Se pudesse levar o Mestre de Poções, decidiu, era capaz de apreciar toda aquela situação, mas sem ele tudo parecia mais distante e aborrecido. De facto tudo parecia de tal forma distante que só há alguns dias tinha-se lembrado do Baile. Os seus colegas falavam disso há messes, contudo as suas palavras eram perdidas quase imediatamente, há medida que sentia-se arrastado em direcção a uma corrente de pensamentos diferentes. Pensamentos estes, que estavam quase sempre ligados a um vulto pálido e esguio, com o cabelo escorrido que caia-lhe em frente aos olhos.

- Tu tens de ir ao Baile – insistiu Ron. – Não podes estar sempre com a cabeça na lua a pensar numa rapariga que não te liga. Azar dela, há carradas de raparigas que eram capazes de se por em fila só para irem contigo. Algumas delas até são bastante simpáticas.

- O Ron tem razão – concordou Hermione, para variar. – Basta pedires a uma rapariga que conheças. Há muitas pessoas que vão ao baile só como amigos, não é preciso haver qualquer espécie de compromisso. Como quando eu fui com o Viktor.

- Viktor? – escandalizou-se o Ron começando a ficar de mau humor. Detestava com um ódio profundo sempre que ela se referia ao Krum pelo seu primeiro nome.

Hermione ignorou-o, visivelmente chateada.

A verdade é que as suas palavras não o tinham tranquilizado muito mais. Quase todas as raparigas da sua escola iam reagir ao seu convite para ir ao baile com se elas tivessem recebido um pedido de casamento, e a última coisa que queria era que Snape pensasse que a sua declaração de amor era falsa, aumentando a sua insegurança. E ele podia ser realmente cruel quando queria.

Porquê que ninguém pensava, nem que seja por momentos, que ele queria ir ao Baile com um homem e não com uma rapariga? Para desculpar os amigos eram boas assumpções, até agora só tinha mostrado interesse por raparigas, mas isso não queria dizer que não pudesse amar homens. Palavras pequenas como aquela só lhe reforçavam no espírito a ideia que fazia bem em esconder a verdade aos amigos. Eles nunca iriam entender.

Como queria estar com ele! Mas era difícil sair do seu escritório, deixando de lado tudo o que se passava entre eles. Se pudesse voltar atrás, pintar um quadro diferente, faria tudo da mesma forma, ainda assim era difícil amar sem ser amado, deixar-se ser arrastado por uma corrente esperando dela advir qual queres sinais de amor quando acabava por se afogar numa atmosfera sombria.

- Harry? – Uma voz suave vê-lo despertar dos seus pensamentos. – Se não tens ninguém para ir ao baile eu não me importava de ir contigo – redarguiu Luna. – Vai estar uma atmosfera óptima para os Vampiros aparecerem, e eles sentem-se atraídos por espaços com muitas pessoas, por isso estava a pensar ver se conseguia ver alguns…

Esperou que Luna não utilizasse outra vez aqueles óculos estranhos que a vira utilizar uma vez no comboio para Hogwarts.

- Obrigada, mas eu não estou interessado – rejeitou, esperando que ela não se sentisse magoada.

- Oh, não há mal… Eu estou habituada a ninguém estar interessado a ir comigo – respondeu Luna num tom de voz etérea, sem dar amostras de se sentir realmente magoada. Ainda assim, isso não serviu para aclarar a consciência de Harry.

Não devia pôr os amigos de lado, muito menos Luna, depois de tudo o que tinha passado. Devia tentar divertir-se e passar um bom tempo. Tinha a sensação que uma parte da atmosfera pesada em volta de Snape tinha sido transferida para dentro de si, ocupando o seu coração e deixando-o mais pesado e triste.

- Desculpa Luna. Pensando bem… não me importava de vir contigo. Não me sinto muito bem, mas a festa é capaz de me por com melhor humor. – Deixou com que um sorriso falso cobrisse-lhe o rosto.

Combinaram encontrar-se há hora marcada e despediram-se. Harry sentia-se com uma melhor disposição. Estava decidido a tentar afastar as memórias dolorosas da sua mente para um lugar mais fundo.

- Vês? – disse Ron sorridente. – Não foi assim tão difícil. Agora só precisas de encontrar alguma coisa adequada para vestir. Vai ser muito há última da hora, mas nem toda a gente precisa de demorar horas a escolher a sua roupa como a Hermione.

- O vestido que a Hermione escolheu é óptimo. Muito melhor do que o que ela utilizou com o Krum. – Harry tentou levantar a moral a Ron, decidido a fazer com que os amigos acabassem por não discutir. Era sempre muito difícil lidar com eles quando não se falavam, e era sempre preciso um exercício de esforço sobre-humano para ficar bem com ambos. Exercício este que não acreditava ser capaz de conseguir efectuar, tendo em conta que sentia-se muito em baixo hoje.

- Como é que sabes? – perguntou evasivamente Ron, virando-se bruscamente para Hermione. – Hermione, não posso acreditar que o Harry viu o teu vestido e eu que sou o teu namorado não o possa ver!

- Exactamente por causa disso – disse Hermione misteriosamente. - Não quero estragar a surpresa!

Harry deixou-os ambos a discutir e afastou-se, pensando no que diria a Ginny. Caminhava com o coração pesado ao peito, só de pensar nas palavras duras que trazia consigo.


O Mestre de Poções abriu a gaveta que dera ao Potter para guardar as suas coisas. Um conjunto de pergaminhos mal dobrados, penas ainda molhadas com tinta e livros pesados ficaram à sua vista. Nada disso tinha, para si, qualquer relevância. Apontou a varinha e murmurou:

- Accio carta.

Um envelope saltou para as suas mãos, e com um aceno de varinha, a gaveta voltou a fechar-se com brusquidão.

Abriu-o sem ter de se preocupar com rasgar nada, o sobrescrito já tinha sido aberto antes. A primeira coisa que chamou-lhe a atenção foi a assinatura no fim dum pergaminho perfumado. Leu o nome de Ginny Weasley várias vezes, sem no entanto encontrar dentro de si qualquer surpresa.

Uma parte de si não sabia com iria reagir depois de acabar de ler a carta. Orgulhava-se de ter um exímio auto-controlo de todos os seus sentimentos, e embora o Potter fosse capaz de o pôr há prova vezes sem conta, sempre fora capaz de domar o seu temperamento desde que usufrui-se do tempo necessário para o fazer esquecer, aprisionar e congelar a besta que prendia dentro de si, e que só soltava por cima dos seus inimigos menos afortunados.

Às vezes tinha saudades destes momentos sombrios que o Senhor das Trevas era capaz de oferecer-lhe. Não da chacina em si, quando perseguia e caçava Muggles. Bastava um aceno brusco com a varinha para os ver tombar mortos no chão, como bonecas de trapos. Nada disso lhe causava qualquer prazer. O que sentia saudades era da ilusão de liberdade que acreditara conquistara sobre as ordens do Feiticeiro Negro. Da ideia de não ter de se restringir completamente. E, contudo, tudo isso não passara dum sonho, pois não havia outra forma de ser, sem estar protegido dentro de si mesmo.

E foi com estes pensamentos macabros que começou a ler…


Harry olhou-se ao espelho. Trajava um terno revestido a lã, com um casaco trespassado, calças e sapatos negros. Protegido do frio pelo casaco, encontrava-se uma blusa impecavelmente branca, abotoada quase até acima e com uma gola regular. O colete, dum azul quase negro, combinava com uma gravata simples e sem padrões.

Tudo aquilo dava-lhe um aspecto elegante que não acreditara realmente poder ter, acentuando a sua cintura esguia, sem no entanto fazê-lo parecer demasiado magro. Só o seu cabelo continuava indomável, não importava o quanto tentava ajeitá-lo.

Acabou de amarrar a gravata, e desceu as escadas para se encontrar com a Hermione e o Ron. Ambos já estavam à espera dele. Hermione, com o cabelo liso e suave preso em coque, um vestido rosa escuro com decote em forma de barco, manchado por padrões de flores a negro que aumentavam à medida que o vestido crescia, e uns brincos de formato triangular. Ron, a seu lado, trazia um terno cinzento-escuro com um laço roxo bem apertado.

Ambos levantaram-se das cadeiras, que ficavam em frente a uma das janelas da sala comum, e sorriram-lhe com agrado.

- Que bom que já estás pronto, esperamos horas por ti – comentou Ron, soltando um riso nervoso.

Harry sabia que esta era a primeira vez que iam juntos como namorados, e que Ron não queria que nada de mal acontecesse hoje. Confessara ontem que, se pudesse, tomava uma dose da Poção da Sorte.

- Não sabia o quê que devia vestir – mentiu Harry. A verdade é que, após ter jogado xadrez com Ron, na qual Ron vencera a primeira partida em menos de quinze minutos, devido há sua falta de concentração óbvia, não conseguira afastar uma sensação sombria que carregava-lhe a mente. – Ainda bem que hoje não está a chover. Ia estragar o clima. "Que não pode ficar pior do que o que está…!"

- Ouviram que as "Escândalo" vão estar presente? – interrogou-se Hermione.

- Oh, sim. Isso e muitos outros disparates. O Seamus parece acreditar que os "Diviners" vão actuar ao vivo, e há quem diga que as "Weird Witches" também vão lá estar – concluiu Harry.

Por momentos, conseguiu inclusivo esquecer de Snape e debruçar-se numa conversa excitante com Ron acerca de Quidditch, enquanto alcançavam as portas do salão.

As portas abriram-se à sua frente, deixando Harry deslumbrado com o cenário. As mesas comuns tinham dado lugar a mesas mais pequenas e redondas, que tinham sido dispostas à volta da sala, de forma a deixar espaço para a pista de dança. Grinaldas de azevinho e laços forravam as paredes de gelo quase transparente, cor de prata pura, que reluzia quando se aproximavam. Estrelas vermelhas e douradas decoravam as janelas, reflectindo destemidamente as cores quentes de Natal. Havia, inclusivo, um tapete vermelho à entrada, e luzes de Natal de todas as cores piscavam alegremente, lá no alto, mesmo rente ao tecto. Embora tudo estivesse quase perfeito, fazendo lembrar um cenário de sonhos, nada disso surpreendeu demasiado Harry, que tinha ajudado nas decorações iniciais. No fim, foram as estátuas de gelo que mais o surpreenderam. Esculpidas em forma de anjos a tocar harpa e flauta, tão espessas e brancas como diamantes brilhantes.

- É pá! Está tudo maravilhoso! – exclamou Ron de surdina.

- Tens razão – assentiu Hermione calorosamente.

Harry, Hermione e Ron sentaram-se ao lado de Luna, que já tinha chegado há uns minutos, e começaram a servir-se da comida que tinham pedido. Tal como o baile de há alguns anos atrás, bastava pensar-se naquilo que se desejava comer para que a comida materializar-se mesmo em cima da mesa, que estava cheia de pratos exóticos. Serviu-se de um pouco daqui e dali, mas no geral acabou por não comer muito.

A mesa tinha um combinado de encarnado e cor de ouro com motivos a condizer com a ocasião. Pequenas árvores de Natal em vidro ornamentavam-na e, em cima do centro, podia-se ver um vaso transparente com pinhas secas a enchê-lo.

- Harry, vistes a Mary? – sussurrou-lhe Hermione, inclinando-se cobre a mesa para falar-lhe demais perto, tendo sempre o cuidado para que o seu cabelo não se queimar-se nas velas de enfeito, por descuido. – Está sempre a olhar para aqui…

- Quem? – perguntou.

Hermione revirou os olhos.

- A sério que não te lembras? A rapariga dos Gryffindor que drogou-te com uma poção de amor. Tu e o Ron são, às vezes, tão densos que podiam formar um clube.

De alguma forma, passado todo aquele tempo, a única coisa que conseguia lembrar-se era do quão fantástico o sexo tinha sido com Snape naquele dia. Quanto tempo tinha arqueado e chamado por ele, quantas tinham sido as expressões faciais que fizera diante dele, quais tinham sido as palavras sussurradas, em secretismo, naquele dia. Para si, sentira-se como se fosse o seu amante naquela hora secreta em que não tinha de utilizar nenhuma máscara, e que todas as suas camadas tinham sido despidas em frente dele. "Se ao menos pudesse dizer a mesma coisa do Snape…", pensou acabrunhadamente.

A poção do amor tornara a sua mente mais desfocada e menos afiada, capaz de confundir facilmente tudo o que se passava em seu redor para além de um desejo doentio por ela. Só de pensar nisso já o obrigava a suster as náuseas que subiam-lhe à boca. Saberia ela o quanto errado fora o que fizera? Talvez só planeasse divertir-se um pouco à sua custa, mas tocar-lhe daquela forma… Os seus lábios não pertenciam-lhe, só a Snape e a ele. E cada recanto do seu corpo devia ser seu, perdê-lo era perder-se a si. Mesmo que às vezes julgasse que estava a deitar-se fora, desperdiçar-se com alguém que não o amava, era sua decisão, não de mais ninguém. Não era um fantoche.

- Como é que é suposto ele lembrar-se dela? – interveio em seu favor Ron. – A única vez que falou com ela era quando estava drogado. Ela tem mesmo lata em olhar se quer para cá depois de tudo.

- Tens razão – disse Harry.

Depois de terminarem de comer levantaram-se e foram dançar para a pista de dança. Afinal os "Diviners" apareceram mesmo, tal como o Seamus previra, e começaram por cantar uma melodia suave e lenta. Arrancaram notas agudas da guitarra, quando chegaram ao refrão, que foram capazes de fazerem-no espantar pela positiva.

- Harry, está tudo bem entre ti e o Snape? – perguntou-lhe alegremente Luna. A sua voz dançava, entoando notas agudas.

- Porquê que perguntas? - cuspiu na defensiva. Só depois relembrou-se que a Luna sabia de (quase) tudo. – Não devias fazer este tipo de perguntas em voz alta – censurou-a, olhando em redor. – E se alguém ouvisse? – Depois, baixou a voz até esta tornar-se num murmúrio tão suave como a brisa. - Oh, bem… Snape não gosta de mim… Eu confessei-me e tudo o que ele foi capaz de fazer foi ignorar-me. Por isso, preferia que não falasses mais nisso…

- Ele ama-te.

- Obrigada pelo voto de confiança, mas eu não tenho forma de saber se isso é realmente verdade…

- Disparates… Isso é tão certo como o facto do descendente do Conde Drácula estar agora a controlar o Ministério da Magia.

"Porque tudo isso faz sentido…", pensou.

- Olha para ele – insistiu Luna. – Não pára de olhar para ti desde que chegastes. Tenho uma ideia! Depois de tudo correr bem entre vocês os dois, podiam dar uma entrevista ao jornal do meu pai a contar como mantiveram o relacionamento segredo de toda a gente, evitando serem expulsos do colégio. Parece interessante! O meu pai anda a dizer que precisamos de artigos mais comuns para atrair a maioria da população.

O pior de tudo é que Harry tinha um pressentimento que isso era capaz de resultar para aliciar mais pessoas. Ainda assim, a última coisa que queria era que um artigo destes fosse publicado.

Harry deitou um olhar para ele, disfarçadamente, e não pode notar que a Luna tinha razão. Snape percorria o seu corpo com o olhar, cravando-se em recanto seu, como se fosse uma presa indefesa. Hipnotizava-o, lia-o por inteiro, prendia-o num abraço negro, cativava-o, até fazê-lo esquecer de tudo em seu redor. E Harry não queria sentir-se assim, despido diante de um olhar perscrutador, examinado até ao ínfimo recanto. Não enquanto soubesse que não o podia ter para si. Tê-lo aqui ao perto, era uma lembrança suficientemente dolorosa do seu falhanço.

O Professor Binns chamou novamente Snape e este acabou por afastar o seu olhar sorumbático de Harry, embora muito a contragosto, e reatou a conversa onde esta tinha começado.

Só agora Harry realmente apercebeu-se o quanto o seu corpo vibrava por ele, sintonizado para tocar a sua melodia.

- Harry! – chamou Ginny, afastando-o do seu pensamento. – Preciso de falar contigo – disse, num tom de voz mais urgente que o habitual.

- O quê que se passou?

Ginny tinha o vestido de baile amarrotado, com as pontas enlameadas e sujas. Gotas de orvalho cobriam o seu cabelo, e ainda havia vestígios de lágrimas nos cantos dos olhos, ameaçando cair e borrar ainda mais a maquilhagem negra.

- Vamos para fora – insistiu ela.

- Luna, não te importas de ir-me buscar uma bebida? Volto dentro em breve.

- Não há problema – sorriu.

Quando iam a sair, Harry lançou um último olhar na direcção de Snape, e ficou contente por ele ainda estar ocupado a falar com o Professor Binns. Infelizmente o Ron e a Hermione estavam perto, e aproximaram-se rapidamente ao ver Ginny naquele estado.

- Ginny, estás toda molhada! – berrou Ron, chamando, sem querer, a atenção da multidão em seu redor. Harry amaldiçoou-o silenciosamente por isso.

- E o quê que tens a ver com isso? Viestes cá gozar comigo? – perguntou-lhe Ginny, a voz tremendo-lhe inaudivelmente.

- Sou o teu irmão – atirou-lhe Ron. – Tenho direito de saber o quê que se passa.

- Esse é o teu problema, julgas que só por seres o meu irmão tens o direito de te enfiar em assuntos a quais não és chamado?

Hermione tocou suavemente no ombro do Ron.

- Vamos – disse Hermione, conduzindo um Ron com a cara da cor dum tomate.

Agora provavelmente o salão inteiro sabia o quê que se estava a passar.

Dirigiram-se para a varanda no exterior. Era um lugar arejado, bom para casais passarem algum tempo apenas na companhia um do outro, ou para pessoas que estavam cansadas poderem repousar. Hoje, contudo, estava demasiado frio para fazer-se nem uma coisa nem outra. Os flocos de neve dançavam, alvos e suaves, arrastados pelas rajadas fortes de vento, até caírem no chão de pedra dura. Por causa disso, ninguém estava à vista, até onde Harry conseguia discernir.

- O Blaise é um estúpido! – exclamou Gunny, as suas feições alteradas. – Tem demasiada vergonha minha para acompanhar-me ao Baile, e nem sequer quer falar comigo quando está na companhia dos seus amigalhaços dos Slytherin.

- Tens razão. Ele é um estúpido. Tu sabes que podes arranjar alguém muito melhor que ele – disse Harry, honestamente.

- Isso é mais fácil de dizer do que de fazer – suspirou. - Obrigada.

Ginny surpreendeu-o ao abraçá-lo, o seu rosto encostado ao seu peito, com o cabelo numa mancha encarnada. Decididamente nunca se tinha sentido tão desconfortável como nesta altura. No entanto, estava errado, como Snape ia ser capaz de provar-lhe, tudo podia ser bem pior.

Dois pares de garras agarraram-lhe pelos ombros, afastando-o de Ginny. Cambaleou e segurou-se a uma das colunas, para não se desequilibrar e cair.

Estas mãos só podiam pertencer a uma pessoa: Snape.

Harry percorreu um trajecto visual entre Ginny, com os olhos esbugalhados de medo, e Snape, com um olhar ameaçador. O mesmo olhar que lembrava-se de ter visto na noite em que Snape matara Dumbledore.

Sentiu um arrepio brusco e uma vontade de esconder-se, mesmo sabendo que não tinha feito nada de mal. No entanto, Snape mal lhe prestava atenção, como se fosse tão transparente como um fantasma. Tinha apenas olhos para Ginny, e aproximava-se dela com a mão direita a segurar o cabo da varinha, como uma aranha a tecer uma teia em volta da sua presa.

- Trinta pontos a menos para os Gryffindor, – disse asperamente Snape, o seu rosto congelado numa máscara gelada – por conduta imprópria.

Ginny tremeu de indignação.

- O quê que eu fiz de mal?

Harry tentou mover-se e dizer alguma coisa, mas achou-se incapaz de começar, os seus pés transformados em duas torres de pedra, duras e sólidas, enquanto o seu coração apertava-se desconfortavelmente.

- Vais chamar-me "senhor", Wesley, enquanto eu for teu professor, e perdes mais dez pontos por isso. – Dois faróis negros estreitaram-se perigosamente, cravando-se nela como se tenciona-se matá-la só com o olhar. - Isso aqui é uma escola respeitável, não um bordel. Comportamentos indecentes não vão ser tolerados. Aproveitaste-te do Potter que é mais inocente e tem menos discernimento que tu – cuspiu Snape venenosamente, avançando até encontrar-se a poucos passos de distância de Ginny. – Não tinhas autorização para abandonar o baile, a esta hora, sem a companhia dos perfeitos da tua casa ou dum professor. Regressa ao teu dormitório imediatamente. Se eu vir-te a respirar duma forma que pareça minimamente inadequada, hoje ou durante o resto do ano, irei aconselhar a Directora a expulsar-te, já que não demonstras ter qualidade para nada útil para a sociedade, e só me fazes perder o meu tempo.

Harry tinha a impressão que Ginny ia tentar enfeitiçá-lo. Agora também ela segurava no cabo da varinha com tanta força que quase a ameaçava quebrar. Apertou os lábios, os dentes rangendo, mas não disse nada. Virou-se e foi-se embora, anda a tempo de Harry ver um trilho de lágrimas escorrer pelo seu rosto até cair no chão, misturando-se com as gotas de chuva.

- Ela não fez nada que merece-se ser insultada desta forma! – trovejou Harry, irado. Tinha a impressão que acabara de acordar dum sono longo, sentindo as suas forças novamente voltarem ao seu corpo. Afastou o medo para baixo do seu subconsciente. – E pensar que eu julguei que fosses melhor que isso… – virou-lhe as costas. – Adeus.

- Espera – ordenou rispidamente Snape.

A última coisa que queria era esperar, olhar para os seus olhos carregados de ódio, ou pior, inexpressivos, como os vira há pouco. E saber que o tinha desapontado, que esforçara-se o melhor que pudera e mesmo assim, cada gota de amor que sentia por ele, não eram suficientes.

- Estou cansado de esperar – confessou, uma leve emoção agitando-se na sua voz.

As garras de Snape desceram novamente sobre o seu pulso, e obrigaram-no a virar-se na sua direcção. O pulso magoava-o, no entanto, não se queixou.

- Deixa-me – pediu.

- Não. Eu vou fazer-te desejares-me, tremeres ao meu toque, gritares o meu nome. Eu não vou deixar-te até a esqueceres – silvou Snape, numa voz baixa.

- Julgava… julgava que tinhas acreditado quando eu disse-te que amava-te! Eu quero-te há tanto tempo… Nunca pensei nem que seja por um minuto em tê-la de volta. Fostes tu que ocupastes todos os meus pensamentos, que tornastes a minha vida mais difícil, mesmo assim não trocava o que temos… que podia-mos ter… por nada deste mundo.

Snape lançou-lhe um sorriso torto que não chegou ao resto do seu rosto.

- Li a carta que a Weasley mandou-te. Entediante e mal escrita, ainda assim obriguei-me a chegar até ao fim. Podias ao menos tê-la deitado fora, mas eu presumo que querias guardar uma recordação dela, para servir-te de troféu nas tuas muitas conquistas. – Empurrou-lhe um olhar carrancudo.

- Estava há dias há procura desta carta! – brandou Harry. Era para o Blaise Zabini, não para mim. A Ginny implorou-me para entregar-lhe, mas ele não quis ficar com ela, e pediu-me para dar-lhe de volta – disse, exasperado. – Pergunta a ele, já que está na tua casa!

"Como pode Snape ser tão estúpido?" Pôr o seu amor em causa, como se ele não o mostrasse em cada carícia sua, em cada vez que arriscava-se a ser expulso por ele, em cada nome seu que gritava.

Não era da sua conta o que fazia com a sua vida, tinha direito a ter privacidade, afinal de contas nem eram namorados. Snape deixara isso tão claro como água há uns dias atrás, quando recusara dizer se o amava. Só o queria como um troféu que não desejava partilhar com mais ninguém.

Lutou numa tentativa frustrada para soltar o braço que Snape agarrava, esbracejando violentamente, no entanto, a mão sobre o seu pulso permanecia imóvel, prendendo-lhe, dura como uma pedra.

Snape agia duma forma insensível e irrazoável, sem pôr em causa que alguém podia aparecer há sua procura, e encontrá-los naquela situação. Da porta do Salão até ao recanto no balcão em que se encontravam eram só pouco mais de quinze passos.

Por momentos fugazes, pensou em gritar, e tê-lo-ia feito se Snape não tivesse entreposto.

- Prova-me que estás a falar a verdade e eu deixo-te ir – disse Snape, percorrendo-lhe com um olhar morto.

O vento assoprava agora mais forte, agitando o seu cabelo e levando as palavras sem que deixa-se de as compreender.

- Não tenho nada para provar-te – disse Harry, com um olhar de desafio obviamente expresso.

- Basta uma dança, Potter, e és livre de ir. Não vou obrigar-te a ficares se não quiseres, por mais tentador que a tua companhia possa parecer – ironizou Snape num tom de desafio, mantendo-se impassível.

- Alguém pode-nos ver – argumentou Harry.

Snape ignorou-o. Parecia estar irracionalmente determinado em convencê-lo, e quando Snape prosseguia uma linha de raciocínio, era quase impossível obrigá-lo a voltar atrás.

- Hoje é um dia histórico, então. Nunca pensei ver-te com medo de descumprir a lei, mesmo quando podia resultar na tua expulsão.

Enquanto Snape não fosse sincero consigo, Harry não se sentia confortável em aceder às suas expectativas. Ainda assim, o resto do seu corpo parecia ter vida própria, e ansiava por aproximar-se de Snape, e sentir os seus músculos a tocar nos seus, a sua voz reduzida a uma carícia íntima… A mão do professor era a única parte que entrava em contacto consigo, um pronuncio insinuante daquilo que podia estar para vir.

Porquê que ele não lhe dava espaço suficiente para concentrar-se? O balcão, de repente, tornara-se muito mais quente.

- Está bem… - sentenciou Harry, em parte contrariado. Dsse a si mesmo que esta era a única forma de Snape deixá-lo ir.

Sentiu, quase imediatamente, o braço direito do Mestre de Poções a contornar-lhe o corpo, alojando-se um pouco acima da cintura, mesmo por de baixo do seu braço esquerdo, enquanto a sua outra mão agarrou na sua com uma suavidade impressionante, erguendo-a até à altura dos ombros. Harry posicionou a sua mão nas suas costas, o tecido fino sobre os seus dedos, e resistiu há tentação de segurar-lhe com força, pois uma parte dele temia que ele fosse-se evaporar perante os seus dedos.

- Passa-se alguma coisa? – Snape trespassou-lhe com um olhar aguçado. Os seus olhos eram tão negros como a abóbada do céu lá no alto, guarnecida de estrelas, semelhantes a tesouro brilhantes, que reapareciam por de trás das nuvens.

- Nada – disse, por fim.

Havia uma magia selvagem que aprofundava-se em seu redor, vibrando juntamente com o ar frio da noite. Era feita das trevas da noite, o mesmo negrume que ofuscava-o cada vez que olhava nos olhos de Snape, e perdia-se nos seus dois poços negros.

Olhou para a tatuagem duma serpente, enroscada sobre uma caveira, que parecia estar a rir ameaçadoramente, parcialmente encoberta pelas mangas negras do Professor. Só a cabeça da serpente, de boca fendida e olhos dilatados, era capaz de ser vista.

- Porquê que interessaste-te pela magia negra? Só causa destruição e mortes. – Rodopiavam, movendo-se lentamente em círculos. Harry, com a mão colocada junto ao peito do professor, tentava afastá-lo de si, para que não se sentisse demasiado atraído pela sua proximidade.

- A magia denominada por muitos como branca é deficiente em muitos sentidos. Tive interesse em alargar a minha área de conhecimento e explorar novas áreas. Infelizmente quanto mais aprendi menos me senti saciado. Porque, quando se dá uma parte de nós há magia negra, ela exige sempre mais – completou em voz gutural. - É indomável e transcendente em certos sentidos – disse Snape, a voz suave e fria. – Ao longo dos meus anos de estudo de poções deparei-me com o Yaa Sang, uma forma de magia tradicional efectuada no nordeste da Tailândia, passada ao longo de diferentes gerações. Algumas plantas eram capazes de envenenar a sua vítima deixando poucos traços, dificultando a sua identificação. Os mortos pareciam como se tivessem morrido naturalmente.

- Existe feitiços em número que chegue e se, o preço a pagar por aprender este tipo de magia é a minha alma e o sofrimento de inocentes, prefiro antes a restrição. Mas não compreendo… - disse, após uma pausa. – Porquê que alguém tão novo havia de querer aprender este tipo de magia? Tudo bem que podia querer utilizar algum feitiço ridículo para castigar um colega, mas mais que isso… seria demasiado mau. Só consigo imaginar o Voldemort a fazer uma coisa destas. – Respirou com dificuldade, o ar frio da noite cortava-lhe a garganta.

- Verdade? – Harry tinha a impressão que ria-se da sua ingenuidade, embora nenhum sorriso tivesse tocado no seu rosto. – São muitos os alunos de Hogwarts desejosos por poder, conhecimento e respeito que julgam poder receber através do seu conhecimento em magia negra. Ao contrário de muitos dos seus companheiros que vivem à luz do dia, as corujas são uma espécie nocturna, caçam e matam as suas presas, mas são poucos os predadores que têm de enfrentar. E quantas não são as pessoas que querem ser assim? Os teus pais morreram por causa dum feiticeiro negro, senão, talvez também tivesses sentido o fascínio que ela exerce.

Harry não disse-lhe que, por mais influente que a Magia Negra sem dúvida pudesse ser, nada disso se podia comparar ao som da sua voz lenta e arrastada.

Tremeu involuntariamente, sentindo o corpo dele pressionado contra o seu, e soube que, se não saísse dali dentro em breve, teria de explicar a Snape o motivo da sua erecção crescente.

- Pensei que decidiste virar-te para a magia negra porque tinhas medo.

Mal as palavras fugiram-lhe dos lábios, sabia que não as devia ter dito. No entanto, não havia forma de corrigir o seu erro. Ainda estava fresco, na sua memória, as imagens que vira no Pensatório de Snape.

Medo.

Um rapaz assustado, com o corpo de pernas para o ar, lutando para manter-se equilibrado e alcançar a varinha, enquanto uma multidão de gargalhadas rompera em seu redor.

O mesmo terror que ele mesmo experienciara muitas vezes, às mãos do seu primo. Um medo avassalador, que possuía-lhe por inteiro.

- Cumpri a minha promessa – disse Harry. – Deixa-me ir.

Snape empurrou-o de encontro há parede do castelo, prendendo o seu corpo à sua superfície fria. Harry sacudiu-se veemente, na sua cabeça, apenas um pensamento ocupava-lhe a mente. Não aqui, não agora. Snape ainda há tão pouco tempo magoara-lhe e deixara-lhe preso dentro dos seus pensamentos confusos. Não queria ter de tratar destes assuntos num momento em que se sentia tão vulnerável, cercado pelo barulho de risos e música que ecoava pela parede, lembrando-lhe que alguém podia aparecer a qualquer momento.

- Medo? – riu-se. – A única coisa que temo é perder-te. O quê que queres que eu te diga, Potter? – Que eu não consigo mais negar a atracção que sinto por ti? – Acariciou o seu rosto, poisando o dedo indicador nos seus lábios.

- Sim… - desabafou Harry.

- É verdade – confirmou, enquanto afundava as suas mãos no seu cabelo negro.

O monstro no peito de Harry ronronou de contentamento.

Lutou para manter a sua respiração controlada. O seu coração, demasiado pequeno para acomodar-se dentro do seu peito, pressionava-se perigosamente contra os seus ossos, bombardeando o seu sangue, que fluía, quente e electrificante, pelas suas veias.

Corou involuntariamente. Aquilo não podia estar a acontecer, Snape não podia ter dito que o desejava abertamente. Já à muito supusera que ele o queria, senão porque havia de….

- Aaahhh… - Harry soltou um gemido rouco. – O quê que estás a fazer? Alguém pode ver as marcas…

Entre os lábios de Snape, que desciam sobre o seu pescoço, beijando-o e devorando-o, e o seu pénis desconfortavelmente teso, Harry era incapaz de articular demasiadas palavras duma só vez. A sua mente tornara-se nublada de desejo, e todas as objecções que antes encontrara para estar nos braços de Snape perderam-se naquele momento.

- Estou a marcar-te como meu, para que tu nem ninguém esqueçam-se. – ronronou, enquanto lambia o lóbulo da sua orelha, fazendo-o estremecer involuntariamente.

Harry empurrou-lhe um olhar de ternura; as mãos de Snape desfaziam-lhe a gravata habilmente e desabotoavam-lhe a camisa. O casaco tinha sido atirado ao chão já há algum tempo, embora Harry não se lembra-se quando.

Lançou um olhar quente ao homem à sua frente, capaz de fazê-lo ficar daquele jeito, cujo os olhos negros como as trevas haviam-se tornado carregados de desejo.

Queria, acima de tudo, que Snape libertasse o seu pénis das suas calças, ansiando pelo seu toque capaz de reanima-lo por completo.

- Eu preciso de ti – pediu-lhe Harry, inclinado o quadril até que o seu púbis roçou no tecido das calças de Snape, e Harry foi capaz de sentir, com uma ponta de satisfação, o quanto duro o pénis dele também estava.

- Onde, Potter? – inquiriu o professor, num tom de voz rouca.

- Aqui. – Harry levou a mão do professor até há sua erecção, uma corrente de prazer atravessando-lhe o corpo, ao sentir o toque dos seus dedos.

- Já? – perguntou Snape, com um sorriso malicioso, regozijando-se em vê-lo naquela posição, com o corpo arquejado na sua direcção, a cabeça encostada à parede fria, e a respiração alterada.

Harry tocou-o no tronco, por de baixo das roupas, e fez com que um dos seus mamilos girasse entre os seus dedos. Snape, de lábios entreaberto e uma ruga entre a testa, acentuada pela sua expressão de prazer, parecia delicioso. Perguntou-se se atrever-se-ia a beijar-lhe os lábios, húmidos e suaves. Não estava muito longe do seu alcance, por isso não devia ser muito difícil...

- Snape! – Ouviram alguém chamar, e afastaram-se ao mesmo tempo um dum outro, com a presa.

- Vamos acabar o que começamos mais tarde… - avisou-o Snape.

Tanto Harry como o professor ainda foram a tempo de vestir as peças de roupa que já haviam despido, antes que o vulto se aproxima-se o suficiente para poderem-no reconhecer.

- Snape, aqui estás tu! – exclamou Mcgonagall, indignadamente. – Andei à tua procura pelo castelo inteiro. A Weasley queixou-se por causa do teu comportamento, não devias ser tão duro com ela sem um motivo sério. Francamente, em Hogwarts não aprovamos este tipo de linguagem pouco adequada.

- A Weasley estava a descumprir as regras. Os alunos têm de saber que mesmo sabendo que estão de férias não são admitidos a portarem-se de forma inadequada.

Mcgonagall preparava-se para responder quando reparou, finalmente, que Harry encontrava-se ali.

- Potter, o quê que estás a fazer aqui, fora de horas?

Sentiu-se, ao menos, aliviado por parecer que Ginny não citara o seu nome, caso contrário a Directora não estaria tão admirada por o ver.

- O Potter sentiu-se mal disposto e foi apanhar ar, eu ia acompanhá-lo até ao Salão. - Snape acabou por responder por ele.

Harry aproveitou a deixa.

- Não é preciso, eu posso voltar sozinho.

Virou-se e saiu antes que Snape pudesse protestar, temia que se olhasse-o nos olhos não fosse capaz de sair dali. No entanto, não caminhou na direcção do Grande Salão, precisava de tempo para pensar, e tudo lá era demasiado claro e barulhento.

Quando contornava o corredor que dava para o seu dormitório, ouviu um barulho atrás de si que o fez virar-se instintivamente.

Draco e Goyle encontravam-se poucos metros há sua frente.

- Com que então já fartaste-te de levar no cú, Potter? – perguntou Draco provocativamente. - Porquê que não pedes ao Snape para seres tu a comê-lo, para variar. - Goyle riu-se sonoramente a seu lado.

Harry sentiu uma centelha de raiva incendiar-se no seu peito, atiçada por aquelas palavras duras.

- Porquê Draco, estás com ciúmes? Se gostavas de estar na minha posição podias pergunta ao Snape, embora eu duvido que ele tivesse algum interesse em ti – disse Harry, saboreando, com imensa alegria, o quanto as suas palavras tinham sortido efeito.

Draco fechou o punho e rangeu os dentes, enquanto as suas pupilas se dilatavam. Goyle demorou demasiado tempo a parar de rir, e aperceber-se realmente o que estava-se a passar.

- Cuidado como falas comigo. Cruciatus! – brandou Draco.

Harry afastou-se rapidamente, e o feitiço veio embater de encontro à estátua de Merlin, que ficou com um braço estilhaçado. Em seu redor uma nuvem de poeira levantou-se, fazendo com que os seus olhos começassem a lacrimejar. Mesmo assim ergueu a sua varinha na direcção dos Slytherin.

- Atordoar! Accio Varinha! – exclamou Harry.

- Protego! – Draco ergeu a varinha, demasiado rápido, e bloqueou os seus feitiços.

Felizmente o feixe de energia acertou em Goyle, que caiu com um estrondo no chão, enquanto a sua varinha saltava-lhe das mãos para vir surgir uns metros mais há frente, nas mãos de Harry.

- Não mudastes nada, Malfoy, mesmo depois de eu ter-te salvo a vida – acusou-o Harry, sem afastar os seus olhos por um minuto que seja do loiro.

- Salvar a vida? – Draco riu-se. – Por tua culpa o Crabbe está morto.

- Tens memória curta, se o Crabbe não tivesse usado um encantamento que ele próprio não compreendia, e quase nos ter morto a todos, nada disso teria acontecido. Já deviam ter aprendido a lição.

- Estás-me a ameaçar? – perguntou-lhe Draco, irritadamente.

Quando Harry preparava-se para responder, sentiu dois pares de mãos fortes agarrarem-lhe os braços pelas costas, imobilizando-o por completo. Aparentemente, o Goyle acordara enquanto estivera a falar com o Draco, sem dar por isso.

Esbracejou sem muito sucesso, era como ter um gorila a segurar-lhe, os seus braços eram duros com pedra e tinham quase o dobro dos seus.

- Pede ao teu guarda-costas para largar-me, Draco – exigiu Harry, debatendo com mais força.

- E se eu dizer que não, chamas o teu namorado? – Riu-se. - Lembras-te da maldição imperdoável que lançaste-me à dois anos atrás? Acho que está na altura de retribuir. Sectumsempra!

A última coisa que viu foi um feixe de luz brotar da varinha de Draco, atravessando o corredor na sua direcção, sangue como rubis, empapando a sua blusa negra, e depois tudo tornou-se em trevas. Prometeu não gritar, a dor que atravessava o seu corpo era de tal forma dilacerante que foi preciso toda a sua força de vontade para permanecer com os lábios pressionados um contra o outro, até os seus dentes começarem a ranger, e a sua boca saber a sangue fresco.

Respirou profundamente, e ouviu claramente vozes e gritos, que não sabia se pertenciam-lhe. Não conseguia distinguir as vozes nem o que diziam, sempre que tentava concentrar-se a sua consciência fugia-lhe um pouco mais, afundando-se dentro de si mesmo.

Alguém tocou-lhe suavemente no rosto, e depois no pescoço, sentiu o seu corpo cair de encontro a algo mais fofo. Aquele pequeno movimento era de tal forma doloroso que fez-lhe soltar um gemido abafado. E por fim, a inconsciência reclamou a sua mente.

FIM

Deixem um comentário, por favor

N/A:. Estou sem muito tempo, por isso terei de ser breve. Espero que tenham gostado deste capítulo. A música é ideia da Dark.

Próximo capítulo vamos ficar a saber se o Severus ama o Harry. A sua relação vai dar um passo em frente ou para trás.